
Médico em Afogados da Ingazeira
nos anos 1960
Biografia
José Serpa de Menezes nasceu no dia 17 de fevereiro de 1935 na então vila operária da Pedra, município de Água Branca, hoje Delmiro Gouveia.
Filho do funcionário do escritório da Fábrica da Pedra e primeiro prefeito do recém-criado município de Delmiro Gouveia, Alfredízio Gomes de Menezes natural de Floresta-PE e da professora Natércia Serpa de Menezes, natural da Várzea do Pico, Água Branca-AL, primeira professora formada do município.
Tinha 03 irmãos: Ciríaco (falecido em 2005), Socorro e Francisco. Fez seus primeiros estudos no Grupo Escolar Delmiro Gouveia, transferindo-se em seguida para o Colégio Diocesano de Maceió em regime de internato, tinha então 10 anos de idade.
Posteriormente estudou no Colégio Marista do Recife onde concluiu o 2º grau.
Voltando a Maceió, iniciou o curso de Medicina, ficando até o terceiro ano, quando voltou ao Recife em 1957 concluindo o curso na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco em 1960.
Iniciou-se na área médica na cidade Pernambucana de Afogados da Ingazeira, sertão do Pajeú, como cirurgião, onde realizou diversas intervenções e atendimentos.
Em 1962 se casou com a colega de faculdade Dra. Maria Java, natural de Natal-RN, tendo dessa união 4 filhos: Antenor José, Maria Cecília, Luiz Henrique e Marcos André. O casal passou então a residir e trabalhar em Afogados da Ingazeira até o ano de 1970, quando por motivo do agravamento do estado de saúde do seu tio e padrinho ex-deputado Dr. Antenor Correia Serpa voltou a residir em Delmiro Gouveia.
Com o falecimento do Dr. Antenor Serpa (22/04/71), a política através da Medicina tornou-se um caminho natural. Candidato a prefeito, foi eleito para o período de 1972/1976 marcando a administração com obras de urbanização, principalmente pavimentação de ruas e avenidas.
Entregando a Prefeitura ao seu sucessor Sr. Rosalvo Souza, não exerceu mais cargos públicos, até romper politicamente com o ex-deputado e ex-prefeito Dr. José Bandeira de Medeiros.
Disputou novamente a Prefeitura com sua esposa Dra. Java como candidata a vice no pleito de 1982 contra o também médico Dr. Petrúcio Bandeira, irmão do ex-deputado.
Vencendo a eleição, passou seis anos à frente dos destinos do município quando foram construídos o atual prédio da Prefeitura Municipal, a Câmara de Vereadores e concluído o Ginásio Virgília Bezerra (1º Ginásio do município iniciado no governo Rosalvo Souza) entra outras obras.
Não conseguindo fazer seu sucessor (perdeu a eleição de 1988 para o Dr. José Bandeira). Ainda disputou as eleições de 1992 como candidato a prefeito, novamente com sua esposa Dra. Java e em 1996 como candidato a vice-prefeito do Dr. Petrúcio Bandeira.
Decepcionado com o vale-tudo da política local foi se afastando gradativamente, passando a se dedicar integralmente às suas grandes paixões: a medicina e a agropecuária.
Ainda trabalhou em Olho D’Agua do Casado, Água Branca como médico do Programa de Saúde da Família (PSF) e em Petrolândia-PE como plantonista. Também foi diretor do Hospital de Xingó, em Piranhas, durante o governo Ronaldo Lessa.
Homem de temperamento forte e hábitos simples, foi feliz à sua maneira, viveu intensamente a sua época com seus vícios e virtudes.
Faleceu em 12 de junho de 2009 na cidade do Recife, vitimado por uma pneumonia decorrente de um tratamento para eliminar um tumor de medula óssea (mieloma).
Entrevista com o Dr. Serpa em fevereiro de 2008
José Serpa de Menezes, Médico e ex-prefeito de Delmiro Gouveia-AL, conversou (em fevereiro de 2008) com o Correio Regional, na véspera do seu aniversário de 73 anos, e descontraidamente, na simplicidade que lhe é peculiar, nos contou do início de sua carreira na medicina, seus feitos na prefeitura de Delmiro Gouveia e de fatos que você poderá conferir neste bate papo.
Correio Regional (CR) - Doutor Serpa, o ex-prefeito Rosalvo Souza, e Clênio Sandes falam que têm seu tio Antenor Serpa como referencia na política delmirense. E o senhor o que tem a dizer?
Doutor José Serpa (Serpa) - Antenor foi o primeiro político deste município, inclusive, junto com Doutor Mário Torres criaram esta cidade. Se os políticos de hoje se espelhassem nele como homem e como político, Delmiro estaria muito diferente hoje...
CR - E, como está Delmiro, na sua visão?
Serpa - Está sendo rateado em três grupos: O pessoal da beira do Rio... O grupo do ex-governador, e o grupo dos vereadores. É isso que Delmiro é hoje.
CR - Se fosse convidado para a política, o senhor seria candidato?
Serpa - Não. Não tenho mais estrutura física para isso, e nesse nível aí, eu prefiro ficar fora.
CR - O senhor sente saudades da política?
Serpa - Da política não... Daqueles tempos que era jovem, sim. Honestamente não sinto saudades da política.
CR - Acha que fez muito, pouco, ou foi regular como prefeito de Delmiro Gouveia e quem eram seus aliados políticos?
Serpa - Fiz bastante por Delmiro Gouveia. Fui prefeito por 10 anos. De 1972 a 1976, de 1982 a 1988. Vou citar algumas obras que realizei: Essa prefeitura fui eu que construí, a câmara, calçamento e saneamento da Vila operária, calçamento de várias ruas em vários bairros, fui eu que fiz, construção da escola Maria Dulce, ampliei o Virgília Bezerra, fiz outra escola pequena na pedra velha e deixei outra maior em construção, outra no povoado São Sebastião, jardim cordeiro, quadras da barragem e do caixão. No segundo mandato ampliei a escola do caixão e do povoado cruz, construí a escola do Rabeca e por aí vai. E meus aliados, no primeiro mandato, foi Bandeira que incentivou aonde disputei com Hamilton Cardeal. No segundo disputei com o irmão dele, e aí, fiquei dono da minha venta.
CR - E os embates políticos deixaram magoas, intrigas pessoais, ou coisas desse tipo?
Serpa - Não, não. Isso aí acontece hoje. Naquela época acontecia em Água Branca, Mata Grande, mas aqui em Delmiro não. O pessoal tinha um nível melhor do que hoje.
CR - O senhor se sentiu ultrajado por algum político?
Serpa - Bandeira. Toda verba que vinha para cá, depois que rompemos. Ele como deputado, segurava por lá. Ele atrapalhou muito o desenvolvimento de Delmiro Gouveia. Por conta disso, eu fiquei restrito ao ICMS e ao FPM e mais nada. Certa vez ao visitar o então governador Fernando Collor cobrei ao mesmo alguns compromissos. Collor virou-se para seu vice Moacir Andrade e perguntou por que aquilo não tinha sido feito? Imediatamente Eu disse: Não foi feito porque Bandeira está pedindo a ele para segurar. Isso na cara dele.
CR - Era difícil trabalhar naquela época?
Serpa - Era isso que eu queria chegar. Quem teve a sorte de pegar o dinheiro, as verbas do município depois dos requerimentos dos Royalties da CHESF etc.. Foi Lula Cabeleira. Ele pegou quando começou a cair dinheiro na prefeitura. Às vezes que eu fui prefeito, era ICMS, Fundo de participação dos Municípios e a receita própria que era tão somente a matança de 10 ou 15 bois por semana...(risos).
CR - Pelas duas vezes que o senhor foi prefeito, seu patrimônio não é tão grande, pelo menos é o que aparenta. Podemos dizer que Serpa foi honesto nos dois mandatos?
Serpa - Com toda certeza. Nem tinha de onde tirar. Era pouco o dinheiro e só dava para fazer o que fizemos na cidade; Meu patrimônio são dois Médicos trabalhando há 48 anos. Se não tivesse uma casa (comprada pelo BNH) pra morar, tava danado. Um apartamento que temos, terminamos de pagar agora, também pelo BNH. Não é o que a gente vê aí... E eu nem gosto de falar, porque se eu falar vou ofender muita gente. Não quero briga, nem quero deixar briga... Agora que esse negócio tá uma esculhambação, isso tá... e grande!. De Executivo, de judiciário, de legislativo, de tudo. Esse país virou bagunça generalizada mesmo.
CR - Existe algum político em Delmiro ou em Alagoas que seja uma referencia para o senhor?
Serpa - Meu tio e meu pai. Muito embora meu pai mexesse pouca na política, quem mexia mesmo era minha mãe... (pausa para risos)
CR - Se tivesse que voltar atrás e ser prefeito de Delmiro Gouveia, o senhor se arrependeria ou faria tudo de novo?
Serpa - Tadeu, eu disse a você agora a pouco, que não queria nada com política. Mas se o cavalo passasse selado, eu montava nele, não tenha dúvida nenhuma. Risos novamente...
CR - Qual o caso que mais chamou sua atenção nesses 48 anos de Medicina?
Serpa - Foi no começo da carreira em Afogados da Ingazeira, aonde tive que fazer uma cirurgia em uma criança que tinha nascido sem ânus. Eu tive que desobstruir e mandar para o Recife. Imagine um Cirurgião recém-formado se deparar com um caso desses?
CR - Quantas cirurgias e partos foram realizadas pelo senhor?
Serpa - Não tenho uma estimativa. Mesmo porque o livro que tínhamos esse registro sumiu a algum tempo atrás do hospital, mas lembro que, enquanto outros profissionais da minha área faziam uma cirurgia, eu fazia duas, três e até mais, disso eu tenho certeza.
CR - Vamos falar de uma questão polêmica. Erro médico, o que o senhor acha disso?
Serpa - Todo mundo é passível de erro e todo mundo é ser humano. Já fiz cirurgia onde encontrei uma compressa, inclusive com o nome da sala, nome de enfermaria e tal... Interrupção.
CR - Aqui em Delmiro?
Serpa - Não. No Recife.
CR - O senhor já detectou algum erro seu?
Serpa - Se aconteceu, não voltaram para me dizer. Eu perdi um caso em Afogados, mas foi um choque anafilático, por sinal, uma funcionária do próprio hospital, no decorrer da cirurgia ela entrou em choque, aí não teve jeito mesmo. Fizemos todos os processos necessários, mas não teve jeito.
CR - O hospital de Delmiro Gouveia é duramente criticado e algumas pessoas o chamam de matadouro até...
Serpa - Isso não é só aqui, é em todo município. Por exemplo: Em Petrolândia tem um senhor hospital, mas o povo diz que é um matadouro. Lembro-me de Afogados da Ingazeira, a mesma coisa. Sertânia, a mesma coisa. Arcoverde naquela época, a mesma coisa. As pessoas dessas cidades estão sempre à procura de uma cidade maior para fazer suas consultas.
CR - Por falar em medicina, como está sua saúde?
Serpa - Dentro da ruindade, tá boa... (risos, novamente).
CR - O senhor se sente esquecido por alguns amigos políticos?
Serpa - Com certeza. Tem gente aí que eu fiz, e hoje passa por mim e não dá bom dia. Mas política é assim mesmo, perdeu o poder, dançou. Nem ex-governador, ninguém da política, sequer manda um cartão. Mas, isso é da política. As amizades que você tem antes do poder como Roberto Torres, essas continuam, mas aquelas amizades que você adquire no poder... perdeu o poder... até logo!
Delmiro Gouveia-AL, fevereiro de 2008
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