
MARIA LÚCIA ARAÚJO NOGUEIRA
Advogada e cronista afogadense
Doutor Hermes de Souza Canto
31.03.1910 / 31.03.2010 – Centésimo Aniversário
Neste mês de março temos a alegria de compartilhar com a família Veras o centenário de vida de Doutor Hermes Souza Canto. Médico de formação optou por uma vida de sacrifícios, muito trabalho, em Afogados da Ingazeira, sertão do Pajeú, recanto nunca antes visitado e onde deu grande parte de sua vida e juventude. Lugar por ele adotado para constituir sua família. Escolheu para ser sua esposa uma jovem da cidade, com a qual teve três filhos: Vânia, Luciano e Hermes Júnior.
Quando chegou a Afogados da Ingazeira, médico recém-formado, solteiro, cheio de vontade para trabalhar, exercitar seus conhecimentos teóricos, engajou-se com a sociedade local e circunvizinha, dando exemplo de conduta e retidão.
Atendia toda semana em Tabira. Não dispondo de carro próprio, pedia ajuda de seu “Toreba”, ou quem tivesse carro, para levá-lo a cumprir seu mister. Todas as cidades do vale do Pajeú foram beneficiadas com o atendimento itinerante de dr. Hermes, inclusive cidades da Paraíba. Como não sabia dirigir, naquela época, teve aulas práticas com o amigo José Marques de Araújo (Zé Gago), que também foi seu motorista na viagem que realizou a passeio, ao Rio de Janeiro, e que resultou num diário de bordo, publicado no jornal Gazeta do Pajeú. Quem lia, sabia do trajeto, as cidades visitadas, restaurantes, passeios turísticos, tudo muito bem descrito no jornal.
Na década de 30 as dificuldades eram imensas e ele não dispunha de hospital para realizar atendimentos emergenciais, o que o forçava a encaminhar os doentes a outros centros mais avançados. Ele atendeu a minha mãe, Jeanete Góes, que tinha apenas dois anos de idade, quando de sua chegada à cidade. Ela estava com “tifo” e ele prescreveu a medicação que a salvou.
O desenvolvimento da cidade foi impulsionado na gestão de dr. Hermes Canto, primeiro Prefeito Constitucional, que fez praças e calçamento nas principais ruas da cidade, realizou o tratamento de esgotos, construiu escolas, etc.
Tinha uma visão futurista, pois cuidou em arborizar grande parte da cidade.
Quantas crianças nasceram sob seus cuidados?
Quantas consultas ele realizou?
Quantas pessoas não tiveram suas vidas prolongadas?
Quantas e quantas vezes vimos o Dr. Hermes, com sua mala preta, saindo de uma casa de família, após realizar seu atendimento?
Ele deu segurança para que muitas famílias não arribassem da terra natal, deixando seu lar, sumindo nas estradas barrentas, à procura de cuidados médicos. O que dr. Hermes prescrevia era cumprido à risca, sem nenhum receio, pois seu diagnóstico era correto e por tanta dedicação recebeu a homenagem máxima em 1997 da Sociedade de Medicina de Pernambuco, em comemoração ao Dia do Médico, a “Medalha São Lucas”.
Acostumamo-nos com dr. Hermes e dr. Hermes se acostumou conosco; nos assumiu como sua grande família, não se afastou de nós em nenhum momento, dando-nos suporte médico, sua fraterna amizade e o amor que dedicou à cidade que o recebeu de braços abertos, sem lhe questionar o porquê de ter escolhido Afogados da Ingazeira para ser a terra onde ia viver e ter sua família.
Provavelmente foi o amor que encantou sua vida e iluminou os seus dias, fazendo-o esquecer a brisa do mar, porque tinha a brisa morna das tardes quentes na calçada dos sogros Guardiato Véras e Têtê.
Foi o amor absoluto e incondicional de dona Terezinha que embalou suas noites, distraiu sua saudade, enfeitiçou seus olhos, dispersou sua atenção e nos fez ter o cidadão afogadense mais presente, mais ouvido, mais interagido com a sociedade que o recebeu e hoje lhe faz a mais merecida homenagem, na forma de escritos, poesias e orações... para o homem que não saberá quão importante foi e é para nós afogadenses, descendentes da geração que ele cuidou e ajudou a nascer e crescer com saúde e lucidez.
Nosso agradecimento às famílias Canto e Véras. Parabéns a Dr. Hermes que cantou na nossa cidade e nos fez conhecer o verdadeiro médico da família.
Rendemos nossa homenagem ao homem, ao médico, ao pai de família, ao amigo, ao conterrâneo mais ilustre que neste 31 de março de 2010 completa seu centenário.
Maria Lucia de Araújo Nogueira
Recife, PE, 29 de março de 2010
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2012