AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
Doutor Hermes

AS PESSOAS

 

PERSONAGENS

 

NESTE 31 DE MARÇO DE 2008, QUANDO DR. HERMES CANTO COMPLETAVA 98 ANOS, PRESTAMOS-LHE UMA HOMENAGEM NA MISSA EM AÇÃO DE GRAÇAS NA CATEDRAL DO SENHOR BOM JESUS DOS REMÉDIOS

 

"É, para nós, motivo de grande alegria poder prestar esta homenagem a Dr. Hermes Canto.

A nossa cidade de Afogados da Ingazeira teve o privilégio de acolhê-lo quando, ainda tão jovem, recém-formado, aqui chegou para exercer a função de médico com tanto respeito e dignidade.

Além de desempenhar uma atividade útil, bonita e de muita responsabilidade, teve o dom de cativar as pessoas. Dr. Hermes não foi aquele médico que prescrevia qualquer remédio sem sequer olhar para o paciente.  Ele fazia questão de ouvir atentamente cada um, chamando-o pelo nome, sabendo onde morava e a que família pertencia.  Ele foi o que se pode chamar “médico da nossa família”.

Que bom, Dr. Hermes, termos a felicidade de prestar-lhe esta homenagem pelos seus 98 anos de vida.
Que bom termos tido o sr. cuidando da nossa saúde.  A sua relação médico-paciente, a sua atenção e o seu respeito só nos inspiravam confiança total.  É por isso que continuamos cultivando pelo senhor um especial carinho.
O senhor merece todas as honras.

Na própria Bíblia encontramos uma ordem divina: “honra o médico porque dele necessitas; também ele foi criado por Deus (Eclo 38, 1).

Muitos enfermos que o senhor tirou do leito de dor, com certeza, deveu-se ao fato de eles terem fé em Deus e confiança no senhor, que não examinava apenas o físico, mas levava em conta, também, as emoções.

Que bom seria se o seu exemplo servisse para inspirar e modificar as atitudes de tantos médicos de hoje que nem olham na cara do paciente, apenas perguntam: “o que você está sentindo?” Nem esperam que ele diga o que sente, já passam uma meia dúzia de remédios que nada têm a ver com a doença, além de não servir, às vezes, até prejudicam a saúde.

Conte com nossas orações, Dr. Hermes, o sr. merece.
Agradecemos a Deus pela sua existência. Ele utilizou o senhor para realizar muitas curas.

Agradecemos, também, ao sr. pelas muitas vezes que nos assistiu, nos fortalecendo e nos curando das nossas enfermidades.

Que Deus o proteja hoje e sempre para que tenhamos oportunidade de prestar-lhe outras homenagens.

Carinhosamente, seus amigos"

 

 

BIOGRAFIA

Dr. Hermes de Sousa Canto

Filho de Manoel de Sousa Canto e Capitulina de Sousa Canto, dr. Hermes encontra sua vocação no interior do Estado na prática diária, exercendo a nobre função de médico de família que hoje foi resgatado, na busca do tempo perdido.

Natural do Recife, onde nasceu em 31 de março de1910, lá poderia ter exercido a profissão. Preferiu o mais difícil, deslocando-se para o sertão pernambucano, a fim de assistir uma população carente de recursos e assistência.

Cursou primário em Floresta dos Leões - Carpina - e o secundário na capital pernambucana, matriculando-se no Instituto Carneiro Leão, cursando depois no Ginásio Pernambucano. O ginasial foi concluído no Ginásio Osvaldo Cruz.

Em 1930 se matriculou no Tiro de Guerra 216 do Ginásio Pernambucano, saindo como reservista do Exército.
Entrou na Faculdade de Medicina de Pernambuco em 1933 após se submeter a exame vestibular, colando grau em oito de dezembro de 1938.

Membro da Sociedade Acadêmica de Medicina e interno do Hospital D. Pedro II - Serviço de Clínica Médica do Professor João Amorim. Prestou serviços, ainda, como acadêmico, no Hospital de Pronto-Socorro.

Em 20 de dezembro de 1938, dias após a formatura, dirigiu-se para o distrito de Espírito Santo (Tabira), que pertencia a Afogados da Ingazeira, onde iniciou suas atividades profissionais, permanecendo lá por três anos.

Em 1941 foi para Afogados da Ingazeira onde atuou como médico da Rede Ferroviária Federal, do Posto de Higiene, da Legião Brasileira de Assistência e da Empresa Construtora Camilo Collier. Nesse período passou três meses na cidade de São Caetano-PE como médico da Rede Ferroviária Federal e da Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários.

Voltou para Afogados quando, em 20 de outubro de 1945, contraiu matrimônio com a jovem Terezinha Veras, filha de seu Guardiato e de dona Tetê. O casal teve três filhos: Vânia, Luciano e Hermes Jr.

Essa união teve um lance interessante: por não ser bem visto pelos pais de dona Terezinha, em virtude da grande diferença de idade, o casamento foi realizado em Tabira. Dona Terezinha disse, também, que só estavam presentes ao nupcial seus padrinhos Helvécio Lima/Dona Maria.

Durante a Segunda Grande Guerra, deslocou-se para o Hospital Militar do Recife, estagiando como Aspirante, sendo promovido a 2ª tenente-médico da reserva do Exército.

Prestou serviço durante vários anos ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Afogados da Ingazeira. Teve convênios para assistência médica com a CASSI (Banco do Brasil), IPSEP, INSS.

Em dois de junho de 1959, a Câmara de Vereadores, por proposta do edil Gastão Cerquinha da Fonseca, outorgou-lhe o título de Cidadão Honorário do Município de Afogados da Ingazeira. Mesmo título recebido do Município de Tabira.

Prestou assistência não só a Afogados, mas às cidades e distritos circunvizinhos: Tabira, Ingazeira, Solidão, Tuparetama, São José do Egito, Iguaracy, Jabitacá, Irajaí, Carnaíba, Lagoa da Cruz e Quixaba. Atendia, também, as populações de cidades e distritos da Paraíba: Água Branca, Imaculada, Princesa Isabel, Tavares e Barra.

Teve o reconhecimento da população assistida, sendo eleito Primeiro Prefeito Constitucional de Afogados da Ingazeira, no quadriênio 1947/1951.

Atuou como médico do Hospital e Maternidade Emília Câmara desde a sua fundação até o ano de 1977, quando se aposentou pelo Estado de Pernambuco. Foi membro atuante do Lions Clube.

Em 18/10/1997, em solenidade no auditório da Sociedade de Medicina de Pernambuco, para comemorar o dia do médico, recebeu a “Medalha São Lucas”. Homenageado, também, no Circuito do Forró no Clube Internacional do Recife, pelo exemplo de Vida, Humanidade e Competência, em 12 de abril de 2003.

Dr. Hermes de Sousa Canto, um pioneiro, encontra-se, devido à idade - 98 anos - com a saúde um pouco debilitada. Continua residindo em Afogados da Ingazeira, não mais exercendo a medicina.

Sua fiel companheira/esposa dona Terezinha Veras permanece ao seu lado cuidando para que ele desfrute de uma velhice saudável.


 

 

TRANSCRITO DA PRESTAÇÃO DE CONTAS, QUANDO DO FINAL DO MANDATO (1947/1951), DO PRIMEIRO PREFEITO CONSTITUCIONAL DE AFOGADOS DA INGAZEIRA, DR. HERMES CANTO

 

MENSAGEM À CÂMARA MUNICIPAL

DISCURSO

AFOGADOS DA INGAZEIRA – 1951

 

Exmo. Senhor Presidente

Senhores Vereadores

Ao comparecer à última sessão do ano desta Câmara, em obediência a um dispositivo constitucional, venho pela última vez apresentar a minha mensagem, expondo as atividades de nossa administração desde o ano de 1948 até esta data. Temos a satisfação de dizer ao público que todo município foi beneficiado pela nossa gestão. Não ficamos a olhar somente para a sede, mas fomos atender as necessidades dos mais longínquos distritos que fazem parte de Afogados da Ingazeira, distritos esses que alguns administradores anteriores, abandonaram e esqueceram. Lamentável é que aqueles que fazem crítica apaixonada não percorram mesmo em uma visita rápida os distritos que receberam das nossas mãos os benefícios de que careciam, e a opacidade dos seus olhos cansados não lhes permitam enxergar.

Como encontramos o Município e o que realizamos

 

Exercício de 1948

Assumimos a direção do Município encontrando em cofre a importância de Cr$ 82.889,80 (oitenta e dois mil oitocentos e oitenta e nove cruzeiros e oitenta centavos), sendo em vales a escriturar Cr$ 57.679,80 (cinqüenta e sete mil seiscentos e setenta e nove cruzeiros e oitenta centavos), e o restante em dinheiro Cr$ 25.210,00 (vinte e cinco mil e duzentos e dez cruzeiros).

Decorridos 14 meses de governo, apesar das realizações enumeradas abaixo, ficamos em cofre com Cr$ 91.252,90 (noventa e um mil duzentos e cinqüenta e dois cruzeiros e noventa centavos).

Encontramos vários débitos das administrações anteriores. Débitos elevados que foram saldados. Com um orçamento de Cr$ 450.000,00 (quatrocentos e cinqüenta mil cruzeiros) e a arrecadação de Cr$ 640.970,10 (seiscentos e quarenta mil novecentos e setenta cruzeiros e dez centavos) foi, sobretudo auspiciosa, a importância arrecadada. O desmembramento do distrito de Tabira, arrastando mais três distritos do município, redundou em sensível abalo no orçamento previsto.

[A seguir, o Senhor Prefeito prestou contas das suas realizações, inclusive nos distritos. Enumeramos algumas]:

[(Registrados benefícios - discriminados no documento - em Tuparetama (Cr$ 7.251,20), Tabira (Cr$ 33.290,50), Irajaí
(Cr$ 8.464,60), Iguaracy (Cr$ 14.298,00), Solidão
(Cr$ 1.050,00) e Ingazeira (pequena importância)];

Educação – Dispêndio com as escolas municipais (professorado e quadro subvencionado), criação de novas cadeiras, Cr$ 131.095,00;

Logradouros Públicos – Construção da Avenida Rio Branco, com uma série de canteiros, bancos e posteação:
Cr$ 53.307,60;

Pavimentação da Avenida Rio Branco e meio-fio:
Cr$ 87.479,20

 

Exercício de 1949

[Registrados benefícios – discriminados - em Iguaracy
(Cr$ 9.500,00) e Irajaí (Cr$ 1.400,00)].

Pavimentação – Continuamos o serviço de pavimentação da Avenida Rio Branco: Cr$ 121.275,00;

Praça Pe. Carlos Cottart – Assentamento do meio-fio. É uma praça de forma triangular, com iluminação fluorescente e lateral de cores variadas dispostas no meio-fio. As despesas com a construção orçam em Cr$ 16.973,00;

Indenizações – Foram elevadas, atingindo a soma
de Cr$ 28.750,00.

- Aquisição de um terreno para um campo de aviação,
Cr$ 1.350,00

- Terreno indenizado ao senhor João Teixeira para o alargamento da Avenida Manoel Borba, Cr$ 1.400,00

- Demolição de um dos prédios do distrito de Iguaracy,
Cr$ 9.500,00

- Do prédio pertencente aos herdeiros do senhor Bitu, na Avenida da Estação, Cr$ 9.000,00 (que ficava ao lado da Igreja Presbiteriana, para alargamento da Av. Artur Padilha)

- Aquisição de um terreno para construção do Aeroclube, Cr$ 7.500,00.

Estradas de rodagem – Empregamos uma máquina motoniveladora que muito facilitou nossa tarefa. As despesas com os serviços de reparos de estradas atingiram a importância de Cr$ 52.286,00

Educação Pública – Dispêndio com as Escolas do Município, Cr$ 80.820,00.

Móveis – Adquiridos para a Câmara Municipal, Cr$ 3.300,00.

Situação Financeira – 1949

Receita, Cr$ 674.938,80

Despesas, Cr$ 551.255,20

 

Exercício de 1950

[(Registrados benefícios – discriminados - em Irajaí
(Cr$ 2.100,00)].

Pavimentação – Como complemento da pavimentação da Avenida Rio Branco despendemos a importância de
Cr$ 79.191.70;

Praça Domingos Teotônio – A pavimentação de grande área dessa praça importou Cr$ 61.160,00;

Praça Pe. Carlos Cottart – Como complemento dessa praça, construindo canteiros em prosseguimento ainda despendemos a importância de Cr$ 1.830,00;

Saúde Pública – Serviço dentário do Posto de Higiene – para criação do serviço de assistência dentária municipal despendemos a importância de Cr$ 5.065,50;

Serviço de utilidade pública – Conservação de estradas do município, Cr$ 47.282,00;

Educação – Escolas Municipais (quadro e subvencionadas), Cr$ 90.528,00;

Diferença de subsídio de Vereadores e Vencimentos do Funcionalismo -

As despesas se elevaram com a diferença de subsídio de vereadores, que atingiu a quantia de Cr$ 36.000,00.

E o aumento dos vencimentos do funcionalismo,
Cr$ 27.000,00

Abono de Natal – Concedida ao funcionalismo municipal, atingindo a importância de Cr$ 8.195,00.

Situação Financeira – 1950

Arrecadamos Cr$ 925.627,90, Receita Geral, contra a Despesa Orçamentária e extraordinária de Cr$ 962.087,90, verificando-se um saldo financeiro de Cr$ 95.794,10, inclusive saldo do ano anterior.

 

Exercício de 1951 (janeiro a agosto)

[(Registrados benefícios – discriminados - em Jabitacá
(Cr$ 32.000,00), Iguaracy (Cr$ 14.019,00), além de pleitear, junto ao governo estadual, a construção da estrada para Lagoa da Cruz)].

Educação Pública – Escolas Municipais do quadro e subvencionadas, Cr$ 84.873,50;

Serviço de Utilidade Pública – Conservação das rodovias do Município, Cr$ 58.247,50;

Pavimentação – Serviço de pavimentação das praças Domingos Teotônio ( praça Mons. Alfredo de Arruda Câmara) e Carlos Cottart Cr$ 80.000,00

Além desses serviços apresentados, contam-se os iniciados recentemente e que não poderão ser concluídos na nossa gestão.

Entre esses citamos a construção da Praça João Pessoa (praça de alimentação), cujas despesas até o momento atingem a importância de Cr$ 3.330,00. Mesmo assim, ainda pretendemos fazer o assentamento dos bancos da referida praça. A reforma do açougue público continua adiantada, porém não concluída, o que será feito dentro de alguns dias, antes de deixarmos a prefeitura. Fez-se limpeza geral do prédio, construção de tarimbas, reconstrução de salgadeira e novas portas estão sendo adaptadas ao prédio. As despesas orçam em Cr$ 7.356,00 (sete mil trezentos e cinqüenta e seis cruzeiros);

O Posto de Higiene Municipal sofreu limpeza geral e as despesas atingiram a importância de Cr$ 1.729,00
(mil setecentos e vinte e nove cruzeiros).

Serviço Dentário – Mais uma vez queremos frisar a importância e inestimável serviço de assistência dentária aos pobres que vem funcionando duas vezes por semana sob a direção de um dentista diplomado (Dr. Aloísio Arruda), desde maio de 1950.

Até 30 de setembro do corrente foram atendidas 1.042 pessoas: 181 do sexo masculino e 861 do sexo feminino. Foram feitas no mesmo período 1.426 extrações dentárias.

O Posto de Higiene desde que assumimos a prefeitura não deixou de atender a sua finalidade. Funcionando diariamente, vem atendendo a numerosas pessoas, mesmo casos de doenças que não interessam ao posto.

Desde o início de nossa administração até o dia 30 de setembro do ano em curso foram atendidas 28.135 doentes e outras pessoas.

Ao assumirmos a prefeitura, prometemos que trabalharíamos para estadualização do nosso Posto. A intensidade de seu movimento, e os dez anos que vem funcionando como posto de higiene municipal permitem que seja estadualizado. Tivemos entendimentos para esse fim com o Exmo. Sr. Dr. Agamenon Magalhães, governador do estado e com o Dr. Orlando Parahim, secretário de Saúde e Assistência. O governador do estado prometeu que no novo orçamento incluiria o posto deste município em 1952.

Maternidade de Afogados da Ingazeira – Para a construção da Maternidade, projeto apresentado na Câmara Federal pelo deputado Mons. Arruda Câmara, que causou entre nós geral simpatia pela lembrança e interesse do referido deputado por essa obra de elevada finalidade social a tornar-se realidade futuramente, providenciamos logo que recebemos a comunicação, entrando em entendimentos com o secretário de saúde e assistência Dr. Orlando Parahim para recebimento da verba de Cr$ 300.000,00 (trezentos mil cruzeiros) mediante procuração no Ministério de Educação e Saúde.

 

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EXMO. SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA DE VEREADORES

Senhores Vereadores

Ao terminar a leitura desta mensagem em que presto conta ao povo de Afogados da Ingazeira, representado nesta casa pelos ilustres e dignos vereadores que compõem a Câmara Municipal, eu não posso sopitar a minha satisfação por que creio haver cumprido meu dever, e correspondido à confiança do eleitorado livre que me elegeu.

Senhores Vereadores, candidato pelo Partido Social Democrático, em um pleito disputadíssimo, onde a exaltação dos partidos políticos gerava a odiosidade no seio do eleitorado, aceitei, depois de muita relutância a inclusão do meu nome como candidato a Prefeito do Município. Nunca fora político e nunca exercera cargo político.

Estava receoso de não poder satisfazer a corrente que me apresentava como candidato, habituado que estava com a minha independência, homem de atitudes, livre e indiferente a certas pretensões próprias dos políticos.

Esse temor desapareceu, quando com a minha franqueza externei aos dirigentes do partido as condições de candidato. Agir com independência.

Aceitas que foram as condições impostas, a inclusão do meu nome trouxe a vitória ao Partido Social Democrático. Tive então a feliz incumbência de durante quatro anos vir dirigir os destinos desta terra. Radicado ao solo sertanejo, com 13 anos de residência no município, não sendo indiferente aos costumes da região inúmeras vezes chicoteada pela rigorosa estiagem, conhecendo os hábitos do povo em contacto permanente com a população em todas as camadas sociais, onde era conduzido pelo dever profissional, eu soube, desta maneira, conhecer a vida de sacrifício e de tantas canseiras do povo sertanejo. Senti-me preso à terra, e como um seu filho, assumi o compromisso íntimo de trabalhar para engrandecê-la.

Há dez anos, observava eu a chegada a esta cidade de um jovem bacharel em direito, nomeado pelo governo do Estado para exercer o cargo de prefeito do município de Afogados da Ingazeira. Naquela época era insignificante o orçamento Municipal. Dinâmico, com espírito de iniciativa a toda prova, Reginaldo Martins, sem alarde, comprimia as despesas excessivas, assentava meio-fio na Praça Domingos Teotônio; construía com auxílio do governo o Matadouro, edificava a Cadeia Pública, e instalava, inaugurando logo após, o Posto Municipal de Higiene. Em pouco tempo de administração, deixou seu nome na galeria dos grandes prefeitos e sua obra para que outros seguissem o seu exemplo.

A iniciativa de progresso de Afogados partiu desse prefeito que agora vem sendo ampliada pelos seus sucessores. Segui-o nesse exemplo.

Baltazar de Oliveira, que por algum tempo foi prefeito deste Município, deixou seu nome ligado a esta terra pelos benefícios realizados. Trabalhou na sede e nos distritos. O mobiliário escolar foi renovado. Construiu o prédio do Posto de Higiene Municipal, as Escolas Reunidas de Tabira em prédio próprio, etc. Os outros sucessores foram homens trabalhadores, governando em período agitado de política, efemeramente.

Ao tomar posse do cargo para o qual fora eleito, eu não levava planos de administração. Focalizei apenas os principais pontos que iria pôr em execução. Figurava em primeiro ponto a pavimentação da cidade, de suas praças principais e avenidas. Foram feitos dez mil, quinhentos e trinta e seis metros de calçamento. Entretanto, na mensagem que acabo de ler além da pavimentação da cidade, existem inúmeros outros melhoramentos feitos na sede e nos distritos. Eles aí estão desafiando o olhar dos críticos apaixonados, dos críticos desonestos, dos que só vêem a pavimentação como melhoramento feito por mim.

Senhores Vereadores, recordo-me bem de quando vos dirigi à palavra no ato de nossa posse, de que a política não entravaria nossa administração, que entre vós estavam incluídas pessoas que muito me mereciam. E, hoje, senhores Vereadores, nesta despedida que faço à Câmara, reafirmo aquilo que disse anteriormente. Se não fora a vossa cooperação leal e valiosa, eu não terminaria o meu mandato sem empecilhos. Não surgiram à nossa frente obstáculos criados por vós, capazes de prejudicar a nossa administração. Os insignificantes mal entendidos porventura surgidos desapareceram e, de nossa parte, os consideramos esquecidos.

Senhores Vereadores, nem todos os projetos puderam ser executados, ora a falta de numerário ou a exigüidade de tempo. Não só o município deixou de cumpri-los. Inúmeros projetos adormecem nas mãos do Governador do Estado e não são executados por motivos superiores, muitos deles vão entrar em execução em outras administrações. Durante quatro anos de administração estou convicto de que não pude satisfazer a certos interesses, prejudiciais à minha honestidade e à administração municipal. Sempre desejei deixar a prefeitura sem peso na consciência, olhando firme para frente e com as mãos limpas.

Estou grato a todos que não procuraram criar embaraços à minha administração. Agradeço aos meus adversários políticos que se manifestaram satisfeitos com a minha gestão na Prefeitura Municipal. Há, entre eles, cidadãos por quem tenho verdadeira admiração, e esse registro eu o faço na certeza de que Afogados da Ingazeira marcharia vitorioso dirigido por homens como esses.

Senhores Vereadores, neste último contacto que tenho convosco, trabalhando em conjunto pelo progresso desta terra, quando desapareceram os ressentimentos políticos com a pacificação do Município, eu vos faço um apelo, sobretudo dirigindo aos vereadores reeleitos, para que mantenham maior aproximação com o novo edil, nosso candidato, cooperando com a sua administração e participando do crescente soerguimento dos Afogados da Ingazeira.

Afogados da Ingazeira, 08 de outubro de 1951

Hermes de Souza Canto – PREFEITO

 

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