No Tratado dos Índios do Brasil, em 1584, o jesuíta Fernão Cardin registra que os índios Cariris – originários do Amazonas – foram os primeiros habitantes da nossa região. A sua história só pode ser conhecida positivamente a partir do século XVII, pois não existe nenhum documento anterior que trate do assunto, senão conjecturas.
Frei Bernardo de Nantes, em seu catecismo escrito na língua dos Cariris, alude a essa tradição quando explica aos índios: “Não acrediteis que saíste do grande Lago do Norte, essa tradição setentrional lhes é comum com os Parecis do Mato Grosso”.
Missionários e fazendeiros que empregaram Cariris domesticados disseram que eles eram bons guerreiros - terríveis nas guerras, adotavam a tática de correrias rápidas e tinham incontestável afoiteza. De estatura mediana, robustos, bronzeados, nariz grosso, cabeça larga, rosto redondo, usavam os cabelos pretos caindo sobre os ombros, mas não deixavam cobrir as orelhas. Viviam nus, mas usavam o "atilho" para cobrir o sexo.
As mulheres eram altas, fortes e belas. Quando davam à luz, sujeitavam-se a jejum rigoroso. Os recém-nascidos, com nove a dez semanas de idade, eram mergulhados dentro da água, para se acostumar, desde cedo, a nadar.
Os Cariris obedeciam a chefes religiosos - Pajés -, a quem veneravam, e que se distinguia dos demais pelo corte de cabelo e pela unha do dedo polegar sempre comprida.
A principal ocupação dos homens era a caça, destingindo-se dos demais aqueles que conseguiam capturar o animal mais feroz, principalmente os tigres da fauna, os veados e os bois bravos que erravam por suas regiões no princípio da colonização.
Suas armas eram o machado de pedra com cabo comprido, o arco e azagaias ou armas de arremesso. Não dispunham de instrumento de ferro. Os arcos eram grandes e de madeira rígida; tendiam-se com nervos de tamanduá. Calçavam a madeira do arco com os pés, estando eles deitados no chão e com as duas mãos estiravam a corda. Faziam mira com acerto admirável. Também atiravam em pé.
Quando iam para a guerra adornavam-se com penas de aves - papagaios, araras, maracanãs - em volta da cintura, e sobre as cabeças fixavam, em pé, outras penas em forma de coroa.
Usavam outra arma - feita de madeira rija - que também servia para a plantação. Era achatada, larga, acabada em ponta pelas extremidades e o centro arredondado, inchado no meio. Usavam a correria rápida como tática de guerra. Guerreiros valorosos, até a afoiteza, eram temidos pelos Tupis do litoral que com um assombro instintivo os chamaram de Tapuias.
O cuidado com as crianças e idosos, o preparo dos alimentos e o roçado, além da colheita de frutas e legumes encontrados nas matas, eram atribuições das mulheres. Não tendo instrumento de ferro para preparar o terreno, colocavam fogo nas árvores para derrubá-las. Queimavam as ervas e, com o instrumento mencionado acima, cavavam a terra para realizar o plantio. Porém, nada recolhiam com o interesse de conservar. Quando havia escassez de caça e outros alimentos, mudavam de lugar num raio de até três léguas.
Potes e vasos de barro grossos, por eles mesmos fabricados, e a rede para o repouso, era em que consistiam os utensílios da casa. Poucos móveis usavam. Foram encontrados numerosos fragmentos desses utensílios na serra de Santa Isabel (riacho da Conceição), num lugar pedregoso chamado Canela da Ema. Naquele mesmo lugar, morou até a morte o índio Caboclo Bravo.
Os velhos eram venerados e, quando morriam, tinham o costume de sepultá-los dobrados em urnas, em forma de jarra de terra vita, enterrando-os nas alturas, às vezes de acesso dificílimo. Disso temos, por exemplo, a serra de Santa Isabel bem como a serra da Canastra, onde existe um ossuário notável.
Os pajés se ocupavam com a proteção dos guerreiros, contra o espírito do mal. Imolavam aos seus deuses os prisioneiros de guerra, e as mulheres bebiam, misturado com água, o sangue das vítimas – tradição cruel dos antigos Fenícios.
Falavam a língua dos Tupis, mas costumavam usar muitos sinais para se comunicar.
Os Cariris davam preferência ao plantio do tabaco, usado como fator primordial nas cerimônias religiosas. Badzé era o deus do fumo.
Conheciam o algodão, teciam suas redes e sabiam fiar o caroá. Plantavam o milho e sabiam preparar a farinha de xiquexique; ignoravam a mandioca. Alimentavam-se em suas correrias com o produto das suas caças, da pesca e frutas silvestres.
Penetraram no sertão através de dois caminhos. Através do rio São Francisco (1650) eles chegaram às margens do rio Moxotó e do Pajeú. Outro bando desceu o curso do São Francisco até sua nascente, depois avançaram para o sudeste, transpuseram a Serra dos Irmãos e foram se estabelecer no Piauí. Enquanto os jesuítas evangelizavam os índios mais próximos do litoral, os Carmelitas franceses foram os missionários dos Cariris do São Francisco. Os índios Cariris eram aliados dos holandeses. Após a expulsão destes, os índios passaram a sofrer terrível perseguição por parte dos portugueses.
Pergunta-se porque não vieram do Recife ou da Paraíba os colonos das terras dos Cariris. Naquela época o Recife se encontrava em poder dos holandeses e a Paraíba em luta contra franceses e holandeses; não era fácil o desenvolvimento pelo interior. Os holandeses chegaram até o início do planalto da Borborema e não ousaram penetrar adiante. Também não se aventuraram devido ao regime das águas, parando os aventureiros pelas nascentes do Capibaribe e do Ipojuca.
A barreira natural para que as guerras no litoral se tornassem por muito tempo infrangível é que o planalto da Borborema e seus prolongamentos até Pesqueira era uma linha divisória, mandando as águas a leste e ao norte para o Atlântico, enquanto que ao poente e ao sul, as mandava para o rio São Francisco.
Numa carta do governador de Pernambuco ao rei de Portugal, em 1700, ele diz: “A ‘Casa da Torre’, os herdeiros de Antonio Guedes de Brito e Domingos Affonso Sertão, moradores na jurisdição da Bahia, são senhores de quase todo o sertão de Pernambuco”.
Frei Martinho de Nantes, missionário capuchinho da Casa do Recife,menciona a existência de um Antonio de Oliveira, estabelecido já em 1670 na nascente do Paraíba (Monteiro). Ele conseguiu dos índios Cariris, ali aldeados, autorização para se estabelecer e pastorear. Frei Martinho percorreu toda a zona da Borborema até a fazenda desse Antonio de Oliveira. Descreve com espanto a natureza desolada e morte dos lugares atravessados em tempo de seca, tal qual o inverno europeu.
Somente depois de 1710 os índios autóctones, não mortos, foram pacificados. Nessa época a Ribeira do Pajeú era propriedade da Casa da Torre, opulenta família baiana.
Na Alagoa de Baixo (Sertânia) existem papéis assinados por Antonio Barbosa, procurador da Casa da Torre. Ele, que morava no Santo Antonio, andava com os livros de tombo (registros) e dos aforamentos dependurados no lombo do cavalo cobrando os dízimos ou os arrendamentos foreiros, ou vendendo em sesmarias. Essas sesmarias de três léguas começavam de Flores, Almas, Carnaíba, Barra dos Dois Riachos, Santiago, Santana, São Pedro.
A primeira sesmaria vendida aqui, foi a de Santiago (século XVIII), adquirida por Euzébio da Gama, conhecido pelos antigos pelo nome de Marinheiro. Ele veio de Goiana (guerra dos mascates) e se casou com a filha do Visconde de Saboeiro que residia no Carcará, Ceará. O Marinheiro e seu primo Francisco de Paiva eram proprietários de toda esta zona das cabeceiras do Pajeú até as terras da sesmaria de Santana.
Anna, filha de Euzébio da Gama, se casou com Caetano Ferreira, um criador que veio de São Domingos (Vila Bela) e fixou residência em Dois Riachos. O velho Euzébio, homem trabalhador, e que teve uma numerosa família, morreu cego.
Os colonizadores baianos foram os primeiros a se estabelecer pelas margens do rio Pajeú. Os índios logo se identificaram com esses colonizadores. Nessa tarefa, a contribuição dos missionários foi de fundamental importância, pacificando-os e orientando-os no desenvolvimento da região, erguendo igrejas, capelas, cemitérios, casas, etc.
A vila de Flores foi a primeira a prosperar à margem do rio Pajeú, graças ao valioso trabalho desenvolvido junto aos índios pelo missionário capuchinho Frei Caetano de Messina.
Posteriormente, em 29 de abril de 1836 foi criada a freguesia de São José da Ingazeira, desmembrada da vila de Flores, cuja área se alongava da Serra da Carapuça, chegando a Buíque e São João do Cariri, pelo nascente, a Patos, pelo noroeste, e a Piancó, pelo norte.
O fundador da fazenda Ingazeira, Agostinho Nogueira de Carvalho, teve dois filhos: Agostinho e Iná. Esta se casou com o Cel. Francisco Miguel de Siqueira, chefe político e mau caráter por cobiça e orgulho.
Movimento Religioso - O alto sertão sempre esteve administrado religiosamente pelos bispos de Olinda. A primeira sede de freguesia, no princípio do século XVIII, foi Garanhuns. Depois tivemos um vigário estabelecido em Cabrobó, no São Francisco. Mas, por questão de saúde, fixou residência no Pajeú de Flores.
Com o tempo, formaram-se as freguesias de Cabrobó e do Pajeú de Flores, desmembradas da de Garanhuns. Somente em 1836 se formou a freguesia de São José da Ingazeira, desmembrada da do Pajeú de Flores.
Sucessão dos vigários – Em 1830 a capela de Santo Antonio da Colônia já existia. O capelão frei Antonio José exercia o ministério em toda a ribeira. Na mesma época, construiu-se uma capela na rica fazenda Ingazeira, em homenagem a São José, tendo como capelão o padre Mota que, algum tempo depois, mudou-se para a Colônia, vindo a faleceu em 1850.
Ingazeira – Criação da Freguesia
No dia 29 de abril de 1836, a Assembléia Legislativa Provincial de Pernambuco decretou a criação da Freguesia de São José da Ingazeira, desmembrando-a da Freguesia da Vila de Flores. O decreto foi assinado pelo deputado Francisco José Correa d’Albuquerque.
Dom João da Purificação Marquez Perdigão, bispo de Pernambuco, do Conselho de sua Majestade Imperial, em 4 de abril de 1836, confiou ao padre Antonio Alves de Brito a provisão como primeiro vigário da nova freguesia. A posse foi realizada no dia 28 de agosto de 1836.
Na época existiam em toda a abrangência da freguesia 1078 casas, 6854 habitantes e 1078 escravos.
Ingazeira – Em meados do século XVII, no desejo de evangelizar as pessoas de sua fazenda, Antônio de Oliveira, um dos primeiros proprietários de terra do lugar, dirigiu-se ao Convento da Penha, no Recife, para trazer missionários capuchinhos, sendo, então, Frei Theodosio de Lucé – provável primeiro missionário das cabeceiras do Pajeú - designado para esta missão, tendo ele percorrido o planalto da Borborema e a cabeceira do rio Pajeú.
Com a ocupação do Recife pelos Flamengos hereges, foram cortadas as relações da capital com o interior e a missão dos capuchinhos sofreu processo de continuidade, mas não impediu que os índios fossem catequizados.
Situada à margem do rio Pajeú, Ingazeira tinha terrenos excelentes, próprios para a agricultura e o povoamento do solo, reunindo, assim, toda condição para desenvolver o Alto Pajeú.
Agostinho Nogueira de Carvalho, fundador da vila de Ingazeira, no ano de 1820 começou a construção da capela em homenagem a São José. Em virtude do seu falecimento em 1832, o filho de mesmo nome continuou a obra que somente foi concluída em 1849, com a ajuda do governo e da província. Esse templo, em 1836 foi elevado à categoria de Matriz. Algum tempo depois a frente desabou, mas foi reedificada em 1890, graças aos esforços do Cel. Miguel do Amaral Padilha.
O Cel. Francisco Miguel de Siqueira, genro de Agostinho Nogueira de Carvalho, só tinha interesse na criação de animais, não queria que se construíssem casas na Ingazeira. Ele e seus homens (cangaceiros) tornaram o local inóspito. O padre José Antonio só permaneceu no lugar porque era de uma mansidão exagerada. Era comum ocorrer cenas de violência nas festas da Igreja e isso desagradava às pessoas que para ali se dirigiam. Insatisfeitos com tal situação, as pessoas do Egito (São José do Egito) mandaram construir uma capela em seus terrenos, fato que enfureceu o Coronel Francisco Miguel de Siqueira, tendo ele enviado seus homens para derrubarem a construção que foi refeita e mantiveram o mesmo padroeiro da matriz (São José).
A Lei Provincial nº 295 de 5 de maio de 1852 criou o município da Ingazeira, com território desmembrado do de Flores, tendo-se verificada a sua instalação em 7 de janeiro de 1853.
Foi criado o Distrito de Afogados pela Lei Provincial nº 1403 de 12 de maio de 1879, lei que também transferiu para Afogados a sede municipal, retornando para a Ingazeira por efeito da Lei Provincial nº 1761 de 5 de julho de 1883. Essa Lei foi revogada pela de nº 1827 de 28 de junho de 1884. Refere-se ainda a criação do distrito de Afogados a Lei Municipal nº 1, de 16 de novembro de 1892.
Em 1859 frei Caetano passou missionando na Ingazeira; chamou o povo à reconciliação, enterraram bacamartes, facas e todas as armas em poço fundo e sobre elas ergueram um Cruzeiro nos fundos da Igreja.
O coronel Francisco Miguel sempre fazia desfeita aos padres que se estabeleciam em Ingazeira, inclusive agredindo o padre João Vasco, na Igreja, que saiu da povoação, chorando. Por ser um homem injusto e soberbo, muitas vezes se opôs a construção de casas e desapossou, às vezes com barbárie, alguns pobres moradores. Isso comprometeu o desenvolvimento do lugar.
Esses acontecimentos contribuíram para o desenvolvimento da vila de Afogados, que caminhava a passos mais largos do que a Ingazeira. Assim, através da Lei Provincial nº. 1403, de 12 de maio de 1879, a sede do município e da freguesia é transferida para Afogados.
O padre João Vasco foi para o Recife, entregando a freguesia da Ingazeira em 23 de outubro de 1877 ao capelão de Afogados padre Pedro de Souza Pereira. Somente um ano depois, em 21 de outubro de 1878 é que o padre Pedro assumiu a freguesia, porém continuava residindo em Afogados, pois se recusou a morar na localidade. O bispo lhe deu autorização para celebrar na matriz somente a cada 15 dias (...)
(Dados compilados do livro Afogados da Ingazeira " Memórias”. Edições Edificantes -
Autor: Fernando Pires).
Referências:
-1º Livro de Tombo da Paróquia do Senhor Bom Jesus dos Remédios
-IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2010