AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS

 

JOSÉ CORREIA DE SIQUEIRA (ZÉ CORREIA)

Zé Correia era meu herói. Um moço sem muita escolaridade, no entanto, possuidor de iniciativa própria, dinamismo e visão que outros com mais instrução escolar não igualaram.

Com seu próprio esforço, conseguiu formar um pequeno império no mundo mercantil. Era possuidor de bom senso de humor e sociabilidade. Uma das primeiras lembranças que tenho do primo foi vê-lo na feira de sábado, em Afogados da Ingazeira, vendendo feijão. Isto aconteceu no inicio da década de 40; poderia ser 1941 ou 1942. Eu não tinha ainda muito entendimento do que acontecia, mas o fato é que estava presenciando o desenvolvimento de uma carreira dinâmica.
Pouco tempo depois ele abriu um armazém para vender produtos para sapateiros, principalmente os diversos tipos de couros. Como bom filho do sítio Alça da Peia, onde ser sapateiro ou ligado ao produto, era de se esperar, ele teve a visão da oportunidade que se apresentava de suprir o mercado local com os produtos vitais para sapateiros, que na época viajavam para Caruaru ou Recife, em busca daqueles produtos. O armazém foi expandido para vender pneus, depois outros produtos como refrigeradores etc..

Maria Siqueira, sua sobrinha, assumiu a gerencia do estabelecimento quando Zé Correia abriu sua loja no Recife, onde vendia máquinas de costura importadas do Japão. Abriu, também, uma filial em Maceió.

Um fato que ficou bem gravado na minha mente foi que, antes de mudar-se para Recife, ele teve aulas de português com minha mãe (Professora Dona Aurora), no sentido de aprender a escrever melhor, enriquecer o vocabulário e também algo de matemática.

Naquela época eu sabia que algo de grande importância estava acontecendo, mas não conseguia entender completamente ver um homem adulto, grande negociante, reconhecer suas limitações escolares, não se deixar vencer pelos obstáculos, procurando resolutamente solucionar o problema buscando auxilio para adquirir o conhecimento necessário, é sem duvida um bom exemplo não só para mim, mas para todas as gerações.

Apesar de haver sido apelidado de “Zé Rico”, Zé Correia era um homem despretensioso e gentil, sempre pronto a ajudar aqueles que necessitavam.

Em 1946, durante a campanha política - ele era da UDN -, não sei bem o que aconteceu, pois eu era criança, mas lembro que na praça, em frente à igreja católica, houve um bate-boca entre vários políticos e as coisas ficaram bem agitadas.
Acho que os do PSD não gostavam de ter o Zé Correia fazendo campanha para a UDN. Sei apenas que meu tio Pedro, um homem muito pacífico, estava muito agitado bem como meus primos, que estavam em grande número, e prontos a defender o primo Zé. Depois as coisas se acalmaram e tudo voltou ao normal.

Em 1953 eu já estava no Rio de Janeiro. O cine metro estava apresentando um grande filme, Julius Cesar, com Marlon Brando, e eu, no dia de folga me dirigi para a Cinelândia no Centro do Rio de Janeiro, com o propósito de ver o filme. Quando cheguei, a sessão estava começando e fui no escuro procurar assento. Sentei-me, e qual não foi minha surpresa: ao meu lado estava sentado Zé Correia. Foi uma chance em um milhão, fiquei muito surpreso e alegre ao mesmo tempo.

Anos depois, já em São Paulo, fiquei sabendo, através do meu primo José Xavier, que Zé Correia estava na cidade e desejava ter um encontro conosco, os primos residentes na capital paulista. A reunião seria no restaurante do Clube dos Engenheiros Arquitetos de São Paulo onde José Xavier era gerente. Foi um agradável encontro dos familiares onde mantivemos um bom papo com Zé Correia. Presentes estavam: Cirilo, Domingos, José Xavier, todos os irmãos, filhos de tia Luiza, eu e alguns dos filhos dos primos.

Reservar um tempo na sua agenda de negócios, para nos visitar, foi mais uma demonstração da simplicidade, e da maneira como ele era atencioso para conosco.

Ele era um homem de grandes convicções religiosas. Participava assiduamente dos trabalhos, e também das campanhas para levantar fundos para a Igreja do Senhor Bom Jesus dos Remédios em Afogados da Ingazeira, tais como a campanha dos vitrais (dos quais foi o doador), das festas de fim de ano, etc.

O senso de responsabilidade e amor cristão do primo ficou bem demonstrado pelo fato de ele ter tomado conta da sua mãe, tia Aninha, até o fim. Ele remunerava tia Quitéria para cuidar de tia Aninha; levava-a sempre ao médico, pois ela sofria de reumatismo e outros problemas de saúde. Ele fazia constantes visitas à sua mãe e por várias vezes suas visitas coincidiam com a nossa, apresentando sempre um bom espírito.

A última vez que visitei o primo Zé, foi em 1980, quando da minha visita ao Brasil.

Que o Senhor Deus o tenha no seu seio.

Zezé de Moura
Rosemead - Califórnia -USA
19 de junho de 2008

 

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