(08.04.1948 / 11.06.2003)
Por ocasião do seu sétimo aniversário de falecimento, em 2010, a professora Elvira de Siqueira escreveu:
Solidário, corajoso, responsável, sincero e profundamente humano: Assim era BARTOLOMEU GENÉSIO - o nosso querido BARTÓ. O segundo dos oito filhos do senhor Manoel Genésio e dona Maria do Carmo, nascido no dia 08 de abril de 1948, veio a falecer no dia 11 de junho de 2003, com a idade de 55 anos e alguns dias.
Teve uma vida turbulenta com muitas batalhas e poucas vitórias. Deus, no seu silêncio, o chamou muito cedo, talvez querendo protegê-lo contra o vírus da corrupção de uma sociedade onde quem é desonesto não sofre punição. Na maioria das vezes, uma despedida é o fim de uma história; com Bartó não foi bem assim, a sua vida não acabou. Ele partiu para um mundo diferente do nosso; está distante, ausente pela separação, mas permanece presente na saudade que deixou.
Há pessoas que fazem parte do nosso convívio sem nenhuma cumplicidade; outras fazem parte da nossa vida tornando-se cúmplices da nossa história. Aquelas podem até deixar lembranças; estas, no entanto, podem deixar marcas profundas.Acredito que Bartó deixou marcas na vida de muita gente, principalmente nas pessoas a quem ele ajudou, a quem ele deu a mão, com quem ele dividiu o pão de cada dia. O seu mundo preferido era a "Gangorra" (propriedade da família). Como era diplomado em Técnicas Agrícolas - além do curso de Contabilidade - suas atividades eram direcionadas à vida do campo e à agricultura.
Destacou-se como pecuarista, trazendo as melhores raças de caprinos e ovinos para a nossa região. Adotou a técnica de armazenagem de ração para animais, em épocas de seca, com a construção de silos de trincheira, com a primeira experiência na fazenda do seu pai, o senhor Manoel Genésio. Foi o primeiro criador de galinhas de granja em Afogados da Ingazeira. Sempre preocupado com os longos períodos de estiagem, empenhou-se na construção de açudes e cisternas para armazenamento de água. Ao que parece, ele era mais afeto à zona rural que à urbana, sem, contudo, deixar de participar dos encontros sociais.
Familiares e amigos mais íntimos dão conta de que ele participou ativamente da política de Afogados da Ingazeira, tornando-se presidente do antigo MDB, com o propósito de batalhar incansavelmente pela melhoria de vida dos excluídos, dos massacrados, dos que não têm voz nem vez. Nos seus pronunciamentos não usava de artifícios para conquistar a simpatia de alguém ou para iludir pessoas de boa fé - o que é praxe no meio político. Em muitas ocasiões, usou um tamborete como palanque; naquele gosto de humildade, estava implícito o ensinamento de que ninguém deve olhar o outro lá do alto, com ar de superioridade. Ele nunca se colocou em posição privilegiada em relação a outras pessoas.
Chegou a se candidatar a prefeito mas não obteve êxito. Foi um grande sonhador, idealizou o palco da igualdade moral, onde todos se sentissem coadjuvantes da mesma história; mas derrapou no palco da desilusão, onde o pobre é naturalmente violentado nos seus direitos fundamentais. Homem inteligente e forte.
Na sua aparência rústica, ocultavam-se o seu lado bondoso e uma sensibilidade admirável. A sua voz harmoniosa o conduzia a serestas e encontros festivos. Apesar da timidez, gostava de cantar com os amigos. Daqueles olhos esverdeados, transluzia um brilho diferente, quando ele cantava "Nervos de Aço" ou Dolores Sierra". Estas duas músicas revelavam a mágoa e o sentimento travoso que apertava o coração de quem viveu uma grande paixão com pouco sucesso. Dos amores vividos ficaram dois filhos.\
Apesar das desventuras, soube gerenciar com supremacia suas emoções. No período de maior sofrimento, no leito de um hospital, contou com a dedicação da fiel companheira, que o assistiu com todo carinho que ele merecia.
Penso que Bartolomeu, como influente filho da terra, que fez parte da história da cidade, merece uma homenagem como figura de destaque. Ele é digno de nosso respeito. Se a sua presença não foi notada por alguns insensatos, a sua ausência é sentida por aqueles que têm sensibilidade e respeitam a sua memória. Agradeço a Deus pela oportunidade que tive de estar com ele momentos antes de sua despedida. Ele deixou nos amigos uma saudade que dói e um vazio que nunca vai ser preenchido.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 10 de junho de 2010
(Crônica escrita em 2003 quando do seu passamento)
Bartolomeu Genésio morreu. O cigarro e o diabetes o levaram cedo demais. Com ele morre um pouco de cada um de nós que o conhecemos e aprendemos a respeitar.
Ele foi pioneiro em suas ideias e ações políticas.
Ele foi admirável exemplo de pessoa humana.
A primeira vez que vi sua cabeleira revolta, seu vasto bigode e seus olhos francos, pareceu-me uma pessoa estranha, diferente. Depois descobri como ele era realmente diferente.
Ele foi pioneiro quando construiu a Barragem do Estreito, no Rio Pajeú Mirim, apesar das várias opiniões em contrário. Sua coragem me inspirou para enfrentar o desafio do projeto da Passagem Molhada da Varzinha.
A lembrança mais forte e marcante de nossos raros encontros foi em uma ocasião na qual ele estava caminhando pela estrada, vindo lá dos lados da Gangorra, quando viu uma pequena turma tocando violão na varanda da extinta Churrascaria Veneza. Para minha surpresa, se aproximou, sentou à mesa, bebeu um copo de cerveja e começou a cantar músicas da velha guarda, numa voz forte, afinada e agradável, revelando um grande conhecimento e seu bom gosto por sambas, boleros e canções. Naquela noite, perdemos a noção do tempo.
Estivemos juntos na Serra dos Pereiros para vistoriar uma pequena barragem de pedra. Depois, foi uma passagem molhada e por último, uma barragem de terra de médio porte.
Sua análise dos problemas sempre foi sensata, lógica, consciente e simples. A partir daí surgiram uma amizade e uma admiração recíprocas. Muitos diziam que ele tinha ideias estranhas, visionárias, utópicas. A verdade é que essas pessoas não tinham alcance suficiente para entendê-lo.
Gente do Vale do Pajeú. Bartolomeu merecia muito mais do que lhe foi dado. Mais reconhecimento e respeito. Algo que preserve a memória do seu nome.
Ele nos deixou na véspera da I Exposição de Caprinos e Ovinos. Nada mais justo do que dar o seu nome ao futuro Parque de Exposições de Afogados da Ingazeira.
Adeus amigo Bartó. Seu exemplo viverá em nossa memória e frutificará em nossas ações
Vinícius
Afogados da Ingazeira, 2003
Sinto-me numa situação privilegiada, exatamente por haver participado ativamente do dia a dia de Afogados da Ingazeira e região do Pajeú, nos últimos 33 anos, para dizer que o trabalho feito pelo companheiro Ademar Rafael em relação àqueles que contribuíram com o desenvolvimento e crescimento da nossa gente é de importância ímpar e ajudará a manter sempre viva a nossa lembrança e gratidão.
Vejo-me, portanto na obrigação de mencionar, dentre tantos outros que com certeza serão oportunamente homenageados, o nome de Bartolomeu Genésio como um grande sertanejo. Dada, entretanto a minha humilde condição de escriba e limitação de memória, fazer apenas uma breve retrospectiva.
É provável que os mais jovens, por desconhecimento, não dêem a atenção que ele merece. Seria estranhíssimo se os seus contemporâneos, amigos ou indiferentes, não tivessem o devido respeito, a admiração e a gratidão pelos seus feitos e pelo seu enorme espírito de solidariedade.
Eu o conheci nos últimos anos da década de 60 e acredito que o crescimento da nossa amizade teve como base as “brigas” e as calorosas discussões na defesa dos nossos pontos de vista divergentes.
Lembro-me perfeitamente da sua dedicação em atender, com sua peculiar maneira, aqueles que precisavam enviar mensagens via DETELPE, do qual foi operador. Lembro-me da sua partida para o Maranhão, onde permaneceu alguns anos. Lembro-me da sua volta e das dificuldades enfrentadas para iniciar a sua criação de aves e daí organizar sua vida.
Sua atuação na Equipe de Educação Política da Diocese de Afogados da Ingazeira deixou marcas que o tempo não conseguirá apagar. Muitas vezes foi chamado de “O trator do Bispo” pela disposição e coragem para realizar qualquer trabalho.
Como produtor rural, construiu, utilizando financiamento bancário em parceria com um dos seus confrontantes de terra e investindo recursos próprios na ordem de mais de 100% (cem por cento) do valor total da obra, uma barragem de pedra e cimento, no Riacho do Pajéu Mirim, que ainda hoje beneficia toda a população ribeirinha.
Foi um dos fundadores e ativo militante do então MDB, que abrigava, a nível nacional, importantes nomes da resistência ao Governo Militar, implantado em 1964. Acredito que ainda continua fiel a sigla, hoje PMDB.
Foi candidato a prefeito do município de Afogados da Ingazeira, realizando uma campanha totalmente diferente do que se praticava e pratica até hoje. Recusou ajuda financeira dos então deputados estaduais e federais do partido e com seus próprios recursos bancou a infra-estrutura da sua candidatura – comitê, propaganda, comícios, etc. – negando-se terminantemente a dá qualquer ajuda que caracterizasse troca ou compra de votos.
Claro que seus opositores venceram o pleito e não poderia ser diferente, mas a experiência de realizar algo com lisura e honestidade foi muito gratificante para todos aqueles que nele acreditaram.
Durante vários meses, abandonou totalmente os bate-papos com amigos nos finais de semana, para participar de encontros de agricultores em toda a Diocese de Afogados da Ingazeira, desde a cidade de Itapetim até Serra Talhada.
Sua participação em qualquer evento, artístico, cultural, político ou social era ativa e marcante. Apesar de não ter curso superior sua intervenções eram lógicas e dialéticas.
Nas festinhas familiares era um seresteiro e tanto. De início tímido e sempre assobiando, depois, já descontraído, soltando a voz e tendo como marca registrada a canção “Dolores Siera”, já imortalizada na voz de Nelson Gonçalves.
Nos bares da época (Gedeão, Zé Panqueta, Geraldo Magela, Toca da Codorna, Gení, etc. etc.) dependendo do nível e grau alcoólicos da platéia, em cima de uma cadeira ou mesa, recitava poesias. O Carro chefe era “Rosas de Maio”. Outras vezes, com repentistas e/ou poetas da região, costumava glosar.
Sem dúvida, a sua maior característica é a firmeza de caráter e a solidariedade.
Hoje, “ sua participação” já não a mesma até porque a saúde está um tanto debilitada, entretanto a sua contribuição no crescimento e desenvolvimento crítico e político da Região será sempre lembrada e agradecida por todos aqueles que o conhecem.
Nosso muito obrigado ao companheiro José Bartolomeu Campos Genésio - Memeu.
Edson Siqueira
Caruaru - fevereiro/2002
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