
Em 29 de abril de 1895 nascia, na Fazenda São Joaquim, no município de Afogados de Ingazeira, Pedro Pires Ferreira, filho de Francisco Pires Ferreira e Antonia Mascena Pires. Provável descendente de um dos 15 irmãos de Gervásio Pires Ferreira, filho de portugueses e governador do Estado de Pernambuco à época da Independência, em 1822.
Em 1918, casou-se com Albertina Xavier Pires, sua primeira esposa, que faleceu em 1933, deixando sete filhos. Viúvo casou-se em 1935, com Maria de Lourdes Liberal Pires. Dessa união nasceram cinco filhos.
Foi batizado na capela de Afogados em maio de 1895. Criou seus filhos com lições vivas de caridade e amparo aos menos favorecidos.
Vinha de uma família modesta, bem conceituada e de dependência econômica relativamente considerável. Fez seus estudos primários dentro dos limites de ensino da zona rural de seu tempo (professor em casa), contudo revelou seu gosto pelas letras, tendência para o comércio e para a política.
Em 1928, aos 33 anos de idade, foi prefeito de Afogados da Ingazeira, substituindo o Dr. Antunes Filho. Administrou o município com seis Vilas e cinco Povoados:
Afogados da Ingazeira, Sede; Espírito Santo (Tabira), Vila; Bom Jesus (Tuparetama), Vila; Ingazeira, Vila; Solidão, Vila; São Sebastião (Iguaracy), Vila; Varas (Jabitacá), Vila; Pelo Sinal de Solidão, Povoado; São Francisco de Solidão, Povoado; Santa Rosa de Ingazeira, Povoado; Coruja de São Sebastião (Irajaí), Povoado; Santa Rita de Bom Jesus (Tuparetama), Povoado.
"Ao assumir a prefeitura de Afogados da Ingazeira, já cognominado de 'jovem líder' pelo então governador Dr. Manoel Borba, tratou logo de reunir as forças políticas do município para traçar seu programa de governo, começando pelo primeiro Grupo Escolar Municipal (onde hoje é localizado o prédio da prefeitura); a seguir, instalou energia elétrica, gerada a motor a óleo diesel, com simples posteação pública; pediu estradas ao governo do Estado, no que foi atendido. Seu objetivo era trazer desenvolvimento para o município de Afogados da Ingazeira, em cuja cidade residiu por alguns anos.
Na prática, foi considerado um técnico, um homem de ciência política, sem haver freqüentado escola. Um homem que fez questão de registrar suas glórias políticas, aceitando os insucessos sem diminuir ou humilhar seus poucos adversários.
Quando reconhecia seu erro, sabia pedir perdão com facilidade, por conta de sua formação religiosa, razão porque, hoje, amanhã e sempre, será enaltecido; fez sua imagem de tal forma que não vai se evaporar no tempo.
A mudança de rumos no Governo de Vargas, com a implantação do chamado Estado-Novo, permitiu a volta de Pedro Pires Ferreira à chefia política de Afogados da Ingazeira, onde voltaria a ser novamente prefeito. Essa liderança foi exercida até 1948 quando da emancipação política de Tabira, sua principal base eleitoral.
O Cel. Pedro Pires, ainda, foi o primeiro prefeito constitucional de Tabira em 1949 e, outra vez, em 1958; deputado Estadual em duas Legislaturas (1954/1958 e 1958/1961). A partir de 1937 ficou à frente do destino de sua vilazinha de 'Espírito Santo' até o dia em que Deus o levou deste mundo. À época do governo do professor Agamenon Magalhães, elegeu deputado estadual o seu filho José Pires.
Faleceu aos 72 anos de idade, no dia 17 de maio de 1967, em Recife, sendo sepultado no dia seguinte em Tabira. Ao seu sepultamento em Tabira, compareceram milhares de pessoas, dentre outros lugares, do Recife, Rio Branco (Arcoverde), Sertânia, Triunfo, Flores, Carnaíba, São José do Egito, Serra Talhada, Afogados da Ingazeira e, de Monteiro, Princesa Isabel e Água Branca (estas, no Estado da Paraíba)."
Após a morte desse líder político, Luís Cristóvão dos Santos escreveu, entre outras coisas, em sua crônica "Um Chefe Político do Sertão do Pajeú":
"... Certa madrugada ouço bater à porta da minha casa, em Arcoverde. À luz do aladim, aparece Pedro Pires, chegando de viagem.
- Doutor Luís (era assim que me tratava), vim buscá-lo para defender um amigo recolhido à cadeia.
- Qual o crime do rapaz? Perguntei.
- Não tomei informação do que ele fez, nem o que praticou. Sei que é meu amigo e me acompanha, politicamente, há muitos anos e está preso. Era assim, no código do velho chefe de Tabira.
Não interessava saber do crime, quando um amigo estava preso. Fui. Requeri o 'habeas-corpus'. Soltei o homem, que ao sair da cadeia gaguejou de emoção:
- Deus e a Mãe Santíssima lhe acrescentem, seu Coronel Pedrinho".
"De outra feita, eu estava em casa do mano, o padre Antônio, vigário dos Afogados da Ingazeira. Pedro Pires parou o automóvel em frente à casa paroquial; um carrão preto de quatro portas, que andava pra cima e pra baixo, fazendo favor a todo mundo, levando os matutos para fazerem empréstimos no Banco em Monteiro, na Paraíba, e foi me convidando, todo risonho:
- Doutor Luís, vim buscar o amigo para ir a Tabira. Hoje, não é para soltar ninguém. Ao chegarmos à entrada da cidade, numa reta da estrada, onde aos domingos faziam corridas de cavalos, mais de cem vaqueiros, todos encouraçados, aguardavam a chegada do chefe político.
Ao parar o 'Ford', envolto numa nuvem de poeira, daqueles homens rudes, vestidos de couro, estrondou um aboio formidável. Pedro Pires agradeceu emocionado. E pediu aos seus amigos vaqueiros que entoassem um aboio também, em memória de todos os vaqueiros mortos do Sertão. Então as vozes dos campeadores tostados de sol e rasgados pelos espinhos, se levantaram como uma só voz, sentida e saudosa, no aboio mais comovente que ouvi na vida, em homenagem aos companheiros falecidos. Era um enamorado da gleba o sertanejo Pedro Pires, que a morte acaba de arrebatar. Quantas vezes, em seu armazém ou em sua residência, ouvi a notícia aflitiva:
- Coronel Pedrinho, vim pedir um adjutório à vossa senhoria. A mulher lá em casa 'está com as dores'.
Ele ouvia com atenção, e chispava a ordem.
- Menino, vá dizer a Toreba que leve a mulher deste amigo para o Dr. Hermes Canto, em Afogados. E diga ao médico que a conta é minha.
Certa feita estava a sua mesa, almoçando. Era dia de feira, o burburinho rolava na praça da Matriz e se estirava pelas ruas. Nisto, sem pedir licença, entrou, casa a dentro, um rapaz todo agitado:
- 'Seu' Coronel, vim dizer a vossa senhoria que aquele ‘sarará’ que trabalha para os Tenórios, em Lage do Gato, está querendo criar um 'causo', dentro do Açougue, com o empregado de 'seu' Massena. Num relance Pedro Pires alcançou o perigo da noticia. Se o 'sarará' era afoito, o empregado de 'compadre' Massena não ficava atrás.
- Me dá licença, doutor Luís.
Cruzou o talher sobre o prato, pôs o chapéu e foi para o Açougue separar os valentes, dizendo com aquela voz mansa:
- 'Não quero sangue em Tabira'. Este era, em verdade, o seu lema. A constante de toda uma vida dedicada ao progresso e à tranqüilidade da cidadezinha sertaneja que ele ajudou a nascer, embalada pela cantiga das águas do Rio Pajeú e, onde, sob o sol faiscante ou à doce luz das estrelas das noites do Sertão, está dormindo o seu último sono, abençoado e chorado pelo povo humilde, ao qual amou, ajudou e serviu."
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