Dom Francisco, filho de Francisco Austregésilo de Mesquita e Maria Clausídia Macedo de Mesquita, nasceu em Reriutaba, Ceará, em 3 de abril de 1924.
Seu pai pertencia à Sociedade de São Vicente de Paulo e Francisco Filho aspirante a Vicentino, habituou-se, com isso, a "não ter nojo dos pobres". Sua mãe era muito religiosa.
Numa família de 9 irmãos Francisco foi um menino comum como tantos outros do seu tempo. Com a própria mãe aprendeu a cartilha do ABC "para não dar trabalho às professoras". Estudava em escola pública.
Ajudava em casa e trabalhava vendendo pão, o jogo do bicho e outros produtos fabricados por sua mãe como pirulito, bolinho de goma, tijolo de leite, contanto que não faltasse às aulas. Também auxiliava seu pai na mercearia da família.
Diz Dom Francisco: "Se o trabalho do menor não é escravo, concordo que a criança também trabalhe para suprir as suas necessidades, desde que estude".
Menino levado, brincava de "batalha" com os amigos, e jogava com bolas de meia.
Seu pai foi um grande comerciante, mas, por vender muito fiado, teve muito prejuízo, pois vendia e não recebia.
Quando Francisco tinha três anos de idade, a família residia em casa própria, mas seu pai teve que vender tudo para saldar as dívidas. Sua mãe lhe contou que assinou, chorando, a venda dos imóveis da família para quitar as dívidas do marido (que pagou tudo, integralmente) e foi negociar com uma bodega. Isso causou depressão ao seu pai, mas ele continuou a vida, mesmo com dificuldades.
A vocação religiosa nasceu de um modo muito simples. Foi acólito (coroinha) quando o padre Francisco Olinto de Araújo Leitão assumiu, em Reriutaba, sua primeira paróquia.
Ele falava aos coroinhas: "Escutem o que vou lhes dizer: não quero vocês com moleques de rua. Com eles só irão aprender o que não presta. Vocês devem ir todas as tardes à igreja e todas as primeiras quintas-feiras devem se confessar para comungar na primeira sexta-feira do mês, e no sábado e domingo seguintes, porque vocês vão para o seminário". O menino Francisco devia ter uns 13 anos. Dos 4 coroinhas, três foram para o seminário de Sobral mas somente Francisco perseverou até o fim.
Foi ajudado pelas "Vocações Sacerdotais" porque a família não tinha recursos para mantê-lo no seminário. O bispo Dom José Tupinambá atendeu Dona Clausídia no pleito de levar Francisco pagando apenas a metade dos custos.
Sua ordenação presbiterial ocorreu no dia 8 de dezembro de 1951, em Sobral. Dez anos depois, em 25 de maio de 1961, foi nomeado bispo, ordenando-se em 24 de agosto de 1961, em Sobral, Ceará.
Empossado como segundo bispo de Afogados da Ingazeira em 17 de setembro de 1961, chegou à cidade no dia anterior, num Teco-Teco, em companhia do secretário do Interior e Justiça do Estado de Pernambuco, que foi representando o governador Cid Sampaio.
Do campo de pouso se dirigiu à Escola Normal Rural, onde já se encontravam muitas pessoas para recepcioná-lo. Após um lanche, foi organizada uma passeata com escolas e banda de música até o centro da cidade onde havia muitas autoridades e pessoas de outras paróquias. Vieram, também alguns bispos, como o antecessor Dom João José da Mota e Albuquerqueo, o de Pesqueira Dom Severino Mariano de Aguiar, o de Caruaru Dom Augusto Carvalho, um representante do bispo de Garanhuns, e também o Sr. José Correia de Siqueira, filho da terra e benfeitor da Catedral.
Com representações de cada uma das sete paróquias, à noite em sessão solene, no Cine Pajeú, o novo bispo foi saudado pelo Dr. Hermes Canto. Na oportunidade, foram feitas duas solicitações: que ele trouxesse para Afogados da Ingazeira "Água e Luz", até então deficientes ou inexistentes na cidade.
Dom Francisco, uma semana depois da posse, foi ao Recife com o prefeito Miguel de Campos Góes para tratar do assunto com o governador Cid Sampaio. Foi recebido por ele que o encaminhou ao secretário, Sr. Lael Sampaio. Lá receberam a informação de que a Água seria mais fácil: era só abrir mais um poço no Rio Pajeú, pois era o lugar mais adequado.
Dirigiu-se, então, à CODEVASF e conseguiu um novo motor para suprir a carência de energia.
A Rádio Pajeú tinha motor próprio. O cine Pajeú também tinha o seu motor que funcionava apenas às quartas-feiras, sábados e domingos e supria de eletricidade a casa paroquial, pois o padre Antonio de Pádua Santos havia administrado a diocese na vacância, com a transferência de Dom Mota para Sobral.
A residência episcopal não dispunha de luz elétrica. Com aproximadamente um ano em nossa cidade Dom Francisco teve um entendimento com o prefeito da época que relutava em colocar luz na residência Episcopal, sob a alegação de que o cinema já possuía um motor, mas o bispo deixou claro que o motor não era para manter o bispo, pois pertencia à Ação Social Diocesana, que era para os pobres e não seriam os pobres que iriam manter a casa do bispo. Disse que a diocese pagaria à Prefeitura o custo da energia fornecida.
Logo depois foi efetuada a ligação e a casa do bispo foi, então, beneficiada com o fornecimento diário da eletricidade, das 18h às 21h, como as outras residências da cidade.
Dom Francisco batalhou muito para a vinda da agência do Banco do Brasil para Afogados da Ingazeira.
(...) Na qualidade de pastor incansável, de profundo valor cultural, não mediu esforços no sentido de propiciar oportunidades de melhor servir a essa terra e de lutar contra os problemas que entravavam o processo desenvolvimentista.
Foi administrador apostólico de 13 de junho de 2001 a 27 de outubro de 2001. Permaneceu 40 anos à frente da diocese, entregando-a em 27 de outubro de 2001 ao sucessor, Dom Luís Gonzaga Silva Pepeu.
Deu continuidade aos trabalhos do seu antecessor Dom João José da Mota e Albuquerque.
Sua renúncia ao governo da diocese de Afogados da Ingazeira foi aceita pelo Papa João Paulo II em 13 de junho de 2001.
Lema: “Ut Vitam Habeant” (Para Que Tenham Vida).
DADOS BIOGRÁFICOS:
Estudos:
-Ensino Médio: Ginásio e Colégio, no Seminário Diocesano de São José, em Sobral-CE (1945);
-Filosofia (1946/1947), e Teologia (1948/1951), no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza/CE;
-Licenciatura Plena em Filosofia e Bacharelato em Direito, em Recife (1970/1974).
Atividades antes do episcopado:
-Professor de português no ginásio sobralense, Sobral (1952/1961);
-Professor de português e matemática no Seminário Diocesano, também em Sobral (1952/1961);
-Reitor do Seminário Diocesano de Sobral (1956/1961);
-Assistente de Ação Católica em Sobral (1952/1961).
Atividades como Bispo:
-Responsável pelo Setor de Pastoral Rural de CNBB-NE2 (1985/1988);
-Secretário Executivo do Regional NE2 da CNBB (1989/1992); Acompanhante da CRC do Regional NE2 da CNBB (1993/1996); Padre Conciliar do Concílio Vaticano II (1962/1965, em Roma, Itália);
-Presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico do Vale do Pajeú - CODEVAP (1965/1974), com sede em Afogados da Ingazeira.
-Ordenou 24 sacerdotes e 6 diáconos permanentes. Criou 11 paróquias.
-Programa de Rádio: ‘Nossa Palavra’ na Rádio Pajeú de Educação Popular em Afogados da Ingazeira.
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O professor Edgar Linhares Lima escreveu, no Jornal O Povo do Cearáo, o artigo a seguir sobre Dom Francisco:
"Francisco Austregésilo. Era este o nome raro de um dos muitos jovens que vinham do interior, na década de quarenta, para estudar no Seminário Menor de Sobral, onde um bispo brilhante preparava seu clero para construir uma igreja segundo as recomendações do Concílio de Trento. O seminário era menor porque assim era chamado o que cuidava dos preparatórios, equivalentes ao que hoje se chama educação básica. Depois do menor vinha o maior, donde se estudava a filosofia e a teologia que se concluía pela ordenação sacerdotal.
Foi nesse seminário menor que o jovem de Reriutaba veio fazer seus preparatórios. Tinha uma inteligência rara. Nada o atemorizava, nem a Matemática, nem o Grego ou o Latim. Transitava por todo tipo de conhecimento com rara facilidade e, o que é mais notável, com raríssima simplicidade. Não se vangloriava de seus dotes. Era humilde até onde se pode ser simples.
Na terceira série, já escrevera um manual de análise léxica e outro de análise sintática, que o professor Mariano Rocha reputava os melhores dos já escritos em língua portuguesa. Traduzia com facilidade o francês e pronunciava as palavras como se fossem portuguesas, porque achava que assim devia pronunciar as palavras dos que também pronunciavam o português na fonética de sua língua mãe. Era uma questão de patriotismo.
No seminário maior, continuou a mesma trajetória de aluno brilhante, mas sem vaidade. Ordenado sacerdote, veio para o magistério do seminário, de onde viria a ser reitor, e imprimiu sua visão de sacerdote, desenvolvendo uma convivência escolar sob o primado da confiança nos superiores do entendimento entre os companheiros.
Todos os seus ex-alunos são unânimes em reconhecer a superior visão cristã que ele tinha das relações interpessoais. Um depoimento interessante me foi dado por um de seus alunos. Foi no dia em que o bispo veio ao seminário anunciar que o padre-reitor, o padre Austregésilo, havia sido eleito bispo. Dizia o seu ex-aluno, o professor Edison de Andrade, que nunca vira tanto homem chorando ao mesmo tempo, por causa de uma única notícia. Era a despedida de um pai a tantos filhos.
A vida me separou muito cedo do Trejeba, como nós o chamávamos no Seminário. Mas a sua imagem de um homem raro, de um homem santo, de um homem brilhante, de um homem, sobretudo muito humilde, nunca mais saiu de minha memória.
De Sobral, guardei a imagem de muitos vultos ilustres que povoaram a minha juventude... De todos, porém, o que mais me marcou, como uma síntese de ideal cristão para um cidadão do mundo, foi precisamente Dom Austregésilo de Mesquita Filho".
O que se escreveu quando do seu falecimento
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