AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS

 

MEMÓRIAS DO ESPORTE EM AFOGADOS DA INGAZEIRA

Falar do passado esportivo de Afogados da Ingazeira é tão gratificante quanto saber que fiz parte dessa história. Contar de seus embates, de suas jornadas, de suas vitórias, é por demais prazeroso para mim.

Acredito que minha meteórica passagem pelos campos afogadenses tenha contribuído para que Afogados possa ser lembrado com destaque no cenário esportivo do Vale do Pajeú.

A história se conta por escritos, mas estes são poucos, se faz também por imagens, destas, as fotos apresentadas neste vídeo (DVD Memórias do Esporte em Afogados da Ingazeira) são os mais expressivos registros, se faz ainda "por ouvir dizer", que têm seu cunho saudosista e pessoal, contudo, os relatos apresentados por um Severino de Zeca, Carlinho de Lica e por Lulu Pantera são a expressão da verdade porque foram vividos, acompanhados, sentidos na pele, portanto, tão verdadeiros quanto o silêncio de Colher de Pau em sua entrevista, que espelha em si também a imagem de grandes atletas, como por exemplo Garrincha e outros tantos de tantos outros gramados.

Por motivo profissional cheguei em Afogados numa terça-feira, dia 18 de maio de 1965, e no Banco do Brasil tive a oportunidade de conhecer o colega Fernando Jaburu, que jogava pelo Guarani e com quem fiz dupla de área por bom tempo.

Naquele final de semana o Guarani estava disputando uma partida contra seu arqui-rival o BAC, equipe formada em sua grande maioria por jovens da cidade que estudavam na capital, alguns já universitários.

Falei com Fernando para jogar, porém, por ninguém conhecer meu futebol fiquei apenas morrendo de vontade de entrar em campo, me contentei em ficar como torcedor.

A partida foi arbitrada por Dr. Jesus e o Guarani perdeu por 2 x 1, para desespero da maioria dos torcedores e alegria de uns poucos estudantes e familiares.

Na quarta-feira seguinte, com material arranjado por Elizeu Pires, dono de uma sorveteria e torcedor fanático do Guarani, iniciei minha jornada como atleta do Guarani e, para tanto, tive que passar pela prova dos nove.

Mestre Biu e Chico Berto eram os treinadores e dirigentes.

Chico Berto me perguntou em que posição eu jogava e como respondi que "em qualquer uma", ouvi do mesmo, dirigindo-se a Mestre Biu, o tradicional comentário: "esse não joga nada", para em seguida me mandar jogar na ponta esquerda do time reserva.
Fiquei uns cinco minutos correndo pra cima e pra baixo, e a bola nada de chegar aos meus pés, até que resolvi pedir ao goleiro que me lançasse a bola. De posse da mesma saí a toda velocidade, driblando Antonio Martins, em seguida Clovis e chutando para fazer o gol, numa bola realmente indefensável pela força e colocação.

Diante da façanha Chico Berto me chamou, perguntou onde eu queria mesmo jogar no time, me deu a camisa 8 de titular e a partir daí passei a formar com Fernando Jaburu a grande parceria também nos gramados, a proporcionar aos afogadenses grandes alegrias esportivas pelas vitórias contra o próprio BAC, equipes de Sertânia, Pesqueira, Arcoverde, Belo Jardim, São Jose do Egito e Tabira.

Tenho uma equipe na mente que guardo com carinho por todos os meus dias e que muitos dizem que foi a grande seleção do Guarani:
João Buga, Beto, Clóvis de Doía, Geraldo Agostinho, Colher de Pau e Antonio Martins, Geni, Célio, Fernando Jaburu, Severino de Zeca e Luiz Cocada.

Outra grande lembrança é o velho campo onde jogávamos, ao lado da cadeia pública, ladeado pelo fundo de algumas casas, comprido, mal acabado, de piso irregular, parcialmente gramado por grama nativa onde os animais pastavam, careca em sua maior extensão central, mas o palco de grandes jornadas que por todas as suas dificuldades foram por demais valorizadas.

O lugar onde pela primeira vez me vi carregado nos braços como herói, onde fiz muitos gols de tabelas espetaculares com Fernando, de faltas próximas ou distantes da área, de pênalti e, como raridade que ainda hoje é, associado ao meu bom futebol, de escanteios.

São lembranças boas, de um João Buga pequenino, mas que virava gigante debaixo da trave com defesas arrojadas;

de Beto guerreiro, madeira de lei;

de Clóvis de Dóia, baixinho que subia quase a altura das nuvens;

de Antonio Martins, que chorava quando errava e dizia para o adversário: aqui é pau, não venha não;

de Geraldo Agostinho, que corria tanto que no intervalo ficava fazendo física para não perder o pique;

de Colher de Pau, que dominava a bola, driblava o adversário e saia sorrindo na maior malandragem;

de Geni, que aparecia pela direita pedindo a bola e lançando com precisão;

Quanto a mim, Célio, apenas rabisquei meu nome nas quatro linhas;

de Fernando, que brigava como ninguém para fazer o gol e geralmente o fazia de bico, sua especialidade;

de Severino de Zeca, que com maestria alimentava todo o ataque

e de Luiz Cocada, que com sua "bomba" fazia o goleiro estremecer.

Minhas boas lembranças também se estendem a outros gramados:

aos de Tabira onde por mais de uma vez fui requisitado para defender suas cores;

aos de Sertânia, onde por mais de ano defendi sua seleção em campeonatos estaduais interioranos.

Lembro-me de alguns baluartes em prol do esporte afogadense tais como:

Luiz Alves e Horácio Pires que foram dirigentes dedicados do Guarani;

de Aderval Viana, que viabilizou o novo estádio, que chegou a semi-profissionalizar a equipe e fazer dela sua grande paixão;

dos próprios Chico Berto e Mestre Biu, que apesar de humildes deram tudo de si pela grandeza do Guarani;

do professor Severino Carneiro, que alem de atleta foi dirigente, tornou-se dissidente, formou outras equipes, organizou campeonatos, batalhou pela criação da Liga Esportiva e seu registro na Federação Pernambucana;

lembro-me de outros tantos bons atletas que surgiram após minha passagem, tais como:

Batista, grande volante;

Deinha, que jogou na capital pelo Santa Cruz, filho de Zé Pretinho, figura folclórica da cidade;

de Raminho, que chegou a jogar pela equipe do Sport.

Lembro-me também de alguns atletas de vôlei, esporte que à época era pouco difundido, mas que em Afogados tinha também seus admiradores, atletas como Roberto Pinto, Severino de Zeca, Valdeci Martins, Bernardo, Rogério Oliveira, Bigode, Silvio Cruz, Clovis, Virgilio César e Edvaldo Correia; este se destacava e tinha condição de participar de equipes da capital.

Os jogos eram realizados numa pequena quadra de cimento ao lado do campo de futebol e que hoje já não existe mais.

Naquela época não se praticava o futebol de salão por inexistência de quadra apropriada, no entanto, a quadra de vôlei era utilizada para alguns rachas (bate-bola).

Só com a construção do Centro Esportivo, já por volta dos anos 70, esses esportes tiveram outra dimensão, passaram a ser praticados por maior número de atletas.

A propósito do Centro Esportivo, não sei porque seu nome original, Centro Esportivo Paulo de Sousa Cruz, teve seu nome substituído, eis uma dúvida.

A propósito de Bernardo (Delvanir Ferreira), tem uma passagem que até hoje não saiu de minha lembrança: Em junho de 1962 estive em Afogados com uma equipe de estudantes do Colégio Diocesano de Caruaru para disputar uma partida com o Guarani.
No primeiro tempo nós vencemos por 1 x 0, porém, no segundo tempo, Bernardo tirou as chuteiras e resolveu jogar descalço.
A partir daí, deu um show! Dominava a bola como ninguém e virou o jogo fazendo nada menos que 6 gols e ajudando os companheiros a fazerem outros 3, ficando o placar final em 9 x 1, fato que jamais esqueci.
Era sem dúvida um astro da bola, além de extraordinário violonista e acordeonista, de saudosa memória.
Posso dizer: Afogados, tua história se faz, também, de bom futebol.

Célio Pereira da Silva
Recife/PE, 30 de janeiro de 2006

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