Lá se foi uma celebridade sertaneja da alegria - Morreu, hoje, Romão Marques dos Santos, 91 anos. Não é uma celebridade política para ocupar tanto destaque neste blog. Mas, peço a licença dos leitores para homenagear o personagem, celebridade lá nos rincões do meu Pajeú, entre Tabira, onde nasceu, e Afogados da Ingazeira, terra que se fez gente como alfaiate.
"Seu" Romão, como era conhecido, talvez tenha sido uma das pessoas de maior presença de espírito que já conheci no meu sertão. Um poeta nato, repentista dos bons. Fantástico contador de causos. Uma memória privilegiada. Como todo sertanejo que deixa o seu torrão para trás, sofreu e trabalhou duro. Para educar os filhos – seis ao todo - ele se refugiou no Recife, em meados dos anos 60. Na capital, continuou fazendo roupa, de paletó a gibão, com uma maestria de causar inveja. Mas, sabendo que a mulher era uma exímia cozinheira, abriu uma hospedaria, que mais tarde ganhou fama entre os matutos como a "Pensão de Dona Salvina".
Estudante no Recife, fui hóspede do casal por várias vezes. Aliás, cheguei a morar uma temporada lá. A pensão ainda funciona hoje, na Rua de Santa Cruz, no velho e tradicional Pátio de Santa Cruz, sem ter mais, claro, o charme e o movimento de 30 anos atrás. Dela, "seu" Romão tirou o sustento, trabalhando dia e noite, com um único objetivo: abrir a janela do conhecimento para seus filhos. Dois deles viraram médicos e três, engenheiros. Era o grande orgulho dele: ter formado os filhos.
"Seu" Romão era um homem bem-humorado, mas ao mesmo tempo rude. Um personagem folclórico. Morria de medo de dona Salvina, que é braba feita um siri na lata. Amante da poesia, Romão esquecia do tempo declamando versos, fazendo repentes e contando as estórias mais engraçadas da política e da gente sertaneja. De repente, dona Salvina tacava-lhe um puxão de orelha, no meio da freguesia, porque o tempo havia passado e ele esquecido de entregar as marmitas. As marmitas, sim! Seu Romão não pagava aos moleques para fazer a entrega da clientela. Ele mesmo ia lá, de casa em casa, entregar a saborosa comida de Dona Salvina. Como os clientes sabiam que ele adorava uma prosa, sempre pediam para contar piadas e causos novos. E aí, tome atraso e puxão de orelha, novamente, de dona Salvina.
Seu Romão também gostava de fazer umas presepadas. Certa vez, perdeu a paciência com um gato que vivia de arrego na pensão, comprou um caixote e remeteu o animal para Afogados da Ingazeira, num ônibus da antiga empresa Progresso. Ao cobrador, deu uma gorjeta e fez a recomendação: entregar a Guardiato Veras, que, na realidade, era um velho companheiro de infância, que continuou morando em Afogados da Ingazeira. Guardiato tomou um tremendo susto ao abrir a encomenda, mas se divertiu, depois, com um telefonema do amigo.
O velho Romão fazia versos de tudo e com todos. Distante do sertão, a grande paixão de sua vida, matava a saudade com os fregueses da pensão, igualmente folclóricos e matutos como ele. Viveu a vida inteira assim: fazendo molecagem. Era um velho jovem, um moleque que o tempo nunca conseguiu destruir.
Um dos seus filhos, o médico Djalma Marques, que é um grande violinista, com prêmios internacionais, herdou a veia poética do pai. Djalma tem uma coleção de estórias vividas por 'Seu' Romão que parecem mentiras. Tem, também, um arquivo das suas poesias e versos. Seu desejo é juntar tudo isso num livro, idéia fantástica. Vamos aguardar! Não sei se o velho Romão pediu aos filhos, mas no seu jazigo deveria ser posto, hoje: "Aqui jaz um homem que viveu feliz, alegrando a humanidade".
MAGNO MARTINS
Recife, PE - 09 de fevereiro de 2007
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