

Em Conferência pronunciada no dia 3 de agosto de 1943, no Cine Pajeú, recordando a vida do Revmo. Pe. Carlos Adriano Maximino Cottart, disse o padre Olímpio Torres que ‘a vida dos grandes homens tem sempre qualquer coisa de fantástica e de lendária’, tal como aconteceu e marcou a vida desse notável sacerdote, filho de ilustre família francesa, engenheiro formado em Paris, que abraçou a vida sacerdotal por um fato extraordinário.
Se dermos crédito a uma dessas lendas, colhidas dos lábios de pessoas, que, na infância, estiveram sempre em contato com o ilustre sacerdote, o Pe. Cottart foi chamado ao sacerdócio por um acontecimento de ordem sobrenatural.
Era filho de família cristã, opulenta e nobre, herdeira das glórias e do sangue de um antigo imperador de Roma - Adriano
Nascido na Vila de São Quintino, França, em 5 de março de 1868, Pe. Carlos, que aqui (em Afogados) chegou a 19 de abril de 1910, certo dia, quando ainda estudante de engenharia, fez uma excursão aos Alpes, em companhia de seus colegas, onde foi atacado por feroz águia. Vendo a morte diante dos olhos, agarra-se a um rochedo. Naquela aflição, lembra-se de Deus e promete à Virgem Santíssima consagrar a sua vida inteiramente ao sacerdócio, voltando para casa são e salvo. Passado algum tempo, o curso foi concluído e a promessa esquecida.
Uma noite, convidado pela mãe a assistir aos exercícios do mês Mariano, respondeu que não tinha mais fé, tornara-se ateu. Com lágrimas nos olhos segue sua mãe para a Igreja, enquanto Carlos recolhendo-se ao seu quarto e dando início à leitura de um livro, ouviu uma voz que indagava sobre a promessa que fizera há anos. Estarrecido, procura sem encontrar o autor da voz. Volta a ler, quando novamente a voz, agora em tom terrível, que abalou até o fundo de sua alma, repete a indagação: ‘Carlos, lembra-te do que prometeste?!’ Assombrado, levanta a cabeça e vê diante dos olhos atônitos a temerosa cena dos Alpes com a águia atacando-o, momento em que desmaia debruçado sobre o livro.
O choque o torna alienado, tendo passado alguns anos internado em hospício. Ali passou dois ou três anos e em dado momento começou a relembrar vagamente o ocorrido, enquanto que procurou saber a razão de encontrar-se entre os loucos, julgando ter tudo se passado no dia anterior.
Sendo dado aos poucos à sua lucidez, sai do hospício e assiste com toda a família a uma missa em ação de graças. Recupera-se e vai a Lourdes, onde renova a promessa, ingressando em 1894, na ordem da Congregação do Sagrado Coração.
Em 1º de dezembro de 1894, com 26 anos de idade ele recebeu a ordenação sacerdotal como padre congregado do Sagrado Coração, renunciando à sua brilhante carreira de engenheiro arquiteto, aos seus bens e à sua própria pessoa e vem para Pernambuco no Natal de 1902, sendo vigário do Poço da Panela, no Recife.
Volta à França em 1904, regressando definitivamente, em 1909, para o Brasil, sua nova pátria.
Primeiro ocupa o lugar de vigário do Poço, nos arrabaldes de Maceió e de lá vai para Afogados da Ingazeira, chegando numa bela manhã de 19 de abril de 1910, e onde, secularizado, permaneceu até sua morte em 23 de dezembro de 1925.
Seus restos mortais estão na catedral que construiu juntamente com seus paroquianos; belíssimo templo em estilo gótico, elevada à categoria de Catedral, monumento grandioso que orgulha a cidade e a região do Pajeú.”
“O Pe. Carlos, como engenheiro, construiu, também, igrejas e capelas em distritos, tendo colaborado na ereção do Colégio Diocesano de Triunfo e outros templos regionais, como a grande catedral de Petrolina, outra obra monumental, erguida pelo Bispo Dom Malan, seu compatrício.
Das suas muitas viagens resultou a enfermidade que o levou à morte. A cavalo percorre e assiste vasta área, incluindo a antiga Bom Jesus (Tuparetama), Ingazeira, Espírito Santo (Tabira), Solidão, até Princesa Isabel, na Paraíba.
Foi o 10º vigário de Afogados e o mais notável pela sua obra de instruir crianças como pregador e capacitado engenheiro.
Registrou, também, em livro de tombo, a existência de inscrições rupestres; a descoberta de múmias de índios na serra do São João, próximo de Solidão; o trabalho dos capuchinhos do Recife; a primeira missa rezada naquele sertão, debaixo de uma baraúna, em Ingazeira; o histórico das capelas, nome de vigários e genealogia das famílias pioneiras, a partir do casamento de Euzébio da Gama, apelidado de ‘Marinheiro’, com a filha da família do Visconde de Saboeiro, no início do século XVIII.
O padre Carlos, profundamente radicado no nosso sertão, faleceu quinze anos depois de intenso apostolado e grandes serviços prestados à paróquia.
Seu corpo foi sepultado ao lado direito do altar, na matriz que ele construiu. Padre Carlos não se limitou a ser apenas o vigário metido na sacristia, rezando nos altares, andando léguas montado a cavalo, nas viagens estafantes pelos sítios e fazendas por todos os recantos de sua imensa paróquia, cumprindo seus deveres de pastor.
Não! Aquele francês chegou com fome e sede de sertão, com os olhos esbugalhados para o trópico, a curiosidade aflorante à pele por tudo que dissesse respeito à história, aos costumes, à geografia da terra ensolarada.
Exerceu um intenso apostolado e ainda sobrava tempo para se dedicar aos serviços, também, na construção do colégio de Triunfo e da majestosa Catedral de Petrolina, além dos serviços de construções a que se dedicava nos distritos e nas cidades vizinhas.
E, no meio de toda essa trabalheira, sem dispor de meios rápidos de transporte e estradas, a não ser as exaustivas viagens a cavalo por péssimos caminhos, ainda tinha tempo de operar verdadeira revolução no meio daquela gente, incentivando a instrução religiosa, combatendo a ignorância e formando com zelo e carinho as novas gerações.
A saúde é que se gastava, os nervos destemperando, a resistência orgânica a declinar paulatinamente. Mesmo assim não temia a chuva nem a poeira da estrada, nem o sol de fogo.
Numa de suas viagens a cavalo encharcou-se sob um aguaceiro. Sentiu os primeiros sintomas da pneumonia que o levaria ao túmulo. Quis prosseguir e não pôde. Voltou.
Recolheu-se a uma casa modesta. Era o fim. Monsenhor Urbano de Carvalho, vigário de Sertânia, veio a lhe administrar os últimos sacramentos.
Lá fora, amanhecia o dia 23 de dezembro de 1925. Nem rezou a Missa do Galo (Natal). Agonizava no leito pobre, cercado de fiéis, de cujos olhos as lágrimas corriam. E, tranqüilamente, no meio dos seus paroquianos, quando raiou a madrugada, o vigário morreu.
Três dias antes de morrer, pediu que o levassem a ver sua Matriz pela última vez. Foi levado, devagarzinho, amparado nos braços dos fiéis, para ver a Igreja que era a ‘menina dos seus olhos’ e onde hoje dorme para sempre.”
Bibliografia:
Conferência - pronunciada aos 3 de agosto de 1943 - Padre Olímpio Torres;
Livro de Tombo da paróquia do Senhor Bom Jesus dos Remédios
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2012