AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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Mãe-Ina

AS PESSOAS

 

FIGURAS POPULARES

Severina Maria da Conceição (Mãe-Ina)

“Com a face repleta de rugas, a fala mórbida, porém demonstrando pouca lucidez, sobrevive nesta cidade a anciã Severina Maria da Conceição, a velha “Mãe-Ina”, como é mais conhecida.

Senhora mais idosa identificada pelo censo em Pernambuco: 127 anos. Apesar da idade, nunca conseguiu se casar, e isto pouco lhe preocupa. Viver sozinha, recolhida em um quarto escuro cantando, prosando, rindo e pedindo a Deus para que abrevie seu dia da morte.

Filha de escravos, conservando a cor escura da raça, cabelos grisalhos e com sangue sertanejo, dona Severina Maria da Conceição nasceu no município de Bonito. Por volta de 1890, trazida pela escrava Maria Cândido (Mãe Canja), responsável pela sua criação, pisou o solo seco de Afogados da Ingazeira, enfrentando o batente da vida como lavadeira e engomadeira. Depois aprendeu a cozinhar e tornou-se uma das melhores do Sertão.

Educada num sistema fechado para a classe dos negros, conservou sua pureza até hoje. Lutadora da vida, nunca saiu da pobreza, e em Afogados conseguiu boas amizades, principalmente com pessoas ligadas ao governo. Apaixonou-se por Afogados da Ingazeira, e da sua vida rude guarda muitas recordações, principalmente da fase histórica do capitão Virgulino – o Lampião. Com 127 anos, tem tino perfeito, olhos vivos e um corpo sofrendo a punição dos anos.

Quase não anda, porém fala com muita lucidez, ainda, e tem discernimento. Oficialmente, sua idade (127 anos) não foi confirmada. Porém o Sr. Osvaldo Silva, homem criado muito tempo pela velha, afirma “pelos cálculos que já fizemos desde a libertação dos escravos em 1888, acredito que chega uma faixa de 126 a 127 anos”. Nos últimos dias “Mãe-Ina” vem sendo assistida por dona Antonia Figueiredo da Silva, que, inclusive mora na sua própria residência.

POESIAS

Desde a sua mocidade sempre apreciou a poesia e, nas horas vagas, gostava também de criar seus versos. Hoje, embora punida pelo peso da idade, vez por outra faz suas poesias desconexas e sem rima. Fuma cachimbo, usa colar e gosta de rir. Desesperada, pede ao Criador pra morrer, argumentando que já deu muito trabalho à família. Não gosta, entretanto, de visitas, pois segundo Antonia Figueiredo, acha-se abatida pela idade. Segundo declarações de moradores que residem vizinho à sua moradia, dona Severina era mulher muito braba, no tempo em que gozava de plena saúde, aqui, em Afogados. “Os meninos que brincavam nesta rua (Henrique Dias) e começavam a subir nos tamarineiros e castanhais ela, com uma vara, botava todos pra correr e ficava de tocaia esperando-os. Todo garoto tinha medo dela”.

Recentemente a velhinha teve seu santo devoto – São José – roubado. Isso concorreu bastante para que sofresse uma forte recaída de dores reumáticas. Quando lembram seu santo, começa a chorar, “pois ele era meu protetor a quem queria muito bem”, disse.

NOIVA

Guardando traços culturais de uma região onde predomina a pureza no sexo, o Sertão – onde o casamento é obrigatório para servir de ordem para os pais de mentalidade arcaica, “Mãe-Ina” não concretizou o sonho de todas as moças matutas do Sertão: casar-se. Todavia, em 1870 chegou a colocar a aliança na mão direita com um negro escravo conhecido por “Sebastião”. Depois de tantos planos, o noivado não deu certo e ela teve que aceitar a realidade: acabou o noivado, seguindo a vida rudimentar de lavadeira. Depois aprendeu a cozinhar e, segundo Antonia Figueiredo, “era uma das melhores cozinheiras que já vi em minha vida”.

Escura, um pouco suja e muito pobre, a residência de Severina Conceição fica localizada à Rua Henrique Dias, nº 160, no centro de Afogados da Ingazeira. Na sala há inúmeros quadros de santos e imagens de ídolos. Do tempo da escravidão conseguiu, com muito esforço, um bule que hoje conta com uma idade de 110 anos. Entretanto, esse único objeto histórico não se pode mais observar em sua casa: ela ofertou ao museu histórico do Mobral, em Afogados da Ingazeira.

Falando da morte, disse a velhinha escrava, em estilo de prosa: “Zombo detrás da morte no mesmo leito da dor”. E acrescentou: “Não tenho medo da morte. Já pedi a Deus pra morrer, mas até agora não fui atendida. Não adianta levar a vida que levo, sem sair de casa, trancada neste quarto, feito bicho”.

Na verdade, “Mãe-Ina” nos últimos dias, tem demonstrado abatimento. Vive o dia em cima de uma cama. Não sabe o que é dia santo nem feriado. Quando recebe uma visita e alguém pergunta seu nome, responde: Severina, Severina desvalida. E começa a chorar”.

Agradecemos a colaboração de Socorrinho Véras que nos cedeu o recorte do Diário de Pernambuco. Reportagem da déc. de 70 do séc. passado do correspondente Magno Martins.

 

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