AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje

AFOGADOS DA INGAZEIRA “MEMÓRIAS”
2ª Edição

 

PREÂMBULO

Não se poderia contar a história da Freguesia de São José da Ingazeira, até Afogados, sem mencionar o arquiteto e padre Carlos Adriano Maximino Cottart. Religioso que nascido em São Quintino, França, em 5 de março de 1868, chegou ao Brasil no Natal de 1902. Dois anos depois - em 1904 - retornou ao seu país, vindo, definitivamente para o Brasil em 1909.
Afogados da Ingazeira o recebeu numa bela manhã de 19 de abril de 1910 - quando ele contava 42 anos -, e onde permaneceu até o seu falecimento em 23 de dezembro de 1925, aos 57 anos de idade e 15 de convivio com o nosso povo.

Décimo vigário de Afogados da Ingazeira e o mais notável pela obra de instruir crianças como pregador, além de capacitado engenheiro arquiteto, esse europeu, intelectual deve ter sentido muito, em Afogados da Ingazeira, a ausência, naquela época, de pessoas de nível cultural próximo ao seu. Com raríssimas exceções não tinha como dialogar de igual para igual com a comunidade, pois eram pessoas rudes e mal educadas.

Não fosse o visionário padre, não teríamos, hoje, como contar a história de Afogados da Ingazeira, a partir da nossa terra-mãe – Ingazeira -, pois ele, vendo o estado deplorável em que se encontravam os Livros de Tombo da Freguesia de São José da Ingazeira, transcreveu-o para o Primeiro Livro de Tombo da paróquia do Senhor Bom Jesus dos Remédios os registros feitos pelos primeiros padres, seus antecessores. E todos os momentos importantes vividos na paróquia eram escritos por ele naquele Livro. Graças à visão e disponibilidade do Pe. Cottart, temos farto material de momentos vivido pelos nossos antepassados.


Conta a história...
Em 1584, no Tratado dos Índios do Brasil, o jesuíta Fernão Cardin registra que os índios Cariris – originários da Amazônia – foram os primeiros habitantes da nossa região. A sua história só pode ser conhecida positivamente a partir do século XVII, pois não existia, além de conjecturas, qualquer documento anterior que tratasse do assunto.
Frei Bernardo de Nantes, em seu catecismo, escrito na língua dos Cariris, refere-se a essa tradição quando explica aos índios: “Não acrediteis que saístes do grande Lago do Norte; essa tradição setentrional lhes é comum com os Parecis do Mato Grosso”.
Missionários e fazendeiros que empregaram Cariris domesticados disseram que eles eram bons guerreiros - terríveis nas guerras, adotavam a tática de correrias rápidas e tinham incontestável afoiteza. De estatura mediana, robustos, bronzeados, nariz grosso, cabeça larga, rosto redondo, usavam os cabelos pretos caindo sobre os ombros, mas não deixavam cobrir as orelhas. Viviam nus, mas usavam o "atilho" para cobrir as partes íntimas..
As mulheres eram altas, fortes e belas. Quando davam à luz, sujeitavam-se a jejum rigoroso. Os recém-nascidos, com nove a dez semanas de idade, eram mergulhados dentro da água, para se acostumar, desde cedo, a nadar.


Religião
Os Cariris obedeciam a chefes religiosos - Pajés -, a quem veneravam, e que se distinguia dos demais pelo corte de cabelo e pela unha do dedo polegar sempre comprida.


Modo de vida
A principal ocupação dos homens era a caça, distinguindo-se dos demais aqueles que conseguiam capturar o animal mais feroz, principalmente os tigres da fauna, os veados e os bois bravos que erravam por suas regiões no princípio da colonização.


Armas
Suas armas eram o machado de pedra com cabo comprido, o arco e azagaias ou armas de arremesso. Não dispunham de instrumento de ferro. Os arcos eram grandes e de madeira rígida; tendiam-se com nervos de tamanduá. Calçavam a madeira do arco com os pés, estando eles deitados no chão e com as duas mãos estiravam a corda. Faziam mira com acerto admirável. Também atiravam em pé.
Quando iam para a guerra (conflitos) adornavam-se com penas de aves - papagaios, araras, maracanãs - em volta da cintura, e sobre as cabeças fixavam, em pé, outras penas em forma de coroa.

Usavam outra arma - feita de madeira rija - que também servia para a plantação. Era achatada, larga, acabada em ponta pelas extremidades e o centro arredondado, inchado no meio. Usavam a correria rápida como tática de guerra. Guerreiros valorosos, até a afoiteza, eram temidos pelos Tupis do litoral que com um assombro instintivo os chamaram de Tapuias.

Os pajés se ocupavam com a proteção dos guerreiros, contra o espírito do mal. Imolavam aos seus deuses os prisioneiros de guerra, e as mulheres bebiam, misturado com água, o sangue das vítimas – tradição cruel dos antigos Fenícios.


Agricultura
O cuidado com as crianças e idosos, o preparo dos alimentos e o roçado, além da colheita de frutas e legumes encontrados nas matas, eram atribuições das mulheres. Não tendo instrumento de ferro para preparar o terreno, colocavam fogo nas árvores para derrubá-las. Queimavam as ervas e, com o instrumento mencionado acima, cavavam a terra para realizar o plantio. Porém, nada recolhiam com o interesse de conservar. Quando havia escassez de caça e outros alimentos, mudavam de lugar num raio de até três léguas.
Potes e vasos de barro grossos, por eles mesmos fabricados, e a rede para o repouso, era em que consistiam os utensílios da casa. Poucos móveis usavam. Foram encontrados numerosos fragmentos desses utensílios na serra de Santa Isabel (riacho da Conceição), num lugar pedregoso chamado Canela da Ema, no lugar onde morou até à morte o índio Caboclo Bravo.
Os Cariris davam preferência ao plantio do tabaco, usado como fator primordial nas cerimônias religiosas. Badzé era o deus do fumo.

Conheciam o algodão, teciam suas redes e sabiam fiar o caroá. Plantavam o milho e sabiam preparar a farinha de xiquexique; ignoravam a mandioca. Alimentavam-se em suas correrias com o produto das suas caças, da pesca e frutas silvestres.


Costumes
Os velhos eram venerados e, quando morriam, tinham o costume de sepultá-los dobrados em urnas, em forma de jarra de terra-vita, enterrando-os nas alturas, às vezes de acesso dificílimo. Disso temos, por exemplo, a serra de Santa Isabel bem como a serra da Canastra, onde existe um ossuário notável.


Língua
Os índios falavam a língua dos Tupis, mas costumavam usar muitos sinais para se comunicar. Os nomes dos rios, das lagoas, dos pássaros, das árvores o demonstravam.
Escrita
Eles usavam um tipo de escrita como se pode observar em diversos lugares como na Pedra Pintada na Serra da Borborema, e aqui perto na povoação do Espírito Santo (Tabira), numa pedra furada, a qual se chega pelo leito do rio Pajeú. Essas Inscrições se assemelham à escrita Fenícia.


Evangelização e colonização
Penetraram no sertão através de dois caminhos. Pelo rio São Francisco - desde antes de1650 – pessoas da Bahia de São Salvador chegaram às margens do rio Moxotó e do Pajeú. Outras, chamadas Paulistas, como eram Domingos Affonso Mafrense e Domingos Jorge desceram o curso do mesmo Rio até sua nascente, depois avançaram para o sudeste, transpuseram a Serra dos Irmãos e se estabeleceram no Piauí.

Cedo ficou conhecida a passagem da Bahia para São Luiz do Maranhão, pelo Moxotó, até ganhar as águas do Rio Jaguaribe, cortando, depois, o Parnaíba.
Enquanto os jesuítas evangelizavam os índios mais próximos do litoral, os Carmelitas franceses foram os missionários dos Cariris do São Francisco. Esses índios eram aliados dos holandeses. Após a expulsão destes, os índios passaram a sofrer terrível perseguição por parte dos portugueses.

Pergunta-se: porque não vieram do Recife ou da Paraíba os colonos das terras dos Cariris?
Naquela época o Recife se encontrava em poder dos holandeses, e a Paraíba em luta contra franceses e holandeses; não era fácil o desenvolvimento pelo interior. Os holandeses chegaram até o início do planalto da Borborema e não ousaram penetrar adiante. Também não se aventuraram devido ao regime das águas, parando os aventureiros pelas nascentes do Capibaribe e do Ipojuca.

A barreira natural para que as guerras no litoral se tornassem por muito tempo infrangível é que o planalto da Borborema e seus prolongamentos até Pesqueira era uma linha divisória, mandando as águas a leste e ao norte para o Atlântico, enquanto que ao poente e ao sul, as mandava para o rio São Francisco.

Numa carta do governador de Pernambuco ao rei de Portugal, em 1700, ele diz: “A ‘Casa da Torre’, os herdeiros de Antônio Guedes de Brito e (do sertanista) Domingos Affonso Mafrense, moradores na jurisdição da Bahia, são senhores de quase todo o sertão de Pernambuco”.

Frei Martinho de Nantes, missionário francês, capuchinho da Casa do Recife,menciona a existência de um Antônio de Oliveira, estabelecido já em 1670 na nascente do Paraíba (Monteiro). Ele conseguiu dos índios Cariris, ali aldeados, autorização para se estabelecer e pastorear. Frei Martinho percorreu toda a zona da Borborema, até a fazenda desse Antônio de Oliveira. Descreve com espanto a natureza desolada e morte dos lugares atravessados em tempo de seca, tal qual o inverno europeu.

Somente depois de 1710, os índios autóctones não mortos foram pacificados. Nessa época a Ribeira do Pajeú era propriedade da Casa da Torre, opulenta família baiana.
Na Alagoa de Baixo (Sertânia) existem papéis assinados por Antônio Barbosa, procurador da Casa da Torre. Ele, que morava no Santo Antônio, andava com os livros de Tombo (registros) e dos Aforamentos dependurados no lombo do cavalo cobrando os dízimos ou os arrendamentos foreiros, ou vendendo em sesmarias. Essas sesmarias de três léguas começavam de Flores, Almas, Carnaíba, Barra dos Dois Riachos, Santiago, Santana até São Pedro.

A primeira sesmaria vendida aqui foi a de Santiago (século XVIII), adquirida por Euzébio da Gama, conhecido pelos antigos pelo nome de Marinheiro. Ele veio de Goiana (guerra dos mascates) e se casou com a filha do Visconde de Saboeiro que residia no Carcará, Ceará. O Marinheiro e seu primo Francisco de Paiva eram proprietários de toda esta zona das cabeceiras do Pajeú até as terras da sesmaria de Santana.

Anna, filha de Euzébio da Gama, se casou com Caetano Ferreira, um criador que veio de São Domingos (Vila Bela) e fixou residência em Dois Riachos. O velho Euzébio, homem trabalhador, e que teve uma numerosa família, morreu cego.

Os colonizadores baianos foram os primeiros a se estabelecer pelas margens do rio Pajeú. Os índios logo se identificaram com esses colonizadores. Nessa tarefa, a contribuição dos missionários foi de fundamental importância, pacificando-os e orientando-os no desenvolvimento da região, erguendo igrejas, capelas, cemitérios, casas, etc.

Em meados do século XVII, no desejo de evangelizar as pessoas de sua fazenda, Antônio de Oliveira, um dos primeiros proprietários de terra do lugar, dirigiu-se ao Convento da Penha, no Recife, para trazer missionários capuchinhos, sendo, então, Frei Theodosio de Lucé – provável primeiro missionário das cabeceiras do Pajeú - designado para esta missão, tendo ele percorrido o planalto da Borborema e a cabeceira do rio Pajeú.

Com a ocupação do Recife pelos flamengos - considerados hereges, por terem abraçado a religião protestante -, foram cortadas as relações da Capital com o Interior e a missão dos capuchinhos sofreu processo de continuidade, mas não impediu que os índios fossem catequizados.

A vila de Flores foi a primeira a prosperar à margem do rio Pajeú, graças ao valioso trabalho desenvolvido junto aos índios pelo missionário capuchinho Frei Caetano de Messina.

 

Movimento Religioso
O alto sertão, por longo tempo, foi administrado religiosamente pelos bispos de Olinda. A primeira sede de freguesia, no princípio do século XVIII, foi Garanhuns. Depois tivemos um vigário estabelecido em Cabrobó, no São Francisco. Mas, por questão de saúde, fixou residência no Pajeú de Flores. Com o tempo formaram-se as freguesias de Cabrobó e do Pajeú de Flores, desmembradas da de Garanhuns.


Serra da Colônia
Em 1830 a capela de Santo Antônio, da Colônia, já existia. O capelão frei Antônio José exercia o ministério em toda a ribeira. Na mesma época construiu-se uma capela na rica fazenda Ingazeira, em homenagem a São José, tendo como capelão o padre Mota que, algum tempo depois, mudou-se para a Colônia, vindo a falecer em 1850.


INGAZEIRA
“Situada na beira do Rio Pajeú, com terrenos excelentes, extensos, próprios para a agricultura, levemente ondulados, e, em redor, numa extensão de cinco a seis léguas, matas vivas, ricas em pastagens, próprias para a criação de gado. A Providência preparou esse lugar para habitação  dos homens. Ali, no meado do séc. XVII estiveram missionários capuchinhos vindos do convento da Penha do Recife, onde Antônio de Oliveira foi buscá-los para sua fazenda a fim de evangelizar os povos que o cercavam. Os missionários dessa na região sempre foram os capuchinhos do Recife.
No século XVIII – anos 1700 – ainda se via na povoação da Ingazeira a baraúna secular debaixo da qual se disse a primeira missa nessa região. Roída ao pé, desabou na passagem de um redemoinho em janeiro de 1911.
O fundador da Fazenda Ingazeira, Agostinho Nogueira de Carvalho - irmão de José Nicolau, estabelecido na Fazenda Cachoeira, Espírito Santo, da família cearense do Carcará - teve dois filhos: Agostinho e Iná. Esta se casou com o Cel. Francisco Miguel de Siqueira, que vindo de baixo era chefe político e alta personagem na localidade, porém maléfica por cobiça e orgulho.
Agostinho, fundador da Vila da Ingazeira, no ano de 1820 começou a construção de uma capela em homenagem a São José.

Em 29 de abril de 1836 foi criada a freguesia de São José da Ingazeira (Freguesia das Cabeceiras do Pajeú), desmembrada da de Flores, por decreto da Assembleia Legislativa Provincial de Pernambuco, assinado pelo deputado Francisco José Correia d’Albuquerque - cuja área se alongava da Serra da Carapuça, chegando a Buíque e São João do Cariri, pelo nascente, a Patos, pelo noroeste, e a Piancó, pelo norte.

A Capela, dedicada a São José, foi elevada à categoria de Igreja Matriz em 1836 e o Capelão Padre José Antônio Alves de Brito nomeado vigário, a título encomendado por um ano, por provisão datada do Palácio da Soledade (Olinda) em 04 de agosto de 1836 e assinada por Dom João da Purificação Marquez Perdigão, bispo de Pernambuco, do Conselho de sua Majestade Imperial.

A Igreja Matriz só foi concluída em 1849 pelo filho de Agostinho Nogueira de Carvalho à frente - em virtude do fundador da Ingazeira haver falecido em 1932 -, com a ajuda do Governo e da Província.

Anos depois, as paredes da frente do templo desabaram, sendo reedificado em 1890, graças aos esforços do Cel. Miguel do Amaral Padilha.

Através da Lei Provincial nº 23 de 9 de junho de 1836, foi criado o Distrito com a denominação de Ingazeira, subordinado ao município de Flores. Em 8 de novembro de 1836, existiam em toda a abrangência da freguesia 1 078 casas, 6 854 habitantes e       1 078 escravos.

O Cel. Francisco Miguel de Siqueira (provavelmente da Guarda Nacional), antigo chefe do Partido Conservador em Ingazeira, genro de Agostinho Nogueira de Carvalho, só tinha interesse na criação de animais, não queria que se construíssem casas na Ingazeira. Ele e seus homens (cangaceiros) tornaram o local inóspito. O padre José Antônio só permaneceu no lugar porque era de uma mansidão exagerada.

Era comum ocorrer cenas de violência nas festas da Igreja e isto desagradava às pessoas que para ali se dirigiam. Insatisfeitos com tal situação, as pessoas de São José do Egito mandaram construir uma capela em seus terrenos, fato que enfureceu o Coronel Francisco Miguel de Siqueira, tendo ele enviado seus homens - cangaceiros comandados pelo Adolfo Meia-Noite - para derrubarem o templo, mas ele foi refeito pela comunidade e mantido o mesmo padroeiro da matriz: São José.

A Lei Provincial nº 295 de 5 de maio de 1852, elevou Ingazeira à categoria de Vila, com território desmembrado do de Flores, passando a ser Distrito Sede em 7 de janeiro de 1853. Essa mesma alterou a toponímia de INGAZEIRA que passou a ser denominada AFOGADOS DA INGAZEIRA

Em 1859, frei Caetano passou missionando na Ingazeira e chamou o povo à reconciliação. Enterraram bacamartes, facas e todas as armas em um poço fundo e sobre eles ergueram um Cruzeiro nos fundos da Igreja.

A criação do Distrito de Ingazeira se deu pela Lei Provincial nº 1 028 de 21 de março de 1872.
Em 26 de maio de 1877, a Lei Provincial nº 1 260 criou a Comarca da Ingazeira.
O coronel Francisco Miguel sempre insultava os padres que se estabeleciam na Ingazeira. Em 23 de outubro de 1877 agrediu o padre João Vasco, na Igreja, que saiu da povoação, chorando. Por ser um homem injusto e soberbo, muitas vezes se opôs à construção de casas e desapossou, às vezes com crueldade, alguns pobres moradores. Isso comprometeu seriamente o desenvolvimento do lugar.

O padre João Vasco foi para o Recife entregando a Freguesia da Ingazeira ao capelão de Afogados padre Pedro de Souza Pereira. Somente um ano depois, em 21 de outubro de 1878, é que o padre Pedro assumiu a freguesia, porém continuava residindo em Afogados, pois tinha negócios materiais particulares e não gostava das famílias reinantes na Ingazeira. Assim, o bispo lhe autorizou a celebrar na matriz somente a cada 15 dias.

O coronel Francisco Miguel de Siqueira era tão prepotente que exigiu do Padre Pedro Pereira, último pároco da Ingazeira que lhe aguardasse para iniciar a missa porque havia chegado de viagem e necessitava descansar. Claro, o padre não o atendeu.
Os vigários não gostavam da Ingazeira, por causa da soberba das famílias ali reinantes. O chefe político ostentava muita grandeza, e diversos fatos demonstravam que tinha seu capricho por lei. A soberba e a prepotência, causa das injustiças e dos crimes, foram a origem da ruína da Ingazeira.

Houve outras tentativas para reanimar a povoação, mas, todas frustradas. A população, temerosa, se mudou para o Espírito Santo (Tabira), Bom Jesus (Tuparetama) e para a Vila de Afogados.

O escritor Ulisses Lins de Albuquerque, no seu livro Três Ribeiras, escreve que o Cel. Francisco Miguel de Siqueira - tido como homem violento -, com a prosperidade da povoação de Afogados mais do que a da Ingazeira, incorreu na sua ira, criando uma rivalidade entre as duas localidades.

Um dia, em 1878, saindo de Afogados, declarou que voltaria em breve para destruir aquela povoação, a Cartago (Afogados), que Roma (Ingazeira) não tolerava. Mas, ao chegar à Ingazeira, caía do cavalo, desastrosamente, quebrando o ombro, e morria horas depois. A vila de Afogados passou a respirar aliviada.

Os registros apontam que os homens do cel. Francisco Miguel eram cangaceiros comandados por Adolfo Meia-Noite cujo couto era na Ingazeira. Os anos de 1877 até 1879 foram marcados por grandes secas o que explica, em parte, as depredações desses bandoleiros.
No ano seguinte, através da Lei Provincial nº. 1403, de 12 de maio de 1879, que criou o Distrito dos Afogados, a sede do município passou a ser Afogados, administrando, então, a Ingazeira no seu território.

Ingazeira ficou deserta e abandonada, aos estragos do tempo. O povo dizia que a antiga cidade era amaldiçoada. Mas, sabe-se que ela chegou àquela situação em virtude da má direção do seu chefe político, Francisco Miguel, que, inclusive, se opunha à construção de casas na Ingazeira.

A freguesia (da Igreja Católica) da Ingazeira foi transferida para Afogados da Ingazeira em 21 de novembro de 1879.

Algum tempo depois - em 1881 - foi criada a freguesia de São José do Egito e, posteriormente, o Coronel Paulino Raphael, chefe político do município, criou uma feira em Bom Jesus (Tuparetama), então pertencente a São José do Egito, sendo esta ligada administrativamente a Afogados.

Esses fatos contribuíram para o desenvolvimento da vila dos Afogados que caminhava a passos largos, diferentemente da Ingazeira que parava no tempo.
Em 1º de julho de 1909, Ingazeira, perdendo a condição de município, passa s ser Distrito de Afogados da Ingazeira. E, em 31 de dezembro de 1948, com a emancipação política de Tabira, passa a fazer parte do então criado município, na condição de Distrito.
Finalmente, em 20 de dezembro de 1963, pela Lei Estadual nº 4071, reconquistou sua Emancipação Política. Volta a ser sede municipal.

 

AFOGADOS DA INGAZEIRA


A área territorial do município de Afogados da Ingazeira pertencia à ‘data’ de Dois Riachos e de Santiago. O seu primeiro proprietário Eusébio da Gama (Marinheiro) a adquiriu da “Casa da Torre”.


Capelania
Afogados se originou de uma fazenda de criação pertencente ao Cel. Manoel Francisco da Silva. Em 1836, um padre adquiriu terras da família Feitosa (gente do Piauí), e iniciou a construção de uma pequena capela de oração - coisa singela, de taipa e enchimento de alvenaria, porém baixa e pequena -, depois substituída por outra de esteio sólido e enchimento de alvenaria, porém ainda pequena e de teto baixo.

Missionários do convento da Baixa Verde (Triunfo) passavam por lá, no interesse de realizar casamentos, batizados e crisma, além de celebrar missas. Frei Francisco trouxe uma imagem do Senhor Bom Jesus dos Remédios, que passou a ser venerada com muita devoção pelos habitantes da Vila (também conhecida por Misericórdia). Acredita-se que ele mesmo tenha moldado a peça.

Em 1829 os batizados ainda se faziam na Capela da Colônia – freguesia de afogados - com o capelão frei José que também assistia a comunidade da Barra. Pelo bom relacionamento com o cel. Manoel Francisco, ele sempre o visitava em sua residência localizada atrás da atual Catedral (onde hoje está instalada a Cúria Diocesana).

O missionário frei Caetano juntou-se à comunidade para aumentar em 7 metros a Capela que foi concluída em 1854. A obra era de baixa qualidade, longe de se assemelhar à de Varas ou a da Ingazeira devido à ignorância dos habitantes de Afogados da Ingazeira.

A sede da fazenda estava localizada à margem do Rio Pajeú e existia uma capela sob a invocação do Senhor Bom Jesus dos Remédios, atual padroeiro do município. A localidade era conhecida por “Passagem da Barra”, cuja denominação foi motivada por um sítio denominado Barra, localizado na outra margem do Rio Pajeú. Com o crescimento da sede da fazenda, a cada mês o padre José Antônio Ibiapina vinha da vila da Baixa Verde (Triunfo) para a Passagem da Barra/Misericórdia para celebrações religiosas.

Conta-se que numa dessas visitas pastorais, no último sábado do mês, o padre Ibiapina realizou o casamento de noivos provenientes do sítio Dois Riachos, os quais, quando retornavam para seus lares, ao atravessar o Pajeú, num período de ‘cheia’, pereceram afogados no local. Isso ocorreu por volta dos anos 1830/1840 quando então o local passou a ser conhecido por “Passagem dos Afogados” e, posteriormente, “Vila dos Afogados”.
Pouco a pouco a Vila foi-se desenvolvendo, sempre com o apoio dos vigários e das pessoas importantes da localidade. Logo, outro missionário, frei Caetano, convocou o povo da Vila a trabalhar na ampliação da capela, remodelando-a para que ganhasse altura e maior dimensão. Foi ampliada em 7 metros e concluída em 1854.

Tendo frei José – capelão da Colônia - falecido de cólera em 1856, o padre Pedro de Sousa Pereira, chegando à região, o substituiu nas atividades religiosas da Colônia.
Casas residenciais foram erguidas em fila, aumentando as ruas, e a localidade foi crescendo a olhos vistos. Em pouco tempo (anos 1860) a Vila dos Afogados apresentava um desenvolvimento bem maior do que o da cidade da Ingazeira, com o aproveitamento das terras férteis nas proximidades da Serra da Colônia, da Carapuça e outras, pelos fazendeiros que também cultivavam produtos agrícolas.

Já havia estradas que levavam ao Estado de Paraíba e à capital pernambucana. Mas, em péssimas condições, dificultavam o transporte de mercadorias e a sua comercialização.
Pela importância que a Vila de Afogados já tinha, na época, em 1873 (séc. XIX), foi instalada no seu território uma agência dos Correios da Província de Pernambuco.


Formação Judiciária - O Termo foi criado pela Lei Provincial nº 1260, de 26 de maio de 1877, com sede na então cidade de Ingazeira e a Comarca em 31 de março de 1938 (já em Afogados da Ingazeira), pela Lei Estadual nº 92.

Em vista do seu crescimento a olhos vistos, em 12 de maio de 1879 o Distrito de Afogados foi criado por força da Lei Provincial nº 1403. Essa mesma Lei transferiu da Ingazeira para Afogados a sede do Município e alterou a toponímia  de  AFOGADOS DA INGAZEIRA para INGAZEIRA.

Quatro anos depois o ato foi revogado pela Lei nº 1761 de 5 de julho de 1883. A Lei alterava, também, a toponímia de INGAZEIRA para AFOGADOS DA INGAZEIRA.
Porém, no ano seguinte, em 28 de julho de 1884, pela Lei nº 1827, essa situação foi revertida e a sede do Município retornou definitivamente para Afogados.

Em 12 de fevereiro de 1883, realizou-se, em Afogados a primeira reunião da Junta Classificatória de Escravos. Nessa época o Presidente da Província de Pernambuco (Império) era o Sr. Francisco Maria Sodré Ferreira (17/11/1882 – 25/04/1883), e as autoridades do Município: Alfredo Adolfo Ferraz da Costa (um português, seu primeiro prefeito/administrador), Manoel Francisco da Silva (o donatário), João Martins de Queiróz Lino (fiscal Imperial, homem com grandes pendores para a música), José Martins Coimbra (presidente da Câmara de Vereadores), Antônio Brasileiro Pereira de Moraes (coletor) e José Teodoro de Moraes (promotor público).

Em 1896 os paroquianos, demoliram parte da igreja para reconstrução. O senhor Antônio Lopes foi quem, com perseverança e dedicação dignas de boas lembranças, assumiu a direção dos trabalhos que foram executados com a boa vontade de todos os católicos.

Em 18 de novembro de 1906 o major João Francisco da Cruz prestou juramento como fabriqueiro (aquele que cuidava dos rendimentos que seriam aplicados ao culto de uma igreja). O padre Manoel Fernandes começou o movimento de reforma religiosa. Deu a bênção do Santíssimo, exigiu o silêncio e o respeito na Igreja e construiu as paredes mestras do templo numa altura de 5 metros com as bases da torre.

Deu início ao Apostolado da Oração, mas, metido a político viu-se, em consequência de tergiversação e de discursos violentos, obrigados a sair da freguesia.

O padre Vital Paiva lhe sucedeu por um ano (1908/1909). Nesse período tratou da infância e dirigiu um grupo de meninas por meio de cantos que permaneceu alguns anos abrilhantando as cerimônias religiosas.

 

Emancipação Política

O processo de Emancipação se deu, finalmente, pela Lei Estadual nº 991 de 1º de julho de 1909, que concedeu foro de Cidade à Vila de Afogados, passando a ser tratada ‘popularmente’ por Afogados da Ingazeira em vista de haver pertencido administrativamente ao município de Ingazeira, como era costume na, época, acrescer o nome da localidade do município a que era ligado, também, em virtude de já existir no Recife a freguesia dos Afogados.

O novo município era constituído de quatro distritos: Afogados da Ingazeira (sede), Ingazeira, Espírito Santo (Tabira) e Macacos (Iguaracy). Porém, a denominação - AFOGADOS DA INGAZEIRA - só foi confirmada em 9 de dezembro de 1938, pelo Decreto-Lei estadual nº 235.

Em 1910 chega à cidade de Afogados da Ingazeira o arquiteto e padre Carlos Adriano Maximino Cottart, de origem francesa, e que muito contribuiu para o desenvolvimento do lugar. Dom Luiz Raimundo da Silva Brito, bispo de Olinda e Recife (1901–1915), nomeou o padre Cottart em 19 de abril de 1910 para servir como Vigário encomendado na freguesia de Afogados da Ingazeira, até 31 de dezembro de 1910.

               Assim o religioso descreve a gente que encontrou na pequena Afogados: “À exceção de algumas famílias, hostis à religião, os habitantes de Afogados têm boa índole religiosa, respeitam o sacerdote, são humildes e de boas intenções; participam dos exercícios religiosos na Igreja, porém não têm conhecimento da doutrina, como recepção dos sacramentos, a base fundamental do verdadeiro cristão.


São ignorantes, não maliciosos. Atribuo essa falta à professora pública cujo marido é ridículo, grotesco, e ela, sem piedade, e antes prevenida contra a religião, educou mal durante dezesseis anos esta população.

O professor público é essencialmente ruim, tipo do professor anticlerical – castigando as crianças que possuíam um catecismo, ridicularizando a missa e os sacerdotes – e nova-seita (protestante). A geração que ele formou durante sete anos está aí, com seus vícios de irreligião, comportamento escandaloso na Igreja, preguiçosos e irresponsáveis.

Os comentários dizem que a mocidade de Afogados só quer ser policial; realmente as suas aspirações mais altas são vestir uma farda. O modo de ser dos filhos denota nos pais poucos escrúpulos e ignorância dos princípios elementares da moral cristã. Não existia delicadeza nas relações sociais; entravam em casas alheias, sem bater, cuspindo contra as paredes, com o pé na cadeira e outras atitudes de total falta de civilidade.

Em suas relações, cheios de si, se melindram por qualquer coisa; não entendiam nada das conveniências recíprocas, presumidos, importunos. Insultam o sacerdote, no entanto querem ter, na Igreja, um lugar evidente. Os dotes do coração são raros. Não sabem agradecer; tudo é pouco. Um benefício invariavelmente chamava à insolência e à ingratidão. Quantos exemplos não relevei! Pedem com extraordinária facilidade...

Muitas mulheres favorecem com palavras ásperas as más inclinações dos filhos. Em geral, a educação dada é errada. A ignorância dos pais e a falta de um ideal religioso torna difícil a formação da atual geração. Somente a instrução religiosa e exemplos de virtude puderam realizar alguns benefícios nesse sentido. “Daí, a necessidade de catecismos regulares, de um colégio paroquial sério e de associações pias”.


Associação das Filhas de Maria

A título de devoção paroquial, no dia 9 de dezembro de 1911se criou a Associação das Filhas de Maria da Pia União. Na oportunidade foram consagradas onze associadas e uma aspirante.
Dom Augusto Álvaro da Silva, bispo de Floresta (1911–1915), nomeou o padre Carlos Adriano Maximino Cottart em 12 de janeiro de 1912 para servir como Vigário encomendado na freguesia de Afogados da Ingazeira, até 31 de dezembro de 1913... e essas nomeações se seguiram a cada ano.
Escola Paroquial

No dia 14 de maio de 1912, num domingo de quasímodo (imediato ao da Páscoa), foi inaugurada a Escola Paroquial da freguesia de Afogados da Ingazeira, quando então foi realizada uma festinha para as crianças estudantes. Dom Augusto Álvaro da Silva, bispo de Floresta estava presente ao acontecimento e demonstrou grande satisfação pela criação da escola, recomendando que não desanimassem com as dificuldades que poderiam surgir.

Em vista da sua jornada estafante, o padre Carlos recebeu licença para descansar das suas atribuições da freguesia entre 1º de janeiro e 28 de fevereiro de 1918. Para substituí-lo das atribuições paroquiais, veio o pároco da freguesia de São José do Egito, padre Otacílio Pimenta.


Notas sobre a seca em 1919

O primeiro ano do governo estadual de Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa (28/07/1919 - 15/11/1922) foi de seca rigorosa, e de carestia ainda mais intensa. Houve perturbação da ordem por motivos diversos. As eleições municipais, estaduais e federais conservaram a atmosfera carregada. Havia, também, receio das ações de malfeitores de Vila Bela (Serra Talhada), encabeçada por Luiz Padre - continuadores da ação nefasta de políticos decadentes. Também, o assassinato do Cel. Deodato, influente político de Triunfo.

A ociosidade forçada, em decorrência do tempo seco e a carestia crescentes, paralela à falta de recursos, contribuíram para tornar aquele ano particularmente doloroso. Na paróquia, a família de João Alves dos Passos, a pretexto de ser oposição ao governo, provocou uma agitação que somente não logrou êxito em virtude da prudência, unido à energia do jovem chefe político. Essa mesma família se retirou da cidade para outras terras seu deixar saudades, pois eram conhecidos egoístas. Mesmo assim, procuraram se vingar do referido político, utilizando-se de serviços de marginais (cangaceiros), para eliminá-lo, sem êxito, mas provocou, durante meses, certo desassossego no povoado dos Macacos (Iguaracy) até Varas (Jabitacá).

Essa seca fez muita gente fugir para outras regiões não assoladas pelo fenômeno.
Naquele ano de 1919, particularmente quente, um raio caiu sobre a armação de madeira da torre da Igreja, quebrando um montante e desequilibrando ligeiramente o resto do quadro.
Para facilitar os acessos para os povoados do Espírito Santo (Tabira), Macacos (Iguaracy), e daí para Pesqueira, foram construídas as estradas de rodagem.

Sobre Afogados da Ingazeira caiu apenas uma chuva em 1º de janeiro de 1919. O rio encheu proveniente de chuvas caídas em Macacos (Iguaracy).

Em 7 de janeiro de 1920, às 10 horas da noite, caiu, ao nascente de Afogados, um bólido (meteorito de grande proporção), cuja passagem pela atmosfera produziu um estrondo, atemorizando a todos. Somente em 29 de fevereiro choveu na região. A população já estava totalmente sem recursos para a aquisição de alimentos e muitas famílias passando por sérias dificuldades.

O Conselho Municipal, tendo a frente o Sr. Arthur Padilha, autorizou a utilização de jogos na feira da cidade de Afogados da Ingazeira.

Em 1921, o Sr. Antônio Correia, com 65 anos de idade e paralítico, movimentou - auxiliado na igreja pelo sacristão Damião Chaves Campos - a festa de São Sebastião (em Iguaracy) num dia de domingo, cuja solenidade, em 23 de janeiro, ocorreu animada e edificante.

Dom José Antônio de Oliveira Lopes, bispo da diocese de Pesqueira (1919/1932), no dia 21 de fevereiro de 1924 nomeou o padre João Philippe da Rocha pároco de Afogados da Ingazeira até 31 de dezembro de 1924. Na oportunidade convocou o padre Carlos Cottart para ficar à frente da paróquia de Pesqueira, no que foi atendido, mas não era do seu agrado, pois não queria se afastar de Afogados da Ingazeira.

Esse fato gerou polêmicas e registros no Livro de tombo:

Do padre João Philippe da Rocha, em 25 de setembro de 1924:

“Através de simpática correspondência, S. Excia. Dom José Antônio de Oliveira Lopes, me chamou no dia 30 de agosto de 1924 para tomar posse na freguesia de Pesqueira. Aceitei, prontamente, seu impor condições e em obediência ao meu superior Pe. Carlos Cottart, grande benfeitor da freguesia de Afogados da Ingazeira, que queria voltar e concluir a Igreja Matriz. Lutei como todos os vigários da mesma freguesia com grande dificuldade. As pessoas dos sítios são mais devotas do que as da cidade. Existe desunião entre elas que gostam de inventar histórias, levantar falsos e calúnias.

O vício principal é a maledicência. Naturalmente que na comunidade existem pessoas devotas e religiosas; não podemos acusar o povo em geral.

Ao final, deixo a freguesia de bom grado. Quero um grande bem ao meu Revmo. sucessor Pe. Carlos Cottart e a toda freguesia. Pe. João Philippe da Rocha, nomeado vigário de Pesqueira” 


Do padre Carlos Cottart
em 27 de setembro de 1924:

“Terminada a missão pela qual S. Excia. Revma. o senhor bispo diocesano dom José de Oliveira Lopes me tinha chamado para Pesqueira para servir na transição entre o pároco precedente e a nova administração, meu caráter de religioso secularizado não me permitia permanecer ali regularmente, sem indulto da Santa Sé. E, não tendo sido concedido o pedido do Sr. bispo, optei por voltar para a minha freguesia o quanto antes.
Foi assim que retornei à administração desta freguesia, o que fiz em 27 de setembro de 1924. Pe. Carlos Cottart”.

Quinze meses após o retorno de Pesqueira, em 23 de dezembro de 1925, falecia, em Afogados da Ingazeira, o Pe. Carlos Adriano Maximino Cottart.


Do bispo dom José de Oliveira Lopes, em visita pastoral, em junho de 1927: -
“Não é certo que não tenhamos recebido o indulto de que fala o finado vigário Pe. Carlos Cottart. Recebemos e não o executamos porque o padre de modo algum queria permanecer em Pesqueira e para evitar problemas futuros.
Fica, assim, desfeito o engano. Afogados da Ingazeira, junho de 1927 - José, bispo diocesano”.

 

“Notas Sobre o Protestantismo no Alto Sertão

Não havendo encontrado, neste Livro de Tombo, qualquer nota sobre o protestantismo, nem sobre a sua infiltração nesta paroquia de Afogados da Ingazeira, e tendo sido hoje a inauguração da casa de oração Baptista, na cidade, em frente ao cruzeiro, aproveito a oportunidade para fazer um histórico resumido sobre o movimento de investida das seitas no Alto Sertão.

Até o ano de 1923 não se falava em protestantes no sertão. Aparecia aqui ou acolá um magistrado, algum oficial de polícia, alguma professora ou mesmo algum soldado de polícia de crença diferente da nossa, porém ninguém confessava outra religião senão a do Brasil, a Católica Apostólica Romana.

Os primeiros passos em oposição à igreja foram dados por um auxiliar do comércio (hoje negociante) de Rio Branco (Arcoverde), de nome Cícero, casado com Noêmia Hollanda, filha do farmacêutico Agostinho de Hollanda e de Angelina Hollanda.

Tendo sua sogra Angelina (que era a presidente do Apostolado da Oração) falecido em Rio Branco (em 1923), e estando o vigário ausente, o genro (Cícero) chamou o vigário de Buíque, o Pe. Pimenta a fim de encomendar o corpo e acompanhar o féretro até o cemitério. Como o referido vigário pediu 150 réis, pró-labore (...), Cícero achou que fosse exploração e jurou vingança.

Poucos dias depois ele foi ao encontro dos 'Batistas' no Recife e conseguiu que estes mandassem um pregador à sua residência em Rio Branco (Arcoverde), onde permaneceu por duas semanas pregando e quebrando as imagens, entre estas a do Sagrado Coração de Jesus, entronizado na residência de Cícero (...).

Só em 1927 os protestantes conseguiram uma escola dominical e em fúria começaram a espalhar folhetos e livros pelo sertão, que se comunicava com Rio Branco devido ao comercio, pois Rio Branco a estação final da estrada de ferro (...).”

 

“Os Protestantes em Afogados da Ingazeira

Igualmente como em Villa Bela (Serra Talhada), Flores, Triunfo e Pesqueira, foi Afogados visitado pelos pregadores ambulantes protestantes. No primeiro aparecimento pouco ligou a população. Todos eram católicos e os diversos vigários com a energia da palavra resistiram e ensinavam aos fiéis as suas obrigações.

Aconteceu porem que um rapaz (...) de nome Manoel Bitu, vulgo Nezinho, seguiu para o Recife, indo ou a convite dos protestantes baptistas ou pela necessidade (...).
Na sua volta para Afogados da Ingazeira, trabalhou fortemente para convencer seu pai, Luiz Alves Bitu, conhecido por Bitu, que residia em uma pequena propriedade na entrada da cidade sobre a Nova Doutrina.

Em princípio ele resistiu, porém, pela insistência do filho, cedeu a fim de que um pregador Batista pudesse hospedar-se em sua casa e desse algumas explicações a respeito da nova religião.

O então vigário, Pe. João Pires juntou a população, em peso, e em romaria, véspera de Natal, foi apupar o primeiro emissário protestante, dizendo que ele era persona non grata (...).

(...) Por todos os meios tentaram demover o velho Bitu da decisão de deixar a crença Católica pela Batista, porem este alegava aos amigos que o fazia porque tinha uma velha queixa do Pe. Carlos Cottart, o qual, em certa ocasião lhe mandou fazer uns arreios para um cavalo e na ocasião da entrega dos arreios não cumpriu com o acertado. Soube-se, entretanto, que promessas dos Batistas do Recife, feitas por intermédio de Félix, fizeram Bitu continuar no seu propósito. Realmente, os católicos chegaram muito tarde. Quando razão e doutrina não podem convencer, o dinheiro é suficiente para perturbar o coração do homem.

Félix encaminhou suas duas filhas Geny e Gecy para serem formadas em
Colégio Batista. Ele mesmo recebeu dinheiro suficiente para comprar uma propriedade perto da cidade, no riacho do Borges, que pertencia ao Sr. Augusto Cerquinha. Ainda assim conseguiu dinheiro para a aquisição de uma casa na quadra da cidade, onde se instalou. Como os protestantes só obtêm recursos mediante a prova de terem já certo número de fiéis, os dois trabalharam intensamente para conseguir adeptos.

João Mariano Barbosa, irmão de Bitu (...) na Gangorra, foi convidado para se integrar à religião, porém se negou. Outro irmão, Manoel Mariano Barbosa em princípio simpatizava o culto, porém no tempo das Santas Missões o deixou. A filha de Félix, de nome Geny, depois se casou religiosamente e abdicou ao protestantismo.

Em maio de 1932 chegaram dois pregadores do Rio Branco e o Sr. Bispo Diocesano (...) telegrafou ao vigário: ‘chegou a ocasião de saber se o povo quer um vigário ou um protestante.’ Ameaça deixar a freguesia, fechar a matriz (...).
O povo resistiu, porém, alguns rapazes, sobrinhos de Bitu, em solidariedade ao tio tomaram a parte dos hereges. Foi resolvida a construção de um templo. Bitu, na esperança de obter dessa forma alguma remuneração, deu para esse fim uma parte do seu terreno, contíguo à sua residência (onde hoje está edificada a Igreja Presbiteriana).

A quantidade de fiéis dessa igreja foi aumentando com a chegada de um mestre da banda de música (Pe. Carlos Cottart), pedido por pessoas de influência do lugar ao governo do Estado. Pela Brigada de Polícia Militar, foi designado Severino Bezerra da Silva (Guinga), pessoa, calma e inofensiva. Ele veio com a sua família, toda protestante. Apesar de não trabalhar pessoalmente na propaganda do culto, sempre mandava vir algum membro da sua família e, juntos, assistiam ao culto (...).”

 

Divisão administrativa de Afogados da Ingazeira

*Em 1911, o município de Afogados da Ingazeira aparece constituído de três distritos:
Afogados Ingazeira, Ingazeira, Espírito Santo e Varas.

A Lei Municipal nº 22, de 25/11/1916, cria o distrito de Macacos (Iguaracy) e o anexa à Vila de Ingazeira.

Em 1933, o município aparece constituído de cinco distritos: Afogados da Ingazeira, Espírito Santo (Tabira), Jangada (Solidão), Macacos (Iguaracy) e Varas.

Em divisão territorial datadas de 31/12/1936 e 31/12/1937, o município aparece constituído de sete distritos: Afogados da Ingazeira, Espírito Santo (Tabira), Jangada (Solidão), Macacos (Iguaracy), Varas, Bom Jesus (Tuparetama) e Solidão.

Pelo Decreto-Lei Estadual nº 92, de 31/03/1938, o distrito de Espírito Santo passou a denominar-se Tabira.

No Decreto-Lei estadual nº 235, de 09/12/1938, o distrito de Bom Jesus passou a denominar-se Tupã (Tuparetama) e o distrito de Varas a denominar-se Jabitacá.

No quadro fixado para vigorar no período de 1939-1943, o município é constituído de seis distritos:
Afogados da Ingazeira, Jabitacá , Macacos (Iguaracy), Solidão, Tabira e Tupã (Tuparetama).

Pelo Decreto-Lei Estadual nº 952, de 31/12/1943, o distrito de Tupã passou a denominar-se Tuparetama.

A Lei Estadual nº 418, de 31/12/1948, desmembra do município de Afogados da Ingazeira os distritos de Tabira, Solidão e Tuparetama para formação do novo município de Tabira.

Pela Lei Estadual nº 421, de 31/12/1948, o distrito de Macacos passou a denominar-se Iguaracy.

Em divisão territorial de 01/07/1955, o município é constituído de três distritos: Afogados da Ingazeira, Iguaracy e Jabitacá.

A Lei Municipal nº 84, de 30/01/1958, cria o distrito de Irajaí, anexando-o ao município de Afogados da Ingazeira.

Em divisão territorial datada de 01/07/1960, o município é constituído de 4 distritos: Afogados da Ingazeira, Iguaracy, Irajaí e Jabitacá.

A Lei Estadual nº 4954, de 20/12/1963, desmembra do município de Afogados da Ingazeira os distritos de Iguaracy, Irajaí e Jabitacá para formar o novo município de Iguaracy.

Em divisão territorial datada de 31/12/1963, o município é constituído do distrito sede. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 2005.

 

Alterações toponímicas municipais

Ingazeira para Afogados da Ingazeira, alterado, pela Lei Provincial nº 295, de 05/05/1852

Afogados da Ingazeira para Ingazeira, alterado, pela Lei Provincial nº 1403, de 12/05/1879.

Ingazeira para Afogados da Ingazeira, alterado, pela Lei Provincial nº 1761, de 05/07/1883.

 

Formação Judiciária

A Comarca de Afogados da Ingazeira foi criada pela Lei Estadual nº 92 de 31 de março de 1938.

 

Diocese

A diocese de Afogados da Ingazeira foi criada em 2 de julho de 1956 pela Bula Papal “Qui Volente Deo” e instalada no dia 19 de maio de 1957, sendo o seu primeiro bispo Dom João José da Mota e Albuquerque (...)

 

 

 

 

*Dados compilados do livro “Afogados da Ingazeira – Memórias”. Edições Edificantes.
  Fontes:
*Livro de Tombo da Paróquia do Senhor Bom Jesus dos Remédios;
*IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
*Ulisses Lins de Albuquerque, no seu livro, Três Ribeiras
*www.orbita.starmedia.com


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