AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
Quincas Rafael Quincas Rafael

CULTURA

 

ESCRITORES

Poeta Quincas Rafael

Joaquim Rafael de Freitas (Quincas Rafael) - Nasceu em Afogados da Ingazeira em 2 de março de 1921.
Filho de Antônio e Ana e neto de Quincas Flor, foi casado com Corina Ferreira Rafael, com quem teve 7 filhos.

Ainda jovem se mudou com a família para a Fazenda Quixaba, em Jabitacá, onde criou os filhos. Eleito vereador por duas vezes em Iguaracy, exerceu, também, a função de Guarda Fiscal.

Desde cedo escrevia poesias, porém passou a colecioná-las apenas no início dos anos 70. Em 1991 teve publicado seu livro "Afogados Deu de Tudo", todo de poesias. Por incentivo de amigos passou a escrever sobre a região, tendo parte desta obra sido publicada no livro "Jabitacá" de Yoni Sampaio, em 1994.

Sua morada, a famosa casa de pedra em Jabitacá, não tinha tranca na porta; ali, quem batesse seria bem recebido para ouvir e contar "causos". Aquela velha casa foi o maior fórum de conversas matutas de que se tem conhecimento. Toinzé que o diga.

Ao falecer, em 23 de novembro de 1999, deixou como maior patrimônio os amigos.

Disse Ademar, seu filho: "No dia da missa de sétimo dia ouvi de Diniz e João Rabelo o seguinte: Uma banda de Jabitacá morreu com Quincas; ela nunca mais será a mesma. Existe um pouco de exagero na frase, porém tem muita verdade. Quincas era Jabitacá e Jabitacá era Quincas.

Comentou comigo, várias vezes, sobre os seus grandes amigos da infância: Décio Campos, Zezito Sá e Minéu; das aventuras como vaqueiro citava: Zé Torres, Chiquinho Vicente e Gonçalo Gomes.

Certa vez bêjo do cartório me disse que vinha de Tuparetama para Afogados e, ao ver o  poeta na estrada, falou consigo mesmo: 'Ganhei o dia, ouvirei Quincas até Afogados'. Assim era meu velho pai: um verdadeiro animador de auditórios; onde estava tinha risos, histórias e estórias".

 

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FUNDADORES DOS AFOGADOS DA INGAZEIRA
(Poesia de Quincas Rafael - de outubro de 1968 -
localizada por Genecy Almeida em papéis antigos na Escola Normal Estadual de Afogados da Ingazeira.)

Afogados da Ingazeira / Lugar onde nasci
E vivi meus nove anos de idade / Em tuas ruas corri
Tirei da alma estes versos / E para ti escrevi

Nunca hei de esquecer / Os banhos do pajeú
Com tuas ruas pequenas / Descalço brinquei em tu
Nesse tempo tu não ias / Nem a casa de Bitu

Quero aqui lembrar os nomes / Dos teus velhos moradores
Uns ricos e outros pobres / Uns vassalos outros senhores
Mas contudo cabe a todos / O nome dos fundadores

Quem estes versos ouvir / Queira me perdoar
Pois foi falta de lembrança / Se alguém eu não lembrar
Mas os nomes de quem me lembro / Aqui vou copiar

Teus primeiros habitantes / Vai como uma relação
Coronel Luiz de Góes / E seu Miguel escrivão
Coronel Antonio César / Turú e Gedeão

Teve o major Tomás / Homem de grande ideal
O velho Manoel Valença / João da Cru e João Liberal
Teve o seu Zé Amazonas / E Salustiano Sobral

Teve também o velho Brandão / Coronel Chaves e Vasquinho
O velhor Joaquim da venda / Seu nome também assino
Na sua porta mataram / O pai de Antonio Silvino

João Zeca e seu Geraldo / Ambos da Alça de Peia
O velho Jacó Marinho / Anselmo e Zezé Correia
E seu Praxedes que foi / Empregado na cadeia

Teve o velho Padilha / Que era um velho bom
Seus filhos Décio e Elpídio / Joza, Arthur e Odon
E ainda tinha outro / Que se chamava Odilon

João Alves, pai de Joãozinho / Seu Zeca e Pedro Pereira
Manjor Osório também / Que veio da Ingazeira
O professor Vera Cruz / Lalau e Pedro Teixeira

Foi Pedro Martiniano / O primeiro motorista
Seu Galvão naquele tempo / Foi médico especialista
Teve Henrique Brasil / E João Evangelista

Também seu João Rufino / Que dali foi sacristão
Josué Martins dos Santos / Liliu e seu Capitão
E lá na Rua do Rio / Sidronio e Zuza Antão

Seu Zuca e Belo Dimas / E teve o Negro Bogó
E da mesma qualidade / Tinha um chamado Bidó
E seu Augusto Cerquinha / Pai de Zé Coió

E Antonio Rafael / Que residiu no sobrado
E também André de Veras / Um homem considerado
A sua prole tem sido / A honra do nosso estado

Teve também o Virgílio / Que era tabelião
Te seu Quinca da "Singer" / Albino e senhor Brandão
Seu Cazuzinha Travassos / Salú e Chico Pimpão

Toda a família Oliveira / E seu Chico Fogueteiro
Antonio Sobreira Velho / Teve Pedro Bandoleiro
E o Negro Ananias / Que de meu pai era padeiro

O grande doutor Alfredo / E o Manoel Mariano
Tever Joãozinho Brasilino / E teve Gonzaga seu mano
E um velho advogado / Chamado Emiliano

As professoras daqui / Foram dona Mariinha
Dona Aurora, dona Esther / Que era bem pretinha
E lembro dona Letícia / Que foi professora minha

Conheci Neco Rufino / E Isidro Nazaré
De nome o Pedro Gangorra / E o negro Pimentel
Esse negro residia / No sítio "Mocoré"

O velho Valdevino / Músico de grande valor
Paulo Cruz em nossa terra / Foi o maior jogador
Mas o valor de Afogados / Se encerra em Antenor

Zé Mariano de Souza / Homem de grande pudor
E também Manoel Queiróz / Que foi grande professor
Tiãozinho grande músico / Brasilino e João doutor

Fortunato que foi dono / Da primeira bolandeira
Major João Alves dos Passos / E Brasilino Ferreira
Avelino e Zé da Várzea / E seu Pedro Cabaceira

Quintino Travassos / E o coronel Paulino
O professor Inocêncio / Vem dedicado ao ensino
E teve padre Vital / Mestre Jorge e o mestre Dino

João Picica talvez foi / O segundo motorista
Ainda o velho Jacinto / Que era telegrafista
Zé Ribeiro era alfaiate / Pequeno, mas um artista

Eis quase todos os nomes / Dos primeiros moradores
Que dessa bela cidade / Foram colaboradores
Padre Pedro e padre Carlos / Os seus primeiros pastores

Hoje tudo está mudado / É grande a transformação
Quase todos em calçamento / Com bela iluminação
Já bem se pode chamar / A rainha do sertão

Quando às vezes te avisto / Olho pra ti sentindo
Saudade de minha mocidade / Que em ti vivi sorrindo
Como o tempo vai crescendo / E eu vou diminuindo

Foste outrora minha terra / Por isso te quero assim
Porque de ti fui embora / Não vou te chamar ruim
Em cada rua que tens / Resta um pedaço de mim

És uma cidade linda / Orgulho do meu sertão
O teu progresso é tão grande / Que causa admiração
Parece encantamento / A tua transformação

O que precisa tu tens / És em tudo independente
Uma estação de rádio / De voz sonora e potente
E um Banco do Brasil / Pra servir a muita gente

Tens uma Escola Normal / Seminário em construção
Cooperativa, Hospital / Um campo de aviação
Um cinema dos melhores / Com linda programação

Uma escola artesanal / Para a criança-operário
Campo de monta e fomento / Um "Fórum juciário"
Uma agência da "Princesa" / Com o seu transporte diário

Um palácio episcopal / Onde se fixou um bispado
Afogados da Ingazeira / Orgulho do seu Estado
Porque até sua ponte / É um passeio invejado

O matadouro e açougue / Cada qual mais conservado
Tens duas coletorias / Curral pra feira de gado
E uma Prefeitura / Que é um prédio aprimorado

Estes versos que te fiz / Do íntimo da alma que sai
És a bela do passado / Que muito distante vai
Eu te revendo estou vendo / O retrato do meu pai.

 

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O CORETO DA PRAÇA
(do livro AFOGADOS DEU DE TUDO, de Quincas Rafael)

Tudo no mundo tem fim / É bastante ter começo,
Cada um tem o seu preço/ O mundo foi sempre assim.
Não é só dito por mim / Porque todo mundo diz,
Quem no presente é feliz / Nada sabe do futuro,
Entre ambos há um muro / Que torna um infeliz

Velho coreto estimado, / Sentinela da cidade,
Que de outra mocidade / Era tanto visitado,
Foi ali considerado / Ponto de concentração,
Hoje teus restos no chão / Mostram quanto ele valia,
Sem saber que tinha o dia / De sua condenação.

Naquela sua fachada, / Bandas musicais tocavam,
Alguns boêmios cantavam / Até alta madrugada.
Aquela época passada, / Nem eu nem ele vê mais,
Eu não volto mais atrás / E ele já se acabou,
O que Nôzinho levantou, / Por seu irmão se desfaz

Brevemente em seu lugar / Um busto será erguido,
Ao filho mais querido / Que Afogados pode dar.
Deputado popular, / Grande defensor da fé,
Ficará em frente à Sé / Esse monumento honrado,
Mas, podia ser de lado, / Ficando o coreto em pé.

Foi o lugar preferido / Da mocidade de outrora,
Comparado está agora / A um gigante vencido.
O ponto certo e querido / De Minéu, Zezito Sá,Paulo
Cruz talvez de lá / Envie alguma saudade
E se voltasse a cidade / Chorava João Sarará.

O seu passado revivo / Porque pertenceu a mim
E só não chora assim / Porque não está mais vivo,
Esse direito não privo, / Nem pra Tonho Zezé,
Zinha e Aimoré, / Talvez que nem veja mais,
Relembro Toinho Moraes, / Walter, Gonzaga e Seu Né.

Seu Guinga e Guaxinim, / Chico César e Bianor,
Zé de Sidrônio e Antenor, / Rivadávia e Joaquim,
Ourinho e lbraim, / João e Chico de Cotó,
Valdemar e Miguel Jacó / Nem assistiram seu fim,
O mundo só é ruim / Porque tudo vira pó.

Foi ele antigamente / Ponto de reunião,
A sua demolição / Entristeceu muita gente,
Foi um sadio ambiente, / Lugar de muita alegria,
Bar, café, barbearia, / Tudo se acomodava,
Qualquer um que o visitava / Bem satisfeito saia.

Adeus, velhas madrugadas,/ Das festas de fim de ano,
Onde as barracas de pano / Eram tuas namoradas.
Os pombos em revoadas / Vinham pousar ao teu lado,
Tu eras como um sobrado / Dos tempos medievais,
Que olha e não te vê mais / Sai reclamando o passado.

Foste abrigo de valor, / Orgulho desse lugar
E para isto evitar / Ninguém veio em teu favor.
A lâmina de um trator / Foi todo agradecimento,
prova de pagamento / Dos que a ti procuravam
E em tua sombra passavam / O seu mais feliz momento.

 

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