MARIA LUÍZA MARTINS DE MOURA
(Luizinha Martins)
MEU NOME É MARIA
Hoje senti uma angústia muito grande. Algo que não sei definir; uma inquietação, um vazio, como se estivesse dormente... Vi-me sozinha com uma bolinha na mão. Estava em campo de futebol, bem no centro, sem plateia, sem ninguém para apitar, para não perturbar o meu silêncio. Aí comecei a apertar a bolinha, e me perguntei, ouvindo o meu eco: “cadê minhas crianças... não as tenho mais?” Não! Responde o eco: “Todos cresceram, se casaram, voaram, fizeram seus ninhos, e agora você está viúva”.
Restaram-me a solidão e a saudade! “Os anos se passaram, Maria, você não vê no espelho?” Digo sim e aperto a bolinha. “Então, lembre-se e volte devagar... jovem bonita, morena, cabelos grandes, corpo bem feito, amada, feliz, alegre, com amigas, festas e bailes, vestido arrumadinho...” Olhares para você, ao ser convidada para uma dança. Você dançava tudo, era uma atrás da outra; nunca sobrava no salão, e você, feliz da vida, só pensava em si. “Ah! se não tiram as outras, não tenho culpa!” Será? Valeu a pena, Maria?
Valeu sim. Apertei a bolinha, o campo estava vazio, a relva verde, belo eco. O que estou fazendo aqui? Todos me abandonaram, por quê? Estou velha, gorda, feia, cabelos grisalhos, pele enrugada, olhar fraco. Cadê meus olhos, que um dia alguém disse: “Você, Maria é possuidora dos olhos mais belos que já vi!”
Mas, eu escutei : “Você é uma morena índia! ”
E se esse alguém me visse agora: pele ressecada, rugas, mãos trêmulas, olhos quase apagados? O que diz meu Eco? Estou esperando resposta! Que resposta, Maria? O tempo passa, você passou, suas andorinhas voaram muito alto. Tem o endereço de cada filhote? Não, não tenho. E eles me amam? Não sei, Maria, se amam é de um jeito que não entendo. São felizes? Também não sei, talvez sim, talvez não. Você não vai chorar agora, vai? Não, respondi. Tire-me daqui, estou sem forças nas pernas, é verdade meu eco, estou velha, sozinha, sem alegria, um sorriso amarelo, uma dor no peito. Vou apertar a bolinha pela última vez. Obrigada por você me tirar daqui. Me leve para meu lar, lá eu me sinto segura. E eles?
Maria, todos estão bem , têm suas famílias. Você não faz mais parte dessa geração, se conforme. Pega na minha mão, nunca vou lhe abandonar por ser seu eco, sou seu anjo-da-guarda! Sente-se, olhe ao seu redor, Maria! Nada aqui lembra seu passado; com eles, tudo mudou, você hoje é como a correnteza das águas, que um dia lhe levará para um lugar tão bonito como este campo de futebol!
Não deixe seu coração sofrer, quer chorar? Chore, o choro lava a alma, nada mais será como foi! Siga em frente, reze, entregue sua saudade, suas crianças, seu amor aos pés da cruz do nosso mestre Jesus! Este sim, nunca lhe abandonará!
Vamos, Maria, aperte a bolinha pela última vez, olhe o céu, hoje tem estrelas, a lua vai aparecer, escute a voz do seresteiro que de tanta saudade morreu! Querida Maria, um dia nos encontraremos, você há de ver; seus olhos terão uma luz diferente, não haverá mais tristeza, você vai sorrir, com certeza, dirá: Obrigada meu Deus, minhas crianças são bonitas e cheias de amor para dar aos seus descendentes, e aí Maria... Dirão: “Ela está melhor do que aqui! Só temos que agradecer a nossa Maria, que não deixou que nós descarrilhássemos no trem da vida!” O apito do trem faz que sejamos firmes e fortes, é um toque de alerta. A vida sem amor não tem sentido! Beijos, Maria! Até um dia, meu Eco!
Maria Luíza Martins
Recife, PE, 08 de agosto de 2010
O PASSADO E O PRESENTE – “Almas Gêmeas”
Alguém falou para mim: Ah! você fala muito no passado, o passado já era, passou. O que vale é o presente, certo?
Vale o presente de todos, mas o passado não deixa que o esqueçamos. É tão bom relembrar... É tanta saudade do passado... Do que fizemos, do que deixamos de fazer e do que poderíamos ter feito. Saudade da nossa velha casa que foi onde nos criamos e éramos felizes... era o nosso querido lar. Nossos pais, nossos irmãos, nosso velho fogão de carvão, a luz do candeeiro que enchia nossos olhos de fumaça, que chegávamos muitas vezes a chorar. Tinha também a placa com a chaminé de vidro, este era melhor.
Velha casa, nunca esquecerei de tudo que lá vivi. Hoje nada mais existe de você; a casa que foi dos meus avós que nossos pais herdaram... Criamos-nos na nossa inocência naquela casa tão querida. Revejo na minha mente cada canto, cada lugar... eram portas largas, armários embutidos na parede, janelões de madeira maciça; tudo muito bonito e alinhado para a época.
A chave da porta principal era enorme e nós dizíamos: é a chave da porta do céu! O piso era de tijolo e para varrer era preciso molhar por causa na poeira. Tudo muito simples, as panelas eram de barro, assim como as tampas, sem contar o bolo tão gostoso que a nossa querida mãe fazia. O salão era cheio de armadores de rede, onde a gente se balançava, cantava, falava coisas nossas. Éramos umas irmãs unidas. Lá uma vez ou outra tinha um ‘briguinha’, mas passava logo.
Aquela casa velha era o porto seguro para cada um de nós, que fomos aos poucos crescendo e saindo em busca do destino. Casa querida, quanta saudade do velho pé de caju, onde tantas vezes subi. Lembro-me que era muito alto, e dos seus galhos, sentada, ficávamos olhando as casinhas humildes da época. Hoje é uma rua com casas bonitas, até de 1º andar. De fato o mundo girou e evoluiu tanto que eu nem sei se devo falar que o passado ficou tão distante como o SOL é distante da TERRA.
Minha querida Afogados da Ingazeira, sei que nunca mais fui aí, mas guardo dentro do meu coração todas as lembranças dessa terra querida, árida pela seca, que com todo o progresso você é a saudade que mais me faz sentir. O quanto o passado é tão presente para mim. Não possuo leitura o suficiente, senão escreveria um livro sobre tudo que tenho em minha mente.
Hoje me resta a solidão de viver aqui no Recife, sozinha, dormir sozinha, morar sozinha. A solidão dói. A solidão é ingrata. Não choro mais. Procuro não chorar mais. A vida realmente traçou este destino para mim. Durante a noite não tenho dormido bem; durmo pouco, então, nesta hora - 11 da noite - escrevi este texto, e peço que me desculpem aqueles que não gostam de falar do passado, mas é nele que eu encontro forças para VIVER este presente, pois o futuro é enigmático; somente DEUS sabe.
É o desconhecido que olhando o céu, as estrelas, e quando tem lua cheia, sei que não estou tão só neste mundo. Da minha cama, pela janela, olho e vejo que o mais belo que existe na natureza – o CÉU - com suas nuvens que às vezes vem com uma chuva para molhar o coração de quem vive na escuridão, na solidão da saudade de quem sonha e quem revive seu passado, em um coração já cansado, querendo esquecer o que é impossível, pedindo afeto, pedindo a alguém para trocar frases, trocar idéias, que te deseje uma boa noite, que te mande um beijo, que te mande um abraço fraterno.
Tudo o que eu tive no passado hoje o presente não me dá. Que viva sempre dentro do meu coração, meu passado querido, inesquecível, minha querida e amada Afogados da Ingazeira; minha velha casa querida fica do meu lado para fortalecer meu sangue e minhas energias, para todos os dias quando amanhecer eu poder dizer: “Muito obrigada meu DEUS, todo Poderoso, por mais estas 24 horas que me destes. Boa noite meu JESUS amado, que esta saudade se transforme numa rosa e seu perfume me reanime em cada amanhecer.
Um forte abraço e muita saúde e paz a todos os meus conterrâneos que moram em Afogados da Ingazeira e no mundo todo.
Maria Luíza Martins
Recife, PE, 10 de abril de 2010
A FAMÍLIA
É difícil falar sobre a família. Não sabemos os sentimentos deles, filhos, pais, netos, irmãos... Caminham lado a lado com uma corda de proteção, mas, com o tempo ela se rompe e de tão fraca não se consegue segurar, jogando todos para lugares diversos.
Existem famílias em que a ligação é forte, nada consegue destruir os laços que os unem, na doença, nas dificuldades. Com ou sem dinheiro estão sempre unidos. Isso é bonito, pois quem ama a família, ama a Deus. No entanto, têm outras em que os laços se rompem por qualquer razão, e nunca mais se unem porque algo se quebrou como um vidro de cristal e assim vão caminhando, se distanciando como o trem que vai deixando em cada estação seus passageiros.
O tempo não para porque somos nós que passamos por ele que faz o seu papel. É impassível. É assim, com o meu pequeno vocabulário, que penso, e dou graças a Deus. Por eu ter uma família que acredita que nossos laços se não são tão fortes, também não são fracos, apesar de andarmos um pouco distantes, por vários motivos, não acumulamos mágoas, porque temos Deus nosso pai que nunca nos abandonará. Paz é o que desejamos; só a paz deixa as pessoas com a consciência tranquila.
E o bom mesmo é um pouco de ausência, cada um tentando melhorar os lados moral e financeiro. No momento de precisão eles vêm com a maior boa vontade. O telefone diminui um pouco a solidão... Porque é tão gostoso os filhos, netos, bisnetos dizerem "benção" mãe..., vovó..., Biza..., e assim vamos seguindo, quase todos os trilhos do perdão, do amor e da fraternidade que nos une a Deus.
Jesus e nossa mãe maior, Maria, mãe de Jesus, que Ela cubra com seu manto divino todas as famílias do nosso Brasil!
Maria Luíza Martins
Recife, PE, 24 de março de 2010
AGRADECIMENTO AO MEU SOBRINHO MARCELO MARTINS (BOÍBA)
Obrigada pelas palavras em que se refere a mim, dando-me parabéns...
É, meu sobrinho, aos 79 anos não é fácil de se chegar com tantos altos e baixos que a vida me reservou. Criar nove filhos também não foi fácil e 1 neto que arrumei; ele tinha 8 anos hoje é um homem casado, responsável, tem sua casa, e a esposa também trabalha. Foi com ele, Renato, que minha missão terminou.
Agradeço a DEUS todos os dias pela cruz que Jesus me deu, e torcer para chegar ao final. Gosto muito de você, Boíba, de sua esposa e dos seus filhos, principalmente Caíque. Quando a gente se encontra ele é muito carinhoso comigo, me abraça, me beija, e diz: "Tia Luizinha, gosto muito da senhora!"
É bom ouvir palavras de consideração de um jovem como se fosse meu neto. Beijão para ele e os demais!
Marcelo, livro não dá, talvez até tenha muita coisa na memória, porém a vista não ajuda, aí fica complicado.
Desejo um ano cheio de paz e amor para todos de sua família! São os votos de sua tia.
Maria Luiza Martins Moura
Recife/PE, 13 de janeiro de 2010
O NATAL!
Sempre que me vem algo na cabeça, eu gosto de escrever. Mas está um pouco difícil "por causa da minha visão". Tem coisas que, infelizmente, não gosto de falar. Uma delas é uma das mais bonitas do ano... O Natal. É uma data muito especial.
Se todos soubessem por que Jesus veio ao mundo, não em um palácio, mas numa simples manjedoura, em sinal de que no mundo haveria mais pobreza do que riqueza.
Deus, na sua onipotência, mandou seu filho para que o mundo se transformasse, e isso não aconteceu. Há mais de dois mil anos o mundo continua violento, com mais pobres do que ricos, e ninguém pode mudar. Temos que aceitar as diferenças.
Papai Noel é o sonho de toda criança, vê-lo e tocá-lo, faz um bem enorme às crianças. As propagandas das televisões criam sonhos imaginários até para nós adultos. O Natal é tocante, o Natal nos trás mil lembranças que jamais se apagarão das nossas mentes.
Isso é o Natal, o renascimento de Jesus, a luz que iluminou o mundo; todos o reverenciam, do mais humilde ao mais rico !
Feliz 2010 para todos que acreditam num mundo menos violento. Que o amor aos irmãos seja um elo realmente unido. Muita paz para todos!
Peço a Deus chuva suficiente em nosso sertão tão castigado pela seca; para que o verde brilhe em suas folhas com aquelas gotinhas como lágrimas de alegria!
Até um dia para todos.
Maria Luiza Martins Moura
Recife/PE, 30 de dezembro de 2009
PADRE ANTONIO DE PÁDUA SANTOS
Homenageio esse homem, esse padre, que durante tantos anos foi um grande evangelizador em Afogados da Ingazeira e que ninguém esquecerá jamais. O evangelho era a sua pregação, não misturava outros assuntos. Falava com autoridade sem ser agressivo. Chegou a ser Monsenhor e recebeu o título de cidadão afogadense.
Foi o padre Antonio (foto) quem me casou e batizou meus filhos mais velhos. Sempre o vi de batina, mas, vim morar no Recife e não sei se deixou de usá-la, como os ouros fazem agora. Essa mudança, normal, em nada modifica o bom caráter de um sacerdote. A sua morte deixou uma lacuna muito grande entre seus paroquianos.
Antes dele, um padre completamente diferente dirigiu a igreja, hoje catedral: era o padre Olímpio Torres. Homem totalmente diferente do padre Antonio, padre Olímpio era obstinado, rigoroso em tudo que fazia, não admitia entrar na igreja sem meias. Ah! Isso foi um suplício para nós; meia de algodão, porque de seda era cara, e muita gente não podia comprar.
Naquela época a igreja tinha poucos bancos e algumas cadeiras, e cada qual com o nome do proprietário. Comungar com vestes de manga curta e pintada, nem pensar. O padre Olímpio mencionava no púlpito os nomes das pessoas que entravam sem meia. Homem autoritário, ninguém se atrevia a lhe desobedecer.
Eu e outras colegas fazíamos parte da irmandade dos anjos; era tão bonita... Roupa branca e a fita cor de rosa; tinha reunião todo mês. Tinha bancos selecionados só prá gente, como as filhas de Maria. Nas procissões a gente caprichava nas roupas, e tinha o estandarte com um anjo. Terezinha Padilha foi uma das presidentes; era bem organizada.
Um dia falaram para o padre Olímpio que nós estávamos namorando; aí a coisa pegou... O padre ficou bravo e nos chamou uma a uma na sacristia, e disse: "Nunca vi anjo namorar!", vou acabar com esta irmandade; de hoje em diante não concordo com isto, não existe mais a irmandade dos anjos, ordem minha. Ficamos tristes, mas não podíamos continuar, ali era ele quem mandava. A ignorância do padre chegou a ponto de expulsar da igreja uma moça (não posso falar o nome dela), que ia entrando para assistir a missa. Mandou que ela se retirasse, pois estava sem meia, e o vestido indecente. Silêncio geral. Ela saiu chorando, e todos falaram que ele não poderia continuar em Afogados. Ele foi transferido para outra cidade. Acho que alguém o denunciou ao Bispo de Pesqueira. Depois soubemos que ele havia falecido. Algum tempo depois Afogados da Ingazeira se transformou em diocese.
Maria Luiza Martins Moura
Recife/PE, 28 de novembro de 2009
HOMENAGEM
(Quero pedir licença para homenagear minha querida irmã Zezinha)
Prezada irmã,
Não pude ir ao seu aniversário de 86 anos, mas, de longe, pedi a DEUS que você viva o tempo que Ele determinou, dando paz e tranquilidade para essa mulher forte que você é.
O seu sonho de ver sua neta Juliana se formando não está demorando; você merece essa felicidade. O final do ano se aproxima, eu não posso ir pois estou em tratamento, mas, que você receba todo o meu carinho, toda minha alegria em saber que os anos passam e o tempo não espera por ninguém. Nossa hora é marcada no relógio do Divino Mestre JESUS.
Um grande beijo e um abraço da irmã que não a esquece.
Felicidades e parabéns!
Luizinha Martins.
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Dona Lourdinha e Sr. Andrelino, eu, irmã de Margarida, Zezinha, Carminha, sou Luizinha. Quando soube do crime que levou sua filha... choquei.
Aceite meus sentimentos. Que DEUS dê forças a vocês, para superar tamanha dor. Porque só ELE é quem vai sustentar tanto sofrimento, com esta ausência tão brutal a que o ser humano está sujeito. Força e fé!
Para ambos, meus sentimentos. Tudo nesta vida tem retorno; quem praticou esse crime com certeza pagará. A justiça de DEUS não falha.
Um forte abraço!
Luizinha Martins
Recife, 5 de novembro de 2009
REMINISCÊNCIAS
Falar sobre o passado é o que mais me agrada; do presente afetaria os meus sentimentos e de mais pessoas; não seria legal; o futuro é impassível, nem suposições poderemos prever, não é verdade?
Meu avô, não conheci, nem era possível, morreu quando eu ainda nem estava programada para vir ao mundo. Sei por meus pais, conhecidos, amigos, que José Mariano de Souza, foi um homem não rico, mas que possuía bens, loja e muitos burros - meio de transporte utilizado na época. Vinha buscar tecidos no Recife - 15 dias de ida e 15 de volta -, com os burros - animais preparados e bem cuidados para fazer essa viagem -; eram muitos “contos de reis” que ele carregava no alforje; não tinha ladrão, com certeza, pois nunca foi atacado. A sua loja era onde hoje Jocelina de Adelmo faz seu comércio de lanches e almoço; o teto era de madeira boa e o assoalho também.
José Mariano de Souza, meu avô, homem sério, bigode largo – na casa de Carminha, minha irmã, aí em Afogados tem o retrato dele e da esposa Mãe Senhorinha, nossa avó. Esta, a gente conheceu, pois morava conosco. Era cega, e minha mãe cuidou dela até a sua morte. A união deles foi através de um casamento arranjado; as famílias se conheciam, eles se viram em uma visita, e no terceiro encontro foi o pedido em casamento. O amor os atraiu, se casaram e foram felizes - Ele era bem de vida, tinha vários imóveis, bois, vacas, jumentos, tudo o que na época era de um homem rico.
Dessa união vieram nove filhos: João e Antonio Mariano, que não lhes deram netos. Maria Cornélia, minha mãe; Idalina, mãe de Paulo; Luiz, Maria José e Zefinha da Cruz; a mais nova, tia Carminha, faleceu ao dar à luz Vicente Veras, que se vivo estivesse teria a minha idade, 79 anos, e Terezinha, que me parece estar doente; quando ali vou, visito-a; ri mais do que fala, sempre foi assim.
Meu avô, depois de assistir uma missa foi jogar baralho (diversões deles) na casa do genro Otaciano Veras, e em dado momento abaixou a cabeça, suspirou e faleceu; teve infarto fulminante. Dizem que foi um desespero, imagino; minha avó chorou tanto que agravou a sua cegueira.
Veja você, meu jovem que não conheço, quem não tem um passado para recordar, mesmo não sabendo tudo, não viveu da vida o suficiente para lembrar, chorar, se emocionar, e ver na sua mente um filme real... mesmo com saudade; as lágrimas caem naturalmente por estas emoções; são detalhes de uma vida ou de muitas vidas, que irão conosco para o túmulo. São tantas histórias de amores, de morte, de encontro, desencontro; amores que não se realizaram, mortes inesperadas de entes queridos. Força para consolidar tantas frustrações que, nem “Frade”, se vivo fosse, explicaria.
Gosto de lembrar que um dia fui uma jovem feliz, com meus pais e irmãos; A vida nos separou de corpos, não de espírito
Luizinha Martins
Recife, 9 de outubro de 2009
DECLARAÇÃO DE AMOR
Afogados da Ingazeira prá mim, hoje, não é o meu passado, o meu ontem, é como se fosse um pedacinho do céu, o luar mais bonito... As estrelas eram mais brilhantes, a Igreja mais majestosa, as festas maravilhosas... O rio Pajeú um mar! O palanque um clube aberto para todas as famílias afogadenses, o coreto o sonho dos nossos encontros... Dançando felizes, com ou sem namorado, ao som da bandinha do Mestre Guinga! Isto sim era o sertão, com inverno ou sem inverno, o sonho dos jovens daquela época, em que o amor inocente e puro pulsava em nossos corações em um olhar, um abraço, um sorriso... Tudo passou, o tempo não espera ninguém.
Se houver alguém que lembre este pedacinho do céu como eu, ele jamais será esquecido, irá conosco junto ao corpo sem vida, e de lá de cima será ainda mais bonito saber que Afogados é e sempre será como uma estrela cadente, e brilhará eternamente!
Luizinha Martins
Recife, 9 de outubro de 2009
RIO MORTO
É com este título que posso expressar ao falar do querido e saudoso Rio Pajeú. Hoje desprezado pelos responsáveis que estão no poder dessa querida cidade e nada fazem. Sujo, lixo e bichos mortos ali jogados, mau cheiro; Nada lembra o rio querido que tanto alegrou os nossos banhos nas horas do amanhecer, sua areia parecia uma praia marítima, que não conhecíamos. A última vez que o vi quando ali passei alguns dias, ele recebeu água, pois houve uma enchente que transbordou, mas com sua força aumentou a sujeira, que ficava dos lados, abaixo da ponte. Por que tudo que é belo fenece?... O rio que nas noites enluaradas, era uma visão de que Deus é natureza.
O luar do sertão jamais sairá do meu coração; ainda mais belo quando o nosso Pajeú enchia forte como um gigante, enlarguecia e corria veloz para despejar suas águas no São Francisco, durava poucos dias... mas, aquela paisagem! Tanta gente olhando, feliz, porque o rio Pajeú era uma grande atração para nós. Porém passou, como tudo passa, só lembranças não morrem, ficam para sempre, era nosso "mar", a "nossa praia", era o esplendor de um rio chamado PAJEÚ.
Afogados cresceu, o progresso é quem movimenta tudo, é a era da televisão, computador, internet, festas, lindas praças, belas casas, o comércio imenso, cada dia mais prédios, hotéis, luxo, tudo muito bonito... Eu tenho 79 anos... se o tempo voltasse, eu queria o meu Afogados de 100 anos atrás... singelo, simples, festinha com banda de música e o meu querido CORETO, este sim, marcou época. Que saudade, chega a doer, era gostoso de dançar ali, quase tudo familiar, lembro minhas colegas, de nossos encontros, Irene, Mariinha de Agnelo, Micinha Liberal e as irmãs, Evani Veras e Zeferina Liberal, Odete Góes minha amiga em particular, Julieta de Zé Pilão, eram tantas..., umas já não se encontram na terra, foram para o andar de cima. A todas, o meu saudoso abraço. Auristela de Milinha, linda voz... É assim, o lápis corre, as lembranças vêm, mas tudo seguindo o curso da vida, como o rio avança despejando suas águas em outro rio, as nossas lembranças vão se apagando da nossa mente porquê o cérebro tem falhas que não se recuperam mais. Às vezes eu escrevo umas tolices, mas é de coração.
Afogados será eterno, até o meu último suspiro. Fiz dramas no cine Pajeú, fui locutora da rádio eu e mais duas jovens, era a Rádio Difusora com enormes fones instalados em vários locais da cidade, era num salão ao lado do Palácio do Bispo, tínhamos um programa "De coração pra coração", pagavam e a gente anunciava a música. Dia de feira, alguns homens me pagavam para eu oferecer para Josué Martins (meu tio): "SAI PÃO DURO!" Eu dizia que não podia, eles diziam estavam pagando, e aí? Tinha que oferecer e tocar.
Um abraço!
Luizinha Martins
Recife, 9 de outubro de 2009
O CORETO
Tenho aqui comigo o retrato do Coreto, pois tirei cópia do livro do Sr. Fernando, escritor, filho afogadense de Minéu e Tida; os conheci muito. Ela, bonita moça; ele comerciante muito simpático; eu jovem, ele já adulto brincava comigo, sempre alegre, bem arrumado e paquerador. Nesse tempo tinha poucos rapazes e muitas moças, todas cheias de ilusões de arranjar um namorado e um futuro casório... Mas, entre eles, o preferido com seu sorriso bonito, dentes perfeitos: Zezito Sá era um danadão. Não perdia oportunidade de dar uma cantada, diferente de hoje, é claro, mas, em cidade pequena do interior, sempre se conhece todo mundo... Vicente Oliveira, Edson de Aparício, Valdemar Oliveira, Abelardo, os irmãos de Beta, só lembro de Agenor Pires, casado com Marina; eram tantos que já não dá para lembrar... Muitos já estão do outro lado da vida... Mas, recordar é viver, e quem não tem lembranças, realmente é como um pássaro abatido e morto. Recordar é viver! Passe o tempo que passar! Os jovens de hoje nada têm para um dia contar para seus filhos, e isto é triste.
Nesta poesia de Quincas Rafael (eu não o conheci) diz o último verso: “Velho coreto estimado, sentinela da cidade, que de outra mocidade era tanto visitado. Foi ali considerado ponto de concentração, hoje teus restos no chão mostram quanto ele valia, sem saber que tinha o dia de sua condenação.”
Porque fizeram isto com você, coreto querido? E deixaram aquelas pedras que nada têm a ver? É até feio, parecem pedras de túmulo; será que ninguém tem coragem de derribar ? Não deixaram as máquinas acabar com o patrimônio da cidade? O que ficou? Não tem serventia nenhuma, a não ser que alguém tope nelas e caia, aí vamos ver como fica. Eu não moro ali há mais de 50 anos, mas desculpem minha ignorância, meu querido Afogados foi e sempre será lembrado com serenatas em dias enluarados, pelos apaixonados, o palanque de festinhas, onde hoje é a prefeitura, ali era ver a lua e o nascer do sol, ao toque de garrafas de cervejas, violão e a voz bonita do boêmio Antenor (Nogueira Lima), que não realizou o seu sonho de amor: Dolores Câmara, que romance, hem?... Como ele, tantos outros também morreram de amor... Zé Neném... Isso dá história, talvez se encontrem na outra dimensão, quem sabe? Mistério.
Termino saudosamente como outros, não sei se me realizei: "Nem sempre o primeiro namorado é o primeiro amor”. Eu gosto de tudo que se refere ao passado, tenho em mente lembranças inesquecíveis, que daí uns dias irão desaparecendo, a idade não perdoa, o tempo passa e a vida não pára. Até breve, um abraço desta solitária e saudosista.
Luzinha Martins
Recife, 8 de outubro de 2009
MINHAS LEMBRANÇAS
Prezado Fernando e demais conterrâneos da minha bela, amada e sempre formosa AFOGADOS DA INGAZEIRA.
Apresento-me pela primeira vez neste Site, e com grande satisfação, por gostar, não somente de ler e escrever, como principalmente falar das coisas (mais antigas, é bem verdade) da nossa Afogados, onde cheguei pequenina. Nasci em Garanhuns, no entanto, fui criada e cresci nessa bela cidade, capital do Vale do Pajeú.
Venho ainda informar, para aqueles que não se lembram da minha pessoa, que morei muitos anos em Afogados e depois me mudei para o Recife, mas, sempre que posso, vou pelo menos três vezes ao ano na nossa terrinha rever minhas irmãs (Zezinha Brito, Margarida de Gastão e Carminha).
Pois bem, gostaria de relembrar alguns fatos que guardei do meu tempo de infância/adolescência, no que diz respeito ao meu tio JOSUÉ MARTINS. Para os que não se lembram, era irmão de SEVERO MARTINS (meu pai) e do tio CHICO BOBINA.
Falando especificamente do meu tio JOSUÉ, trata-se de umas das figuras mais lendárias de Afogados da Ingazeira. Ele, como meu pai, nasceu em MONTEIRO, na Paraíba, e foram criados em Afogados.
Homem de estilo rude, pouca conversa, e embora gozasse de boa situação financeira, vestia-se mal e economizava em tudo, até em palavras! Pois bem, usava sapatos sem meia e suas roupas eram de marca inferior às mais baratas possíveis. Não gostava de dar esmolas, e nós, sobrinhas, sabendo da sua fama de 'pão-duro', íamos em grupo pedir uma graninha pra festa, e ele sempre dizia que as festas eram na rua e nao precisávamos de dinheiro, e ainda recebíamos um NÃO do tamanho de um trem. Para não sairmos de 'mãos - abanando', tio Josué costumava distribuir conosco almanaques do Jeca Tatu (distribuídos gratuitamente pelas farmácias de todo o Brasil) Os mais experientes sabiam quem era o Jeca. RSRSRSRSRSR
Às vezes papai, muito sacrificado na época, pedia para irmos lá pedir ao tio Josué um dinheiro emprestado para comprar algo para o sustento; na época a moeda era conto de réis, e ele ficava bravo e dizia: “diga a Severo que se vire, não tenho, não posso”, etc.
Para reavivar a memória dos contemporâneos, tio Josué e tia Terezinha criaram HERMES e OLÍVIA, sendo que a Olívia, ele deu prá ela estudos em Garanhuns-PE., onde chegou a formar-se não lembro bem em que. Corria um boato em Afogados, a época, que tio Josué enterrava dinheiro no quintal da casa, e suava a 'patente' de Coronel (falavam que ele tinha comprado a patente). Ele tinha uma foto, vestido de Coronel, e ostentava na sala, num quadro para todo mundo ver, onde estava escrito: Coronel Josué Martins dos Santos.
Foi dele, o primeiro veículo automotor de Afogados, se não me engano um Ford 1930. Possuía, ainda, piano, várias casas, terrenos, sendo considerado, na época, um dos homens mais ricos, porém, o mais avarento de Afogados da Ingazeira.
Recordo-me que ele morreu pobre, vendeu tudo que tinha para curar uma doença, mas, sem lograr êxito. Não teve jeito!
A Olivia, antes de vir também a falecer, morava na bela casa deixada pelo tio Josué; casa essa que nem sei se existe mais.
É fato que o terreno onde hoje está edificada a Igrejinha de São Sebastião, foi doado pelo meu tio Josué à paróquia do Senhor Bom Jesus dos Remédios. A casa (bangalô) ao lado da citada igreja era a sua residência
Quem cuidou do tio Josué, quando ele ficou enfermo, foi o meu pai (Severo Martins), a quem tanto ele negava ajuda. Como a vida é... De rico, passou a pobre e dependente dos outros, assim como tia Terezinha, a quem meu pai também, mesmo sacrificado, ajudou até seus últimos dias de vida.
Por fim, o HERMES terminou ficando com papai (Severo Martins) e Abigail, sua segunda esposa, que tiveram a bondade de criá-lo e mantê-lo até seus últimos dias de vida.
São essas as recordações que carrego comigo, já perto dos 78 anos de vida e que tomei como lição: se o dinheiro não for usado para o bem da humanidade, termina-se gastando com supérfluos, e que no final sempre falta para as coisas mais importantes.
Mando um forte abraço a todos aqueles que escrevem e deixam suas mensagens neste site, que a partir de agora vou, dentro das minhas possibilidade, pois, mesmo com catarata em um olho - tenho certa dificuldade de ler - tornarei a enviar mais histórias que marcaram nossas vidas na nossa eterna e amada AFOGADOS DA INGAZEIRA.
Deixo meu telefone para contato, caso algum conterrâneo da nossa época possa e queira ligar para bater um papo: 81-3454.2893 e 81-8616.7888
Saudações e muita saúde para todos!
Luizinha Martins
Recife, 22 de setembro de 2009
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2012