AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS

 

O VELHO CORETO

Foi testemunha de muita coisa, muita bebida e até comida, danças e retretas, jogos de carta e gamão foi onde bebi minha primeira cerveja, no entanto, creio que muitos não sabem ou se recordam que também foi dormitório da tropa de escoteiros de Afogados da Ingazeira por uma noite. Estávamos todos preparados para o grande conselho a ser realizado em Recife, e a melhor maneira para estarmos todos prontos para sairmos pela madrugada era ficar todos reunidos no mesmo local.

O Coreto foi então escolhido por sua localização central. Éramos um bom grupo chefiado por Zezito Padilha filho do Sr.Odon Padilha. Ele era um moço alto forte, de bom caráter, um bom líder. Entre outros que participaram, lembro-me bem de Edeildo filho de Dona Bembem fazendo seu marco com o tarol, Zé de Nora tocando corneta. O grupo era composto de uns 20 membros ou mais, infelizmente a memória está esvoaçada pela poeira do tempo. Acordamos às três da manhã e nos preparamos para sair com tempo de alcançar o trem em Sertânia.

Para mim foi uma grande aventura, pois foi a primeira vez que saí de casa sem a supervisão dos meus pais, que me acompanharam até o coreto e me recomendaram ao nosso “chefe”, como pais cuidadosos o fazer. Fomos descobrindo um mundo que nos parecia tão distante que nossa imaginação não alcançava. Aprendemos que havia cidades e mais cidades entre Afogados e Recife. Deslumbramo-nos com a passagem pelos 14 túneis na serra das Russas, pois túneis só conhecíamos nos livros. Já era noite quando chegamos a Recife e fomos encaminhados para uma propriedade onde havia um prédio grande no meio do terreno e no espaço em volta estavam as barracas onde ficamos alojados.

Finalmente chegou o grande dia do encontro de todas as tropas no parque fronteiro ao Palácio das Princesas. O Governador Agamenon Magalhães foi o ultimo a falar, todos nós nos sentimos orgulhosos de participar de tal evento. Numas das noites houve um temporal muito grande e a chuva intensa causou alagamento onde estavam as barracas, nos acordando com uma surpresa molhada. O meu tio, irmão da minha mãe veio me visitar e me levou para passear e conhecer o resto da família. Este foi meu primeiro vôo saindo do ninho, que abriu caminho para muitas outras viagens aventureiras. Depois que me incorporei na Marinha, fui visitar meus pais antes de ser transferido para o Rio de Janeiro, tive então a oportunidade de visitar novamente o velho coreto de tão preciosas lembranças, que era o centro magnético dos jovens da época.

Foi naquela ocasião que tirei a foto que o Fernando publica nesta página. Tenho a impressão que fui o único marinheiro a visitar aquele prédio. Como podem perceber, aquele velho edifício teve grande significado para muitos e especialmente para mim. O poema do Dedé Monteiro está muito apropriado, e expressa o sentimento de muitos, quero congratular-me com ele por um trabalho preciso e bem feito. Se alguém se recorda do evento aqui mencionado, por favor, entre em contato comigo se possível. Será um grande prazer.

ZEZÉ DE MOURA
Rosemead - Califórnia - USA - 30 de janeiro de 2007

 

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