
(1914/1979)
O engenheiro Diógenes nasceu no sítio Coruja, em Iguaracy, então distrito de Afogados da Ingazeira, em dezembro de 1914. Filho de Nozinho Câmara, ex-prefeito da nossa cidade, tinha oito irmãos (cinco mulheres e três homens).
Ele disse, em entrevista, que o primeiro presente recebido do pai foi um revólver Schimidt-Wesson e um punhal, para a sua defesa. Seu pai, irmão de Mons. Alfredo de Arruda Câmara, era ateu.
Ingressando, com apenas 20 ano (1934) no Partido Comunista do Brasil, militou em suas fileiras durante mais de quarenta e cinco anos. Sua iniciação no comunismo, foi através de um primo estudante de medicina.
Considerava a Bahia sua segunda terra. Ali chegou muito jovem, com 19 anos de idade, e ficou de dezembro de 1934 a princípio de 1941.
Membro da direção central do Partido Comunista do Brasil desde 1943 ocupou cargos da maior relevância e responsabilidade dentro da organização. Eleito deputado federal por São Paulo, atuou no Congresso Nacional de 1947 a 1952.
Conhecido nacionalmente gozava de largo prestígio internacional no movimento marxista-leninista. Após a reorganização do Partido Comunista do Brasil, em 1962, colocou-se sempre ao lado dos que defendiam conseqüentemente a continuidade e a política proletária revolucionária da antiga organização de vanguarda da classe operária.
O escritor Jorge Amado foi grande amigo de Diógenes, a quem dedicou o livro “Subterrâneos da Liberdade”, de sua autoria.
Preso em 11 de novembro de 1969, quando se abatia o terror fascista sobre a nossa pátria, até 22 de março de 1972, Diógenes enfrentou durante mais de dois anos, com grande firmeza e dignidade exemplar, seus algozes do DOI-CODI e do DOPS de São Paulo, sem lhes prestar quaisquer informações, por mais bárbaras tivessem sido as torturas a que foi submetido e que terminaram por arruinar-lhe seriamente a saúde.
Saiu do Brasil porque estava muito doente. Foi solto, provavelmente por isso. Quando saiu foi à Argentina e daí ao Chile para conseguir documentos. Dirigiu-se à França, quando foi ao médico que concluiu que ele estava doente do coração e tuberculoso dos dois pulmões, além de problemas na visão. Tinha de se submeter a cirurgias para se recuperar. Retornou ao Chile, realizando as operações em Santiago.
Ele já havia sido preso em 1937, com o golpe do Estado Novo, passando 03 meses na prisão. Foi preso novamente em 1940, quando ficou incomunicável, sendo torturado por 02 meses. Posteriormente ficou incomunicável mais 08 meses por se negar a prestar depoimento. Foi solto um ano e dois meses depois por um Habeas Corpus. Quando suplente de deputado, em fins de 1945, mais uma vez encarcerado por um dia e uma noite.
O Partido Comunista entrou na ilegalidade em 08 de maio de 1947
Diógenes esteve no exílio (entre Santiago do Chile e Paris) durante mais de sete anos. Retornando ao país, no final de setembro de 1979, realizou intensa atividade política unitária, democrática, proletária e comunista, em meio à qual a morte o colheu, no dia 25 de novembro daquele ano. Iria completar 65 anos de vida no mês seguinte.
O exemplo de sua militância e o que deixou escrito, como os artigos do livro “A Educação Revolucionária do Comunista”, hão de servir de fator de educação às novas gerações que militam no movimento democrático e patriótico e para a luta da classe operária visando o socialismo.
“Marcas de Tortura: Em carta datada de 1969, Diógenes Arruda Câmara (com 55 anos), preso em São Paulo naquele mesmo ano, relata as conseqüências sobre a sua saúde das sevícias que sofrera: (...) foi quando, no início da madrugada, tive a primeira crise cardíaca. Deixaram-me em completo repouso durante o dia, uma noite e um dia, enquanto enfermeiros da Polícia Militar e do II Exército me davam injeções. Já então, quase não podia andar; duas pessoas tinham que me levantar, agarrava-me com as mãos nas paredes e arrastava lentamente as pernas. (...). Este era o meu estado físico: não podia me levantar, nem podia andar; hematoma generalizado dos ombros e costas até os dedos dos pés, inclusive os braços e as mãos, que ficaram quase pretas, saindo uma espécie de salmoura debaixo das unhas e das linhas de cada mão; ou ouvidos inflamados; uma costela do lado esquerdo, fraturada; o rim direito, afetado; a perna direita com vários ligamentos da coxa rompidos, inclusive o joelho com o menisco fraturado, o que me deixou semiparalítico por mais de dois meses.”
É dele o pensamento de que “ser comunista é uma opção cotidiana, para que se possa transformar o cotidiano de medo, de indignação e de sofrimento desta Pátria num cotidiano de alegria, de dignidade e de felicidade de um Brasil livre, soberano e socialista.”

TEREZA COSTA RÊGO
(companheira de Diógenes Arruda)
Texto:Joana Rozowykwiat //
Foto: Passarinho
Tereza Costa Rêgo nasceu no Recife, mas adotou Olinda. Além de morar na cidade, ela pinta o cenário que vê da sua janela, na Rua do Amparo, e dos muitos recantos da Cidade Alta. Filha de uma família tradicional da aristocracia rural, teve educação rígida e repressora. Era a única menina, entre seus quatro irmãos. Mas aprendeu a ser forte e independente. Rebelou-se contra o estigma de “bonequinha que enfeita o piano na sala de visitas” e, hoje, coloca pra fora, por meio de sua arte, tudo que guardava calada.
Começou a pintar ainda criança e ingressou na Escola de Belas Artes aos 15 anos. Ficou casada por 14 anos e teve duas filhas. Durante este período, começou a trabalhar melhor sua relação com o pincel e ganhou três prêmios do Museu do Estado e outro da Sociedade de Arte Moderna. A liberdade que não chegara a ter em casa, colocava em suas telas. Em 1962, realizou a primeira grande exposição, na Editora Nacional.
No mesmo ano, Tereza envolveu-se com Diógenes Arruda, dirigente do Partido Comunista. Começou um romance arrebatador, que a levou a fugir da cidade, deixando para trás o casamento falido. Era tempo de tradicionalismos e formalidades. Recife era regida por convenções, e mulher que largava marido não merecia perdão.
Em São Paulo, por motivos políticos, viveu na clandestinidade até 1969, quando seu companheiro foi preso. Até então, Tereza não podia trabalhar. Aproveitou para estudar. Formou-se em História, na USP. Foi uma época de muita angústia. Diógenes foi torturado e a todo instante chegavam notícias aterradoras. Depois passou a dar aulas de História para vestibulandos e a trabalhar como paisagista em um escritório de planejamento. Enfim, em 1972, Arruda foi libertado. O casal seguiu, então, exilado para o Chile. Não tardou, no entanto, a chegada do Golpe, que obrigou Diógenes, novamente, a se mudar.
Tereza e seu companheiro foram para Paris, onde passaram seis anos. Afastada das filhas, dos irmãos, a artista abandonou um pouco a própria vida, para ser a mulher do líder comunista. Mas em momento algum parou de pintar. Expôs seus quadros, assinando com o nome de Joanna. Fez doutorado em História, na Escola de Altos Estudos da Sorbone. Sua tese de conclusão relatava a história do proletariado brasileiro.
De volta ao Brasil, em 1979, Tereza sonhava reconstruir sua vida. Mas, depois de tantas tristezas, torturas, exilado de sua Nação, Diógenes não resistiu à chegada. Morreu de ataque cardíaco, deixando Tereza sem chão. Era preciso resgatar o que havia ficado para trás e decidir, então, seu destino. O acaso já havia resolvido coisas demais. Passara muito tempo vivendo a história de outras pessoas. Tereza trataria, agora, de escrever, em tintas, a sua.
Firmou-se como artista plástica de destaque em Pernambuco. Comprou uma casa em Olinda, onde mora e pinta. Fez mestrado em História na UFPE e começou a trabalhar na Prefeitura de Olinda. Foi diretora do Museu Regional e, por 12 anos, do Museu do Estado. Fez várias exposições, no Estado e fora dele, exprimindo suas idéias em muito vermelho.
Recentemente, inaugurou uma nova mostra, chamada O Imaginário do Bordel - O Parto do Porto, reunindo 40 obras que tratam de forma poética da vida noturna no Bairro do Recife, na década de 50. Depois de três anos sem expor, a artista fez, agora, uma espécie de retrospectiva de seu trabalho. Pinturas de várias épocas e estágios foram reunidas sob um mesmo tema, comprovando o interesse recorrente de Tereza pelas mulheres, marinheiros, cais e cabarés do Recife Velho.
De acordo com Raimundo Carrero, que escreve um dos textos de seu catálogo, os trabalhos da artista são sempre desenvolvidos sob um olhar crítico. As imagens não são tratadas de forma meramente plástica ou informativa.
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