Daniel Bueno
Cantor, Escritor e Cronista Carnaibano
(www.danielbueno.com.br)
Estradas do Meu Sertão
Cheguei ao Sertão na sexta-feira, 16 de julho, dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. Ela me protegeu de Recife até lá. Caso contrário, os buracões da rodovia teriam acabado comigo.
Quem for ao Pajeú, tem que se cuidar. O estado de calamidade pública em que se encontram as estradas por lá, é de fazer inveja às vicinais da Índia.
Depois de Sertânia, salve-se quem puder. Não acredito que o governador tenha passado por ali, nem o diretor do DER, nem o secretário de infraestrutura.
Parece uma terra abandonada, coisa de quarto mundo.
Pra sorte nossa, choveu. E o verdejante da caatinga nos anima um pouco. Os barreiros de beira de estrada estão com água. Dá pra ver algumas barragens sangrando.
Mas a de Brotas não está. Vai até haver racionamento d’água em Afogados da Ingazeira.
Reencontrei, depois de tantos anos, minha professora de Português do Ginásio, Luíza Tadeia. Agora Tadeia não tem mais acento. Culpa da reforma. Mas ela mesma não precisou de reforma, pois está muito bem. Não mudou quase nada da minha professora ginasial.
Lá estava Milton Oliveira, o escritor da cidade. Confrade de ideias, sonhos e letras.
Diomedes e seus versos e causos de alegrar todo ambiente.
O Rio Pajeú não tem água. Só vegetação no seu leito. O rio está assoreado, do jeito que estava o Rio Una quando passou aquela enxurrada no mês passado, levando tudo e matando gente. Não é bom prevenir?
Conversei bastante com Fernando Pires e Carrinho, este responsável pelo Cine São José. O cinema está uma beleza, com ar-condicionado, poltronas novas, máquinas novas. Levei minhas filhas para ver um filme e elas gostaram. E olha que o filme é um dos que estão em cartaz no Recife.
Por sinal, há máquinas modernas que nem chegaram a ser usadas. Ainda estão encaixotadas. Isso é assunto pra depois!
No meu tempo, a gente só tinha filme de bang-bang. Ali, eu assisti em 1970 ao clássico Dio Come ti amo. Me lembrei de outro: Quando tu não estás, com o cantor Raphael. Nesse eu chorei.
Vi muitos jumentos pela beira da estrada. Dizem que o pessoal anda soltando os bichos pelo mundo porque ninguém precisa mais deles. Que ingratidão. Pior é que eles, da cor do asfalto, acabam provocando acidentes nas estradas. Algo precisa ser feito, com urgência.
Daniel Bueno
Recife, PE, 22 de julho de 2010
No próximo 4 de outubro de 2009 a RÁDIO PAJEÚ completará 50 anos de Comunicação e Transmissão de Cultura. Seu JUBILEU DE OURO.
Há 25 anos, em outubro de 1984, Roberval de Medeiros Pena escreveu uma crônica, no Diário de Pernambuco, pela passagem do seu JUBILEU DE PRATA.
RÁDIO PAJEÚ
Outubro de 1959. Nada testemunhei, pois nasceria meses depois. À beira do Rio Pajeú, Afogados da Ingazeira era um desses oásis do Nordeste, onde se antevia sinais de progresso e de renovação. A outra face indicava um semblante lúgubre da desertificação.
Naquele inesquecível quatro de outubro, estava inaugurada a primeira estação de rádio do sertão pernambucano: a ZYK 39 – Rádio Pajeú de Educação Popular, que operava na faixa de 1520 Khz. A partir de então, a nova conquista era motivo de orgulho para os habitantes da região. Afogados da Ingazeira falava para o Brasil e, pasmem, para o mundo! Para o Mundo? Sim, porque houve quem a sintonizasse até no Exterior. As cartas chegavam dos lugares mais longínquos e curiosos e revelavam a satisfação de ouvir a voz autêntica do homem das caatingas do Nordeste.
A primeira equipe de radialistas era formada por Ulisses Lima, Dinamérico Lopes, Tarcisio Sá, Abílio Barbosa, Sabóia e Waldecy Xavier de Menezes, seu diretor administrativo. Menezes era o tempero da experiência no prato do entusiasmo e da dedicação. Viera da Rádio Clube de Pernambuco (do Recife), onde desempenhara com sucesso o papel de radioator e humorista. Mais tarde, em Afogados da Ingazeira, tornar-se-ia um professor da mais alta expressão e um político dos mais atuantes.
Traz saudades a recordação dos programas No Terreiro da Fazenda e Alma Sertaneja, apresentados por Waldecy Menezes; Clube do Guri, de Ulisses Lima e Domingo Alegre, um divertido programa de auditório transmitido do Cine Teatro São José de onde surgiram revelações como Maria da Paz, Antonio Tarê e Eduardo Rodrigues, hoje profissionais do disco.
Na década de 60 (que já me vem à lembrança) era interessante observar como tudo dependia e girava em torno da Rádio Pajeú: o comércio, a sociedade, o esporte. Sem televisão e sem emissores concorrentes, a Pajeú, cujas instalações no bairro de São Francisco atraia multidão, monopolizava as atenções e, através de uma programação flexível, atendia além das expectativas.
Os ouvintes que acompanham a história da Rádio Pajeú não se esquecem dos nomes que por ela dedicaram anos de trabalho: (Fernando Sousa), Antonio Xavier, José Tenório, Ulisses Lima, Barnabé Ramos, Agamenon Pessoa, João Gomes e o carismático diretor (padre) Antonio de Pádua Santos.
A história que trata da evolução do Vale do Pajeú divide-se em duas etapas: antes e depois da fundação da Rádio Pajeú. A partir do início da década de 60, a nossa gente conheceu de imediato o valor da tecnologia. De insipiente, o sertanejo passou a se considerar, com justiça, um homem informado e atualizado. E mais, pelas ondas sonoras do rádio, o sertanejo botou pra fora, antes reprimidos, a sua arte e o seu potencial imensurável. Depois do rádio nossa região, com nova máquina, adquiriu um ritmo veloz de desenvolvimento, absolvendo cultura, política, turismo.
À Rádio Pajeú, devemos o direito de ter acompanhado as inovações dos meios políticos, sociais e culturais. E hoje, mesmo com o intrépido avanço dos veículos de comunicação, o rádio permanece dotado de carisma e de poder.
Crédulos, nesta realidade, também depositamos nossos votos de confiança na atual administração da Rádio Pajeú, na esperança de que esse nosso patrimônio continue rendendo benefícios à sociedade e pela passagem nesse Jubileu de Prata, sentimo-nos no dever de dizer muito obrigado, Rádio Pajeú, pelo muito que acrescentou e contribuiu para o nosso bem-estar social.
Pedimos a Deus que essa máquina supere as inovações tecnológicas e que permaneça sempre proporcional ao tempo e aos anseios da comunidade.
Roberval Medeiros Pena – Afogados da Ingazeira
[Essa crônica foi encontrada no baú do radialista Ulisses Lima. Agradecemos ao Ulises Filho pela cessão desse recorte.]
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2010