
Entre os grandes parlamentares de nossos tempos figura o notável sacerdote monsenhor Arruda Câmara. Pertencente a uma família pernambucana tradicional, nasceu Alfredo Bezerra de Arruda Câmara em 8 de dezembro de 1905, no município de Afogados da Ingazeira, “zona dos 'cabras-machos', dos valentões do gatilho, das lambedeiras, do punhal” segundo Costa Porto, e era filho de Júlio de Arruda Câmara e dona Emília Câmara.
Fez seus estudos primários na cidade natal e o curso secundário no Colégio Diocesano de Triunfo.
Em 1920, ingressou no Seminário de Olinda, onde cursou Filosofia e o primeiro ano de Teologia. Distinguindo-se por seu comportamento e inteligência, foi escolhido, em 1925, para estudar no colégio Pio Latino-Americano e na Universidade Gregoriana de Roma, onde obteve doutorado em Teologia Dogmática no ano de 1928.
Durante sua estada em Roma, tirou ainda a láurea em Filosofia na Academia de Santo Tomás e traduziu do francês o livro “O Guia do Seminarista”.
Ordenou-se em 7 de abril de 1928, regressando ao Brasil em julho, exercendo interinamente o lugar de pároco no bairro de Piedade (Recife) e em Afogados da Ingazeira.
Foi nomeado pároco de Pesqueira e Cura de Catedral em dezembro de 1928. Exerceu o cargo (acumulado) de Reitor do Seminário Menor e professor de Latim, na sede de bispado em Pesqueira. O seu paroquiato ali durou seis anos (1928-1934) exercendo as funções de pároco da catedral, professor no seminário menor e diretor do colégio diocesano.
Em 1934, Dom Adalberto Sobral - ao que parece coagido pelas classes dominante da cidade industrial que não simpatizavam com as posições de padre Alfredo - retirou-lhe a paróquia obrigando-o a transferir-se para o Recife onde Dom Miguel de Lima Valverde o recebeu e permitiu que continuasse sua atividade política à qual se dedicou, “com seu temperamento escaldado, desconhecendo os meio-termos, sempre arrastado aos extremos, embora padre cem por cento, de costumes ilibados, cheio de ‘espírito de fé’ e de formação granítica escreve Costa Porto”. Nunca deixou, entretanto, de voltar a Pesqueira, pois tinha aí a sua principal base eleitoral.
Tinha um porte hierático, passos largos, voz grave, rosto severo. Antes do exílio na capital, iniciara suas atividades de capelão militar no Tiro de Guerra em Pesqueira.
Como tal, acompanhou tropas, por três vezes, em expedições revolucionárias. A primeira foi a serviço da Aliança Liberal na revolução de outubro de 1930. Designado pelo general Juarez Távora acompanhou a coluna de Juracy Magalhães, quando foi preso e capturado.
Entusiasmou-se pelos seus ideais da Revolução de 1930 e conseguiu licença de seus superiores para servir de capelão nas tropas libertadoras, sendo injustamente preso na Bahia.
Em outubro de 1931, ainda no destemido exercício de seu sacerdócio, seguiu o Tiro de Guerra de Pesqueira para o cerco do Recife quando foi baleado e deixado semimorto pelos comunistas, por ocasião do motim de Pedro Calado. Salvou-se graças à transfusão de sangue, doado por Caio, irmão do interventor Carlos de Lima Cavalcanti.
Discordâncias partidárias o levaram a afastar-se de Lima Cavalcanti e aproximar-se de Agamenon Magalhães.
Em 1932, na Revolução Constitucionalista contra Getúlio Vargas, ei-lo em São Paulo com o Batalhão Militar de Pernambuco. Suas incríveis aventuras como capelão dessas batalhas e sua heróica assistência aos feridos e prisioneiros encontram-se descritas em "Traços de Minha Vida" e "História de minha prisão". Sua vocação política teria despertado nessas experiências?
Em 1933, foi eleito deputado federal à Constituinte pelo PSD (com licença eclesiástica), defendendo com êxito os postulados da Liga Eleitoral Católica: o nome de Deus na Carta Magna, o ensino religioso na escola pública, a assistência religiosa às Forças Armadas, o reconhecimento civil do casamento religioso etc.
Em 1937, com o Estado Novo, sua carreira política sofreu forte abalo.
Homem de atividade incansável. Apesar de menosprezado pelo governo de Agamenon Magalhães, é nomeado diretor da Caixa Econômica Federal de Pernambuco de 1938/1948. Foi membro do diretório de PSD, fundador e presidente do Partido Democrata Cristão, examinador de concursos, professor e membro das mais importantes Comissões da Câmara Federal.
Alcançou os postos de major do Exército e tenente-coronel da Polícia Militar.
Deputado desde 1933, participou de três constituintes (34, 35 e 67) e de seis legislativas, sempre reeleito pelo povo fiel à bandeira de coragem, civismo e religiosidade.
Ficou conhecido como "o padre-jagunço do Pajeú", por andar sempre armado. Provocado certa feita, em 1937, por um grupo de estudantes, chegou a sacar de seu revólver, ameaçando os manifestantes.
Defensor intransigente da família, terçou armas contra o divórcio e tornou-se um dos mais atuantes deputados federais, além de jornalista incisivo.
Em reconhecimento do seu trabalho, a Santa Sé o distinguiu com a dignidade de Monsenhor, em 1948, e de Protonotário Apostólico em 1954.
Orador fluente e culto, destacou-se, não só nos debates do Parlamento, mas também no púlpito e em grandes solenidades.
Por seus serviços prestados à Polícia e ao Exército, recebeu a patente de tenente-coronel honorário da polícia de Pernambuco e de major honorário do Exército. Seu destemor criou em torno de sua pessoa uma auréola de valentia agressiva.
Por sua atuação esclarecida e desassombrada, conseguiu Monsenhor Arruda Câmara a reputação de um dos mais notáveis deputados pernambucanos de todos os tempos, tornando-se um líder decisivo na política nacional.
Promoveu grandes debates em defesa da família. De um lado estava ele combatendo o divórcio; do outro, o deputado Nelson Carneiro tentando a todo custo, legalizá-lo.
De 1945 a 1954 presidiu o PDC local. O Partido Democrata Cristão era um movimento inspirado no pensamento católico europeu de De Gasperi e Maritain e, aqui, em Alceu de Amoroso Lima. Seu objetivo, em síntese, era o da 3ª via política, preconizada por Pio XI, que se afastasse tanto do comunismo como do capitalismo promovendo a reforma social na justiça e na liberdade.
Ensinou Latim e História da Filosofia, no Seminário de Olinda.
Em seu livro "Preservação da Família e das Tradições" resume seu ideal de vida: "nem esquerda, nem direita; no centro; para frente e para o alto, eis o nosso lema". Arruda Câmara representa uma época e uma mentalidade em termos de política e de Igreja, porém, não deixa de ser admirável a coerência e a fidelidade com que viveu os dois papéis de padre e de político na defesa dos valores que julgou essenciais.
Aos 65 anos, o monsenhor nada perdera de seu entusiasmo e de seu idealismo, quando foi surpreendido pela morte em 21 de fevereiro de 1970, falecendo no Hospital dos Servidores, no Rio de Janeiro.
Vale ressaltar que a sua luta foi de influência tal que, somente sete anos após a sua morte, em dezembro de 1977, quando já não se podia mais ouvir a voz do grande afogadense, é que a Lei do Divórcio foi sancionada em nosso país.
Segundo a poetisa Marlene Couto Brandão: "seu destemor o deixou como valente vigário, que guardava na batina o revólver e o rosário"
Seu corpo foi transladado para o Recife e sepultado no cemitério de Santo Amaro, com honras religiosas e militares.
O governo de Pernambuco deu o seu nome a uma das Escolas do Recife, localizada em Peixinhos, para perpetuar, não só a lembrança do grande político, mas também os exemplos do professor competente e os ideais do eminente sacerdote.
Na Assembléia Legislativa do Estado, na Câmara Federal e no campo religioso, foi um trabalhador incansável e respeitado, combatendo sempre “o bom combate”. Bastaria a sua campanha contra o divórcio para justificar a sua presença no Parlamento Federal.
Ao longo de sua atividade parlamentar, seus discursos foram marcados pela defesa do regime parlamentarista de Governo, da adoção do ensino religioso - facultativo - em todas as escolas e da concessão do direito de voto a todos os cidadãos. Combateu, com o mesmo ímpeto, o comunismo e a instituição do divórcio.
Entre os inúmeros trabalhos publicados destacam-se as obras: Casamento Indissolúvel; Contra o Comunismo; A Família e as Imagens; Em Defesa da Família; A Família e o Divórcio; A Batalha do Divórcio; O Espírito Santo.
Gigante na coragem, na tenacidade, no intelecto e no amor por sua terra, tudo fez para dar-lhe o destaque que ela bem merecia.
Entre os inúmeros benefícios prestados, destacam-se: A passagem da Rede Ferroviária Federal por sua terra natal; as construções dos prédios dos Correios e Telégrafos, da Escola Normal Rural, da Maternidade Unidade Mista Emília Câmara, e a criação da Diocese de Afogados da Ingazeira.
É grande a gratidão ao seu ilustre filho a quem Afogados e sua gente rendem as mais reconhecidas homenagens, onde hoje é lembrado através do bronze na praça pública que, reconstruída, recebeu seu nome.
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Monsenhor Arruda Câmara
Jorge Luiz de Moura
Coronel RR/PMPE - ex-Cmt. Geral da PM
Nos umbrais da História de Pernambuco e da Polícia Militar emerge um nome de dimensão nacional: Monsenhor Alfredo de Arruda Câmara.
Nascido em 08 de dezembro de 1905, na cidade de (Afogados da) Ingazeira, dignificou Pernambuco e o Brasil, como sacerdote católico, tenente revolucionário de 1930 (in Agildo Barata, Vida de um Revolucionário, pág. 139/140), Major honorário do Exército Brasileiro, (Decreto de 10/03/1934), Coronel honorário da PMPE, (art. 257, do Decreto-Lei nº 129, de 28/10/1969), e Deputado Federal pelo Partido Democrático Cristão (PDC), em seis legislaturas e duas Constituintes, (1934 e 1946).
No almanaque da Brigada Militar de Pernambuco de 1938 (pág. 57), registra seus serviços de guerra, na Revolução de 1930, no motim do 21º Batalhão de Caçadores de 1931, onde foi gravemente ferido, no Largo da Paz, em Recife e na Revolução Paulista de 1932, como Capelão Católico e Major Fiscal Administrativo do 2º Batalhão de Caçadores (2º BC), sob o Comando do Major PM - João Emerson Benjamin, que atuou no Exército Sul, em São Paulo.
Foi o autor da Lei Federal nº 192, de 17/01/1936, que no seu art. 23, estendeu aos oficiais da ativa e reformados das Polícias Militares, a garantia do posto e da patente, previsto, apenas no art. 165, da Constituição Federal de 1934, para os oficiais do Exército e da Armada (Marinha).
Mas, o grande feito do Deputado Monsenhor Arruda Câmara, foi sem dúvida colocar às Polícias Militares nas Constituições Federais de 1934 e 1946, esta com a garantia da vitaliciedade do posto e da patente aos oficiais, (art. 182 e 183), e hoje, sedimentados nos artigos 42 e 142 da Constituição Federal de 1988.
De acordo com o seu Manifesto em 1962, destacam-se as seguintes realizações: indenização pela união do Arquipélago de Fernando de Noronha; criação do Colégio Militar do Recife e sua manutenção em alguns estados; federalização da Faculdade de Medicina e da Escola de Enfermagem de Pernambuco; conclusão da Igreja Santa Terezinha, no Derby; aquisição da Vila Popular em Recife; restauração na Constituição de 1946, das Bandeiras, hinos e símbolos estaduais, extintos pelo Estado Novo, (art. 195, parágrafo único); aprovação da ementa orçamentária de 10 milhões de cruzeiros ao Hospital do Câncer, no Recife; aquisição da sede própria para os inativos da PMPE; autor de projeto para volta da Comarca de São Francisco para Pernambuco; estabilidade dos capelães-militares e sargentos com 5 anos de serviços e cabos e soldados com 10 anos de serviço, entre outras de cunho social.
Foi um batalhador incansável contra o divórcio, que foi implantado no Brasil, após o seu falecimento, ocorrido em 21 de fevereiro de 1970, no Hospital dos Servidores, no Rio de Janeiro, emudecendo a voz, deste Padre-Soldado, autêntico guerreiro, que segundo a poetisa Marlene Couto Brandão: "seu destemor o deixou como valente vigário, que guardava na batina o revólver e o rosário".
Como reconhecimento ao seu labor imensurável, em prol das Polícias Militares, foi homenageado como patrono da turma dos Aspirantes de 1981, na Revista da Academia de Polícia Militar do Paudalho, com o excelente artigo do Aluno-Oficial, José Edílson Monteiro, (pág. 13), (hoje, Tenente-Coronel), onde Monsenhor Arruda Câmara aparece em duas fotografias como oficial e sacerdote, simbolizando em uma só pessoa, a espada e o crucifixo e, pelo Decreto Estadual nº 7.963, de 12/05/1982, foi perpetuado como Patrono do 9º Batalhão da Polícia Militar, sediado em Garanhuns, onde tivemos o privilégio de o comandar, em 1985, deixando em seus anais o Histórico, onde ressaltamos o insigne homenageado.
Por fim, se faz mister trazer ao prelo um trecho da missiva do Capitão Peres Barbosa, da Polícia Militar do Distrito Federal, enaltecendo o Monsenhor Arruda Câmara, pelo ingresso das PMs na Constituição de 1934, (art. 167): "Soldados de Polícia do Brasil, Soldados clandestinos de ontem, hoje Soldados da Lei: Sentido! Apresentar armas!"... (Revista de Polícia, junho de 1934, pág. 35, cópia fornecida pelo ilustre Cel. RR/PM, Cícero Laurindo de Sá).
(transcrito do Diário de Pernambuco, coluna OPINIÃO, de 06.04.2008
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