AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS E CONTOS

ZEZÉ DE MOURA

Cronista afogadense, aposentado, residente em Rosemead, Califórnia, Estados Unidos. Filho de dona Aurora Moura, professora das mais autênticas, até os anos 50/60, que fez história em Afogados da Ingazeira também tocando Serafina (órgão) na Catedral do Senhor Bom Jesus dos Remédios.

 

 

Relembrando...
De São Paulo para São Francisco (USA)

As festas de Natal de 1968 foram as últimas que passamos em território brasileiro. São Paulo estava, como sempre, muito movimentada. Como de costume, havia os retardatários correndo às lojas nos últimos momentos, pra comprar uma prenda qualquer. Meu sogro, com sua esposa, vieram nos visitar, trazendo alguns brinquedos para os netos, nos proporcionando uma tarde e noite de convívio agradável.

Fui contratado como gerente de almoxarifado na Erickson, que naquela época estava instalando novas estações telefônicas. No entanto, a preparação para nossa mudança definitiva para os USA continuava sua marcha, nos dando uma ideia de que não haveria tempo para tudo, mas tudo ocorreu como havíamos planejado, até mesmo a venda da nossa casa.

Tivemos algumas pessoas interessadas em comprar nossa casa, mas, sem chegar a concluir o negócio. Já havíamos nos resignado a ideia que o melhor seria deixar a casa alugada e meu sogro como nosso agente. No entanto, uns dez dias antes de viajarmos um vizinho bateu na porta dizendo que desejava comprar nossa casa. Ele havia recebido uma herança da família em Portugal e desejava investir. Aquilo foi realmente uma benção celestial que nós imediatamente nos ajoelhamos a orar em gratidão ao Senhor Deus. Vendemos tudo que tínhamos ao novo proprietário. Dias depois ficamos hospedados na casa da minha cunhada, que nos tolerou por dois dias até nossa partida. 

Saímos de São Paulo no dia 12 de junho de 1969, com destino a São Francisco, aonde chegamos no dia 13 de Junho, que, de acordo com minha esposa, é o dia dos namorados. O porto de entrada foi Los Angeles. Após o processo legal, embarcamos no avião que nos levaria até a “City by the Bay”, San Francisco. Foram 55 minutos de grande ansiedade, pois estávamos na última etapa da nossa viagem. Lá, nos esperavam minha cunhada mais nova e o seu noivo, cujo casamento foi realizado duas semanas depois. Eles haviam alugado um apartamento para nós e pra lá nos dirigimos. Era um local bonito e acolhedor, tendo em frente o Buena Vista Park. A 200 metros ao sul do prédio estava a escola que receberia nossos filhos. Blocos adiante, está o Golden Gate Park, e na rua um bloco este da nossa está um excelente Supermarket. Frente ao nosso prédio passava o ônibus elétrico.

Depois de um bate-papo eles nos perguntaram se desejávamos alguma coisa; a nossa resposta foi simples: Sim, tomar um banho e depois deitar e dormir, pois praticamente não havíamos dormido durante a viagem, e depois de 13 horas de voo estávamos exaustos.

Tudo parecia um sonho. San Francisco, a cidade tão cantada e louvada na música popular, era agora nossa cidade. O prédio onde nos estabelecemos, está localizado na famosa Haight street, esquina com Central, bem em frente do Buena Vista Park. É realmente um ótimo local pra se viver em San Francisco.

Sylvia ia diariamente ao parque com as crianças, onde eles podiam correr pular e brincar à vontade. Um dia, ao regressar do trabalho, meu primogênito veio me informar que havia achado um tesouro. Ele estava a brincar na areia quando subitamente achou algumas moedas; quanto mais ele revolvia a areia mais moedas ele achava, e isto era um tesouro para ele que estava com sete anos de idade.  

Fomos descobrir o Golden Gate Park e ficamos encantados, pois com seus 1800 metros de comprimento e 300 de largura, é realmente um ótimo lugar para passear, deitar na grama, jogar bola, andar de bicicletas, e uma infinidade de opções, ou simplesmente ter um dia de descanso, na paz e tranquilidade daquele ambiente.

Na minha procura de trabalho, achei um anúncio no “San Francisco Chonicle” que dizia: “queremos pessoas que falem Português Brasileiro”. Era uma agencia de turismo que, uma semana depois estaria recebendo um grupo de turistas brasileiros que viriam de Los Angeles em três ônibus, e a companhia precisava de intérpretes. Fui imediatamente ao escritório da agencia e lá encontrei um rapaz de Goiânia e outro do Rio, fomos contratados e começamos a trabalhar na semana seguinte. Pra mim foi uma maravilha, pois fiquei conhecendo San Francisco e fui pago pra isto.  Para minha surpresa, no grupo que veio no meu ônibus estava Hebe Camargo, e um repórter da TV Record, Jose Carlos de Morais. Foi interessante poder conversar com os famosos da TV brasileira, sem muito protocolo.

Falei pra minha esposa do ocorrido, e no dia seguinte ela me acompanhou e teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a famosa Hebe Camargo. Este trabalho, embora temporário, foi uma benção, pois abriu caminho para outras oportunidades. Passada a temporada, fui contratado como encarregado do recebimento e disposição de materiais num Shopping Center, que foi mais um grande capítulo na minha educação na América. Meu trabalho era bom e o ambiente muito agradável. Fiz boas amizades com todos e o gerente gostou do meu desempenho no trabalho.

Minha esposa ficou encantada com San Francisco. Era uma vida agradável e diferente, ela podia ir aos parques, museus, ou simplesmente andar pelo centro sem nenhuma preocupação. Quando as crianças estavam na escola, minha esposa tinha aulas de Inglês para adultos na nossa igreja, e depois numa escola pública. Isso ajudou bastante para que ela se sentisse bem ambientada.

Fomos aceitos como membros da Primeira Igreja Batista de San Francisco e participávamos o mais possível dos diversos trabalhos daquela Igreja. A escola dominical ficou sendo um ponto muito importante para mim, pois me ajudou bastante no aprendizado da língua inglesa. Posso dizer que desenvolvi meus conhecimentos de inglês lendo a bíblia.
Na escola dominical, tínhamos oportunidade de comentar sobre o tema sendo discutido. Eu trazia minha bíblia em português e uma em inglês, quando eu não entendia o que estava sendo discutido, era só ler texto em português e lá estava a resposta. Os demais membros do grupo gostavam da minha atitude, o que me dava incentivo na minha busca do conhecimento da linguagem inglesa.
Uma vez por semana tínhamos o estudo bíblico na casa de um dos membros, o que vinha a ser também uma reunião social. Nossa integração nos trabalhos da igreja nos ajudou na integração a sociedade Americana e a compreendê-la.

Nossos filhos estavam com cinco e sete anos de idade, sem nenhum conhecimento da língua inglesa; mesmo assim, matriculamos os dois na escola localizada uns 200 metros West do nosso prédio. A princípio eles tiveram alguma dificuldade por causa da diferença de linguagem, mas, logo começaram a conversar com as outras crianças da mesma idade, em inglês. Umas duas semanas depois do inicio das aulas, a professora do Igor veio nos visitar. Era uma moça muito gentil que veio nos pedir permissão para ficar com o Igor por uma hora apos o horário escolar com o proposito de ajudá-lo a aprender a língua Inglesa. A resposta foi imediata e afirmativa, pois ficamos impressionados com aquela demonstração de interesse para com nosso filho. Em menos de três meses eles estavam em suficiente controle do idioma, para manter uma conversação com os colegas de classe, e nunca mais pararam.

Uma das coisas que podemos dizer haver sido um tremendo choque cultural, foi o grande numero de “Hippies”. Eles se concentravam no famoso núcleo chamado Hight & Ashbury, área que fica três blocos West do nosso prédio. Eles eram jovens de várias classes sociais, maturos e imaturos, sem nenhuma das restrições morais da sociedade, vivendo em promiscuidade, em grupos, que eles chamavam de colônias. Sempre que íamos visitar o Golden Gate Park passávamos pela área, onde observávamos sua maneira de viver, cantando, dançando e tomando drogas. Para nós, era depressivo ver vidas desperdiçadas.
                                       
Naqueles dias havia muito movimento de protesto contra a Guerra do Vietnam, bem como movimentos criminosos. Uma noite, estávamos deitados quase adormecidos, quando pouco antes da meia noite fomos abalados por uma tremenda explosão. Ficamos atônitos, sem saber o que estava acontecendo. Ligamos o rádio e lá veio o repórter especial: Uma bomba havia explodido na Delegacia de Polícia do Golden Gate Park e um dos grupos terroristas havia assumido a autoria. Imediatamente me lembrei dos eventos no Brasil.

 Estes foram os dias da nossa iniciação a vida na América. Foi um período muito agradável, quase que uma lua de mel.  Depois, eu conto mais.

Zezé de Moura
Rosemead - CA, USA, 21 de agosto de 2010

 

 

RELEMBRANDO... sequência

Nossa estada em Afogados da Ingazeira naquele Janeiro de 1964 foi como uma cena teatral. Chegamos de surpresa causando um grande reboliço na vida pacata dos meus pais. Quando os vizinhos nos viram vieram correndo nos dar boas vindas. Mamãe e Papai demonstravam constantemente alegria em nos receber. Fomos recebidos afavelmente por parentes e amigos que demonstraram grande afeto e todos desejavam conhecer minha esposa e o nosso primogênito.

Dias antes da nossa partida de volta pra São Paulo, fomos convidados pra comer ‘buchada’ na Alça da Peia na casa do meu tio Pedro. Minha esposa não tinha conhecimento da iguaria; tive então que introduzi-la ao prato nordestino em todos os detalhes.  Como era de se esperar, fomos recebidos pelos tios Pedro, Maria e os primos, com o tradicional calor de amizade do nosso povo.

Lá, encontramos um bom grupo de primos e amigos que vieram festejar conosco. Após a refeição, ficamos a conversar sobre assuntos variados. Meu primo Cornélio, que era fotógrafo, preparou sua câmara e tirou uma foto do grupo todo. Devo ressaltar que incluído naquele grupo estava o pai do Alberico. Tenho essa foto guardada com muito carinho juntamente com outras que são parte do meu pequeno tesouro.

Despedimo-nos dos meus pais com beijos e abraços e nos dirigimos para a Estação onde pegamos o trem que nos levaria ao Recife. Foi mais uma aventurosa viagem, comentando para minha esposa, os marcos conhecidos da trajetória.

Finalmente, já noite, chegamos a Tejipió, onde minha irmã Firmina com seu esposo Júlio e filhos nos receberam com amor e carinho. Como sempre, meu primogênito era o centro das atenções. Tivemos oportunidade de ir à praia de Boa Viagem, onde nos deleitamos a brincar com meu filho nas areias da praia e momentaneamente nas águas atlânticas.

Visitamos primos e primas, por parte da minha mãe, e finalmente era hora de voltarmos.
Saímos do Recife pela manhã numa Kombi que nos levou até a capital Paulista. A travessia do Rio São Francisco numa barca, que carregava caminhões, ônibus e carros etc., foi algo memorável. Enquanto esperávamos a hora de embarque, meu filho teve a oportunidade de brincar na beirada do rio. Como toda criança, ele estava no seu elemento a brincar sob nossa supervisão naquela tarde quente, nas águas do grande rio. A travessia foi uma experiência impressionante e assustadora ao mesmo tempo. Naquele trecho, o rio é de aproximadamente 2 km de largura, É realmente uma impressionante vista; agora podíamos afirmar que atravessamos o Rio São Francisco.

Ao chegarmos do outro lado procuramos um hotel onde passamos a noite. O grande problema era achar água potável. Não desejávamos beber ou dar água barrenta ao nosso bebê. Finalmente, a dona do “hotel” levou minha esposa até um local onde ela tinha água potável que ela guardava para seu próprio consumo.

Chegamos a São Paulo cansados e ansiosos para estar em casa, deitar na nossa cama e, finalmente, descansar.

Retornando ao batente e aos estudos, voltamos a sentir toda a comoção politica que se desenvolvia no país a passos rápidos. Demonstrações, marchas, bombas em locais públicos, assaltos a bancos, assassinatos políticos, etc. Numa dessas ocasiões a escola fechou mais cedo por causa de uma demonstração na Praça da Sé. Rapidamente nos dirigimos para o ponto do ônibus, quando, de repente, lá vem uma tropa de choque correndo atrás de um grupo de agitadores. Sentíamo-nos como salame entre dois pedaços de pão, de um lado a tropa de choque, do outro os agitadores. A nossa salvação foi estarmos em frente de uma agência do Expresso Brasileiro, onde obtivemos refúgio. Logo que entramos na loja eles fecharam as portas e lá ficamos por uns 45 minutos até que o oficial em comando da tropa nos deu passagem livre.

No mês de Abril de 1964, semanas após a revolução, fui contratado para trabalhar na Anderson Clayton, fabricantes de Óleo e Margarina, no bairro da Lapa em São Paulo, como gerente do Almoxarifado Geral. Foi um trabalho desafiante e ao mesmo tempo compensador. Onde pude aplicar e desenvolver minha habilidade como gerente.

Em dezembro do mesmo ano, nossa vida foi agitada novamente, dessa vez, com a chegada do segundo filho que nos trouxe muita alegria. Já estávamos morando na nossa casa quando ele chegou. Ele era um menino robusto, grande, tal qual o primeiro, de cabelo avermelhado que depois mudou pra aloirado. Era um deleite abraçá-los após um dia de trabalho. Era um tônico que me relaxava a alma e o corpo, recarregando minhas energias.

A vida continuou com seus desafios, mas, nós conseguimos terminar a última parte da construção da nossa casa, sem nenhuma divida. Este foi um dos marcos mais abençoados no início da nossa vida de casados. Para mim foi a reafirmação de que, trabalhando e usando os recursos que Deus nos deu, crendo e confiando em Deus, tudo é possível.

Numa noite de sábado, em janeiro de 1966, recebi um telegrama urgente, comunicando que o meu pai estava no Hospital da Policia Militar em Recife e tudo indicava serem seus últimos momentos. Cheguei ao Recife na manhã seguinte. Papai só me reconheceu depois que mencionei meu nome. Era quase noite quando, inesperadamente, recebemos a visita  do Padre Antônio; ele estava no Recife e veio ver papai logo que soube da situação pelo noticiário no rádio. Foi uma surpresa agradável apesar das circunstâncias. Conversamos um pouco e ele me falou que desejava exercer suas funções sacerdotais, o que o fez.  Dois dias depois papai faleceu no começo da manhã.

Em dezembro do mesmo ano, mamãe nos fez uma grande surpresa. Ouvimos o bater na porta da nossa casa, fomos atender, e lá estavam Mamãe, Rosilda e Zorilda. Foi uma reunião muito agradável que relembro com muito carinho. Ela ficou conosco uns quatro meses. Teve tempo de conhecer os netos e ser vovó.
       
Em 1967 o marido da minha cunhada que já residia nos Estados Unidos veio nos visitar. Reunimo-nos na casa de um dos meus cunhados onde passamos algumas horas em boa palestra e comendo boa comida. No final da visita fiz uma pergunta sobre a possibilidade de me mudar para os Estados Unidos. Ele falou que havia uma boa possibilidade e que iria fazer consultas.

Em janeiro de 1968 veio a minha cunhada com sua filha, da mesma idade do meu filho. Fizemos uma festa, e ao final minha cunhada afirmou que se eu desejasse ela poderia me chamar para os Estados Unidos. Fiquei bastante entusiasmado com a possibilidade de mudar para a América do Norte.
Em março fui informado de que ela havia dado entrada nos papéis. Comecei a visitar o consulado procurando saber se os papéis haviam chegado e a resposta era sempre negativa. Em junho, logo apos receber mais uma negativa, quando já ia me dirigindo para a saída, o atendente me chamou e disse que acabara de receber os meus papéis. 

Semanas depois fui entrevistado pelo Consul, que ao final da entrevista aprovou minha aplicação. Embarquei em São Paulo num avião da Varig com destino a New York City em agosto de 1968. Foi um voo confortável e agradável.
Ao chegarmos aos Estados Unidos. eu me sentia como uma criança que visita Disneylândia pela primeira vez. Minha cunhada e esposo estavam me esperando. Depois dos abraços e votos de boas vindas, pegamos as malas e entramos no carro e nos dirigimos para Boston, que fica umas duas horas de viagem ao norte.
Esta foi a minha primeira viagem “turística” na América do Norte.  Meu cunhado optou que em vez de usarmos a estrada principal, iriamos usar estradas secundárias atravessando os campos e pequenas cidades da Nova Inglaterra. Foi uma coisa maravilhosa estar em contato com o povo e sua terra, num cenário que eu só conhecia através das folhinhas. Chegamos a Boston e me estabeleci no quarto reservado pra mim, onde permaneci três meses e meio. Comecei a pensar onde estarão minha amada e os meus filhos?

Na semana seguinte comecei a trabalhar com a companhia que me havia chamado. Todos foram cordiais e me trataram com bastante civilidade. Na segunda semana me ofereceram a possibilidade de trabalhar horas-extras, quantas eu pudesse. Aceitei de bom grado, pois assim o meu salario aumentaria consideravelmente.

Dois meses depois dei entrada nos papéis para trazer minha família para perto de mim. O processo foi pronto e sem problemas. Semanas depois fiquei sabendo que minha esposa havia recebido os papéis e estava a processá-los.

Aqui nos Estados Unidos era época de eleições, e as campanhas políticas estavam a todo vapor. As demonstrações contra a Guerra do Vietnam eram ocorrências quase que diárias. Cheguei a ver a convenção dos Democratas em Chicago pela tevê. As demonstrações e confrontações com a polícia daquela cidade me fez pensar “será que isto não é São Paulo”? Tudo isto foi parte da minha educação na vida nos Estados Unidos.

No último domingo de novembro acordei e tive a grande surpresa de ver as ruas e as casas todas cobertas de neve, como se alguém houvesse caprichosamente enfeitado a cidade. Foi meu primeiro contato com o inverno no hemisfério norte. Parecia um cartão de natal que alguém havia pintado. As árvores carregadas de neve davam um show espetacular. Comecei a escrever a minha esposa descrevendo o cenário e lamentando a sua ausência. Tirei algumas fotos para documentar aquele evento. O caminho que nos levaria à Igreja corre ao longo do Charles River que já demonstrava sinais de congelamento. O inverno estava se anunciando, como a dizer: “prepare-se, pois estou chegando”.

Eu recebia correspondências da minha esposa quase que diariamente, e o meu coração doía de saudades da minha família. Cheguei então à conclusão de que eu não deveria esperar que eles viessem a mim; fui, então, buscá-los.
Cheguei a São Paulo na primeira semana de dezembro e eles me esperavam no Aeroporto de Congonhas. Foi um momento maravilhoso rever e abraçar a minha amada e os meus filhos. O resto eu conto depois

Zezé de Moura
Rosemead - CA - USA, 06 de julho de 2010

 

Gratas Recordações!

Ao ver o carteiro se aproximando e depositar as correspondências na caixa de correios, como de costume me dirigi ao portão para buscá-las. Estava ansioso, pois esperava uma remessa de selos da Alemanha. Qual não foi minha surpresa quando achei, entre outras coisas, um envelope do Fernando Pires. Percebi que ele estava pesado e imediatamente entendi que provavelmente se tratava de algum CD. Para minha surpresa, tratava-se não apenas de um CD, mas de vários, incluindo DVDs, e o livro do Gastão, “Afogados da Ingazeira, Retalhos da sua Historia”. A surpresa maior, no entanto, foi o DVD onde está gravada uma entrevista com Severino Pereira Campos, que eu conheci muito bem apenas como Severino filho de Mãe Martinha e irmão de Maía, Corina e Augusto.
A emoção que senti foi muito grande, ao rever Severino e ouvir sua voz calma e amiga. De repente houve uma avalanche de lembranças que turbulentamente me tiraram da letargia do dia a dia. Eu não estava mais em Rosemead, Califórnia; em espirito estava de volta à minha Afogados da Ingazeira de outrora, com sua gente simples e amiga.

Peguei o livro do Gastão, que veio com uma dedicatória pelo autor, o que muito me sensibilizou. Prossegui lendo a epístola do caro conterrâneo numa viagem de lembranças e recordações de velhos amigos e conhecidos, de locais e ocorrências dos tempos idos cheios de saudades. Desde o breve histórico do sr. Augusto, a quem eu chamava de “Seu Gustin”, até o Congresso Eucarístico de 1947, e ficar sabendo que o nome real do sr. Otaciano era Jonas de Morais Veras; da lembrança do Aderval Viana tocando o Tuba, e deleitar-me com os versos do Romão Marques, foram momentos que reviveram na minha mente a vida no sertão. Obrigado Gastão, na minha cartilha você é um precioso filho da terra sertaneja, a quem tive o prazer de conhecer desde jovem. Logo depois vi o DVD com a entrevista com o quase padre Alberico e suas irmãs Alaíde e Aliete, filhos de dona Doca, a quem conheci muito bem. Por todas as medidas o Alberico foi e é um sucesso e afirmação de que educação é fundamental para se enfrentar os desafios da vida. Uma lembrança triste me veio à mente que foi a tragédia participada por Abelardo, irmão mais velho do Alberico. Será que ele ainda esta entre nós?

Voltei a ver a entrevista com Severino de Souza Campos relembrando coisas, à medida em que ele as mencionava. Uma das coisas memoráveis que ouvi aquele caro compadre afirmar, ao responder a pergunta do Fernando, foi que sua vida se resumia a trabalhar e trabalhar para o seu próprio sustento e o da família. Não devia nada a quem quer que fosse, pois tudo que alcançou o fez com o suor do seu rosto; não houve especial tratamento. E isto é um fato que nos deixa com orgulho de tê-lo no nosso meio. Um cidadão que pode afirmar que não recebeu especial tratamento, simplesmente se dispôs a trabalhar, e os resultados falam por si mesmo. Não houve choro ou lamentos, simplesmente a satisfação de poder dizer: “tudo foi produto do meu trabalho”. Isto vale ouro.

Quando ele foi convocado para o serviço militar, durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com outros conterrâneos serviu no Exercito Brasileiro. Esteve em Fernando de Noronha e periodicamente Maía recebia suas cartas dando notícias. Quando, finalmente, veio o fim da Guerra, recebemos o Severino de volta com bastante entusiasmo e satisfação. Eu estava com 10 anos de idade, não entendia o que acontecia, mas, fiquei satisfeito de tê-lo de volta ao nosso meio, são e salvo.

Pouco tempo depois ele contraiu matrimonio com Olindina, sua primeira esposa, a quem tive prazer em conhecer. Quando nasceu seu primogênito, em poucos dias realizou-se o batizado. Fui com Maía à Igreja para ser o padrinho do menino Fernando Campos. Durante minha visita a Afogados, em 1980, tive o prazer de ver meu afilhado que naquela época estava recém-casado, e seguindo os passos do seu pai, estava trabalhando com caminhão, viajando pelo Brasil afora.
Acompanhado pela minha querida Maía, Fernando e esposa, fomos visitar a já famosa Barragem de Brotas. Parece brincadeira que tive a oportunidade de andar na parede enorme da barragem. Hoje não o faria nem por brincadeira. São recordações de momentos inesquecíveis.

Outro momento importante aconteceu em Recife, onde eu estava para coletar um dinheiro que me era devido, no entanto não havia fundos naquele momento, e eu teria que voltar semanas depois. Eu estava praticamente sem dinheiro para pagar passagem de volta pra Afogados. Fui ate o local onde se congregavam os caminhões de carga e lá encontrei um caminhão de Afogados, e Severino era o motorista, mas não me recordo quem era o dono do automóvel. Expus a minha situação e disse que pagaria a viagem ao chegar em casa. Meu apelo foi atendido e retornei a Afogados. Naquele momento aprendi o valor de um amigo.

Vendo o DVD, fiquei sensibilizado com a mensagem do Severino dirigida a mim. Era perceptível a emoção na voz do caro compadre que tinha ao seu lado a sua segunda esposa. O primeiro impulso era de pular da cadeira e ir abraçá-lo, mas, impossível! O tempo e a distância nos separam, mas, o sentimento de amizade permanece intacto.
Um abraço e até outra oportunidade!.

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 23 de junho de 2010

 

 

Relembrando #3

A abertura do Cine Pajeú em 1942 foi algo marcante na história de Afogados da Ingazeira, uma cidade distante, quase perdida no meio do Sertão. Com um sistema de energia elétrica quase inexistente, não foi suficiente para obstruir os planos do Sr. Helvécio César de Macêdo Lima, de nos entreter com as fantasias na tela que aquele estabelecimento nos proporcionaria.

O dia inaugural provou ser um sucesso absoluto. Eu, no entanto, me contentava em ouvir os comentários pelos que tiveram a experiência. O fato é que meu pai achava que cinema não era coisa para criança, e eu estava com apenas 7 anos de idade. Ocasionalmente papai me permitia assistir um filme considerado histórico ou religioso, por exemplo. A queda da Bastilha, A Paixão de Cristo, etc.

A minha liberdade de ir ao cinema, quando desejasse, só aconteceu quando completei 12 anos de idade.Isso, quando fui passar uns meses com um tio no Recife; ele só tinha filhas já adultas. Eu fiquei sendo o menino que ele nunca teve, e, como tal, ele me tratava com bastante carinho e amizade, sem muitas restrições, sendo a minha ida ao cinema permitida.
Naquela época o cinema custava de 50 centavoss a Cr$ 1 cruzeiro, dependendo da localização. Eu tinha uma dose diária de filmes de Cowboys, de Aventuras, etc. Quando voltei pra casa proclamei minha independencia, pois já usava calças compridas. Foi aí então que, assiduamente, comecei a frequentar o Cine Pajeú, aos domingos, quando eram apresentados filmes de longa metragem com o noticiario e as vezes uma comedia. Havia também a matinê às 3 da tarde.
Na quinta feira eram apresentados os seriados, tais como, O Fantasma, Tarzan, etc. E isto era o suficiente para termos o que falar a semana inteira. Antonio, filho do Sr. Agnelo, a quem chamávamos de Seu Tonho, era um bom camarada que tambem tinha paixão pelos detetives e seriados. Costumávamos ter intermináveis conversas sobre personagens dos filmes.

O Sr. Luiz de França Amaral era um bom amigo e mentor. Eu costumava ir ao cartório e ele me permitia usar a máquina de datilografia. Quando havia longos contratos ou documentos , ele me pedia para ditar os escritos para que ele os datilografasse, e o pagamento era sempre o bilhete de entrada ao Cine Pajeú. Luis era um assiduo frequentador do cinema e gostava dos filmes de cowboys e dos seriados. Frequentemente sentávamos na mesma área e nos divertíamos torcendo pelos heróis. Na mesma área sentava-se tambem Rivadávia, irmao de Joaquim Nazário, que também gostava da farra.
O filme que estava sendo apresentado envolvia mistério e romance, não me recordo do titulo, mas me recordo muito bem que silêncio era completo e a cena era intensa. Quando finalmente o galã beijou a moça, houve então um grito de aprovação entusiastica,”aí, mocinho!” . A turma simplesmente caiu na gargalhada, quebrando toda a intensidade da cena dramática. Como todo moleque sem nenhum bom senso, achei que era sucesso e repeti a cena algumas vezes mais.
O Sr. Helvecio no entanto achou que era hora de parar com aquela interferência e veio falar comigo, dizendo: “se você não se comportar corretamente, e repetir essa bobagem, será proibido de entrar no cinema”. Este foi o ponto final da minha carreira como comediante, mas, continuei a me deleitar com as apresentações cinemáticas do Cine Pajeú.

Dias depois, numa tarde quente, o nobre amigo Luiz Amaral resolveu que deveria ir até Tabira para acertar alguns negócios. Pelo pouco que fiquei sabendo, um ilustre daquele local havia dito algo ofensivo sobre Luiz e, desafiante, ele resolveu então que iria ate Tabira para por os pontos nos is.
Ele carregava um 38 SW, fechou o escritorio e me convidou para acompanhá-lo ate aquela cidade, e eu aceitei de bom grado o convite. Ao chegarmos em Tabira fomos diretamente para um café no centro da cidade que era bem menor naquela epoca. Momentos depois começaram a aparecer alguns ilustres senhores conhecidos do Luiz, que estabeleceram um bate-papo agradável. O Luiz declarou o propósito da visita e disse estar no local aguardando o desenvolvimento dos eventos, pois uma das coisas que haviam sido mencionadas pelo desafiante, era que Luis não seria bem vindo naquele local.
Outros apareceram e a conversa se desenvolveu amigavelmente sem a presença do ofensor. Lá pras 4 e meia da tarde, ficou resolvido que regressaríamos para Afogados, pois o ofensor não havia aperecido até aquele momento e não podíamos perder o seriado que estava sendo apresentado naquela noite no Cine Pajeu.

Hoje, recordando tais eventos, parece-me até produto de imaginação. No entanto, posso afirmar que assim foram as coisas naquela epoca tão distante e ao mesmo tempo tão perto na minha lembrança.
Até breve.

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 28 de maio de 2010

 

 

Uma tarde primaveril

Está um dia maravilhoso de primavera, quando o sol é morno sem chegar a ser quente, e uma brisa fria nos acaricia a pele. Logo após o café da manha, resolvi que iria passar a maior parte do dia lá fora, cuidando do jardim, desfrutando o ambiente floril que a criação divina nos concede nesta estação de regeneração e de crescimento. Trabalhei por algumas horas até que me senti cansado sem estar exausto, parei e dediquei toda minha atenção ao cenário que me envolvia. Sentei-me no banco cercado por diversos tipos de flores, fiquei não só a observar a beleza floril mas, comecei a ouvir e identificar os gorgeios da passarada.
O Blue Jay com seu grito agudo, a seresta continua do House Fink (parente do canário) procurando uma parceira, num apelo contínuo, seguido e às vezes até coincidindo com os melódicos cantos do “Mockingbird” como se fora uma competição. Ele também está à procura de uma companheira (este pássaro imita o canto de diversos outros e os apresenta num arranjo magnífico, quase incessante e às vezes até após o anoitecer). É realmente uma sinfonia sem igual. Senti-me como se estivesse em locais distantes, longe do corre-corre das grandes cidades, senti aquela tranquilidade que nos dá paz de espirito e prazer em viver.

Foi com esse sentimento de bem estar quase eufórico, de participante de tal beleza, que resolvi que deveria participar estes sentimentos com alguém, e o melhor meio, sendo esta página uma dádiva do amigo Fernando Pires, seria aqui. Quando parei para observar as flores e arbustos, estava cansado fisicamente, suado e sedento. Ao parar para um breve descanso senti imediatamente o alívio; foi como se houvesse tomado uma medicação mágica das histórias da carochinha. Ao me levantar e dirigir para a porta de trás da nossa casa, fiquei em baixo da corda de roupa; de repente, quase na altura da minha cabeça, veio aquela pequena criatura de agilidade e velocidade incríveis; ela chega a parar no ar como se fosse a um helicóptero. O pequeno pássaro veio, pousou na corda, e não se intimidou com a minha presença .
Sylvia chegou à janela e ficou em silêncio a observar o que acontecia. Finalmente o beija-flor saiu voando para outros locais no quintal, onde ele é residente oficial do meu jardim e vai de flor em flor a beijá-las, e com isto fazendo o processo de polinização para perpetuação do processo procriativo.
O que mais me chamou a atenção foi o fato de que isto não é novidade; acontece ano após ano, com uma precisão pontual que não paramos para observar, e, quando o fazemos, ficamos surpresos e embevecidos com as coisas criadas por Deus que funcionam independente de qualquer interferência nossa.

Outra ocorrência, aqui no jardim, é o grande numero de abelhas que vêm visitar as flores , principalmente o pé de Lavanda com seu perfume doce. Lembrei-me, então, que também somos criaturas de Deus, e que a Ele tudo devemos..
É como diz o Salmo 53:1: Somente um tolo diz “não há Deus”.
Ate breve.

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 28 de abril de 2010

 

 

Relembrando. Zezé e Sylvia... O começo

Estamos nos preparando para comemorar 51 anos de casados, e com isto vieram as recordações do começo das nossas vidas, juntos, lado a lado, e toda a sua progressão.

Ficamos noivos na véspera do Natal de 1957, em frente ao Copacabana Palace Hotel, na praia de Copacaba, Rio de Janeiro, o mesmo local onde nos encontramos pela primeira vez na passagem do ano de 1954 pra 1955. Trocamos juramentos de eterno amor, coloquei a aliança no seu dedo e ela fez o mesmo comigo. Logo após fomos participar da festa de Natal na casa da familia onde ela estava hopedada e fizemos o anúncio. La estava, também, o irmão da minha amada. Ele estava na escola de Cadetes da Aeronáutica e estava para concluir o curso da FAB.

Foi naquela noite que minhas prioridades mudaram. Antes era só eu e eu mesmo; agora, éramos nós e o nosso futuro.

Após sair da Marinha, em meados de 1958, radiquei-me em São Paulo, que na época era o centro magnético de quem desejava uma oportunidade melhor de ganhar o pão de cada dia. Eu, no entanto, fui atraído para São Paulo por uma razão mais forte: minha noiva estava à minha espera naquela metropole, e eu ansioso para revê-la.

Visitei São Paulo várias vezes, agora eu estava me estabelecendo na metropole conhecida “A cidade que não para”. E isto era verdade; havia trabalho pra quem desejasse trabalhar. Iniciei minha carreira civil trabalhando alguns meses na Philco Radio e TV, no departamento de produção, que deixei algum tempo depois para trabalhar em vendas.

Finalmente, em dezembro de 1958 fui trabalhar no Moinho Santista, onde fiquei por 5 anos e meses. Foi uma boa oportunidade que agarrei e não deixei escapar. Foi lá que desenvolvi meu potencial, assumindo várias posições de crescimento.

Próximo às festividades natalinas, a Companhia dava uma Cesta de Natal com produtos alimentícios das suas diversas fábricas e outros mais. Fiquei agradavelmente surpreso com a benevolência da Companhia, e levei a cesta para a casa dos pais da minha noiva e lá fizemos uma festa. Eu estava descobrindo um mundo civil, que era novidade para mim.

Continuamos a nos preparar para as bodas, que aconteceram no dia 9 de maio de 1959, na Primeira Igreja Baptista de São Paulo, onde ela e sua familia eram membros e eu vim a ser membro dois anos depois.

A lua de mel passamos em Santos, hospedados num apartamento que o pastor da Igreja nos cedeu para aquela ocasião. Foi uma semana de sonhos e amor que lembro com ternura, como se fosse hoje.
Ao regressar ao batente, a companhia me deu um aumento de salário de Cr$1000.00, que era um bom dinheiro naquela época. Eu fiquei bastante agradecido pela generosidade demonstrada. Alugamos uma casa na Vila Campesina, em Osasco, localizada a uns 500 metros da fábrica de lençois. Era uma beleza, pois eu ia e voltava do trabalho a pé.

Nossa vida de casados se desnvolveu e nosso amor do mesmo modo. Agora, a vida tinha um novo significado para nós. Vila Campesina era um desenvolvimento da Companhia City. Já existiam algumas ruas com casas construídas pela empresa, no entanto, havia um bom numero de lotes vazios. Ela resolveu que era tempo de vender os lotes restantes. Uma noite, um representante da Companhia City veio nos oferecer a oportunidade de comprar um lote ou lotes na vila. Nós ficamos fascinados pela oportunidade que batia à nossa porta. A oferta era boa e razoável e nós compramos um terreno na rua por trás da rua onde morávamos. O lote era quase por trás da nossa residencia. Daí em diante nosso objetivo era construir nossa casa.

Preparamos nosso orçamento com todas as prioridades de despesas, e tudo que sobrava era aplicado na conta da construção da casa. Fizemos quase que um esforço de Guerra. Não comprávamos nada superfluo, e isto continuou por dois anos, até que mudamos para o nosso novo lar.
Com não podíamos construir imediatamente e a inflação era o grade inimigo, começamos então a comprar o material à medida que o dinheiro entrava.

Contratei um vizinho que era pedreiro e bom nordestino, e ele aceitou minha proposta e iniciamos a construção. Todos os planos de arquitetura foram realizados por minha esposa. Ela é artista, desenhista, pintora e tem conhecimento do assunto de plantas arquitetonicas. A minha parte era a das finanças e contratos. Funcionou maravilhosamente bem.

A primeira parte foi construir a base até a lage de concreto. Como o terreno era inclinado pra trás, resolvemos fazer a casa com dois niveis; os resultados foram excelentes. Alguns meses depois começamos a segunda parte, que era a frente da casa. Concluída, nos mudamos para a nossa nova casa, o que nos deu uma economia considerável. Levaria mais um ano para a sua conclusão.

Logo que iniciei a trabalhar com o Santista, percebi que a companhia estimulava os funcionarios a terem uma boa educação, chegando até a oferecer pequenos subsidios. Fiquei conhecendo um colega que estudava o Ginásio à noite; era o Curso de Madureza que tinha a finalidade da sua conclusão em dois anos. Foi uma das melhores experiências da minha vida. O curso era intensivo e desafiante, mas, excelente. Abriu a minha mente para um mundo de informações que eu desconhecia.

Eu trabalhava das 8h as 5h da tarde, chegava em casa, jantava e me preparava para ir ao ginásio que era no centro de São Paulo. As aulas eram das 19h às 10h40. Ao término, eu andava uns 10 minutos para pegar o ônibus de volta pra casa. Isso eu fazia 5 dias por semana, durante 2 anos, até a conclusão do curso. Naquela epoca estava se desenvolvendo a convulsão política que culminaria com a revolução de 64.

Nesse meio tempo, em 6 de Novembro de 1962, chegou nosso primogenito. Um menino de 4,3 kg que veio alegrar nossos corações, Quando ele estava com um ano e dois meses, achamos que era uma boa oportunidade para visitar meus pais em Afogados da Ingazeira. Pensei em onibus mas resolvi ir até o Bras e verificar minhas opções. Foi ali que me encontrei com o famoso conterraneo“Cotoco”, outro refugiado sertanejo. Cotoco me informou que havia um grande numero de carros novos que viajavam semanalmente pra Recife onde seriam vendidos, e que eles levavam passageiros.

Fiquei interessado com a opção e ele nos contratou com um grupo de tres peruas Rural Willis. Foi uma grande aventura pois ficamos conhecendo mais uma parte do Brasil que não conhecíamos. Paravamos em certos locais para tomar as refeições e descanso. Já era noite quando atravessamos o rio São Francisco; paramos na primeira cidade e fomos dormir num pequeno hotel. Após o café da manha, saímos em direção a Garanhuns, onde nos separamos do comboio que continuou pra Recife.

Pegamos um Onibus para Arcoverde, onde esperamos pelo trem que nos levaria para Afogados da Ingazeira. Ficamos passeando pelo centro de Arcoverde quando passei em frente a uma loja; o dono da loja me reconheceu e veio nos cumprimentar. Era o sr. Antonio Honorato, que foi nosso vizinho em Afogados por muitos anos. Ele me conhecia desde que nasci, e Vicente, seu filho mais velho, era da minha idade. Fomos convidados para ir até a sua residencia onde sua esposa, dona Doralice nos recebeu de braços abertos. E todos desejavam brincar com Igor, meu primogênito.

Foram momentos memoráveis, de calor humano e amor fraternal que eu não esperava encontrar em Arcoverde. Conversamos, relembramos e nos regozijamos com nosso encontro amigo.

Finalmente, era hora de seguir viagem, de trem, que nos levou ao velho torrão. A expectativa era grande. Eu estava voltando a casa dos meus pais para apresentar-lhes a minha esposa e o meu filho.

Comecei a relembrar cada curva da estrada e os cenários que se apresentavam, contando cada km. Finalmente chegamos a Afogados da Ingazeira antes do anoitecer. Toreba nos levou da estação até a casa do meu pai. Quando o carro parou e saímos, indo na direção da casa, a tensão era indescritivel, pois era um surpresa para meus pais. Papai e mamãe nos abraçaram com lágrimas e sorrisos. Como de costume, nossos amigos começaram a vir para nos dar as boas vindas. A casa ficou cheia da alegria simples e amiga da nossa gente.

Parecia brincadeira que estávamos em Afogados, na casa dos meus pais, cercado por amigos e parentes . Desta vez trazia comigo o amor da minha vida, minha esposa e o nosso primogenito.
Passamos mais de uma semana com meus pais, tempo suficiente para descansar o corpo e o espírito, apos a longa jornada.

O resto eu conto depois.

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 22 de abril de 2010

 

 

Maria Luiza Martins Moura

Neste Domingo frio e chuvoso de Abril, a melhor escolha para passar a tarde é tirar uma soneca após o almoço. Hoje, no entanto, resolvi dar uma olhada nesta página. Foi aí então que vi a crônica da Maria Luiza que me despertou e prendeu toda a minha atenção. Entendi então que somos almas gêmeas, com a mesma saudade e o mesmo sentimento de amor pelo que foi quando éramos crianças.

Minhas lembranças da nobre conterrânea não são claras, pois o tempo passou, levando consigo uma boa parte das memórias, pois 60 anos se foram desde que saí de Afogados da Ingazeira. No entanto, estive ao lado dela quando descrevia a casa paterna em todos seus detalhes. Desde as redes e os ganchos, bem como o que chamávamos de “candeeiro” ou placas, que iluminavam nossas noites, pois eletricidade era inexistente. Estas são a marca de uma era, de quando estávamos descobrindo o mundo com seus horizontes longínquos, sem nada a nos preocupar.

A família era o nosso refúgio, nossa âncora. A menção das placas ou candeeiros despertou em mim as lembranças de quando eu lia os livros de Tarzan ou de Sherlock Holmes à luz do velho candeeiro. Quando o relógio marcava 22 horas minha mãe falava: “Meu filho, apague o candeeiro e vá dormir”. Essa frase ainda hoje soa como se fora o presente, mesmo depois de tantas primaveras.

Cara Maria Luiza, você não tem nada a desculpar-se; seus comentários são ricos em sentimento e emoção, baseados nas experiências, na trajetória dos seus dias neste universo que o Senhor Deus nos deu. São riquíssimas em amor fraternal e de um valor inestimável.

Os que por acaso dizem que o passado passou e não tem valor, esquecem que, para realmente apreciar o presente, temos que relembrar o passado. Ele é o nosso ponto de referência para podermos decidir e não repetir erros do passado.

Tenho lido comentários seus e de outros conterrâneos que me ajudam a refletir e fazer um balanço da minha jornada.

Você tem muito pra nos oferecer, pois temos sempre uma história pra contar e um livro pra escrever; é só colocar no papel os pensamentos, deixando fluir os sentimentos, o que você tem feito de modo exemplar. Permita-me dizer que você tem realmente boas conexões, pois Deus nosso Criador e Jesus Cristo nosso Salvador, são nosso conforto e refúgio absoluto. Dirige-nos e assiste quando mais necessitamos. Que Deus lhe abençoe e guarde, fortalecendo o seu espírito e dando Paz.
Ate breve!

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 11 de abril de 2010

 

 

Doutor Hermes

Uma vida com o propósito único de servir recebe hoje o reconhecimento da sua comunidade. Dr. Hermes está completando 100 anos de idade. Um marco desejado por muitos e só alcançado por alguns escolhidos por Deus. Desejo adicionar minhas palavras em reconhecimento a tão honrado cidadão, a quem a municipalidade afogadense está derramando seu coração em gratidão àquele que serviu nosso rincão sertanejo.

Meus contatos com Dr. Hermes foram mais sociais e por pequeno período. Recordo-me muito bem quando do primeiro aniversário da sua primogênita. Praticamente houve um “open house”, ou seja, a casa foi aberta para todos que desejassem participar da festinha. E fomos recebidos com grande hospitalidade pelo casal, Dr. Hermes e D.Teresinha.

O marco do seu labor como prefeito beneficiando a cidade de Afogados da Ingazeira é evidente ainda hoje. Os paralelepípedos do calçamento foram instalados desde o velho Cruzeiro até a praça em frente a catedral, e desde então não haveria mais ruas barrentas e enlamaçadas na época das chuvas. Ainda hoje, quem anda pelas ruas principais de Afogados, deve uma gratidão profunda a sua administração como prefeito. Havia, naquela época, um sentimento de que estávamos progredindo, que as coisas estavam mudando para melhor, e que a cidade estava se embelezando como uma jovem de 15 anos. Isto demonstra que um homem de visão faz diferença e consegue milagres. Ele veio, viu, gostou e ficou para nos beneficiar com sua contribuição inestimável como médico, cidadão e prefeito da nossa cidade.

Seu exemplo como pessoa pronta para servir é uma lição a ser apresentada às novas gerações como um bom exemplo de cidadania.

Vamos agradecer a Deus por nos haver dado Dr. Hermes por todos estes anos, e que possamos continuar a nos beneficiar com sua presença.

A palavra de Deus nos ensina que “É dando que se recebe”. Vamos dar as honras merecidas àquele que tanto nos deu no decorrer dos anos. Daqui da América do Norte quero juntar minha voz à dos conterrâneos e dizer: “Feliz 100 aniversários, Dr. Hermes”... Comecemos a contar o segundo centenário...

Parabéns, e obrigado por sua presença no nosso meio.

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA, 31 de março de 2010

 

 

Relembrando os Cruzadores

Logo apos o café da manhã liguei o computador, abri o email, e qual não foi a minha surpresa ao ver o titulo de um deles, ”Cruzador Barroso”. O título me acordou imediatamente da sonolência matinal, e ao ver a foto daquele navio tendo o Pão de Açúcar de fundo, imediatamente voltei ao ano de 1952. Comecei a ouvir os apitos de comando, as vozes anunciando que era hora do “rancho” (refeição em linguagem marinheira.) para os que iriam entrar de serviço. Que após 1 hora da tarde haveria liberdade para irmos a terra, e mais uma torrente de recordações daqueles dias da minha juventude. Fiquei muito emocionado e as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar. O choque foi grande, pois receber notícias referentes ao velho Cruzador não registravam na minha mente. Desejo aqui agradecer a lembrança do conterrâneo José Batista do Nascimento por sua gentileza ao enviar-me tão preciosa lembrança. Muito obrigado.

Realmente o C11, Cruzador Barroso era motivo de orgulho para a Marinha do Brasil. Era um navio moderno, de grande poder de artilharia, bem como com tecnologia moderna de Radar e Sonar que nos maravilhava. Além do mais, era de presença imponente e belo em aparência, principalmente para nós que estávamos sendo introduzidos ao grande navio pela primeira vez.

Quando chegamos ao Rio de Janeiro em 1952, fomos alojados no CIAW na ilha das Enxadas, que era o centro de instrução para as diversas carreiras de especialização na marinha. Dias depois fomos distribuídos por vários navios e o Barroso foi um deles. Fui destacado para o Barroso juntamente com um grupo de grumetes da minha turma, de modo geral ficamos atônitos e maravilhados com o velho cruzador. Lá, ficamos algumas semanas, ate que fomos redistribuídos para outros navios.

Fui sorteado ao ser alocado com o C12, Cruzador Tamandaré, onde fiquei por um ano, até que fui de volta para o CIAW, desta vez como aluno na escola de Eletrônica. Os dois navios eram quase gêmeos; havia, no entanto, algumas pequenas diferenças mas sem consequências. Foram navios que participaram da 2ª Guerra Mundial sobre o nome de Philadelphia, que veio a ser Barroso, e New Jersey, que tomou o nome de Tamandaré. Os dois foram renovados nos estaleiros de Philadelphia e Norfolk . A primeira guarnição passou um ano nos USA aprendendo como operar todos os aspectos dos navios. O Barroso veio primeiro, pouco tempo depois veio o Tamandaré.

Uma das coisas interessantes que aconteceram foram as surpresas agradáveis da nova residência. Alguns de nós ao abrir os armários do nosso alojamento encontrávamos moedas de vários valores. Um dos colegas ao trabalhar no sistema de circulação substituindo os filtros, encontrou uma boa quantidade de dólares escondidos na tubulação, equivalente a um mês de salário, e muitas outras surpresas, como fotos etc.

Com o Tamandaré participei de vários exercícios em alto mar que me trazem grandes recordações, e a trajetória para sair da baia de Guanabara era a mesma saudando o Pão de açúcar. Num destes exercícios tive a oportunidade de conhecer a Ilha da Trindade e Fernando Vaz, as quais distam umas 200 milhas marítimas da costa brasileira. Um dos momentos mais emocionantes ocorreu em 1954 quando das comemorações do IV Centenário de São Paulo. Saímos do porto do Rio de Janeiro, um grupo de navios da Marinha do Brasil, para nos juntarmos a um grupo de 29 navios Americanos, que vinham participar das festividades. Entrei de serviço como vigia na popa, parte ré do C12 às 4 da manhã. Na escuridão da noite não se via nada, no entanto, a medida que a alvorada se anunciava, comecei a notar pontos escuros na linha do horizonte distante. Avisei a torre de comando e continuei na minha observação.
À medida que a manhã clareava mais nitidamente as figures se definiam. Com binóculos potentes, eu podia ver claramente o que estava diante de mim. De repente a adrenalina tomou conta e comecei a me sentir parte de uma grande parada de uma grande força naval. Era algo maior do que eu imaginara, era realmente exuberante, monumental. Momentos depois um submarino veio a superfície de maneira espetacular, e eu senti que estava vivendo uma realidade.

Fizemos alguns exercícios e manobras e continuamos para o porto de Santos. Ao nos aproximarmos da entrada do porto veio o comando para formação em parada homenageando os paulistas. La fomos nós em uniforme branco e o navio ostentando as diversas bandeiras de sinalização, num show colorido e festivo, com a banda dos fuzileiros tocando o Cisne Branco. Durante toda a trajetória, em direção ao porto, fomos recebidos por pequenos barcos e éramos aplaudidos pelo povo que estava em grandes festividades. Pelo fato de ser um numero grande de navios, o grupo dos 29 navios Americanos foi dividido, sendo parte dirigida para o Rio de Janeiro. Tive a oportunidade de ir até a capital paulista e participar das festividades de 25 de Janeiro de 1954, que se estenderam pela noite no centro da cidade.

Como podem ver, a Marinha foi parte da minha vida por apenas 6 anos, no entanto, foram anos cheios de experiências e aventuras que ainda hoje movem meu espírito.

A Marinha do Brasil foi meu Ginásio, foi onde cresci e desenvolvi como cidadão. Onde aprendi a ser independente e responsável e nunca dizer não sei ou não posso. Como tudo na vida há um momento propício para mudar, e foi isto que fiz quando voltei para a vida civil em 1958. As recordações permanecem, principalmente as boas, porque houve também as desagradáveis, mas procuro lembrar-me apenas dos momentos que deleitaram meu coração, e me influenciaram na formação da minha vida como cidadão civil. Obrigado José Batista. Ate breve!

Zezé de Moura
Rosemead, CA - EUA,

 

 

Vitória Popular
Na Luta Contra o Caos Sonoro


Ao ler a notícia de que as autoridades resolveram ouvir o clamor popular contra a bagunça sonora, não pude me conter e gritei “aleluia!” A emoção que senti é nada mais nada menos do que uma reação de alegria ao testemunhar a vitória do cidadão afogadense, numa reafirmação de que o poder é do povo, vem do povo e é delegado pelo povo aos políticos e administradores da coisa pública, que consequentemente são serventes da comunidade.

Nossos conterrâneos estão de parabéns por haverem gritado um ressonante “basta à bagunça sonora!”. A participação individual e coletiva do cidadão é fundamental para que tenhamos uma sociedade democrática, onde o cidadão é ouvido e as leis respeitadas. Considere o fato de que as leis já existem, mas, está evidente que ninguém estava interessado na sua execução. Porque será? É a pergunta.

Vamos continuar a pressionar os responsáveis pela administração pública a fazer com que as leis sejam respeitadas. Não é suficiente assinar papéis ou fazer declarações públicas, vamos nos manter alertas para ficarmos certos de que as leis serão cumpridas e preservadas. Agora, mais do nunca, está provado que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Se ficarmos apenas resmungando ou apontando o dedo pra esse ou aquele, nada será resolvido e estaremos marcando passo vendo o tempo passar.

É necessário convencermos nossos conterrâneos de que num sistema democrático o Povo é o Patrão. O poder de eleger e remover representantes está em nossas mãos. Vamos nos manter informados para poder tomar uma decisão sábia quando elegemos nossos representantes. Está provado que esta página é um importante veículo para disseminar informações, nos mantendo atualizados no que ocorre de bom e de mal na nossa terra. Vamos, portanto, agradecer novamente ao Fernando por sua contribuição contínua de nos educar com os fatos.
Ao se encontrarem, os escoteiros usam a saudação “sempre alerta!” Ela é aplicável hoje e sempre , em todas as circunstâncias da nossa vida. Fiquemos, pois, de olhos abertos para garantirmos o bem estar comum, pois haverá muita luta pela frente.

Até breve!

Zezé Moura
Rosemead/CA - USA, 1º de fevereiro de 2010

 

 

A Poluição Sonora
e os Direitos Humanos


Quando eu pensei que o problema do Lixo estava sendo solucionado, fui surpreendido com um mal bem maior, que é a Poluição Sonora, ou seja, Lixo Sonoro. É incompreensível que uma cidade ou vila possa permitir que a comunidade seja exposta a tal tratamento desrespeitoso e contundente sob qualquer pretexto. O uso e abuso de equipamentos sonoros de alta capacidade amplificadora a funcionar descontroladamente, ofendendo o sistema auditivo da comunidade, é simplesmente inaceitável. Não há justificativa para tal.

Se perguntarmos a qualquer médico, ele nos dirá que o som em alto volume é uma maneira garantida de ficarmos surdos em tempo curto. Isto e uma coisa que nunca entendi: como nosso povo não tem a menor noção de respeito à qualidade de vida da sua comunidade. Ninguém tem direito absoluto, e muito menos o direito de causar a surdez do seu semelhante. Isto é tão elementar como o Baba. Ao que me parece, a turma reclama, mas, ninguém está tomando uma posição séria para proibir tal pratica poluidora do éter e do dia a dia das nossas vidas. Nós todos necessitamos paz e tranquilidade para manter uma vida calma e agradável, e acima de tudo uma boa audição.

Minha gente, não espere que a policia seja a única solução, há coisas que requerem nossa intervenção individual ou coletiva imediata. Quando alguém parar um carro na frente de sua casa com amplificadores de som a gritar pra todos os ventos, intervenha pessoalmente e faça o infrator entender que você não deseja ouvir o barulho. Faça claro para o infrator que ele tem duas escolhas: ou ele para com o barulho ou perderá o amplificador. Há momentos na vida em que se faz necessário tomarmos medidas drásticas e este é um deles.

Fazem-se tantas campanhas para preservar o meio ambiente, o planeta e sei lá mais o que, no entanto não estamos preservando uma das coisas preciosas da vida que é a audição, a capacidade de ouvir a voz dos nossos entes queridos, das músicas maravilhosas e de mantermos uma conversação, e a sanidade mental. Acorda gente, pare de prejudicar o bem estar do povo.

Não há desculpa ou justificativa para ficarmos parados. Vamos iniciar uma campanha contra essa poluição desrespeitosa do nosso direito de uma boa audição e uma vida saudável. Providências imediatas se fazem necessárias, a inação significara que nada mudará, pois, quem cala, consente. Vamos protestar junto à Administração da Cidade e aos Órgãos do Judiciário. Vamos nos movimentar, esta é a única solução. E quando digo vamos, digo não só um individuo, mas, todos juntos

Zezé Moura
Rosemead/CA - USA, 18 de janeiro de 2010

 

 

Luciano e o Rádio Mullard

Luciano, mais uma vez você nos dá a oportunidade de participar das suas preciosas lembranças, as quais passam a ser nossas, pois tivemos experiências similares e às vezes ate mesmo idênticas.

Sua narração, cheia de emoção e amor, trouxe de volta minhas experiências com o rádio, às quais guardo com muito carinho. Naquela época a energia elétrica era quase ou totalmente inexistente em Afogados da Ingazeira, e a solução era usar a bateria de carro.
Lembro-me bem de Toreba, que morava três casas ao norte da casa do papai. Era um encontro pontual ir até a casa do Toreba às cinco e meia da tarde para ouvir os seriados de Tarzan e Do Vingador (Lone Ranger aqui na norte America). Ele tinha um rádio do mesmo tamanho, não sei se da mesma marca, mas era a nossa única conexão com o resto do mundo, usando a bateria do carro, pois a cidade estava às escuras, o que me fazia sonhar, voar com a minha imaginação, para terras e lugares distantes.
Depois veio a mais vibrante aventura no Rádio, que foi a Copa do Mundo de 1950. Dr.Bartolomeu era o residente engenheiro do DER residindo duas casa abaixo na nossa rua. Ele era um verdadeiro entusiasta do futebol. Na noite do jogo final da Copa, entre Brasil e Uruguai, ele me convidou para ouvir o jogo. La estava, também, o Dr. Arthur Lima, promotor público naquela época. A decepção da perda do campeonato foi muito grande, mas a possibilidade de participar daquela empreitada minuto por minuto, graças ao Rádio, foi uma experiência ímpar.

O outro lado do seu artigo que me tocou mais ainda, foi saber que és filho de Iraclides. Ele está bem nas minhas lembranças por um fato interessante que ocorreu. Eu estava de malas prontas para viajar para o Recife e ele possuía um carro que usava como taxi. Pedi que ele me pegasse em casa para levar-me ate à Estação Ferroviária. Ele dormiu mais do que devia e só acordou quando bati na porta da sua casa na Av. Rio Branco. Ele se desculpou e eu perguntei se poderia me levar ate Iguaracy e ele disse que estava de acordo, e lá fomos nós, numa corrida para alcançar o trem. Isto eu nunca esqueci.

Conheci muito bem seus avós e suas tias, entre elas Izaura que foi parte da minha classe no 4º ano primário. Ela era muito bonita e alegre. Permita-me agora perguntar-lhe o nome da sua mãe. Infelizmente rebusquei minhas memórias e não consegui relembrar.

Continue nos brindando com seus comentários. Até a próxima.

Zezé Moura
Rosemead/CA - USA, 27 de novembro de 2009

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