ZEZÉ DE MOURA
Cronista afogadense, aposentado, residente em Rosemead, Califórnia, Estados Unidos. Filho de dona Aurora Moura, professora das mais autênticas, até os anos 50/60, que fez história em Afogados da Ingazeira também tocando Serafina (órgão) na Catedral do Senhor Bom Jesus dos Remédios.
RELEMBRANDO - PRIMEIRA VIAGEM
Concluímos o curso de Aprendiz Marinheiro em dezembro de 1951. O entusiasmo que sentíamos era real, pois mais uma porta se abria para nós, que em breve faríamos o juramento à bandeira, significando que estávamos incorporados oficialmente como membros da Marinha Brasileira.
Dias depois tivemos licença para visitar nossas famílias por um período de três semanas, Fui então visitar meus pais no velho rincão sertanejo. Aproximava-se o fim do ano, e havia muita atividade em Afogados que se preparava para as festividades costumeiras. Foram dias memoráveis, quando pude rever e abraçar parentes e amigos, com a certeza de que estava cortando todos os laços umbilicais por completo. Eu estava com 18 anos.
Após as festividades, era hora de voltar para a Escola de Aprendiz Marinheiro para nos preparar para o embarque no navio transporte Duque de Caxias que nos levaria numa longa viagem até o Rio de Janeiro.
Meus pais e meu irmão vieram para assistir minha partida, que estava programada para o começo da primeira semana de fevereiro de 1952. Dias antes do meu embarque, fomos ate um estúdio fotográfico, onde tiramos umas fotos memoráveis da nossa família, que hoje aparece nesta página. Na véspera da partida embarcamos no Duque de Caxias. Meus pais vieram ate o Marco Zero do Recife, onde o navio estava atracado, para ver e visitar a embarcação. O Duque de Caxias era um belo navio de passageiros, convertido em transporte de tropas, com uma capacidade de acomodar um total de 1200 pessoas, incluindo a guarnição do navio. Ele trazia um grupo que havia embarcado em Natal, no Rio Grande do Norte.
Papai nunca havia visto um navio e aproveitou esta oportunidade para vê-lo por dentro. Subimos a prancha, pois ja tínhamos permissão para acompanhar visitas, e fomos explorando o interior da nave. Os corredores, os alojamentos, o rancho (nome marinheiro para restaurante); subimos e descemos escadas que nos levavam a diferentes níveis da embarcação até a torre de navegação. Papai ficou impressionado com o que viu, e bastante orgulhoso de ser apresentador guia da visita. Finalmente retornamos para o cais, onde minha mãe juntamente com tia Lalú e primas nos esperavam. Conversamos mais um pouco, já era noite e eu teria que voltar para o navio pois a hora de visitas estava para expirar. Abracei a todos, mamãe fez muitas recomendações. Eu os convenci a não voltarem ao porto no dia seguinte, pois estaríamos saindo as 8 horas da manhã e também não desejava vê-los no cais à medida que o navio se afastasse.
É realmente um momento muito emocionante estar num navio pela primeira vez, e observar as manobras envolvidas no processo de sair do cais para o alto mar. Os rebocadores puxando o navio para fora do cais e finalmente nos deixando ao alcançarmos mar aberto, alem do perigo dos arrecifes. Fiquei realmente embevecido com tudo que estava acontecendo. Parecia um sonho que eu estava vivendo. À medida que nos afastávamos da costa e a cidade de Recife desaparecia no horizonte, o navio se transformou numa ilha flutuante. Só víamos o oceano com sua beleza serena e tempestuosa ao mesmo tempo e até mesmo assustadora. Muitas brincadeiras foram programadas para quebrar a monotonia, nos ajudando a passar o tempo. Esta foi uma cena que se repetiu diversas vezes durante minha carreira, mas, a emoção já não existia, porque aquela ocorrência veio a ser um ato corriqueiro.
De qualquer modo, navegar no oceano é sempre uma grande experiência. Tem o poder de nos acalmar e apreciar a força dos movimentos aquáticos que mudam constantemente. Já estávamos na metade do caminho quando, no dia 6 de fevereiro, soubemos da morte do Rei George VI da Inglaterra. Em respeito ao ilustre monarca a nossa bandeira ficou hasteada a meio pau até chegarmos ao Rio de Janeiro.
Sábado, dia 9, eu estava no serviço de vigia na torre de navegação. Usando binóculos potentes era possível ver longas distâncias. De repente comecei a ver o que me parecia um longo rochedo bem distante, à nossa frente. Comentei com o sargento e ele veio olhar, e sorrindo me informou que aquele rochedo era nada mais nada menos do que a praia de Copacabana. Continuei a observar ate que uma hora depois eu podia ver bem definida a praia, cheia de amantes do sol , num conglomerado impressionante. A beleza natural do Rio de Janeiro é realmente embriagadora. As praias e morros são a marca do carioca. Foi muito impressionante ver pela primeira vez o Corcovado, o Pão de Açúcar e a Baia da Guanabara, coisas que só conhecia por meio de fotos em revistas.
Entramos na Baia de Guanabara e ficamos atônitos com o que se apresentava diante de nós: uma cidade grande e bela, com coisas para ver em todas as direções. Finalmente o navio atracou no Arsenal de Marinha e iniciamos os preparativos para o desembarque. Fomos levados para o CIAW localizado na ilha das enxadas. CIAW, Centro de Instrução Almirante Wandenkock, é uma espécie de Colégio para especializações em diversas carreiras, tais como Mecânica, Eletricidade, Eletrônica etc.
Dirigimo-nos para os alojamentos e logo após fomos explorar o estabelecimento. Alguém nos dirigiu para o Centro de Entretimento onde a turma se agregava para diversos jogos de mesa. A grande surpresa para nós ocorreu ao entrarmos no salão. La havia três diferentes sets de televisão, algo que ainda não conhecíamos. Ficamos surpresos em quase choque, pois estava sendo apresentado uma partida de Football, Botafogo e outro time. Saí e continuei a explorar a ilha quando vi o Sub-Oficial que era nosso comandante; perguntei se ele havia estado no salão de jogos, ele respondeu que não. Pedi que me acompanhasse pois desejava que ele visse o que nos surpreendera. O sub Oficial era um cara robusto, jogador de Basquete e outros esportes, afinal de contas sua especialização era educação física.
Ao nos aproximar do salão, podíamos ouvir a algazarra e os gritos de goooolll. Ao entrarmos no salão, a reação do sub foi muito engraçada. Ele gritou um palavrão apropriado para o momento e todos riram à vontade.
Esta foi a minha introdução à Cidade que, naquela época, era Maravilhosa, sem duvida.
Ate breve
Zezé de Moura
Rosemead, Califórnia, 05 de novembro de 2009
TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO. OBRA FAROÔNICA?
Isto é uma idéia antiga, já considerada e debatida em gerações anteriores, finalmente deixadas no esquecimento. Muitas palavras, mas nenhuma ação.
Pelo pouco que pude entender, desta vez parece que passamos o estagio das palavras e ações estão acontecendo. Isto é bom, pois os benefícios são incalculáveis, trazendo esperanças ao nosso povo sedento, a terra sertaneja, isto não se pode negar.
Pela nossa própria experiência, sabemos que havendo água, haverá fartura de alimentos e muito mais. Podemos continuar a debater os prós e contras, tomar posições opostas e até ser incrédulos. Não podemos, no entanto, negar a viabilidade do projeto e seus benefícios.
Independente de qualquer partido político no poder, a obra é considerada como vital para o Sertão e o Nordeste. O custo será, sem dúvida, bastante elevado; não esqueçamos, porém, que o de Brasília também foi. Sabemos, hoje, que mesmo com todos os custos e excessos causados pela corrupção, os resultados provaram ser benéficos à nação inteira.
É claro que haverá benefícios políticos; não nos esqueçamos de que tudo, envolvendo ação governamental, envolve política, e repercutirá positivamente ou negativamente, conforme o caso, aos envolvidos no projeto. O que desejo dizer é que se há um firme desejo de realizar tal obra, haverá meios para a execução. Não estou descontando os riscos de corrupção rampante, estou afirmando, no entanto, que todos os obstáculos podem ser superados se nos colocarmos numa firme determinação para realizar a obra gigantesca que se apresenta e nos mantermos alerta.
Ao invés de sermos simplesmente partidários ideológicos, negativistas, vamos dar crédito aos que estão iniciando esta grande obra e desejar-lhes sucesso nas suas obras em beneficio do bem estar da comunidade. Guardemos nossas energias e diferenças partidárias para criticar quando se fizer necessário.
Tenho testemunhado os benefícios trazidos com a transposição das águas da região do delta do Sacramento River. É um volume de água enorme que estava simplesmente sendo despejada na baia de San Francisco. Agora, aquela água e levada através do San Joaquim Valley, numa extensão de aproximadamente 350 milhas. Durante toda a extensão do grande canal, há outros canais para distribuição das águas. Quando viajamos de Los Angeles para San Franciasco, podemos observar o funcionamento do sistema de aquedutos, as estações das bombas d’água, e melhor de tudo, as plantações que se estendem por milhas e milhas neste vale que outrora foi deserto, pois não tem rio perene, e as chuvas são escassas.
Toda a parte sul da Califórnia depende de água importada. As águas para os residentes de Los Angeles vem de longe - aproximadamente 400 milhas de distância, na Sierra Nevada. O mesmo acontece com o Imperial Valley que fica quase na fronteira com o México. A produção agrícola é incrível, e acontece apenas porque existe um sistema de canalização de água. Isto não aconteceu por milagre, mas, porque um grupo de cidadãos de boa vontade dedicou-se a realização do objetivo, que era trazer água para onde se fazia necessário. Nada é perfeito, as falhas se apresentarão e serão sanadas.
O problema d’água da Califórnia era bem sério e chegou a causar grandes brigas entre os que tinham e os que não tinham água. Foi quase uma guerra, mas os homens de boa vontade e de visão venceram e hoje usufruímos os benefícios que são abundantes.
Desejo de todo coração que em breve possamos dizer ao mundo, que a água chegou ao sertão nordestino e que uma nova e melhor faze na vida do sertanejo está pra acontecer.
Louvado seja o Senhor nosso Deus.
Zeze de Moura
Rosemead, CA - USA, 1º de outubro de 2009
RELEMBRANDO UM BOM VIZINHO
Residir ao lado da casa paroquial tinha suas vantagens nos meus dias de criança. Conheci os residentes da casa paroquial daquele período. Padre João Amâncio me batizou, logo depois foi transferido para Flores. Veio então o Padre Jose Kerler, um alemão de boa índole, que nos tratava bem, sem nenhuma pretensão ou arrogância. Ele batizou meu irmão, e meus pais o tinham em boa estima.
Vieram alguns temporários que passaram pouco tempo em Afogados. Um deles foi um frade Alemão, que infelizmente não me recordo do seu nome. Ele era assíduo ouvinte dos noticiários, e normalmente usava a faixa de ondas curtas para ouvir a Radio de Berlin, pois estávamos no meio da Segunda Guerra mundial. Às vezes ouvíamos os discursos do Hitler ou de um dos seus asseclas. Nós não entendíamos o teor do que estava sendo publicado e ele pacientemente traduzia para nós e acrescentava: “este é um homem mau”.
Depois veio padre Olympio Torres. Foi com ele que vim a ser coroinha. Num Domingo fui ajudar a fazer as anotações no livro de batismos, e ao escrever o nome do Estado de Pernambuco, em vez de usar m antes do b eu usei o n. O vigário me repreendeu como se eu houvesse cometido um grande pecado e me disse que se eu não sabia soletrar eu não poderia continuar como assistente. Fiquei muito aborrecido e abandonei o cargo de coroinha.
Veio então o padre Luis Madureira, e meses depois, em 1947 veio o padre Antonio de Pádua Santos. Padre Antonio era um moço de 32 anos, alegre comunicativo, despretensioso, era um de nós. Eu estava com 11 anos de idade, e comecei a cultivar a amizade do vigário. Voltei a ser coroinha e sentia prazer em ajudá-lo.
Recordo com grande carinho quando o Padre foi convidado para celebrar uma missa no sitio do sr. Antonio Lopes, pois a safra havia sido muito boa, ele desejava demonstrar sua gratidão a Deus. Era época de moagens e havia também bastante milho e feijão verde. O Pe. Antonio perguntou-me se eu gostaria de ir com ele; minha resposta imediata foi sim. Falei com meus pais e eles me deram permissão de acompanhar o vigário, com muitas recomendações sobre meu comportamento.
Esta foi a primeira vez que presenciei e participei de uma moagem da cana de açúcar. Fiquei encantado com tudo que vi e procurei participar do processo o mais possível. Desde o corte da cana ate o produto final, rapaduras, alfenins e batidas. Ainda hoje tenho uma foto que o vigário tirou quando eu procurava ajudar no corte da cana.
Como acontece em todos os sítios e fazendas, a hora de dormir é cedo porque a hora de levantar acontece mais cedo ainda. Deitei na minha rede, cai no sono, pois estava cansado de tanto me divertir no canavial e com a moagem. Fui despertado ainda escuro com o grito do porco que se recusava a ser alimento para nós. Era um “quish quish” ensurdecedor, mas a faca do trabalhador foi mais eficiente, silenciando o porquinho.
Uma das coisas mais lindas é presenciar a alvorada no meio do mato. Dá-nos um sentimento de estar nascendo novamente, de renovação, de alegria de viver, com o horizonte vermelho dourado em diferentes tons, nos deixando embevecidos com tanta beleza. Os galos já haviam cantado, os pássaros se faziam presente e nos apresentavam suas mensagens de bom dia. O cheiro de café no ar, um sinal de que a primeira refeição estava pra ser servida. Era quase 7h da manhã.
Trabalhamos um pouco mais com a moagem acionada por dois pares de bois, na sua marcha circular, ajudei a ativar os bois, e também me foi dado à oportunidade de colocar as canas na moenda, mas por um breve período, pois e um processo perigoso.
Mais tarde no mesmo dia, houve um acidente. Um moço que trabalhava com as moendas teve sua mão prensada. Foi algo horrível.
Vi todo o processo de transformar o caldo de cano em melado, e depois em rapadura e outros derivados. Fiquei maravilhado ao saber que ha um mestre do processo que sabe quando transportar o caldo fervente de um tacho para o segundo e terceiro. E isto feito por um homem que possivelmente nunca frequentou uma escola e nunca estudou quimestria, mas sabia sua profissão.
Às 10 da manhã houve a missa e eu fui o ajudante. Depois da missa então tivemos um grande almoço, saboreamos bem o porquinho que se recusara a ser alimento.
Mais tarde, possivelmente três ou quarto horas da tarde era hora de voltarmos pra casa.
Fiz boas amizades com aqueles conterrâneos heróis, que com os meios ao seu dispor conseguiram sucesso. Este é o espírito do homem que merece todo nosso respeito
Esta foi uma das melhores experiências da minha juventude, eu estava com 14 anos de idade.
Padre Antonio foi um amigo no próprio tempo da minha vida, na hora certa. Com paciência e bondade ele tolerava minha presença no salão paroquial, se bem que em algumas ocasiões ele me dizia, é bom você ir pra casa.
O salão paroquial era como se fosse meu clube ou biblioteca. Eu tinha permissão para ver os livros de batismo, de tocar discos na vitrola, acionada por um sistema mecânico. Foi ali que ouvi as mais lindas musicas de Strauss e outros mais. Vicente Celestino, Chico Alves e muitos outros. Foi também onde toquei o primeiro LP, que era de Música clássica e produzido na França, muito antes dos LPs alcançarem a popularidade.
<BR>Aprendi nos livros de batismo que os filhos de mulher solteira eram registrados como “filho bastardo” de fulana de tal, e às vezes de fulano e fulana de tal, por eles não eram casados.
Através de padre Antonio, fui introduzido a Filatelia. Aqueles pequenos pedaços de papel me seduziram até hoje cativam minha atenção. O Padre tinha uma pequena coleção de selos que ele adquiriu quando ainda estudante, Numa ocasião ele abriu uma gaveta e lá esta o pequeno álbum com selos. Com a curiosidade normal da juventude eu pedi pra ver. Fiquei encantado mesmo sem entender por que. O Padre permitiu-me tirar alguns dos selos duplicatas, para que eu iniciasse uma coleção. Isto foi o inicio de uma longa aventura em filatelia que perseverou por diversas fazes da minha vida ate os dias de hoje.
Um incidente que presenciei num dia de sábado foi muito comovente e criou muitas questões na minha mente. Como de costume, a porta do salão paroquial estava quase sempre aberta, principalmente aos sábados. Eu estava no salão vendo revistas e jornais, e o grupo de pessoas que vinha pra falar com o vigário era considerável. Era uma missa de sétimo dia, um batizado ou casamento, ou ainda convidar o vigário pra celebrar missa no sitio. Um cidadão entrou no salão e dirigiu-se ao vigário. Iniciou-se uma troca de palavras, e percebi então que o cidadão não estava muito satisfeito. Começou então a dirigir-se ao pároco como a repreendê-lo por não aceitar seus pedidos. Ele ficou exaltado, falando alto e respondendo ao vigário sem muita modéstia. A troca de palavras chegou ao ponto que o Padre expulsou o individuo do salão. Ele caiu em si quando o padre disse que ele seria amaldiçoado pelo que ele estava fazendo. Imediatamente aquele valente prostrou-se no chão a pedir perdão ao Padre Antonio por haver sido tão rude. O padre o perdoou e ele foi embora. Eu conhecia ligeiramente aquele senhor, mas não recordo o seu nome; é melhor assim, pois são coisas entre ele e o Criador.
Em outra ocasião acompanhei padre Antonio até a casa do senhor Possidônio Gomes dos Santos, na Coruja - eu estava com 15 anos de idade. Chegamos ao nosso destino, e para minha surpresa lá se encontrava também, Terezinha Nazário, irmã de Joaquim. Foi uma surpresa agradável. Eu estava preparado para um dia tedioso, sem muito pra falar. Terezinha mudou minha disposição. Ao nos avistarmos ela veio me cumprimentar com seu sorriso amigo. Conversamos bastante, andamos até a estação do trem. Voltamos, pois era hora do Padre celebrar a missa e eu seria o ajudante. Na realidade foi a ultima vez que participei como ajudante.
Dez anos depois, em setembro de 1957, tivemos o prazer de receber o padre Antonio quando da sua visita ao Rio de Janeiro. Fui recebê-lo no aeroporto e depois fomos direto até a casa do Padre Góes, no Cosmo Velho, onde ele ficou hospedado.
Jantamos, conversamos e marcamos então um encontro para levar o Pe. Antonio a visitar alguns pontos do Rio de Janeiro. Visitamos a Cinelândia, no centro do Rio, a praia do Flamengo, Botafogo e, finalmente, Copacabana. Tiramos algumas fotos e voltamos ao Cosmo Velho.
Ainda hoje tenho as fotos com o nobre amigo, tiradas naquela ocasião, e juntamente com meu irmão Tarcisio. São lembranças de outro tempo, de uma era distante que hoje existem apenas nas minhas lembranças.
Saudades.
Zeze de Moura
Rosemead, CA - USA, 29 de setembro de 2009
Relembrando (Zezé e Sylvia)
Ainda no espírito das nossas Bodas de Ouro, passei os últimos dias a reler uma pilha de cartas da minha amada, escritas entre janeiro de 1955 e Abril de 1958. São cartas que guardo com especial carinho, maravilhas que me fazem realizar quão grande é meu amor por ela, e quanto ela significa para mim. Numa carta escrita em novembro de 1955, ela apresentava um tópico especial. Demonstrava estar muito preocupada com meu estado de espírito, pois nas minhas cartas era bem evidente minha angústia, e ela desejava ajudar-me, para isto estava enviando-me um presente, que hoje acho ser o melhor que já recebi: uma Bíblia Sagrada.
Ela então sugeria que eu lesse, pois não se tratava de religião e sim da palavra de Deus, que eu deveria ler pensar e meditar sobre o assunto.
Pelo fato de que eu não tinha conhecimento do livro, ela então sugeriu que eu poderia começar pelos livros poéticos, pois ela sabia que gosto de poesia, ou os livros de provérbios, ou então, os Evangelhos de Jesus Cristo. Ela afirmava que eu não ficaria decepcionado, e que com toda certeza iria gostar. Foi a primeira vez que tive uma bíblia em minhas mãos, e a primeira vez que li o Livro Sagrado.
A realidade é que foi uma grande e agradável surpresa para mim, encontrar tanta sabedoria aplicável a via diária, em linguagem clara e simples, sem nenhum mambo jambo.
Encontrei história, crônicas, e, sem duvida nenhuma, poesia, bela e simples, nas Canções de Salomão, onde ele canta a beleza física da sua amada , exaltando-a em detalhes.
Realmente, minha introdução aos escritos bíblicos foi algo que me despertou a máxima atenção. Eu não imaginava encontrar tanta beleza no livro sagrado. Minha original ideia era de que seria uma leitura enfadonha, tediosa e cansativa, sem nenhum atrativo; seria apenas mais um livro religioso. Para minha surpresa, foi exatamente o contrário. Os conselhos sábios e diretivos para uma vida sadia e agradável a Deus e aos homens, despertou meu interesse e comecei a fazer uma leitura diária que se expandiu ao livro inteiro.
Comecei a participar dominicalmente na Igreja Batista de Itacuruça, localizada ao lado do colégio Batista, no bairro da Tijuca no Rio de Janeiro. Procurei participar da Escola Dominical e quanto mais conhecimento adquiria mais eu desejava obter. Fiquei realmente encantado com os estudos bíblicos os quais mantenho até hoje. O fato é que, quanto mais lemos a bíblia, mais descobrimos que não havíamos percebido antes. Há sempre um novo ângulo.
Tudo isto veio afirmar que o Senhor dirige, guarda e protege aqueles que o buscam. Sem Ele eu seria como um barco sem leme, perdido na imensidão do oceano que é a nossa vida. No entanto, as provações se manifestam frequentemente nas nossas vidas, e, na minha em particular, não houve exceção.
Nós continuamos a nos corresponder por cartas e às vezes por telefone, e algumas vezes com uma visita de fim de semana até São Paulo, mas isto não era suficiente, pois nada substitui o contato pessoal. A dor da separação repete-se quando é hora de voltar.
Em julho de 1956 chegou uma carta anunciando que ela estava cortando nossos contatos. Isto foi um choque para mim, mas, aceitei a sua decisão. Continuei, no entanto, a preparar-me para deixar a Marinha.
Em dezembro daquele ano fui passar férias em Afogados com meus pais. Foram momentos agradáveis revendo meu pai, minha mãe e meu irmão, bem como meus amigos e parentes. Participei das festas de fim de ano e logo me preparei para regressar ao Rio de Janeiro depois das festas de Reis em Janeiro de 1957.
Apos o regresso, fui destacado para servir num destroyer, parte de um grupo de três navios, atracados na ilha das Cobras onde se localiza o Arsenal da Marinha. Nos domingos continuei minha participação com a Igreja Batista de Itacuruça. Era, um ambiente sadio e agradável que me ajudava a sarar os ferimentos do meu coração, bem como a saudade da minha terra. O tempo continuou passando sem muito significado, havia um vazio em mim, sem meio de preencher.
Em julho de 1957, numa sexta feira, saímos do Rio de Janeiro as sete da manha a fazer exercícios em alto-mar. O nosso objetivo era chegar a Vitória do Espírito Santo na manhã do sábado, o que conseguimos. Os navios atracaram no porto de Vitória depois das 9 da manha. O meu foi o primeiro, pois era o líder da força, e isto facilitava a vista da praça logo em frente do cais. Notei então uns cartazes e faixas com letras grandes anunciando o evento que estava acontecendo naquela cidade: o Congresso da Juventude Batista Brasileira. Ao ler os anúncios um frio correu no meu corpo, falei para mim mesmo, “ela esta aqui”. Isto foi exatamente um ano depois da nossa separação.
O alto-falante anunciou que teríamos liberdade para passear às 13h.
Preparei-me, então, e saí a descobrir aquela cidade, da qual eu conhecia apenas os famosos chocolates Garoto. Vitória era uma cidade pequena, e com as diretrizes dos cartazes consegui descobrir o local onde estaria acontecendo o Congresso. Chegando ao local, comecei a me locomover no meio daquele grupo juvenil que era numeroso sem encontrar aquela tanto buscava.
Neste meio tempo, um grupo de jovens dirigiu-se para visitar o meu navio e ao mesmo tempo convidar a todos para participarem da cerimônia de encerramento, de modo especial os Oficiais. Ela fazia parte do grupo e eu não sabia. Possivelmente cruzamos caminhos sem perceber.
Quase 7 horas da noite, avistei um grupo de jovens no meio da praça em frente ao auditório onde se realizava o congresso, formando um semicírculo ou quase círculo, a pregar o Evangelho de Jesus Cristo e a convidar os que os ouviam para participar do evento que se realizava naquele local. À medida que me aproximava, a ansiedade era grande, subitamente nos avistamos. Ela estava vindo em direção oposta e rapidamente nos aproximamos. Eu não sabia o que dizer, mas ela me ajudou sorrindo e dizendo um olá, seguido do “que surpresa agradável”!
Conversamos um pouco sobre isto e aquilo desfrutando aqueles momentos. Era hora da cerimônia, entramos então no auditório para assistir os trabalhos, que concluíram as 21h30.
Saímos do auditório e ficamos no pátio no meio de uma pequena multidão, no entanto era como se só nós estivéssemos ali. Continuamos a conversar, ela me disse ligeiramente a razão da interrupção dos contatos. Eu continuei a declarar meu amor por ela, e como ultimo apelo eu mencionei o nosso primeiro encontro, e afirmei que desta vez tanto quanto da primeira, era uma intervenção divina, Deus estava nos unindo de maneira maravilhosa, e que não deveríamos separar aquilo que Deus estava unindo. Que nossas vidas estavam traçadas para estar juntos formando uma unidade de corpo e alma.
Ela aceitou meu apelo, concordando com a minha declaração, convencida de que juntos estaríamos vivendo nossas vidas até o dia final.
Nossa conversa foi ate tarde, quando quase todos já haviam saído. Despedimos-nos, ela com os olhos rasos d’água, e eu com o coração transbordando de alegria.
Voltando ao Rio de Janeiro minha vida tinha nova razão de ser, pois havia reencontrado a minha amada. Reativamos nossa correspondência, pois eu só deixaria a Marinha em Maio de 1958 . O resto eu conto depois.
Zeze de Moura
Rosemead, CA - USA, 31 de julho de 2009
MICHAEL JACKSON. MORRE O ÍDOLO
Nenhuma pessoa foi mais controversa nos meios da “Pop music” nos últimos 20 anos do que o Michael Jackson. Os jornais diários e comentários no Rádio e TV apresentam diferentes opiniões do homem menino que nunca amadureceu moralmente até o último dia de vida. A massa de jovens e não tão jovens continua trazendo flores e acendendo velas e derramando lágrimas, no Hollywood Blvd. e em frente a sua residência, demonstrando sua dor pela morte do artista
Chegamos à America do Norte em junho de 1969, nos dias turbulentos da Guerra do Vietnã. Semanas depois fomos introduzidos a um menino dinamite de apenas dez anos de idade que aparecia nos shows de variedade na televisão, nos prendando com seu entusiasmo e vivacidade. Naquela época, ele aparecia com seus irmãos como parte do grupo “Jackson Five’. Ele em si, era um ato cativante e espetacular, pois era uma criança de dez anos apresentando-se como cantor líder do grupo. Era inegável sua qualidade artística bem precoce. À medida que crescia, adquiria qualidades e capacidades artísticas que o levariam ao cume da fama e da glória. A prova mais evidente está no fato de que seus fãs aumentaram em número e em idade, pois ele conseguiu cativar mais de duas gerações, tornando-se num ídolo. E isso é inegável.
Os problemas pessoais manifestaram-se quando ele se aproximava de uma idade madura. Creio que ele estava com 20 anos, quando começou a mudar de cor, e seu nariz perdeu a forma natural. Deixei então de dar qualquer atenção aquele artista.
Ele se tornara num prisioneiro e vítima do seu próprio sucesso, vivendo uma vida isolada, como um prisioneiro, cercado de guarda-costas, etc. O dinheiro ia à sua conta bancária em enxurrada, e ele o gastava do mesmo modo, sem nenhuma noção das consequências.
Havendo chegado ao pico, quando morreu, deixou uma dívida estimada em meio bilhão de dólares.
Seu comportamento como indivíduo foi desastroso. Foi acusado como molestador de crianças, o que lhe custou uma grande quantidade de dinheiro, e outros crimes de geral conhecimento. O episodio dele segurando seu infante filho, por uma perna, de numa janela de um apartamento na Europa, foi algo que abalou a opinião publica, a qual se voltou contra ele.
Não sou um dos seus fãs, nem tampouco seu defensor, no entanto, não posso negar sua qualidade artística, sua criatividade e versatilidade. Sua presença no palco era eletrificante, dinâmica e vibrante. Nunca entendi suas músicas porque sou mais Glenn Miller, Mozart, Luis Gonzaga , Dominguinhos ou Josef Hayden, etc.
Um dos conceitos que uso para música é de que há apenas dois tipos: a boa e a insuportável. Eu faço a escolha, porque afinal de contas, já diziam “os sábios”, gosto e mulher não se discutem, segue-se.
Podemos não gostar de um ato ou ator, ou música e seu intérprete; não podemos de modo algum privar os outros de fazerem suas escolhas e demonstrar suas preferências musicais ou em qualquer outro campo. Precisamos separar a arte do individuo. Beethoven era um indivíduo muito desagradável como pessoa, no entanto, produziu sinfonias celestiais. E não teve aprovação geral.
Como podem ver, mesmo não aceitando o artista e seu estilo de vida, não podemos negar a qualidade da sua arte. Michael era gênio naquilo que produzia, desde a música como o ato do show, suas danças e vestimentas, tudo tinha sua assinatura e foi aceita por uma grande maioria da juventude. Eu, pessoalmente, não usei os seus produtos, mas há os que aceitam e estão prontos para gastar um bom dinheiro neles.
Imediatamente após a morte do artista, tudo relacionado com ele se transformou em artigo de grande venda estimada em mais de 50 milhões de dólares. Desde a música até as vestimentas e tudo mais. Viva a liberdade de escolha. Viva a liberdade!
Ao meu ver, há uma única pergunta que vai além da música das danças e indumentárias: O que leva um grupo tão grande de jovens ser absorvido na adoração de um ídolo mortal e praticamente vazio?
Zezé de Moura
Rosemead - CA - USA, 30 de junho de 2009
MINHA TERRA TEM PALMEIRAS...
Neste dia de festas em Afogados da Ingazeira, achei apropriado deixar Gonçalves Dias falar por mim na introdução desta mensagem. Ninguém está mais apropriado para expressar com tanta claridade e beleza meus sentimentos, pois ele estava no exílio quando escreveu estes versos.
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorgeiam
Não gorgeiam como lá.
(…)Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Sem que aviste as palmeiras onde canta o sabiá
Neste dia tão significativo para todos os afogadenses, este lindo poema do grande poeta Gonçalves Dias expressa, de modo preciso e belo, o sentimento dos que são exilados voluntária ou involuntariamente.
Estas poucas linhas que usei sintetizam o sentimento de solidão, de ausencia e perda. De não poder tocar fisicamente a terra ardente do sertão, de desejar ver novamente e viver novamente naquele espaço terrestre, se bem que o que recordamos não mais existe, ficou na história, desapareceu no éter.
Mesmo assim, é com muita alegria que, daqui do meu exilo, desejo juntar meus aplausos e congratulações, aos que permaneceram e criaram a cidade que hoje comemora 100 anos, seu Centenário.
Afogados das minhas lembranças era um local bucolico, vagaroso, a vida estava em marcha lenta, e conhecíamos todos os vizinhos e residentes. Andávamos até à escola sem sermos perturbados. Sabíamos que eram seis horas da tarde, porque a Radio Difusora Pajeú nos dizia ser, quando apresentava o momento do Ângelus tocando a Ave Maria, momento que apresentavam às vezes uma crônica por Manuel Ribeiro ou Luis Amaral e qualquer outro conterrâneo que se dispusesse à tarefa.
Sabíamos que eram sete da noite, porque o Cine Pajeú ligava sua Sirene, nos convidadando para assistir o seriado na quinta-feira. Do mesmo modo aos domingos, para assistirmos um filme de longa metragem.
Não tínhamos piscina, no entanto tínhamos os Poços ao longo do Rio seco onde nos deleitávamos, nos refrescando. No começo da noite, íamos ate a estação para receber o Trem e as novidades que porventura os que retornavam pra casa trariam.
Jogávamos pião com entusiasmo, e na época própria soltávamos papagaios com o mesmo fervor, sempre assumindo ser os melhores. Tudo assumia uma atmosfera de festa na época das cheias, quando a curiosidade tomava conta de nós, e testemunhávamos o evento.
Hoje Afogados chega à idade adulta, se expandiu para os subúrbios e sua população se multiplicou. As ruas principais são joviais, numa demonstração de que continuam a crescer e se desenvolver. Quase todos que foram de grande influência e importância na minha vida já partiram, deixando um grande vácuo com a sua ausência; no entanto tenho certeza que eles estão conosco em espírito, pela obra que deixaram para as gerações posteriors. No entanto, mesmo ausente, encontrei novos amigos, dinâmicos e que amam o sertão tanto como eu, e talvez com mais fervor. Refiro-me ao Fernando Pires, autor desta página, que tem servido consistentemente e continuamente às causas relacionadas à nossa Afogados da Ingazeira. Ele também está de parabéns, por ter tido visão, usando as oportunidades que se apresentaram com o advento da internet, para propagar os interesses locais.
Peço aos conterrâneos: não mudem mais nada por aí, pois eu quero ver novamente as palmeiras onde canta o sabiá…
Congratulações, e viva Afogados da Ingazeira!
Zezé de Moura
Rosemead - CA - USA, 1º de julho de 2009
Abrindo o livro da sua vida, Zezé se dispôs a escrever uma série de crônicas, RELEMBRANDO suas aventuras desde os tempos de moleque em Afogados da Ingazeira.
NOITE DE SÃO JOÃO
A Noite de São João se aproxima e com ela uma enxurrada de lembranças que acalentam os nossos corações
Era costume comemorarmos o São João fazendo uma fogueira em frente às nossas casas. Como toda criança, eu esperava com ansiedade a chegada do carro de boi que trazia a carga de lenha. Ficava a observar quais outras casas teriam essa disposição para comemorar os festejos Juninos ao redor da fogueira. Ela era acesa ao escurecer e queimaria até serem consumidos os troncos e galhos, e o restante se queimaria durante a noite, ficando somente as cinzas quentes pela manhã.
A farra era simples e atraía amigos e vizinhos para conversar e contar estórias bem como para “remanescer”. Era também um momento propicio para namorar, trocar olhares furtivos e sorrisos. Vez outra ouvíamos um som forte; era uma explosão causada por um dispositivo que chamávamos de ronqueira. Ela era feita de peças de automóvel usadas e descartadas como sucata, que a molecada usava geniosamente. A peça era em forma de L e tinha uma perfuração que era usada como câmara de explosão, onde colocávamos a pólvora. A explosão era causada pelo impacto de um prego que cobria o buraco seguro por um arame. Era só colocar o prego cobrindo a perfuração e atingir qualquer superfície com impulso do braço, e o resultado era o “bumm!” da explosão. Era algo fantástico e fascinante para nós.
Pamonha e canjica era o prato do dia, bem como o milho assado na fogueira. Brincávamos alegremente naquele propicioso momento.
Soltar balão ou busca-pé, chumbinho, estrelinhas e rodas de fogo e uma grande variedade de fogos de artifício, era a ordem do dia. Às vezes alguém usava um bacamarte produzindo barulho ensurdecedor que nos assustava, mas que nos fazia rir após o susto.
Todos tivemos padrinhos e madrinhas de batismo, no entanto, havia também o costume de termos um padrinho ou madrinha, da nossa escolha, na noite de São João. Foi neste espírito que escolhi uma bela jovem de sorriso cativante, olhos lindos e cabelos cor de mel. Seu nome era Maria do Carmo Ela estava passeando com umas amigas e aproximou-se da nossa casa para conversar com minha mãe que havia sido sua professora. Eu estava com 10 anos de idade, mas já sabia discernir a beleza feminina. Apresentei meu desejo de tê-la como madrinha de São João, e ela aceitou sem relutância.
A coisa era fácil; as duas partes andavam em torno da fogueira, em sentidos opostos, e, ao se encontrarem, o afilhado dizia: “a bênção madrinha”, e resposta dada pela madrinha era “Deus te abençoe”, e o contrato estava selado. Daí pra frente, toda vez que nos encontrávamos a saudação era sempre, a mesma. Isto é o que eu mais desejava ter: uma razão e oportunidade de falar com ela, a qualquer hora, sob o pretexto de que ela era a minha madrinha. Ela, filha dos meus padrinhos de batismo Davina e Aparício Veras, se casou com o doutor Zé Humberto.
Numa das minhas idas ao Recife, tive uma surpresa, quando nos encontramos na Rua Nova. Ela estava em companhia de outras belas afogadenses fazendo compras. Foi um encontro agradável, conversamos por alguns momentos, falando sobre amenidades, e depois nos despedimos. A última vez que a vi foi em janeiro de 1964, quando da minha visita aos meus pais, para apresentar-lhes a minha esposa e o meu primogênito.
Acredito que o costume das fogueiras desapareceu com o final da década de 40, consequentemente também o das madrinhas e padrinhos de São João.
Estes foram momentos preciosos de uma época mais simples, sem muita correria moderna, mas, cheia de amor, quando o mundo era bem menor. 65 anos atrás.
Desejo-lhes um feliz São João. Zezé
Zezé de Moura
Rosemead - CA - USA - 18 de junho de 2009
ÁGUAS NO SERTAO
As fotos das cheias no sertão, se apresentam como um senso de regeneração, recriação, novo começo, preenchendo o ciclo natural da criação divina. O cenário do rio cheio, da barragem transbordando, e do sertão verdejante, é algo belo que chega a ser comovente. O líquido precioso voltou, e voltou em abundância, prometendo uma boa safra, talvez, até trazendo de volta a Asa Branca. Tudo isto trouxe à mente minhas experiências relacionadas com o suprimento de água potável no sertão.
Creio ainda haver alguns conterrâneos que se recordam de como era difícil ter essa água na época anterior à década de 60. Não havia água encanada. Esse líquido, tão necessário para o nosso viver era vendido de porta em porta por indivíduos que ganhavam o seu sustento vendendo-o aos habitantes da nossa Afogados da Ingazeira de outrora. Era, na realidade, um bom negócio, pois todos nós necessitamos de água pra sobreviver.
Uns traziam diretamente de cacimbas no leito do rio; outros enchiam os barris no chafariz do Sr. Severino Pereira, que era parte do seu conglomerado de negócios. Outros transportavam a água em latas de 20 litros penduradas por cordas a uma vara grossa que ficava sobre os ombros do carregador, o qual levava a carga a pé, até certas distâncias. Havia ainda outra opção, que era construir cisternas e coletar a água da chuva e armazená-la, para futuro uso.
Um dos provedores de água era o Sr. Abdon; homem simples, alegre e agradável, que não tinha medo de trabalho pesado. Ele mantinha um grupo de uns oito jumentos, usados para esse transporte. Cada jumento carregava quatro barris, que chamávamos de “ancoretas”, cada um com uma capacidade de 20 litros. Quando ele chegava, descarregava o conteúdo nos potes de barro tão usuais na época.
Eu já me aproximava dos doze anos , quando meu pai encomendou ao Sr. Antonio Aleixo para que construísse um carro de duas rodas, que comportasse quatro latas de 20 litros. Na primeira vez, meu pai foi comigo até o chafariz, para ver como a coisa funcionava e se eu iria conseguir realizar a tarefa. Fui aprovado e comecei a minha jornada como transportador de água, para a nossa casa, sem muito entusiasmo. A ida para o chafariz era fácil, feita ladeira abaixo; o retorno, no entanto, era outra história. Não só pelo fato de ser subida, mas, também, pela carga de 80 litros de água. Foi assim que aprendi o quanto pesa a água.
Nas minhas idas e vindas, quase diárias, havia um moleque da minha idade que ma atazanava sempre que me via puxando o carro. Ele aparecia no portão do quintal, e não só fazia gozação como usava insultos. Numa destas ocasiões eu achei que não aceitaria mais tais insultos. Ao aproximar-me do portão, o garoto veio com seu palavreado ofensivo. Parei meu carro e confrontei o dito cujo. Apos uns empurrões, e uns murros, o moleque correu pra dentro de casa, e nunca mais me aborreceu. Meu pai havia presenciado todo o evento, mas não falou uma palavra, pois o moleque havia me chamado de filho da ....
Estávamos em plena campanha política, e os diversos partidos se manifestavam com entusiasmo, todos buscando a aprovação do eleitorado que se manifestaria na primeira eleição apos 15 anos de ditadura. Entre os partidos achava-se o PC, pelo qual não havia muita simpatia. Eu ouvia muita conversa sobre o assunto, e geralmente eram bem negativas as opiniões.
Numa das minhas visitas ao chafariz, notei que a parede do prédio estava coberta com cartazes, que no meu entender estavam promovendo o PC, e eu imediatamente pensei,vou rasgar estes cartazes. Enchi as latas d’água e me dirigi de volta pra casa, arrancando os cartazes o mais que podia, cheguei a rasgar uns quatro, quando de repente , lá vem o Sr. Severino Pereira bastante agitado e afirmando que eu não teria mais acesso a água do chafariz e que o meu comportamento era repreensível, e que aqueles cartazes foram colocados na parede com a autorização dele. Eu fiquei chocado, pois pensava estar prestando um serviço à comunidade.
Chegando a casa falei com meu pai. Ele me ouviu e fez-me ver e entender o meu erro. Ele então me levou ate a casa do Sr.Severino para me desculpar e prometer que tais ações não seriam repetidas. Ele foi muito gracioso, perdoando a minha atitude, e as coisas voltaram ao normal.
Algum tempo depois, meu pai contratou a construção de uma cisterna no nosso quintal, para captar água das chuvas. A coisa funcionou muito bem, mas eu fiquei com a responsabilidade de tirar a água da cisterna para encher o tanque do banheiro, o qual tinha uma capacidade de uns 100 litros d’água. Era um grande exercício físico tirar água da cisterna, com uma lata de 20 litros e uma longa corda para encher aquele tanque que nos proporcionava um banho agradável.
Hoje, com os benefícios do sistema moderno de água encanada, aquela realidade estava esquecida, e para as novas gerações são contos da carochinha.
Ate a próxima... Tenho que ir buscar a minha carga d’água!...
Zezé de Moura
Rosemead - CA - USA - 06 de junho de 2009
CINQUENTA ANOS
Meio Século... Cinquentenario! Já parou para pensar no significado desta marca do tempo? Lembro-me que, quando criança, tais números eram astronômicos para mim. Era quase impossível compreender. No entanto, quando colocamos no cenário a vida de dois jovens, que se conheceram e se dedicaram um ao outro, como amigos, amantes e parceiros pela longa jornada da vida, mantendo o juramento feito diante de Deus e dos homens, a coisa toma outro sentido.
Fiquei revisitando os anos que se foram tão rapidamente e me lembrei então que tudo foi nada mais do que uma dádiva divina. Deus nos uniu de maneira peculiar, quase incrível.
Ela veio de São Paulo passar uma semana de férias na casa da tia que morava em Copacabana, no Rio de Janeiro. Eu estava servindo na Marinha do Brasil, perdido na imensidão da Cidade Maravilhosa, sem amigos, sem ninguém, sem haver encontrado aquela que seria amante, parceira, companheira e amiga por toda vida.
Noite de ano é sempre motivo de grandes festividades, religiosas e mundanas; eu não estava envolvido em nenhuma delas. Sentia-me só, faltava o amor dos meus pais, dos amigos e parentes. O marinheiro estava machucado no mais íntimo do seu ser. Faltava algo importante na sua vida, faltava uma razão de ser.
Para quem não conhece, Copacabana é uma praia longa, que se estende desde o Leme até o Forte de Copacabana. Eu diria ter uma extensão de aproximadamente um quilometro e meio. Nas noites de festa ficava inundada de gente de várias partes para passar o ano novo naquele local cheio de bares e restaurantes, passeando ao longo da Avenida Atlântica à beira-mar.
Dirigi-me para aquele local à procura de alívio ao meu estado de espírito. Escolhi o local em frente ao Copacabana Palace Hotel e fiquei a observar, macumbeiros e macumbeiras fazerem suas práticas a Iemanjá, apenas por mera curiosidade. Ao longo da praia havia bancos onde podíamos nos acomodar, mas resolvi ficar de pé.
Os minutos e segundos passavam rapidamente, se aproximando da meia-noite. Subitamente percebi duas moças e um rapaz sentados num banco próximo. Não dei muita atenção. Passados alguns momentos e estávamos entrando no Ano Novo de 1955.
Notei, novamente, os jovens sentados no banco, e percebi que uma das moças me olhava com intensidade e apresentava um sorriso muito bonito que me chamou à atenção.
À meia-noite e dois minutos tomei coragem e me dirigi à donzela. Loira de olhos azuis e de sorriso franco, ela me despertou do torpor. Minha introdução não poderia ter sido pior; falei alô e em seguida perguntei, porque estás a me olhar, como a dizer não tenho tempo pra perder.
Ela, gentilmente respondeu: “notei que você estava inquieto, andando pra lá e pra cá, fiquei curiosa”. Imediatamente mudei de tom e me desculpei da rudeza. Continuamos a conversar até quase duas da manhã. Pedi para que nos encontrássemos novamente no dia seguinte e ela aceitou o convite.
No domingo nos encontramos novamente no mesmo local, de maneira bem mais agradável. Andamos pela Avenida Atlântica, depois pela Av. Nossa Senhora de Copacabana onde paramos para tomar sorvete, e continuamos nosso diálogo.
Fiquei conhecendo um pouco mais aquela jovem e seu caráter, e o meu coração começou a palpitar mais rápido, mais intensamente e eu me apaixonei por aquela loira de olhos azuis. Era hora de ir pra casa e a acompanhei até a porta do prédio.
Naquele momento trocamos o primeiro beijo e boa noite.
No dia seguinte ela teria que voltar pra São Paulo. Fui até a estação de ônibus, que na época se localizava na Praça Mauá, centro do Rio de Janeiro. Ela chegou e me prontifiquei a ajudá-la com as malas.
Ela subiu para o ônibus do Expresso Brasileiro, sentou-se na cadeira imediatamente atrás do motorista e eu fiquei a olhar quase em desespero aquela linda moça que eu acabara de conhecer, um dia antes, e estava a partir de volta pra casa, deixando-me devastado, sozinho novamente e sem muita esperança.
Eu estava estacionado na Base de Submarinos, uma ilha na baia de Guanabara. Ao retornar à base, aquela linda moça não saía da minha mente, tudo me fazia relembrar aquele lindo sorriso, aqueles olhos azuis. Estava chovendo e eu olhava a distancia, a imensidão de água que caía sem parar.
Resolvi, então, não esperar que ela me escrevesse primeiro. Comecei a redigir uma carta onde expressei todo meu sentimento de perda, causado pela sua ausência: “A natureza chora a sua ausência, e eu também. Você cativou meu coração e sou agora seu prisioneiro”. Ela me respondeu, achando que eu exagerava. Nosso namoro continuou por meio de cartas, as quais ainda hoje guardo com carinho.
Fui transferido para servir num Rebocador de Socorro em alto mar, e ficamos estacionados na cidade de Rio Grande no estado do Rio Grande do Sul. Lá, fiquei por sete meses. Fizemos algumas viagens atravessando a Lagoa dos Patos até Pelotas , depois Porto Alegre.
Quando voltei para o Rio de Janeiro, o navio parou em Santos. Eu já havia me comunicado com ela, informando que estaria lhe fazendo uma visita. Ela me deu as coordenadas para o nosso encontro. Lá, dirigi-me à barreira rodoviária para ir a São Paulo. Procurei um policial rodoviário e pedi que me ajudasse a pegar uma carona pra Capital. Ele disse que não haveria problema, e logo vindo um carro com apenas uma pessoa, o policial falou com o moço que se prontificou a me levar até o centro de São Paulo.
Lá, peguei o ônibus Alto da Lapa, houve no entanto um pequeno detalhe, o ônibus que peguei era Alto da Lapa – Leopoldina. Como eu não conhecia São Paulo, isto era um detalhe para os locais. A diferença entre as duas linhas é que uma ia em linha reta ate o final na Leopoldina; a outra, Alto da Lapa , Pio XI , se bifurcava e se dirigia para o norte do bairro. As distancias não são grandes, mas, quando se vai à primeira vez sem conhecer, o local é um desastre.
Chegando ao final da linha Leopoldina, o motorista me orientou. Comecei a andar, voltando pelo mesmo caminho do ônibus. Chegando a uma rua transversal notei haver acesso a uma área elevada onde passavam ônibus; entendi estar na direção certa. A área não estava iluminada, mesmo assim prossegui subindo o barranco, e lá estava minha loira no ponto do ônibus, já cansada de esperar. Foi uma recepção agradável com beijos e abraços, e desculpas mútuas por falta de informação correta.
Cheguei à casa dos pais dela quando tive a oportunidade de conhecê-los, bem como os irmãos e irmãs. Passei para suas mãos uma pequena lembrança da terra gaucha que está conosco ate hoje.
Retornei para o Rio de Janeiro e fui destacado para outro navio. Nesse meio tempo, nossa correspondência continuou, e eu estava a preparar-me para deixar a Marinha, o que só iria ocorrer em 1958, quando subitamente uma carta chegou, me informando que ela havia decidido interromper os nossos contatos. Foi um grande choque para mim, um desapontamento sem par. A única coisa a fazer era aceitar os fatos. Isto foi o inicio das nossas relações sociais, que culminou com nosso casamento no dia 9 de maio de 1959.
Sábado passado, aqui no nosso quintal, com um bom churrasco, em companhia dos nossos filhos , netos e amigos, comemoramos nossas bodas de ouro.
Louvado seja Deus, que nos introduziu um ao outro e nos tem abençoado.
O resto depois eu conto.
Zezé de Moura
Rosemead, CA - USA - 14 de maiol de 2009
jojephd@hotmail.com
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RELEMBRANDO: MAÍA
Passei alguns dias remoendo minhas idéias e lembranças, procurando pessoas que foram de grande influência na minha vida infantil, e cheguei à conclusão de que foram várias, em diferentes cenários, no entanto, Maía se destacou. Ela foi casada com Sr. Simão Alves, soldado da força pública do Estado de Pernambuco, que foi destacado para Afogados da Ingazeira. Ele veio, gostou e ficou toda sua vida servindo à nossa cidade.
O nome dela era Maria Campos Alves, para mim, no entanto, ela foi sempre Maía, um nome suave cheio de amor e carinho, até o fim. Ela não teve filhos, creio que por isto fui quase que adotado por ela e seu Simão. Ela foi parte da minha vida desde o meu nascimento até a minha partida de Afogados.
Quando mamãe necessitava de alguém pra tomar conta de mim, por qualquer razão, Maía era a primeira escolha, e creio que nunca se recusou.
A casa de Maía era meu refugio e segurança, localizada na Rua 13 de Maio, bem por traz da nossa casa. Quando as coisas lá em casa não estavam muito ao meu favor, a melhor coisa a fazer era pular a janela e correr para meu refúgio. Quando minha mãe vinha à minha procura, Maía intercedia a meu favor e tudo ficava esquecido.
Às vezes eu não estava muito impressionado com a comida que mamãe havia preparado, e então me dirigia pra casa de Maía, pois eu sabia que ela me receberia de braços abertos e me daria alimentação do meu agrado, principalmente aos sábados, quando ela fazia carne de porco com feijão e arroz. É como diz o ditado, a grama é sempre mais verde na casa do vizinho. Maía foi também minha professora de catecismo. As aulas ocorriam na Igreja do Bom Jesus dos Remédios na terça feira, entre 2 e 4h da tarde. Era um número grande de crianças de sete a nove anos de idade, cheios de energia, e todos desejando falar ao mesmo tempo, causando um tumulto quase que caótico. Ali aprendíamos, desde os 10 mandamentos e as historias do velho testamento, até do Evangelho de Jesus Cristo.
Quando havia perguntas, quase todos desejavam responder, “eu sei, eu sei a resposta”, e o vozeirão se intensificava. Para ajudá-la na tarefa de manter uma aparência de ordem, ela contava com a ajuda de outras senhoras e às vezes senhoritas. Tudo terminava em bom termo, e íamos pra casa contar aos nossos pais os eventos da tarde na aula de catecismo.
Moravam com Maía, sua irmã solteira, Corina, e a sua mãe, que todos conhecíamos como mãe Martinha. Corina cantava com o coral da igreja e frequentemente fazia solos. Quando meu irmão foi batizado ela foi sua madrinha de apresentação.
Mãe Martinha era uma senhora idosa e boa amiga. Ela se sentava numa cadeira em frente a sua casa e lá ficava tirando baforadas do cachimbo, quase que intermináveis.
Outros residentes da casa eram dois papagaios, e “cassado”, um cachorro de boa índole, mas, que não tolerava abusos. “O mais divertido para mim era ouvir as conversas com os dois papagaios; Meu louro cadê Maria?”, “Maria, o feijão esta queimando!...”, ou então “Corina foi pra igreja!”, ou ainda “Simão quer comer!”.
E a conversa se prolongava à medida que respondíamos ou perguntávamos qualquer coisa.
Uma ocasião, Maía desejava visitar uns parentes na Alça da Peia, e eu fui convidado para o passeio. Juntamente veio também Geraldo Campos, filho de dona Rosa. Geraldo era sobrinho de Maía. La fomos nós na direção da casa de Antonio Izídio, onde atravessaríamos o rio Pajeú. Geraldo e eu estávamos entusiasmados, pois gostávamos de brincar no rio sempre que a oportunidade se apresentava. Procuramos então o local mais raso pra atravessar. Ao chegarmos quase a metade, a água chegava um pouco acima do joelho. Nada de excepcional aconteceu e alcançamos o outro lado.
Continuamos nossa jornada passando pela casa do tio Pedro, tio Geraldo, e finalmente alcançamos a casa de Chiquinha, onde ficamos até o final da tarde, tomando café e comendo macaxeira e outras guloseimas do sertão. Era uma idade pacata e quase inocente.
Depois que vim para a América do Norte, chegamos a trocar correspondências, e sempre enviei pequenas lembranças para aquela amiga. Suas cartas eram sempre como uma mãe: ”Tome cuidado!... Quando tu vens nos ver?”.
Depois de 10 anos aqui nos Estados Unidos da América, resolvi, em 1980, visitar o velho rincão. Fiquei hospedado na casa dos primos Zezito e Edwiges Moura. No sábado fui andar pela cidade, chegando à casa de Maía fui informado que ela havia ido à feira. Conversei um pouco com os presentes e pouco depois sai em direção à feira. Qual não foi minha alegria ao ver que na minha direção vinha Maía. Ela me abraçou, falamos sobre isto e aquilo e acertamos que eu voltaria a visitá-la lá pras 2h da tarde, o que fiz.
Ela estava envelhecida, mas, apresentava, ainda, sua maneira energica e a alegria dos tempos passados. Às duas horas, como havíamos combinado, cheguei. Ela estava a me esperar e abriu a porta para mim, dizendo que, desta vez eu não iria pular a janela como de costume. Rimos juntos de tais lembranças e ela fez questão de mostrar-me a televisão que havia comprado. Naquele momento havia um bom grupo de amigos presentes para participar do café. Dona Laura, esposa de Seu Antonio “Onça” e sua filha Adalva, que eu carinhosamente chamava de Oncinha; Carminha, irmã mais velha de Geraldo Campos e outros que me fogem à memória.
Foram momentos agradáveis, com a possibilidade de rever tais pessoas tão queridas. Durante a visita, ela me presenteou com uma foto minha, tirada em frente da casa dela quando eu estava com três anos de idade, a qual eu não sabia existir. Foi a ultima vez que tive o prazer de visitar e abraçar aquela querida amiga que eu chamava de Maía.
Nós éramos pobres e não sabíamos por que tínhamos muito amor e éramos felizes.
O sr. Simão Alves era também pessoa de grande estima. Simples, gentil e consciente da sua posição como policial, gostava de conversar e às vezes parava à janela da tenda do meu pai para bater um papo.
Seu Simão gostava de pescar e fazia suas próprias redes. Eu ficava maravilhado ao vê-lo manipulando as linhas ao produzir a sua rede. Certa manhã ele anunciou que iria pescar, e perguntou-me se eu gostaria de acompanhá-lo. Respondi que sim. Falei com meus pais e eles deram-me permissão de acompanhar seu Simão na aventura pesqueira no Poço da Pedra.
Ao chegarmos ao local encontramos um pequeno grupo de quatro ou cinco adolescentes de 13 pra 15 anos de idade em plena puberdade e em trajes de Adão, deleitando-se com os mergulhos no poço, fazendo alguma algazarra. Eles estavam próximos de nós, mas, com alguma separação. Seu Simão começou a lançar a rede sem muito sucesso. Neste meio termo a garotada parou com a natação. Eles ficaram de cócoras na pedra grande, rindo e fazendo comparações anatômicas de uma maneira que seu Simão achou ser inaceitável. Ele falou com os garotos e eles não gostaram, mas, pararam com a brincadeira, se acalmaram e finalmente deixaram o local.
Seu Simão resolveu que se ele estava sem sorte com a rede, tentaria outro processo. Mergulhou e foi por baixo das rochas onde os peixes se escondiam. Pra minha surpresa, ele começou a trazer peixes que ele pegara com suas próprias mãos. Foi uma grande surpresa para mim, pois eu nunca imaginara que alguém poderia pegar um peixe desse modo. Ao final da nossa aventura tínhamos uns seis ou sete peixes no saco para comermos na janta. Foram momentos inesquecíveis e muito preciosos, de valor inestimável. Seu Simão faleceu no Hospital Militar do Derby em Recife, um ano antes da minha saída de Afogados. Que o Senhor Deus o tenha no seu seio.
E assim foram aqueles dias, tão distantes e tão perto do meu coração. Louvado seja o Senhor.
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - 29 de abril de 2009
jojephd@hotmail.com
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RELEMBRANDO1
Entrei em cena quando fui recebido pelos meus pais Ezequiel e Aurora de Moura, numa quarta-feira em fevereiro de 1935. Minha mãe já havia tido quatro gestações anteriores, mas, os bebês não sobreviveram, deixando para mim uma grande carga de amor e carinho. A atenção que me foi dada por amigos e parentes era incessante; todos desejavam participar, de uma maneira ou de outra, dos cuidados necessários com o novo bebê.
Minha infância, em modo geral, foi igual à de muitos outros garotos da época. Jogando football com bola de meia, soltando papagaio que eu mesmo fabricava, ou jogando pinhão e ainda football de botões. Não existia TV. Rádio era apenas para alguns privilegiados. A eletricidade era quase inexistente, pois quando os geradores funcionavam, tínhamos luz somente entre 6 da tarde e 11 da noite, com a exceção das festas de fim de ano: Natal e Ano Novo. O cinema chegou, depois, com seu próprio gerador de eletricidade.
Aos três anos de idade comecei a sentir falta de outras crianças com quem brincar, fato é que não me era permitido sair de casa sem supervisão, fosse qual fosse o motivo. A solução foi fácil, meu irmão chegou em agosto de 1939, trazendo muita alegria para todos nós. Agora eu não tinha mais desculpas para minhas escapadas fora de casa.
Cresci, literalmente, dentro da Igreja do Bom Jesus dos Remédios, onde fui batizado, e minha mãe foi organista e dirigente do coro. Meu pai foi um dos líderes da igreja, sempre envolvido com diversas organizações, tais como a de São Vicente de Paula, que cuidava das pessoas carentes de ajuda. Diversas vezes tive a oportunidade de acompanhá-lo nas visitas aos necessitados, sempre com uma palavra de conforto e ajuda na medida do possível. Foi dentro deste ambiente que cresci e formei meu caráter. Minha mãe transmitiu para mim o amor à bela música sacra e clássica. Comecei a participar do coral aos 11 pra 12 anos e isto era um grande deleite para mim. Tive a oportunidade, também, de fazer alguns solos que ainda hoje acalentam o meu espírito.
Fui coroinha no tempo do Padre Olimpio Torres, depois com o padre Madureira e, finalmente, com Padre Antonio de Pádua Santos. Uma das coisas que eu gostava de fazer era tocar os sinos da igreja. Augusto Campos, o sacristão, gentilmente me permitia tocar os sinos sob seu acompanhamento, principalmente nos dias de festa. Era só puxar as longas cordas na sequencia desejada e o milagre do som ecoava por todo o território em volta da cidade e além. Não satisfeito em somente tocar os sinos, o desejo de ver os produtores de tão melódicos e poderosos sons se manifestou. Depois de muitas respostas negativas, foi-me permitido o acesso à torre onde os sinos estão instalados.
Subir até a torre era um grande desafio porque a escada do último trajeto era precária, diria mesmo, perigosa. Acho que este fator deu mais sabor ao desafio. Cautelosamente fui subindo até alcançar um patamar, senti-me aliviado das tensões e pude então apreciar a vista panorâmica do meu rincão que se abriu na minha frente. Norte, sul, leste e oeste apresentava-se uma vista espetacular do nosso sertão até onde a vista alcançava. Acredito que poucos tiveram a oportunidade de apreciar tal panorama. Tive muito que contar aos meus pais daquela aventura. Minhas impressões brotavam quase que incessantemente, mesmo assim minha mãe ouvia pacientemente as narrativas com a atenção e carinho que somente as mães têm.
A grande surpresa foi o ninho de corujas que lá encontrei, onde pude observar os dois filhotes ainda sem penas. Era uma coisa feia de se ver, e o cheiro era bem desagradável, no entanto a mamãe deles os achava lindinhos. Cuidava deles trazendo alimentos e sempre pronta para defendê-los. O pior de tudo foi que enquanto eu estava na torre, alguém resolveu dar umas badaladas, não sei se propositadamente ou por ignorar minha presença, mas foi outra coisa espetacular poder ouvir de perto o som ensurdecedor do grande sino. Houve outras visitas àquele local, mas nenhuma superou a primeira que foi uma grande revelação para aquele moleque de oito anos.
Falar de jogar pião, traz à cena um personagem especial que na época era muito conhecido e respeitado. Refiro-me ao Sr. Pedro “Gino”. Ele era um carpinteiro de grande habilidade. Fazia armários e mobílias em geral. Sua casa e oficina eram localizadas nas imediações do antigo Hospital Emília Câmara (hoje X Dires). Ele tinha o maquinário da profissão que para nós funcionava como se fosse mágico. Podíamos comprar Pião na feira, mas, o feito por Seu Pedro era outra coisa. Havia, no entanto, uma exigência para que ele se dispusesse a produzir o pião: tínhamos que procurar a madeira no matagal em volta da cidade, que usualmente era um galho de “pereiro”, de tamanho apropriado.
Trazíamos a madeira e o Sr. Pedro fazia sua arte mágica, que observávamos atentamente, deslumbrados com o produto. Daquele insignificante galho de madeira saia o pião mais bonito e elegante do mundo. Nosso encantamento era visível, e custava apenas Cr$ 1,00 (um cruzeiro). Um pequeno investimento para muitos momentos de alegria e encantamento. Como tudo neste mundo, os piões também morrem, às vezes vítimas de uma “música” e às vezes de uma pedra, e quando isto acontecia, era começar tudo novamente.
Um dos meus companheiros no jogo de pião foi Geraldo Campos, filho de dona Rosa. Ele morava na rua 13 de maio, por trás da nossa casa. Tinha irmãos e irmãs, entre eles Décio, o mais velho, e Zé “Panqueta”. Saíamos muitas vezes à busca de ninhos de passarinho nas regiões imediatas à nossa cidade; era apenas sair pela porta de trás da casa dele e estávamos no mato. Foram dias felizes cheios de alegria, encantamento e aventuras. Geraldo veio a ser professor de matemática. A última vez que abracei aquele querido amigo foi em janeiro de 1980, quando visitei Afogados.
A travessa Cel.Paulino Raphael, ao lado da nossa casa, foi teatro de muitos jogos de pião e de football com bola de meia. Às vezes a turma ficava muito entusiasmada, e a gritaria era intensa, gerando às vezes encrencas e muitos “filho da p...”, principalmente quando o gol não era aceito como tal. Era aí, então, que meu pai acabava com a festa, dispersando a garotada e me mandando pra dentro de casa. No dia seguinte a cena se repetia, e muitas vezes sem nenhum incidente.
Outro parceiro meu foi Edivaldo Cerquinha da Fonseca, que todos chamavam de Diva.
Ele era o filho mais novo do Sr. Augusto Cerquinha e dona Maria. Diva era um bom contador de estórias, e, às vezes, bem apimentadas. O mais gozado é que, à medida que contava a estória, ele mesmo ria de modo tal que às vezes não entendíamos o que estava a dizer. Numa ocasião, estávamos sentados na caçada em baixo de uma das janelas da nossa casa. A estória era bem picante e nós estávamos a rir com a situação, sem saber que meu pai estava bem perto da janela ouvindo nossas conversas. Foi um desastre, meu pai entrou na conversa e a turma debandou, mas eu tive que dar explicações ao meu amado Ezequiel.
Nesta idade eletrônica, onde tudo depende da energia elétrica, creio que a maioria das pessoas passam por esta vida sem apreciar uma noite de lua cheia sem nenhuma eletricidade, como costumávamos apreciar.
Em Afogados da Ingazeira, os geradores de eletricidade funcionavam precariamente. Passávamos, às vezes, meses sem luz elétrica, à espera de componentes do motor que normalmente vinham do Rio de Janeiro ou São Paulo. O grande benefício que tínhamos acontecia na época da lua cheia. Era, e acredito ainda ser, um espetáculo lindo da criação divina. Meus pais colocavam as cadeiras de balanço na calçada e se deleitavam a conversar com os amigos e vizinhos que por ali passavam. Era a mais linda demonstração de amor e solidariedade cristã e social. Era o toque do calor humano que hoje é tão elusivo.
Foi numa destas noites que os garotos me convidaram a brincar de polícia e ladrão. Saímos a correr, a nos esconder, e a gritar “você está preso!”. Num destes encontros fiquei prisioneiro. O local foi ao lado do prédio do Cine Pajeú, cuja construção estava em fase de conclusão. Eles amarraram minhas mãos pra trás e também os meus pés. Eu protestei, mas, a resposta foi que “era parte da brincadeira”. Fiquei por ali quase uma hora sem que ninguém viesse me soltar. Minha sorte foi que um senhor, passando pelo local, me viu e perguntou o que estava fazendo ali; contei os fatos e ele me soltou. Ao chegar a casa, tive que explicar ao meu pai o que acontecera, pois já eram 9 horas da noite iluminada pelo luar sertanejo.
Por falar em eletricidade, minha grande experiência na área ocorreu numa noite de verão. Sempre fui um menino traquinas, cheio de presepadas e paguei bastante por elas, mas esta foi, em minha opinião, uma das melhores.
O nosso serviço de eletricidade era bem simples. Havia os postes nas ruas para a distribuição aos consumidores. As casas não tinham forro, o que dificultava a instalação. Dos dois fios descia um único fio onde o receptor da lâmpada era instalado no fim, e ficava pendurado no meio da sala de visitas e outro na sala de jantar sobre a mesa. Não me recordo o que originou o evento, mas o fato é que estávamos brincando e de repente minha atenção se dirigiu para a lâmpada. Mamãe estava na cozinha; meu irmão, uma empregada e eu estávamos na sala de jantar. Para ter acesso à lâmpada eu tinha que subir na mesa, o que fiz. Removi a lâmpada fique a mostrar a todos que eu sabia o que estava fazendo. Peguei então um garfo de cabo de madeira e fiquei a ponderar o que aconteceria se ele entrasse em contato com o receptáculo da lâmpada. Finalmente resolvi que a melhor maneira de saber era colocá-lo diretamente em contato com a eletricidade. Não me pergunte a razão do ocorrido porque eu mesmo não sei. O garfo fez contato, a explosão foi significante e o garfo ficou soldado ao soquete e eu caí da mesa. Minha mãe ao ouvir a explosão veio correndo pra saber o que acontecia. Ficamos sem eletricidade naquela noite, e no dia seguinte o eletricista veio fazer os reparos necessários. E eu, bem, aprendi que garfos e eletricidade não se misturam.
Empinar papagaio! Você já teve essa experiência? É realmente algo fascinante, principalmente quando você mesmo o constrói com todo cuidado e carinho. Nas tardes preguiçosas, quando o vento quente soprava, era como um convite pra nos dirigirmos na direção do Cruzeiro ou para a rua (13 de maio) por trás da nossa, e ali mostrar as proezas como pilotos de papagaio. Aquela área do Cruzeiro e além, era muito própria para esta pratica, pois o Cruzeiro era o marco indicando de que estávamos entrando ou saindo da cidade; além daquele marco, era campo aberto. Correr atrás do papagaio porque a linha quebrou, era parte do divertimento. Se o rabo está curto, recolhe o bicho e adiciona mais um pedaço de pano pra dar estabilidade. Descobri então que podia adicionar mais linha para ver o papagaio coroando no espaço, que na época parecia tão longe. Alguém me ensinou uma maneira mais avançada de enrolar a linha, que consistia de uma roda com uma manivela que acelerava a operação de enrolar e desenrolar a linha. E assim, íamo-nos entendendo com aquele sentimento de estar em controle, até que minha mãe vinha me chamar, “venha, meu filho, é hora de jantar!”. Eu não gosto de escrever sobre estas coisas por razões óbvias, as lembranças reavivam minhas emoções e eu quase não posso contê-las. É muita saudade e muito dolorido.
As bolas de meia requeriam materiais e mão de obra. O material era suprido por minha mãe, que me ensinou a fazer a bola de pano. Eram meias velhas e pedaços de retalho de pano, que depois de prensados em forma de bola, nos dava mais uma razão pra correr, gritar gol, e começar novo argumento negando a autenticidade do fato. Uma coisa deve ser notada: jogávamos descalços, sem juiz e sem instrutor, e assim éramos muito felizes. Hoje vejo meus netos jogando football, mas, é tudo estruturado, têm técnicos, líderes, uniformes, bolas de couro e treinos semanais. Gosto muito de vê-los envolvido em “Soccer” (football) pra nós, mas falta alguma coisa, falta a espontaneidade infantil, o jogo é mais mecânico, é mais estruturado, mas...
Em 1940 houve uma grande cheia; o rio Pajeú acordou da sua dormência seca e voltou a ser o Grande Rio. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de presenciar a majestade do Grande Rio com toda a sua força ao mesmo tempo violenta, encantadora e assustadora. Eram árvores, pedaços de cercas, toras de madeira e até animais que estavam sendo levados água abaixo. Foi, então, que aprendi a medir o nível de crescimento das águas com uma pequena estaca. “Está crescendo..., já aumentou três centímetros!”, e isso me fascinava bastante; eu estava descobrindo a grandeza da criação divina.
Aos sábados, os sitiantes e fazendeiros que vinham pra feira semanal, eram confrontados com o grande obstáculo aquático. A travessia era feita por canoas, impulsionadas pelo poder físico de quatro ou mais remadores que iam e vinham do local onde hoje existe a ponte contígua ao açougue público, trazendo e retornando passageiros e até mesmo animais. Os animais maiores vinham nadando, mas, amarrados à canoa para não serem carregados pela correnteza. Hoje isto pode parecer trivial, mas, para o menino de cinco anos era algo extraordinário, uma grande aventura. Meu pai me chamava e voltávamos pra casa.
As chuvas continuaram a cair e o cenário era convidativo para sairmos a brincar de açude em frente à nossa casa na Av. Rio Branco. Não havia calçamento e o lamaçal era considerável. O barro vermelho era escorregadio como se fora uma barra de sabão. Deleitávamo-nos construindo pequenas barragens que logo arrebentavam. Minha mãe me chamou dizendo: “não quero menino sujo dentro de casa, procure se lavar!” Tiritando de frio, fui à procura da primeira goteira e me preparei para voltar para o conforto da nossa casa, feliz da vida.
A melhor parte estava pra chegar semanas depois. Milho e feijão verde, frutas e abóboras. Não posso imaginar algo mais delicioso do que o café à tarde com pamonha e canjica, feitas por minha mãe. Eu era conscrito para ajudar na preparação, ralando o milho e coletando os sabugos para dispô-los. Quando a canjica estava pronta para ir ao fogo, era minha obrigação ficar mexendo a panela com a colher de pau, até que mamãe dissesse “está bom!”. Ela distribuía a canjica em pratos, aí vinha o melhor pagamento pelo meu trabalho: eu tinha o privilégio de raspar a panela, deleitando-me com cada raspada. Só os que já experimentaram tais circunstâncias têm a compreensão de como é delicioso “raspar a panela”. Faz uma eternidade desde que me deliciei com um prato de canjica.
Voltando à travessa Cel. Paulino Rafael, ao lado da nossa casa, é como voltar à cena do crime. Meu pai estava na sua tenda fazendo sapatos. Meu irmão e eu estávamos a brincar; ele com algum carrinho e eu com um arco e flecha que eu mesmo havia feito de modo bem rudimentar, mas, era arco e flecha, sem dúvida. Meu pai me admoestava constantemente, ”não aponte este troço na direção de qualquer pessoa. Veja que isto pode machucar alguém ou ate mesmo cegar”. A resposta era sempre: “eu não estou apontando pra ninguém!”. Passaram-se alguns minutos e um diabinho cochichou no meu ouvido: “que nada, podes apontar que não vai acontecer coisa alguma”. A tentação fazia pressão e eu apontava em diferentes direções, até que finalmente resolvi que o meu irmão era um ótimo e desejável alvo. O grito de dor ecoou com toda a sua força. Meu pai correu para assistir Tarcisio que chorava, ele estava com três anos de idade. Mamãe veio a correr em socorro do coitado do meu irmão, procurando consolá-lo. Eu já sabia o que me esperava. Meu pai me pegou pelo braço, levando-me pra dentro de casa, a relembrar-me que já havia me admoestado várias vezes, mas, eu não quis escutar. Graças a Deus nada sério aconteceu ao meu mano, que hoje ao ler este fato, talvez nem se lembre do ocorrido. As lapadas aplicadas com metódica precisão foram doloridas e eu fiquei sem jantar. Desde então, nunca mais brinquei de arco e flecha.
Até os cinco anos de idade meus cabelos eram aloirados, compridos e cortados em franjas. Ao completar cinco anos, minha mãe achou que era tempo de cortá-lo no estilo normal. Tenho este episodio gravado em duas fotos ao lado do meu irmão, uma antes de cortar e outra após cortar o cabelo. Foi um dia memorável, eu estava crescendo, deixara de ser um bebê e oficialmente passava a ser um moleque.
O barbeiro foi o Sr. Francisco Honorato, conhecido como Chico Pimpão. Ele era um homem gentil, mas um pouco calado. O que me desagradava quando ele cortava meu cabelo, era o fato de que a máquina manual que ele usava, puxava o cabelo ao mesmo tempo em que cortava. Mesmo assim, seu Chico cortou meu cabelo por alguns anos, pois ele cortava também o do meu pai.
Depois que o Sr. Elesbão abriu um salão em frente a nossa casa, a mudança foi imediata, Elesbão ficou sendo meu barbeiro até que saí de Afogados para ingressar na Marinha.
O salão do meu novo barbeiro era mais do que isso, era um centro social de encontro diário da molecada daquela área. O fato que ele tinha dois filhos - Zé Humberto e Vicente - ajudava bastante. Seu Elesbão era boa praça, de boa conversa e de bom humor. Nos dias quentes e preguiçosos, sem clientes, eu costumava me sentar numa das cadeiras e bater um papo interminável, até que ele nos mandava sair, pois um cliente acabara de chegar. Relembrando as estripulias que fazíamos, cheguei à conclusão de que ele foi um bom amigo.
Comer goiabada é uma pratica comum no nosso meio, no entanto pergunto: você já comeu um quilo de goiabada de uma vez, sem interrupção? Refiro-me mais a uma lata de goiabada peixe, que todos diziam ser de um quilo. No entanto era de apenas 900g. O fato é que todos já comemos goiabada em pequenas quantidades. Pois é, estávamos nós, um pequeno grupo de garotos de 11 pra 13 anos, “asilando”, ou seja, fazendo nada e batendo papo, o que não era muito do agrado do dono (seu Guilherme) da mercearia, que era localizada ao lado da casa de Neco de Oliveira. Ele nos tolerava, mas, com certo desprazer. O cinema acabava de dar sua primeira chamada indicando serem 7 horas da noite. De toda nossa conversa saiu a idéia de que seria bom comer um pedaço da goiabada. O problema é que nós estávamos de bolsos vazios, não tínhamos um tostão sequer.
Começamos a puxar a idéia de que alguém deveria pagar pela lata de goiabada que nós tanto desejávamos comer. O dono da mercearia, desejando ver-se livre de nós, sugeriu então que se alguém do grupo comesse o conteúdo inteiro da lata, ele não cobraria nada, ficaria de graça. A idéia passou de um para outro, cada um dando diferentes desculpas. Eu finalmente me propus a aceitar o desafio, o dono da mercearia me relembrou então que se eu não comesse tudo, eu teria que pagar, respondi que estava ciente. Ele abriu a lata de goiabada, deu-me uma faca e disse: “pode começar!...”
A garotada do grupo ficava torcendo em favor do meu sucesso ou tentando desencorajar-me, oferecendo água e outras coisas mais. Gradual e sistematicamente comecei a devorar a goiabada, pedaço por pedaço e finalmente o último pedaço foi devidamente ingerido.
Meu estômago estava pesado e eu não podia mais nem pensar em doce de qualquer qualidade. A turma vibrou com a minha aventura açucarada. Atravessei a rua e fui pra casa para me preparar para ir ao cinema. Para minha surpresa minha mãe estava a par do acontecimento e perguntou se eu me sentia bem. Respondi que sim, e perguntei quem a havia informado. Fiquei sabendo que havia sido uma das vizinhas. Não posso repetir aqui minha reação original, mas seria algo como, “essa senhora não tem nada a fazer na vida, a não ser tomar conta da vida dos outros e mexericar?!...”. Daí então, fui ao cinema deleitar-me com a apresentação do seriado. Fiquei algumas semanas sem comer goiabada. Infelizmente não me lembro de nenhum dos meus companheiros daquela doce aventura.
Era comum sairmos pelo matagal à procura de ninhos de passarinhos. Era realmente uma maneira de ver como a natureza toma conta de si mesma..., como se reproduz o ciclo da vida. Acompanhar a construção do ninho, o primeiro ovo a ser posto, a maneira como os ovos eram atendidos, e até mesmo aprender a identificá-los, era algo encantador. E, finalmente, quando os ovos se abriam, dando saída a uma pequena criatura sem penas, que em um pequeno período de tempo estaria a voar livremente. Era algo que me fascinava. Cheguei a trazer para casa um par de rolinhas que estavam prestes a deixar o ninho. Mantive-as numa gaiola por algum tempo até que uma delas morreu. Achei então que a melhor solução era deixar que a outra fosse libertada, livre para voar e procurar um parceiro.
Numa destas procuras de ninhos, fui à direção da casa do Sr. Zezé Correia, achei um ninho de rolinha com ovos. Fiz diversas visitas ao local para acompanhar o seu desenvolvimento. Numa dessas visitas, andando descuidado, sem nenhuma preocupação, entrei na trilha que me levaria ao local. Estava apenas a alguns passos do meu objetivo, quando me preparava para dar mais um passo, tomei o maior susto! Deparei-me com uma cobra elegantemente enrolada, bem no meio do caminho, pronta pra um bote. Fiquei assustado e quase paralisado com o susto, pois, se desse mais um passo, pisaria em cima da serpente. Passado o primeiro momento do susto pude me recompor e a pensar como agir. A cobra, no entanto, percebendo que eu não apresentava nenhum perigo para ela resolveu sair de cena, arrastando-se na direção dos arbustos, lá se escondendo. Voltei pra casa bastante abalado com o ocorrido.
Tudo isso foi parte do meu aprendizado da vida no sertão, onde a mãe natureza reina. São lembranças que até parecem fantasias de imaginação, principalmente ao relembrar tais eventos no espelho do tempo, vivendo numa cidade moderna.
Saudades, muitas saudades!
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - abril/2009
jojephd@hotmail.com
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O Escotismo está comemorando 100 anos da sua fundação por Baden Pawell, General de carreira, veterano de guerras, elevado a posição de Lord, homem de visão.
O objetivo principal da organização é o de preparar as novas gerações de moços, física e mentalmente para serem responsáveis cidadãos e líderes, guiados pelo juramento de honra do escoteiro e suas leis.
O juramento do escoteiro: “Juro na minha honra, cumprir meus deveres para com Deus e minha pátria, e obedecer às leis do escotismo.
“Ajudar meus semelhantes a qualquer hora, manter-me em boa forma física e mentalmente, sempre alerta, e moralmente correto.”
A lei do escoteiro: “O escoteiro é merecedor de confiança, Obediente, Leal, Alegre, Está sempre disposto a servir, É econômico, Amigo, Bravo, Cortês, Limpo, Bondoso e Reverente”.
Estes princípios foram fundamentais na formação do caráter da minha geração. São princípios diretamente ligados aos mandamentos bíblicos, e ensinamentos do Evangelho de Jesus Cristo e aos ditames da vida militar, que nos ensina disciplina, responsabilidade, serviço, e que dependemos uns dos outros.
Tenho orgulho de ter sido membro da Tropa de Escoteiros de Afogados da Ingazeira. Relembrar fatos e pessoas que foram parte daquela experiência tão agradável e marcante na minha juventude é a minha modesta contribuição em honra desta organização valorosa na educação e formação dos jovens. Foi motivo de grande entusiasmo para a garotada sertaneja, quando da formação da Tropa de Escoteiros de Afogados da Ingazeira, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, na segunda metade da década de 40.
O primeiro Chefe dos escoteiros era um jovem recém-casado, Sr. Antonio (se não me falha a memória, o sobrenome era Alves). Um moço de boas qualidades, assíduo freqüentador dos serviços da igreja do Bom Jesus dos Remédios, de grande habilidade como líder. Ele nos tratava com amizade, mas com firmeza, o que nos inspirava respeito, sem que fossem necessárias muitas palavras. Nossas reuniões eram realizadas num salão na Avenida Rio Branco, quase em frente da casa paroquial. Aquele salão, em diferentes épocas, foi clube, salão de danças, bar e sorveteria e finalmente, abrigou também uma pequena biblioteca patrocinada pela paróquia. O Chefe apresentando sua palestra ficava a frente e nós todos sentados de costas para a entrada do salão. Durante uma das reuniões, ouvimos os passos de alguém entrando pela porta, imediatamente olhamos para trás, o Chefe então tomou a oportunidade para nos dar uma lição sobre a curiosidade, que desviava nossa atenção do que estava sendo ensinado. Depois mudamos para um salão na rua que inicia atrás da prefeitura e vai na direção do rio Pajeú. Ali ouvíamos as palestras do Chefe Antonio sobre moral e cívica, aprendíamos a fazer nós de todos os tipos, como nos comportar em diversas circunstancias. Como nos conduzir na mata para não nos perdermos. Como fazer fogo com segurança, evitando incêndio. Fazer barracas, respeitar a natureza, e muitas coisas mais. Era também um grande encontro social para nós. A banda marcial praticava com seus instrumentos, num barulho ensurdecedor das cornetas e tambores.
Aprendemos que servir deve ser sempre parte do nosso viver, porque servindo aos outros estamos sendo servidos. Era parte dos nossos encontros darmos um relatório de como havíamos ajudado alguém durante a semana, mesmo que fosse nosso pai ou mãe. Isso nos incentivava a pôr em pratica as teorias sociais que aprendíamos.
Periodicamente saíamos em marcha, liderados pela banda marcial, trazendo os olhares curiosos dos moradores locais, não acostumados com qualquer evento que perturbasse a tranqüilidade da cidade pacata. Daquele grupo, os participantes que me recordo bem, eram Zé de Nora, um dos corneteiros; Edeildo, filho de dona Bembem tocava tarol, e muito bem. Participavam também os filhos de Chico Bobina, Waldir, Waldemir e Wanildo Martins, e muitos outros que infelizmente a memória não me ajuda.
Na parte da tarde dos dias de semana, para não interferir com o horário escolar, tínhamos nossas reuniões, que era algo de que gostávamos, pois nos proporcionava um ambiente agradável para uma socialização sadia e construtiva que nos dava um senso de valor.
O mais notável é o fato de ser uma associação voluntária. Não havia coerção ou intimidação, era uma participação voluntaria que nos dava um grande senso de valor moral.
Quando fui permitido por meus pais a participar do Grupo de Escoteiros, fiquei muito contente e ansioso para usar o uniforme. Minha mãe prometera que eu teria o uniforme, mas eu teria que esperar até o fim do mês quando ela receberia pagamento de algumas aulas particulares. Minha ansiedade era tal, que no dia apropriado não pude esperar e resolvi ir pessoalmente pedir o pagamento devido, sem minha mãe ter conhecimento. Foi um momento embaraçoso, minha mãe repreendeu-me e eu quase perdi meu uniforme.
Eu estava eufórico com o fato de ser membro dos escoteiros. Foi programado um acampamento que teria a duração de dois dias. A partida seria logo após a missa dominical. Eu estava ansioso e havia conseguido a permissão do meu pai para ir. Como de costume, fomos assistir a missa, e eu fiquei sentado ao lado do meu pai. Quando de repente me senti mal e desmaiei. Isto foi o ponto final da minha primeira aventura de acampado.
Nossas marchas nos levavam a diferentes locais nas áreas imediatas em volta da cidade, que na época abrangia uma área muito menor. Desta vez estávamos na área que chamavamos apenas de “do outro lado do rio’, na direção de Carnaiba. Estavamos aprendendo sobre arbustos e os animais que ali vivem, e pra surpresa geral, avistamos uma pequena cobra coral. Sua pele tricolor, vermelho, preto e branco, chama atenção de qualquer um, e lá estavamos nós agitados e sem saber muito o que fazer, quando o Chefe Antonio veio nos mostrar como agir. Nos estavamos em volta do arbusto onde a cobra se escondera, o Chefe aproximou-se e com a confiança de um profissional habilmente pegou a cobra pelo pescoço e nos deu uma aula sobre os répteis. Ficamos sabendo que a cobra em questão era inofensiva para nos porque não era venenosa, e isto estava demonstrado pelo fato dela ter a cabeça redonda. Soltamos a cobrinha que voltou ao seu arbusto favorito.
Em outra ocasião fomos ate o Poço do Urubu. Depois da caminha até aquele local, brincar na água era um premio delicioso no calor do sertão. Estavamos nos deleitando com nossa aventura aquática, quando de repente tomei um susto bem grande. Nadando ao meu lado passou o que pensei ser uma cobra preta, dei um grito de alarme. Logo fiquei sabendo que não se tratava de cobra, mas sim de um Muçu, foi a primeira vez que nos encontramos.
O Chefe Antonio nos recebia na sua casa de bom coração, nós nos sentíamos como se fossemos parte da família, no entanto, por razões que ignoro, ele nos deixou. Creio que foi para Recife.
Com a partida do Chefe Antonio, Zezito Padilha, filho do Sr. Odon passou a ser nosso líder, o Chefe. Zezito era um moço alto, forte, elegante, de bom caráter e amigo. Ele deu continuidade ao Grupo. Foi sob o seu comando que fomos participar no Grande Conselho em Recife. As expectativas eram grandes. Naquela época, ir a Recife era uma aventura. Tínhamos que ir de caminhão até Sertânia onde tomávamos o trem pela manhã, era o inicio de uma longa jornada ouvindo o clik-clak das rodas em contato com os trilhos, descobrindo novas cidades e novos cenários, culminando com nossa chegada a Recife, la pras 8 horas da noite.
Todos os ensinamentos e admoestações que aprendemos no escotismo foram coisas de grande influencia na formação do meu caráter na minha infância e juventude, bem como de muitos outros participantes. É lamentável que hoje haja um vácuo no setor de formação dos jovens.
Estas qualidades ensinadas pelo escotismo são hoje desconhecidas por uma grande maioria das recentes gerações, porque são qualidades que nossa sociedade deixou de prezar, cultivar e incultar na formação do caráter dos jovens. As conseqüências de tal omissão têm sido desastrosas. As provas são evidentes, na degradação da qualidade de vida que temos hoje nas grandes cidades. Oh, que saudade de outrora!
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - dezembro/2008
jojephd@hotmail.com
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JOSÉ CORREIA DE SIQUEIRA
Zé Correia era meu herói. Um moço sem muita escolaridade, no entanto, possuidor de iniciativa própria, dinamismo e visão que outros com mais instrução escolar não igualaram.
Com seu próprio esforço, conseguiu formar um pequeno império no mundo mercantil. Era possuidor de bom senso de humor e sociabilidade. Uma das primeiras lembranças que tenho do primo foi vê-lo na feira de sábado, em Afogados da Ingazeira, vendendo feijão. Isto aconteceu no inicio da década de 40; poderia ser 1941 ou 1942. Eu não tinha ainda muito entendimento do que acontecia, mas o fato é que estava presenciando o desenvolvimento de uma carreira dinâmica.
Pouco tempo depois ele abriu um armazém para vender produtos para sapateiros, principalmente os diversos tipos de couros. Como bom filho do sítio Alça da Peia, onde ser sapateiro ou ligado ao produto, era de se esperar, ele teve a visão da oportunidade que se apresentava de suprir o mercado local com os produtos vitais para sapateiros, que na época viajavam para Caruaru ou Recife, em busca daqueles produtos. O armazém foi expandido para vender pneus, depois outros produtos como refrigeradores etc..
Maria Siqueira, sua sobrinha, assumiu a gerencia do estabelecimento quando Zé Correia abriu sua loja no Recife, onde vendia máquinas de costura importadas do Japão. Abriu, também, uma filial em Maceió.
Um fato que ficou bem gravado na minha mente foi que, antes de mudar-se para Recife, ele teve aulas de português com minha mãe (Professora Dona Aurora), no sentido de aprender a escrever melhor, enriquecer o vocabulário e também algo de matemática.
Naquela época eu sabia que algo de grande importância estava acontecendo, mas não conseguia entender completamente ver um homem adulto, grande negociante, reconhecer suas limitações escolares, não se deixar vencer pelos obstáculos, procurando resolutamente solucionar o problema buscando auxilio para adquirir o conhecimento necessário, é sem duvida um bom exemplo não só para mim, mas para todas as gerações.
Apesar de haver sido apelidado de “Zé Rico”, Zé Correia era um homem despretensioso e gentil, sempre pronto a ajudar aqueles que necessitavam.
Em 1946, durante a campanha política - ele era da UDN -, não sei bem o que aconteceu, pois eu era criança, mas lembro que na praça, em frente à igreja católica, houve um bate-boca entre vários políticos e as coisas ficaram bem agitadas.
Acho que os do PSD não gostavam de ter o Zé Correia fazendo campanha para a UDN. Sei apenas que meu tio Pedro, um homem muito pacífico, estava muito agitado bem como meus primos, que estavam em grande número, e prontos a defender o primo Zé.
Depois as coisas se acalmaram e tudo voltou ao normal.
Em 1953 eu já estava no Rio de Janeiro. O cine metro estava apresentando um grande filme, Julius Cesar, com Marlon Brando, e eu, no dia de folga me dirigi para a Cinelândia no Centro do Rio de Janeiro, com o propósito de ver o filme. Quando cheguei, a sessão estava começando e fui no escuro procurar assento. Sentei-me, e qual não foi minha surpresa: ao meu lado estava sentado Zé Correia. Foi uma chance em um milhão, fiquei muito surpreso e alegre ao mesmo tempo.
Anos depois, já em São Paulo, fiquei sabendo, através do meu primo José Xavier, que Zé Correia estava na cidade e desejava ter um encontro conosco, os primos residentes na capital paulista. A reunião seria no restaurante do Clube dos Engenheiros Arquitetos de São Paulo onde José Xavier era gerente. Foi um agradável encontro dos familiares onde mantivemos um bom papo com Zé Correia. Presentes estavam: Cirilo, Domingos, José Xavier, todos os irmãos, filhos de tia Luiza, eu e alguns dos filhos dos primos.
Reservar um tempo na sua agenda de negócios, para nos visitar, foi mais uma demonstração da simplicidade, e da maneira como ele era atencioso para conosco.
Ele era um homem de grandes convicções religiosas. Participava assiduamente dos trabalhos, e também das campanhas para levantar fundos para a Igreja do Senhor Bom Jesus dos Remédios em Afogados da Ingazeira, tais como a campanha dos vitrais (dos quais foi o doador), das festas de fim de ano, etc.
O senso de responsabilidade e amor cristão do primo ficou bem demonstrado pelo fato de ele ter tomado conta da sua mãe, tia Aninha, até o fim. Ele remunerava tia Quitéria para cuidar de tia Aninha; levava-a sempre ao médico, pois ela sofria de reumatismo e outros problemas de saúde. Ele fazia constantes visitas à sua mãe e por várias vezes suas visitas coincidiam com a nossa, apresentando sempre um bom espírito.
A última vez que visitei o primo Zé, foi em 1980, quando da minha visita ao Brasil.
Que o Senhor Deus o tenha no seu seio.
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - 19 de junho de 2008
jojephd@hotmail.com
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Foi testemunha de muita coisa, muita bebida e até comida, danças e retretas, jogos de carta e gamão foi onde bebi minha primeira cerveja, no entanto, creio que muitos não sabem ou se recordam que também foi dormitório da tropa de escoteiros de Afogados da Ingazeira por uma noite. Estávamos todos preparados para o grande conselho a ser realizado em Recife, e a melhor maneira para estarmos todos prontos para sairmos pela madrugada era ficar todos reunidos no mesmo local.
O Coreto foi então escolhido por sua localização central. Éramos um bom grupo chefiado por Zezito Padilha filho do Sr.Odon Padilha. Ele era um moço alto forte, de bom caráter, um bom líder. Entre outros que participaram, lembro-me bem de Edeildo filho de Dona Bembem fazendo seu marco com o tarol, Zé de Nora tocando corneta. O grupo era composto de uns 20 membros ou mais, infelizmente a memória está esvoaçada pela poeira do tempo. Acordamos às três da manhã e nos preparamos para sair com tempo de alcançar o trem em Sertânia.
Para mim foi uma grande aventura, pois foi a primeira vez que saí de casa sem a supervisão dos meus pais, que me acompanharam até o coreto e me recomendaram ao nosso “chefe”, como pais cuidadosos o fazer. Fomos descobrindo um mundo que nos parecia tão distante que nossa imaginação não alcançava. Aprendemos que havia cidades e mais cidades entre Afogados e Recife. Deslumbramo-nos com a passagem pelos 14 túneis na serra das Russas, pois túneis só conhecíamos nos livros. Já era noite quando chegamos a Recife e fomos encaminhados para uma propriedade onde havia um prédio grande no meio do terreno e no espaço em volta estavam as barracas onde ficamos alojados.
Finalmente chegou o grande dia do encontro de todas as tropas no parque fronteiro ao Palácio das Princesas. O Governador Agamenon Magalhães foi o ultimo a falar, todos nós nos sentimos orgulhosos de participar de tal evento. Numas das noites houve um temporal muito grande e a chuva intensa causou alagamento onde estavam as barracas, nos acordando com uma surpresa molhada. O meu tio, irmão da minha mãe veio me visitar e me levou para passear e conhecer o resto da família. Este foi meu primeiro vôo saindo do ninho, que abriu caminho para muitas outras viagens aventureiras. Depois que me incorporei na Marinha, fui visitar meus pais antes de ser transferido para o Rio de Janeiro, tive então a oportunidade de visitar novamente o velho coreto de tão preciosas lembranças, que era o centro magnético dos jovens da época.
Foi naquela ocasião que tirei a foto que o Fernando publica nesta página. Tenho a impressão que fui o único marinheiro a visitar aquele prédio. Como podem perceber, aquele velho edifício teve grande significado para muitos e especialmente para mim. O poema do Dedé Monteiro está muito apropriado, e expressa o sentimento de muitos, quero congratular-me com ele por um trabalho preciso e bem feito. Se alguém se recorda do evento aqui mencionado, por favor, entre em contato comigo se possível. Será um grande prazer.
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - 30 de janeiro de 2008
jojephd@hotmail.com
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COMO PEDALAR
Visitando a página de Afogados, vi hoje pela centésima vez, a foto do Cine Pajeú, e da Casa ao lado, que foi do Dr.Arthur Lima. No entanto, hoje foi como se fosse a primeira vez. Quando li o nome Dr.Arthur Lima, imediatamente uma torrente de lembranças ternas vieram a minha mente. Foi naquela casa que aprendi a andar de bicicletas, graças ao Dr. Arthur e esposa, D. Helena. O casal tinha uma filha, Ana Maria, de uns 4 anos de idade, que gostava muito de mim. Sempre que eu passava em frente da casa, era certo que a menininha me chamava, e eu graciosamente parava e conversava um pouco com ela. A empregada que tomava conta da menina era uma moça robusta e muito amiga, o que também me agradava. Cultivei uma boa amizade com o casal, que quase sempre me convidava para entrar e bater papo na varanda. Numa destas ocasiões, mais precisamente num sábado, Dr.Arthur me perguntou se eu poderia fazer o favor de alugar duas bicicletas do Sr.Paulino, e trazê-las para casa, pois ele e a esposa gostariam de passear um pouco de bicicletas. Falei então que teria muito gosto. Fui até o ponto do Sr. Paulino, e aluguei as duas bicicletas. Levei as bicicletas até a casa do Dr. Arthur, que ao me ver trazendo-as, agradeceu-me muito. Eles deram umas voltas e retornaram. Ele me perguntou se eu sabia andar de bicicletas, e a minha resposta foi negativa. Ele imediatamente disse que se eu desejasse aprender, ele me ensinaria. Eu fiquei muito entusiasmado com a idéia, se bem que um pouco receoso. No lado norte da casa, havia um corredor de passagem de carro, que era num declive. Dr.Arthur colocou a bicicleta na posição e mandou que eu montasse, o que fiz com certo receio, pois eu não tinha a menor idéia de como manejar uma bicicleta. Ele pacientemente me ajudou a me equilibrar e descemos a rampa ate o fim do quintal. Depois de várias tentativas, finalmente eu consegui manter-me na sela, e fui até o fim do quintal por conta própria. Este foi o primeiro dia que eu manejei uma bicicleta. Subseqüentemente houve outras ocasiões que me ajudaram a ter confiança e aprimorar minha habilidade como ciclista, tudo graças ao Dr. Arthur Lima. Depois que ingressei na Marinha, numa das minhas férias, passei dois dias em Vitória de Santo Antão. Passeando pelo centro da cidade, dei de cara inesperadamente com o Dr. Arthur, que ficou muito alegre de me ver. Conversamos um pouco e nos despedimos. Esta foi a ultima vez que tive a satisfação de rever o caro Senhor.
Zezé de Moura - Rosemead, CA - USA - 19 de agosto de 2003
jojephd@hotmail.com
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VISITA AO SERTÃO (4ª parte)
Segunda-Feira, 23 de Setembro, 2002. - Passamos o domingo desfrutando a tranqüilidade de Riacho Fundo, gozando a vida pacata de matuto, e, ao mesmo tempo, recuperando nossas energias. Na segunda-feira, resolvemos voltar a Afogados para uma ultima visita. Uma visita de adeus ao velho rincão, bem como a algumas pessoas amigas. Lá fomos nós, Tarcisio, minha esposa e eu, e um fato marcante então aconteceu. Pela primeira vez na minha vida, tive a oportunidade de dirigir um carro pelas estradas do Sertão. Eu que já atravessei o continente Norte Americano várias vezes, até então não havia dirigido um automóvel em solo brasileiro. Foi uma ótima experiência, pois mais da metade da estrada de Riacho Fundo para Afogados é de terra batida. Graças a Deus, a viagem ocorreu sem nenhum incidente. Nós havíamos passado o sábado em Afogados visitando a feira e varias partes da cidade. Na segunda-feira a cidade estava mais calma. Paramos o carro na Av. Rio Branco e nos dirigimos para a residência de D.Erotides Pires, mãe do amigo Fernando. Apesar da idade avançada, ela ainda apresenta bem claros os traços da beleza da sua juventude. Foi uma visita breve, mas muito agradável, que me fez sentir menos estranho na minha terra natal. Fomos então mais para o centro, e estacionamos próximo da Catedral, cuja beleza imponente é quase eterna. Visitamos a área sem ter acesso ao interior do prédio, mas pudemos olhar pelo vidro da porta principal. Fiquei muito alegre de ver que as novas gerações têm cuidado da manutenção do marco mais importante de Afogados. Daí fomos visitar D. Genedi Magalhães. Ela foi aluna da minha mãe, e minha professora no meu terceiro ano primário. Foram dias memoráveis aqueles, cheios de muita energia própria da idade. Entre outros, eram membros da nossa classe, Fernando Cruz, Jose Pires, João da Mata, Izaura Bezerra, Inezinha Correia, Maria Padilha, e muitos outros. Tivemos uma breve e agradável visita, e tirei umas fotos para ter como lembrança de uma pessoa que foi tão importante na minha vida. Nos dirigimos para a rua Ezequiel Moura. Era meu grande desejo visitar a rua que tem o nome do meu saudoso pai. Não foi difícil achar. Ao chegarmos ao nosso destino, aproximei-me do local onde está a placa com o nome da rua e tiramos algumas fotos. Um residente da rua nos viu olhando a placa, e então perguntou se tínhamos alguma relação com o nome. Quando respondi que sim, ele se apresentou e fiquei sabendo que era não só meu parente, mas que tem o mesmo nome que eu. Fomos convidados a entrar para uma pequena visita, que muito me confortou o coração pois a mãe dele era minha prima. Foi uma coisa inesperada, mas que teve muito valor para mim. Fomos então visitar a organização Projeto D. Aurora, infelizmente o local estava fechado, o que foi um grande desapontamento. Andamos ainda pra cima e pra baixo, comprei umas lembranças e finalmente era hora de voltar para o Sitio. Quase na saída da cidade paramos para reabastecer não só o carro, mas também nosso estomago com comida boa e abundante. Chegamos de volta a Riacho Fundo no fim da tarde. Parei então, e comecei a coordenar minhas emoções e pensamentos, pois estavam em reboliço. É interessante que enquanto alimentava minha mente com o desejo de rever a terra natal, a ansiedade era grande. Rever Afogados, a terra onde nasci e vivi até meus 18 anos. Era um desejo muito grande. Talvez porque no meu inconsciente eu esperava rever pessoas e lugares como eu os havia deixado muitos anos atrás. Grande então foi minha decepção e dor. Enfrentei então a realidade de que quase três gerações se passaram, e que o meu Afogados não mais existe. Somente a saudade e as lembranças continuam comigo. Portanto, daqui pra frente, quando sentir saudades do passado, meu refúgio será o CD de Afogados, que o caro amigo Fernando graciosamente me presenteou, onde encontro incentivo para deixar minha imaginação divagar no tempo e no espaço.
Ate breve. Zezé de Moura.
Rosemead - CA, USA - 13-dezembro-2002
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VISITA AO SERTÃO - Riacho Fundo (3ª parte)
Logo após Sertânia, saímos da estrada principal e nos dirigimos norte por alguns km até a saída para Ingazeira. É uma estrada de terra batida, e quando um carro passa pelo outro deixa uma nuvem de poeira vermelha. Foi aí estão que percebi estar mesmo no Sertão, pois até então, tínhamos viajado em estrada asfaltada. Fiquei surpreso ao ver o desenvolvimento da região. Energia elétrica, telefone, antenas parabólicas, carros, motocicletas etc. De uma coisa senti falta imediatamente: o jumento. O velho amigo e besta de carga do sertanejo foi substituído pelo carro e motocicleta. Cheguei a ver ainda um ou dois carros de boi, mas sem aquele som característico causado pelo atrito da madeira com a madeira, que era quase como um choro de dor e agonia.
Chegamos finalmente a Riacho Fundo, onde fomos recebidos por meu irmão, minha sobrinha e um grupo de outros familiares. Nos abraçamos de maneira intensa, tentando recuperar o tempo (22 anos) que não nos víamos. Sempre que escrevia ou falava por telefone, a pergunta era sempre a mesma, “quando vens nos visitar”, e a resposta era sempre “muito em breve”. Era uma resposta que não satisfazia nenhuma das partes, mas era a mais fácil. Finalmente depois de tanta protelação eu estava cumprindo a promessa.
Localizado a beira do Rio Pajeú cinco quilômetros ao norte de Ingazeira, Riacho Fundo não significa nada para a grande maioria, no entanto, para mim tem um significado muito além de mera localização geográfica. Foi ali que minha irmã e esposo se estabeleceram e criaram uma bela família de cinco filhos. Tive oportunidade de visitar o local várias vezes durante minha infância, e trago ainda hoje com grande ternura as lembranças. E foram essas lembranças que borbotaram instantaneamente, mesmo depois de 52 anos desde minha última visita ao local.
A primeira visita foi durante o mês de julho de 1942. Meu pai arranjou um carro de boi, fez uma coberta, e lá fomos nós passar uma semana na casa da minha irmã. Saímos de Afogados às 3 da tarde e chegamos em Riacho Fundo lá pras nove da noite. A distância de Afogados para Ingazeira é de apenas 28 quilômetros, que hoje se faz a mesma viagem em 30 a 40 minutos de carro, mas naquela época as coisas eram bem diferentes. Foi realmente uma grande aventura para todos nós.
Lembro-me bem de saborear o leite fresco, tirado da vaca ao nascer do sol. Outra coisa que era de grande valor para meu paladar, era comer coalhada fresca, que minha irmã me prendava. Foi lá, que pela primeira vez vi o processo de fazer queijo. Trago na minha mente, as lembranças da plantação de bananeiras e do baixio, que hoje não existem mais, pois o Pajeú mudou seu curso.
Como freqüentemente acontece no Sertão, na década de 50, meu cunhado resolveu vender a propriedade para seu irmão, e tentar a vida noutras plagas.
Hoje, a casa que foi da minha irmã não existe mais. Só resta o Juazeiro como testemunha do que foi. No seu tronco pude ver o nome do meu cunhado, gravado por ocasião de sua última visita ao local há muitos anos.
Próximos ao local onde foi a residência da minha irmã, os filhos, sobrinhos e primos estabeleceram um centro comunitário cristão, com o propósito de educar as crianças e jovens da região. Construíram uma capela, um salão de reuniões, uma excelente cozinha e vários quartos com facilidades sanitárias. Fiquei muito bem impressionado com a obra, e mais ainda pelo fato de que tudo foi feito sem nenhum envolvimento de qualquer organização política.
Isto prova que se desejarmos verdadeiramente podemos realizar muitas coisas sem depender de políticos ou do Governo.
Outra coisa que me impressionou bem foi o fato de ver o desenvolvimento em plena seca, no meio do cenário cinzento característico do sertão, o verde das plantações de milho, feijão, bananeiras, etc, tudo com água do sistema de irrigação. O Pajeú está seco, mas nas suas margens foram estabelecidos poços artesianos profundos de onde as bombas trazem a água a ser usada na irrigação. Morando na Califórnia, irrigação é um acontecimento diário para nós, fiquei muito satisfeito de ver que nosso povo está descobrindo esta técnica agrícola. Nossa estada em Riacho Fundo foi muito agradável em todos os sentidos. Desde o galo cantando de madrugada, e o levantar ao nascer do sol, às comidas apetitosas que nos ofereceram, e as palestras agradáveis com os locais.
Na segunda-feira passamos o dia em Afogados para visitarmos alguns amigos.
Isto fica para a próxima. Zezé
Rosemead - CA - USA, 06 de novembro de 2002
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VISITA AO SERTÃO - Casa Paterna (2ª parte)
Depois de quatro dias de estada em Recife, era tempo para visitar o Sertão, a terra onde nasci e cresci e de onde saí aos 18 anos. A terra dos meus sonhos, da minha primeira namoradinha, das festas de fim de ano, quando vestíamos roupa nova e calçávamos sapato novo que meu pai fazia.
Saímos de Recife às 7 da manhã, quatro viajantes desejosos de aventuras na caatinga do Sertão. Uma das coisas que me chamou a atenção foi a mudança do cenário. Meu sentimento estava carregado de emoção, com grande expectativa e curiosidade. Pelo que já havia visto e lido nesta pagina, tinha certeza de que havia muitas mudanças, mas eu não estava preparado para o choque que me acometeu. Lá não estava mais o velho cruzeiro; os trens que outrora traziam os viajantes de volta pra casa, não mais correm. A estação de trem, silenciosa, em estado de abandono e deterioração. Só os velhos trilhos restam, trazendo memórias dos seus primeiros dias, quando o maior acontecimento da cidade era ir a estação esperar o trem, e saber quem chegou. Parei por um momento, e pude ouvir novamente o apito do trem, uiuiuiiii, anunciando que estava chegando.
Paramos o carro em frente à Escola Padre Carlos Cottart. Resolvemos entrar para uma visita à velha escola, Tarcisio, minha esposa Sylvia e eu. Tal como outrora, comecei a ouvir os gritos e chamados de velhos amigos e amigas, que como eu, participaram da abertura do estabelecimento de ensino. Eram vozes de João da Mata, José Veras, Fernando Cruz, Zé Pires, Inez Correia, Izaura, Alzira Rabelo, Maria Padilha, D. Creuza, D. Genedi, e muitos outros, e finalmente minha mãe, muito amada, D. Aurora.
Pedi então para visitar minha classe, que era a última sala na ala direita. Pra minha surpresa, ela agora é a penúltima por que mais uma sala foi adicionada. Não pude falar por alguns momentos, com um grande nó na garganta. Era vontade de chorar, ou simplesmente de gritar e dizer, “onde estão vocês?” Onde se foi o tempo e a nossa juventude? Apenas o silencio e a dor da saudade me responderam. Contendo as emoções, com os olhos rasos d'água, nos despedimos da velha escola.
Do velho Cruzeiro, que era um marco de referência para todos nós, pois a cidade começava e acabava ali, hoje só os fantasmas restam. Em seu local passa uma avenida.
Finalmente entramos na Av. Rio Branco. Senti então que havia chegado à minha cidade. A feira estava em pleno fluxo. Um mundo de barracas e gente procurando comprar e vender. Exploramos o mercado de rua, procurando achar isto e aquilo, e finalmente nos movimentamos noutra direção. Achamos um bom lugar pra comer, no entanto senti a falta do café de Maria Bezerra, onde o doce de leite cortado era meu favorito.
Estacionamos o carro bem perto da Cathedral, e imediatamente senti a ausência do coreto, outro grande marco do meu Afogados. Foi lá que bebi minha primeira cerveja. Era lá onde passávamos boa parte do nosso tempo, conversando fiado, matando o tempo. Tenho uma foto minha tirada na porta do velho coreto, numa das minhas visitas a Afogados, que guardo com grande carinho. Lembro-me vividamente dos bailes e retretas realizados no coreto. É pena que houve falta de visão por parte dos poderes públicos, que resolveram demolir o marco.
Fiquei muito alegre de ver o prédio dos correios, bem conservado e funcionando. Nas tardes de domingo, os jovens sentavam-se no muro daquele prédio, e ficavam a observar as donzelas a passear, sorrindo e trocando olhares furtivos, que falavam mais do que palavras. Era uma idade inocente e cheia de amor.
Finalmente parei em frente à casa ao lado da casa paroquial, que costumava ser a casa do meu pai. Foi ali que nasci e me criei. Lá estávamos nós, Tarcisio e eu, brincando em frente da casa, na terra batida que hoje está coberta pelo calçamento. Na calçada, nas noites quentes de verão, lá estavam meus pais na cadeira de balanço, a conversar com amigos e vizinhos, comentando a falta de chuvas.
Tudo isso me abalou muito, trazendo-me uma realização que até então eu ignorara. Compreendi então que estou envelhecido. Toda minha vida nunca dei muita atenção ao fator idade. Menos ainda aqui no USA, pois continuo trabalhando, mesmo depois de aposentado; sinto-me saudável e cheio de vigor. No entanto, esta visita foi tratamento de choque, que me fez realizar que já subi a montanha, e que agora é só descida. Na minha mente, eu sabia da realidade, mas meu íntimo desejo era, talvez rever os amigos e parentes que foram parte da minha vida. Foi aí que veio a dor da realidade, o tempo passou sem que eu percebesse. Senti então vontade de chorar. Até a próxima. Zezé.
Rosemead - CA - USA, 22 de Outubro, 2002
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VISITA AO SERTÃO (1ª parte)
Após 12 horas de vôo direto de Los Angeles, chegamos em São Paulo às 6h30 da manhã, o primeiro contato com solo brasileiro após 22 anos de ausência. Fomos recebidos com grande carinho, por familiares da minha esposa. As 11h35 da manhã embarcamos no avião da Varig que nos levaria a terra pernambucana. Parecia brincadeira que eu iria rever a Veneza Brasileira e o Sertão. A ansiedade era palpável. Ao desembarcarmos, nos dirigimos para o portão de saída, e lá estavam três grupos de amigos e parentes, desconhecidos entre si, no entanto com o objetivo comum de nos receber. Minhas sobrinhas e sobrinhos nos abraçaram e trocamos comprimentos, e algo quase inesperado aconteceu, o Fernando, que ainda não me conhecia pessoalmente, se apresentou juntamente com seu filho Victor, e passou para minhas mãos uma cópia do CD de Afogados, como havia prometido, num gesto de “missão cumprida”. Como poderei pagar por tanta manifestação de amor e carinho, eu que nada fiz para merecer tanta honra.
A recepção foi além, muito além de qualquer expectativa. Nós nos sentimos verdadeiramente bem-vindos. Os dias que se seguiram foram muito agradáveis. Visitamos quase todos os pontos culturais e turísticos de Recife, fizemos compras na casa da Cultura, visitamos o museu do Brenan na Várzea, etc. Fiz questão de visitar o velho Mercado de São José, que nas minhas lembranças infantis teve tanto significado, e hoje me pareceu tão pequeno, mas, comprei lá um par de ganchos para pendurar minha rede.
Um fato interessante em toda esta história, é que a semente da idéia de uma visita foi lançada em dezembro de 99, quando descobri a pagina de Afogados. Comecei então a cultivar a amizade do Fernando através da página, e daí pra frente a idéia tomou impulso até sua realização. É justo, portanto, reconhecer a influência do amigo e desta página.
Foram inúmeros os jantares que nos ofereceram. Quero, no entanto, afirmar que foi uma grande honra conhecer a família do Fernando, que nos recebeu de braços abertos e nos alimentou tão bem. Foi sem dúvida uma noite muito agradável para nós.
Outra pessoa amiga que conheci por meio desta página, foi Maria Lucia. Conhecê-la pessoalmente e ao seu esposo Dr.Alberto e filhos, foi uma grande honra. Desde o começo dos nossos contatos, minha percepção dela, foi a de ser uma pessoa prestativa, de maturidade espiritual e intelectual, e não fui desapontado. Fomos convidados para um jantar, para melhor nos conhecer. Qual não foi nossa surpresa, quando ela nos informou que Dom Francisco, bispo emérito de Afogados estava a caminho para participar do jantar. Mais uma vez minha taça transbordou, pois tive então a oportunidade de falar pessoalmente com o prelado, que conheci apenas através da internet, por meio da Lucia. Foi mais uma demonstração de carinho e consideração que recebemos, e não sabemos como retribuir.
Com toda esta alegria e manifestação de carinho, uma coisa marcante, no entanto, aconteceu. A cidade que eu conhecia tão bem, Recife dos meus amores, desde minha infância até meus 20 anos, não existe mais. Os marcos geográficos e significativos para mim e minhas memórias deixaram de existir, dando lugar a novos prédios e “shopping centers”. Apenas alguns pontos restaram, como um testemunho de um passado não tão distante, num último suspiro de adeus. Da cidade romântica restou muito pouco, Recife agora é uma cidade moderna com todos confortos que a vida moderna pode oferecer. Chocado, mas compreendendo a marcha do progresso, nos preparamos para a visita à casa paterna, Afogados da Ingazeira. Esta fica para a próxima.
Rosemead - CA - USA, outubro/2002
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