AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS

ESCOTISMO NO SERTÃO

O Escotismo está comemorando 100 anos da sua fundação por Baden Pawell, General de carreira, veterano de guerras, elevado a posição de Lord, homem de visão.
O objetivo principal da organização é o de preparar as novas gerações de moços, física e mentalmente para serem responsáveis cidadãos e líderes, guiados pelo juramento de honra do escoteiro e suas leis.

O juramento do escoteiro: “Juro na minha honra, cumprir meus deveres para com Deus e minha pátria, e obedecer às leis do escotismo.
“Ajudar meus semelhantes a qualquer hora, manter-me em boa forma física e mentalmente, sempre alerta, e moralmente correto.”

A lei do escoteiro: “O escoteiro é merecedor de confiança, Obediente, Leal, Alegre, Está sempre disposto a servir, É econômico, Amigo, Bravo, Cortês, Limpo, Bondoso e Reverente”.

Estes princípios foram fundamentais na formação do caráter da minha geração. São princípios diretamente ligados aos mandamentos bíblicos, e ensinamentos do Evangelho de Jesus Cristo e aos ditames da vida militar, que nos ensina disciplina, responsabilidade, serviço, e que dependemos uns dos outros.

Tenho orgulho de ter sido membro da Tropa de Escoteiros de Afogados da Ingazeira. Relembrar fatos e pessoas que foram parte daquela experiência tão agradável e marcante na minha juventude é a minha modesta contribuição em honra desta organização valorosa na educação e formação dos jovens.                                                                                          Foi motivo de grande entusiasmo para a garotada sertaneja, quando da formação da Tropa de Escoteiros de Afogados da Ingazeira, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, na segunda metade da década de 40.
O primeiro Chefe dos escoteiros era um jovem recém-casado, Sr. Antonio (se não me falha a memória, o sobrenome era Alves). Um moço de boas qualidades, assíduo freqüentador dos serviços da igreja do Bom Jesus dos Remédios, de grande habilidade como líder. Ele nos tratava com amizade, mas com firmeza, o que nos inspirava respeito, sem que fossem necessárias muitas palavras.  Nossas reuniões eram realizadas num salão na Avenida Rio Branco, quase em frente da casa paroquial.  Aquele salão, em diferentes épocas, foi clube, salão de danças, bar e sorveteria e finalmente, abrigou também uma pequena biblioteca patrocinada pela paróquia. O Chefe apresentando sua palestra ficava a frente e nós todos sentados de costas para a entrada do salão. Durante uma das reuniões, ouvimos os passos de alguém entrando pela porta, imediatamente olhamos para trás, o Chefe então tomou a oportunidade para nos dar uma lição sobre a curiosidade, que desviava nossa atenção do que estava sendo ensinado. Depois mudamos para um salão na rua que inicia atrás da prefeitura e vai na direção do rio Pajeú. Ali ouvíamos as palestras do Chefe Antonio sobre moral e cívica, aprendíamos a fazer nós de todos os tipos, como nos comportar em diversas circunstancias. Como nos conduzir na mata para não nos perdermos. Como fazer fogo com segurança, evitando incêndio. Fazer barracas, respeitar a natureza, e muitas coisas mais. Era também um grande encontro social para nós. A banda marcial praticava com seus instrumentos, num barulho ensurdecedor das cornetas e tambores.
Aprendemos que servir deve ser sempre parte do nosso viver, porque servindo aos outros estamos sendo servidos. Era parte dos nossos encontros darmos um relatório de como havíamos ajudado alguém durante a semana, mesmo que fosse nosso pai ou mãe. Isso nos incentivava a pôr em pratica as teorias sociais que aprendíamos.
Periodicamente saíamos em marcha, liderados pela banda marcial, trazendo os olhares curiosos dos moradores locais, não acostumados com qualquer evento que perturbasse a tranqüilidade da cidade pacata. Daquele grupo, os participantes que me recordo bem, eram  Zé de Nora, um dos corneteiros; Edeildo, filho de dona Bembem tocava tarol, e muito bem. Participavam também os filhos de Chico Bobina, Waldir, Waldemir e Wanildo Martins, e muitos outros que infelizmente a memória não me ajuda.
                                                                                 
 Na parte da tarde dos dias de semana, para não interferir com o horário escolar, tínhamos nossas reuniões, que era algo de que gostávamos, pois nos proporcionava um ambiente agradável para uma socialização sadia e construtiva que nos dava um senso de valor.
O mais notável é o fato de ser uma associação voluntária. Não havia coerção ou intimidação, era uma participação voluntaria que nos dava um grande senso de valor moral.

Quando fui permitido por meus pais a participar do Grupo de Escoteiros, fiquei muito contente e ansioso para usar o uniforme. Minha mãe prometera que eu teria o uniforme, mas eu teria que esperar até o fim do mês quando ela receberia pagamento de algumas aulas particulares. Minha ansiedade era tal, que no dia apropriado não pude esperar e resolvi ir pessoalmente pedir o pagamento devido, sem minha mãe ter conhecimento. Foi um momento embaraçoso, minha mãe repreendeu-me e eu quase perdi meu uniforme.
Eu estava eufórico com o fato de ser membro dos escoteiros. Foi programado um acampamento que teria a duração de dois dias. A partida seria logo após a missa dominical. Eu estava ansioso e havia conseguido a permissão do meu pai para ir. Como de costume, fomos assistir a missa, e eu fiquei sentado ao lado do meu pai. Quando de repente me senti mal e desmaiei. Isto foi o ponto final da minha primeira aventura de acampado.

Nossas marchas nos levavam a diferentes locais nas áreas imediatas em volta da cidade, que na época abrangia uma área muito menor. Desta vez estávamos na área que chamavamos apenas de “do outro lado do rio’, na direção de Carnaiba. Estavamos aprendendo sobre arbustos e os animais que ali vivem, e pra surpresa geral, avistamos uma pequena cobra coral. Sua pele tricolor, vermelho, preto e branco, chama atenção de qualquer um, e lá estavamos nós agitados e sem saber muito o que fazer, quando o Chefe Antonio veio nos mostrar como agir. Nos estavamos em volta do arbusto onde a cobra se escondera, o Chefe aproximou-se e com a confiança de um profissional habilmente pegou a cobra pelo pescoço e nos deu uma aula sobre os répteis. Ficamos sabendo que a cobra em questão era inofensiva para nos porque não era venenosa, e isto estava demonstrado pelo fato dela ter a cabeça redonda. Soltamos a cobrinha que voltou ao seu arbusto favorito.

Em outra ocasião fomos ate o Poço do Urubu. Depois da caminha até aquele local, brincar na água era um premio delicioso no calor do sertão. Estavamos nos deleitando com nossa aventura aquática, quando de repente tomei um susto bem grande. Nadando ao meu lado passou o que pensei ser uma cobra preta, dei um grito de alarme. Logo fiquei sabendo que não se tratava de cobra, mas sim de um Muçu, foi a primeira vez que nos encontramos.

 O Chefe Antonio nos recebia na sua casa de bom coração, nós nos sentíamos como se fossemos parte da família, no entanto, por razões que ignoro, ele nos deixou. Creio que foi para Recife.

Com a partida do Chefe Antonio, Zezito Padilha, filho do Sr. Odon passou a ser nosso líder, o Chefe.  Zezito era um moço alto, forte, elegante, de bom caráter e amigo. Ele deu continuidade ao Grupo. Foi sob o seu comando que fomos participar no Grande Conselho em Recife. As expectativas eram grandes. Naquela época, ir a Recife era uma aventura. Tínhamos que ir de caminhão até Sertânia onde tomávamos o trem pela manhã, era o inicio de uma longa jornada ouvindo o clik-clak das rodas em contato com os trilhos, descobrindo novas cidades e novos cenários, culminando com nossa chegada a Recife, la pras 8 horas da noite.

Todos os ensinamentos e admoestações que aprendemos no escotismo foram coisas de grande influencia na formação do meu caráter na minha infância e juventude, bem como de muitos outros participantes. É lamentável que hoje haja um vácuo no setor de formação dos jovens.

Estas qualidades ensinadas pelo escotismo são hoje desconhecidas por uma grande maioria das recentes gerações, porque são qualidades que nossa sociedade deixou de prezar, cultivar e incultar na formação do caráter dos jovens. As conseqüências de tal omissão têm sido desastrosas. As provas são evidentes, na degradação da qualidade de vida que temos hoje nas grandes cidades.  Oh, que saudade de outrora!

ZEZÉ DE MOURA
Rosemead - Califórnia - USA - DEZ/2008

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O VELHO CORETO

Foi testemunha de muita coisa, muita bebida e até comida, danças e retretas, jogos de carta e gamão foi onde bebi minha primeira cerveja, no entanto, creio que muitos não sabem ou se recordam que também foi dormitório da tropa de escoteiros de Afogados da Ingazeira por uma noite. Estávamos todos preparados para o grande conselho a ser realizado em Recife, e a melhor maneira para estarmos todos prontos para sairmos pela madrugada era ficar todos reunidos no mesmo local.

O Coreto foi então escolhido por sua localização central. Éramos um bom grupo chefiado por Zezito Padilha filho do Sr.Odon Padilha. Ele era um moço alto forte, de bom caráter, um bom líder. Entre outros que participaram, lembro-me bem de Edeildo filho de Dona Bembem fazendo seu marco com o tarol, Zé de Nora tocando corneta. O grupo era composto de uns 20 membros ou mais, infelizmente a memória está esvoaçada pela poeira do tempo. Acordamos às três da manhã e nos preparamos para sair com tempo de alcançar o trem em Sertânia.

Para mim foi uma grande aventura, pois foi a primeira vez que saí de casa sem a supervisão dos meus pais, que me acompanharam até o coreto e me recomendaram ao nosso “chefe”, como pais cuidadosos o fazer. Fomos descobrindo um mundo que nos parecia tão distante que nossa imaginação não alcançava. Aprendemos que havia cidades e mais cidades entre Afogados e Recife. Deslumbramo-nos com a passagem pelos 14 túneis na serra das Russas, pois túneis só conhecíamos nos livros. Já era noite quando chegamos a Recife e fomos encaminhados para uma propriedade onde havia um prédio grande no meio do terreno e no espaço em volta estavam as barracas onde ficamos alojados.

Finalmente chegou o grande dia do encontro de todas as tropas no parque fronteiro ao Palácio das Princesas. O Governador Agamenon Magalhães foi o ultimo a falar, todos nós nos sentimos orgulhosos de participar de tal evento. Numas das noites houve um temporal muito grande e a chuva intensa causou alagamento onde estavam as barracas, nos acordando com uma surpresa molhada. O meu tio, irmão da minha mãe veio me visitar e me levou para passear e conhecer o resto da família. Este foi meu primeiro vôo saindo do ninho, que abriu caminho para muitas outras viagens aventureiras. Depois que me incorporei na Marinha, fui visitar meus pais antes de ser transferido para o Rio de Janeiro, tive então a oportunidade de visitar novamente o velho coreto de tão preciosas lembranças, que era o centro magnético dos jovens da época.

Foi naquela ocasião que tirei a foto que o Fernando publica nesta página. Tenho a impressão que fui o único marinheiro a visitar aquele prédio. Como podem perceber, aquele velho edifício teve grande significado para muitos e especialmente para mim. O poema do Dedé Monteiro está muito apropriado, e expressa o sentimento de muitos, quero congratular-me com ele por um trabalho preciso e bem feito. Se alguém se recorda do evento aqui mencionado, por favor, entre em contato comigo se possível. Será um grande prazer.

ZEZÉ DE MOURA
Rosemead - Califórnia - USA - 30 de janeiro de 2007

 

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