MAGNO MARTINS
Jornalista e blogueiro afogadense
O discurso de Magno Martins na Câmara de Vereadores do Recife, por ocasião da homenagem recebido pelos 5 anos do seu blog
Tenho recebido diversas manifestações pelo meu discurso de ontem na Câmara, em agradecimento a homenagem aos cinco anos do blog. Diante disso, volto a postar a sua íntegra.
“Senhores e senhoras vereadores,
Venho da geração do jornalismo impresso, sou caminhante de um tempo em que um bom e inquieto repórter tinha o aroma inconfundível das oficinas, o cheiro da tinta e que guarda na memória o barulho infernal das saudosas máquinas de datilografia.
Tempo romântico, é verdade, mas muito importante para minha trajetória profissional, porque foi o meu alicerce, a base de um aprendizado invejável do jornalismo que se confundia com emoção, amor e paixão.
Tempo em que nos orgulhava ver pelas ruas o jornaleiro gritando a manchete daquela notícia que, também nas ruas e não nas redações refrigeradas, a gente perseguia ao longo de todo o dia com tamanha obstinação, farejando o melhor ângulo.
E aqui faço uma homenagem a grandes legendas do jornalismo pernambucano que fizeram escola e nos deixaram um legado vivo: Aníbal Fernandes; Adonias Moura; Garibaldi Sá; Antônio Camelo; Esmaragdo Marroquim; Nilo Pereira; Paulo do Couto Malta; Antônio Maria e Mauro Mota.
Longe de ser saudosista considero que o diário feito de papel que se compra voluntariamente nas bancas ainda exerce a função fundamental e primordial de “alargar a atenção” do leitor e saciar o prazer do hábito da leitura.
O místico medieval Angelus Silesius disse, certa vez, que o homem tem dois olhos. Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.
Um jornalista é assim: ele vê as coisas que ninguém ver. Mergulha nas coisas boas e ruins da vida, para poder transmiti-la muitas vezes de forma dura, outras mais amenas, mas seja em qualquer delas, comprometidas com a verdade e a imparcialidade.
O jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo. Imprescindível para o jornalista, também, é saber tocar o coração dos seus leitores.
Eu escrevo com minha alma. Ao escrever, ofereço as paisagens da minha alma aos olhos dos meus leitores.
Para seduzir meus leitores escrevo como quem cozinha. O cozinheiro cozinha pensando no prazer que sua arte irá causar naquele que come.
Eu escrevo pensando no prazer que o meu texto poderá produzir naquele que me lê.
O jornalista é um cozinheiro que a cada semana tem que inventar um prato novo. Por isso, ao lado da minha coluna na Folha de Pernambuco, inventei o blog.
Com o blog, homenagem desta sessão especial, me transportei do jornalismo impresso, minha universidade da vida, para o mundo virtual, a era digital, da notícia em tempo real, precisa e instantânea.
Estamos na era das novas mídias e das redes sociais, que fizeram nascer um novo cidadão: o cibercidadão, que jornalista ou não, comunicador ou não, pode ter em suas mãos a síntese da escrita, do som e da imagem.
O Brasil já se informa pela internet. Somos, hoje, 83 milhões de brasileiros que acessam diariamente os blogs e portais para se informarem. Segundo o Datafolha, 37% dos leitores no Brasil já usam a internet como sua principal fonte de notícias.
O Brasil já é, também, o quinto País com o maior número de conexões à internet. A cada dia, 500 mil pessoas entram na internet pela primeira vez e a cada segundo um novo blog é criado. No mundo virtual saímos de apenas 315 sites em 1982 para 172 milhões de sites no mundo.
Só o twitter, este instrumento poderoso usado principalmente por vocês da classe política, já é acessado por mais de 35 milhões de brasileiros que usam a internet. Perdemos apenas para os Estados Unidos e o Reino Unido.
Pioneiro no Nordeste, o meu blog, especializado em política, detém, hoje, com cinco anos de existência, a liderança absoluta em termos de acessos. Temos uma média de 900 mil a 1 milhão de acessos por mês.
Com o blog, alcancei um universo de leitores nunca imaginado, conquistei a nova geração online e das redes sociais. Faço dele uma tribuna permanente em defesa das causas mais nobres da população.
Esta homenagem não se pode traduzir apenas numa celebração aos cinco anos do blog. É também ao jornalismo sério e combativo que exerço. E igualmente ao sertão e a minha gente sofrida.
Sou sertanejo, sou do Pajeú das flores, de Rogaciano Leite, que cantou como ninguém a nossa roça, a nossa cabana, a nossa cultura, emocionou multidões com o seu canto inconfundível, que era só dele e de mais ninguém.
No meu sertão, tudo é belo, desde o canto de se ouvir, venha de onde vier, do sabiá, do acauã e do repentista. No meu sertão, tudo é poesia, do sofrer da sua gente tangida pela seca ao luar e o mais deslumbrante pôr-do-sol.
No meu Pajeú, até as pedras são mais rimas do que desenho. Quem por ali nasce, gruda na terra e na poesia e nunca deixa o seu canto. Vê a beleza na simplicidade e o simples no belo.
O sertão, bem disse José Alencar, “é uma imensa campina que se dilata por horizontes infindos, de onde guardo as minhas mais longínquas recordações e conservo o perfume no interior de minha alma”.
É lá que me inspiro, bebendo da fonte que ainda bebem os meus pais, resistentes às intempéries da seca. Minha veia política herdei do meu pai, um homem apaixonado pela vida pública e pelo sertão.
Um homem simples, que diz que o bom da vida é ser e não parecer; regar sonhos, viver para servir.
Foi lá que aprendi a admirar as coisas simples da vida entre as brenhas e as coroas do mato.
E como Deus é generoso comigo foi lá também que encontrei numa noite enluarada a minha musa inspiradora, esta brava vereadora que o Recife ganhou: Aline Mariano, meu corpo e minha sombra, porque estamos ligados numa paixão ardente, dia e noite.
Aline e eu reproduzimos uma espécie de enredo tupiniquim do Romeu e Julieta, porque seu pai Antônio Mariano, aqui presente e que hoje está aniversariando, era adversário político da minha família e não conseguia manter comigo sequer as relações cordiais e fraternais imperiais ao exercício da cidadania.
Superamos, pelo amor, o ódio e a guerra política.
Em nome de Aline, agradeço a todos os vereadores desta Casa, especialmente a Sérgio Magalhães e Maré Malta, responsáveis por esta homenagem.
Agradeço, também, aos jornalistas Amin Stepple e Denise Martins, que produziram o vídeo dos cinco anos do blog com muita competência. Agradeço, ainda, o empenho da minha equipe do blog, razão do nosso sucesso nesses cinco anos de existência. E a Folha de Pernambuco, aqui representada pelos diretores Américo Lopes e Henrique Barbosa.
Agradeço, ainda, a compreensão e o apoio da minha família, entre os quais se encontra aqui o meu filho primogênito Felipe Martins. E o meu caçula Magno Filho.
Não faço jornalismo para agradar aos detentores do poder, mas aos leitores. Jornalismo é transformação social, é cidadania, é instrumento em defesa do povo e da coletividade.
Por isso, ao encerrar este discurso, lembro o grande Nelson Rodrigues:
'Sou um perplexo diante das coisas que faço e diante das frases que digo. Porque realmente todas essas frases vêm embebidas de sangue vivo. Eu não trapaceio. A minha grande e real virtude é não trapacear. Não sou moedeiro falso. E tenho realmente todas as coragens que o meu texto de ocasião exija”.
Muito obrigado.
Recife, 15 de junho de 2011
Discurso de Magno Martins na Assembleia Legislativa de Pernambuco quando da homenagem pelos cinco anos do seu blog
Não há um mundo que mais me encante, hoje, do que o mundo do jornalismo online, das notícias em tempo real na internet. Costumo dizer que com o advento da tecnologia, ao acessarmos as notícias, checarmos as nossas mensagens eletrônicas e assistirmos televisão através de um simples telefone celular, ficamos com a sensação de que o mundo já cabe na palma da nossa mão.
A evolução da humanidade não se dá mais por meio de ondas longas da história: os saltos de qualidade são vertiginosos porque vertiginosas são as revoluções tecnológicas, especialmente no campo da informação e da comunicação.
Da mente alfabética para a mente digital, transcorreram milhares de anos. As inovações dos mecanismos da mente digital ocorrem contínua e crescentemente em lapsos de tempo cada vez mais curtos.
As novas mídias e as redes sociais delas decorrentes fizeram nascer um novo cidadão: o cibercidadão, que jornalista ou não, comunicador ou não, pode ter em suas mãos a síntese da escrita, do som, e da imagem.
E difundi-la para o bem ou para o mal, em tempo real e em extensão global, indo além do virtual para penetrar no mundo real. E, deste modo, usar a inacreditável fusão da virtualidade real, revogando as noções tradicionais de tempo e espaço.
Carrego comigo, no entanto, os ecos inconfundíveis das antigas redações, envolto no aroma das tintas que davam forma à notícia, à informação e às idéias dos profissionais da imprensa escrita que faziam os jornais amanhecer na casa dos leitores.
Longe de ser saudosista considero que o diário feito de papel que se compra voluntariamente nas bancas ou se recebe em casa por assinatura ainda exerce a função fundamental de alargar a atenção do leitor, saciar o prazer do hábito, e repetindo o grande filósofo alemão Hegel, entender a leitura dos jornais como a prece cívica do homem moderno.
Um jornalista, além de talento precisa de muito trabalho, em primeiro lugar. O talento só não basta. Ele precisa de muita vivência, ele tem que mergulhar realmente na vida, para poder transmiti-la, porque o jornalista não é um criador de fatos, ele é um transmissor e precisa saber ver. E saber ver é só vivendo.
Imprescindível para o jornalista, também, é saber tocar o coração dos seus leitores. Eu escrevo com minha alma e o sentimento do mundo. Ao escrever, ofereço as paisagens da minha alma aos olhos dos meus leitores.
Para seduzir meus leitores escrevo como quem cozinha. O cozinheiro cozinha pensando no prazer que sua arte irá causar naquele que come. Eu escrevo pensando no prazer que o meu texto poderá produzir naquele que me lê.
O jornalista é um cozinheiro que a cada semana tem que inventar um prato novo. Por isso, ao lado da minha coluna, inventei o blog. Trata-se, na verdade, de uma escravidão, mas escrever também é um sofrimento. Todo texto prazeroso é doloroso, é um parto.
Com o blog, alcancei um universo de leitores nunca imaginado, conquistei a nova geração online e das redes sociais. Faço dele, como na minha coluna, uma tribuna permanente em defesa das causas mais nobres da população.
E para isso, preciso de energia e inspiração. Minha fonte permanente de inspiração é o meu Pajeú. Lá, tudo é belo, desde o canto de se ouvir, venha de onde vier, do sabiá, do acauã, do repentista, o luar e o pôr-do-sol. No Pajeú, até as pedras são mais rimas do que desenho.
Quem por ali nasce, gruda na terra e na poesia e nunca deixa o seu canto. O símbolo dessa resistência encontro nos meus pais, que mastigam e engolem a sede braba até hoje e nem deixam a estiagem vencer a coragem.
Rogaciano Leite, um dos maiores poetas do nosso Pajeú, de São José do Egito, o reino dos trovadores, cantou o sertão com um lirismo e um amor nunca vistos. São dele esses versos fenomenais:
Senhores críticos, basta!
Deixai-me passar sem pejo/
Que o trovador sertanejo/
Vem seu pinho dedilhar/
Eu sou da terra onde as almas/
São todas de cantadores/
Sou do Pajeú das Flores/
Tenho razão para cantar/
São sou um Manoel Bandeira/
Drumonnd ou Jorge de Lima/
Não espereis obra prima/
Deste matuto plebeu/
Eles cantam suas praias/
Eu canto a roça, a cabana/
Canto o sertão que é meu.
O jornalista não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele se propõe a fazer é, como o escritor ou o poeta, simplesmente iluminar com os seus olhos aquilo que todos vêem sem se dar conta disso.
Em jornalismo, é fundamental ter paixão e coragem. O correr da vida embrulha tudo, dizia Guimarães Rosa. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
É a paixão e a coragem que me movem na coluna política que assino na Folha de Pernambuco, nas postagens em meu blog, objeto desta homenagem e na apresentação do meu programa Frente a Frente.
Não faço jornalismo para agradar aos detentores do poder, mas aos leitores. Jornalismo é transformação social, é cidadania, é instrumento em defesa do povo e da coletividade.
Por isso, vale à pena citar Nelson Rodrigues: 'Sou um perplexo diante das coisas que faço e diante das frases que digo. Porque realmente todas essas frases vêm embebidas de sangue vivo. Eu não trapaceio. A minha grande e real virtude é não trapacear. Não sou moedeiro falso. E tenho realmente todas as coragens que o meu texto de ocasião exija.
Não poderia deixar de prestar algumas homenagens antes de encerrar esta fala. Primeiro aos meus pais Gastão e Margarida, a razão de tudo. Meu pai, que fez questão de vir aqui, tem 89 anos.
É um repórter nato, um escritor de alma sertaneja, poeta, romântico, apaixonado pelo sertão e, principalmente, pela política. Foi vereador e vice-prefeito de nossa Afogados da Ingazeira.
Minha mãe, a tua força e teu amor me dirigiram pela vida e me deram as asas que precisava para voar.
Quero destacar a minha família. Aline Mariano, minha esposa, meu xodó e inspiração, que também fui encontrar lá no meu Pajeú das flores. Ela abraçou a política partidária com coragem e elevado espírito público. Vem honrando o seu mandato como vereadora do Recife.
Aos meus filhos Felipe e André Gustavo, que residem nos Estados Unidos, e meu ponta de rama Magno Filho, aqui presente.
Homenageio, ainda, o meu amigo e empresário Eduardo de Queiroz Monteiro, que preside o Grupo EQM, do qual a Folha integra.
Amigo, Eduardo, é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que se faça ou diga. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir na busca de um amigo. Você é amigo de fé e camarada.
Aliás, a Folha me presenteou, hoje, com um belíssimo caderno e estou muito feliz. Aproveito para agradecer ao editor-geral da Folha, Henrique Barbosa, ao diretor Américo Lopes e toda sua equipe do comercial, que se envolveu na produção do caderno.
Queria agradecer também a minha irmã Denise Martins e ao jornalista e cineasta Amin Stepple, que produziram o vídeo que assistimos.
Agradeço, igualmente, ao deputado Antônio Moraes, pela iniciativa de realizar esta sessão comemorativa aos cinco anos do blog, e a todos os parlamentares e aos que aqui estiveram presentes.
Agradecer, por fim, à minha equipe do blog pela dedicação e empenho.
Encerro com uma frase do saudoso jornalista Samuel Weiner, que fez história no Brasil e que representa, também, a síntese do meu pensamento:
O jornalista que mata ou que trai a confiança de seu assunto é um médico que mata o seu paciente.
Muito obrigado.
MagnoMartins
Recife-PE, 26 de maio de 2011
Maria Dapaz
Valeu o esforço dos 386 km, do Recife para Afogados da Ingazeira, para assistir ao show de Maria da Paz, ontem, no velho, charmoso e saudoso Cine São José, ponto cultural da minha adolescência. Paizinha, como a tratamos carinhosamente desde a época em que cantava na orquestra Marajoara de Sertânia e nos “Domingos Alegres”, no mesmo Cine São José, comandados pelo talento de Waldecy Menezes, estava numa noite inspirada e encheu os olhos da plateia.
Lindo, o cine São José ficou mais belo ainda apinhado de gente para rever Maria da Paz e matar a saudade do seu canto. Paizinha se apresentou como realmente é: fantástica – no show intimista –, sozinha ao violão. Surpreendeu, num segundo instante, com o talentoso flautista Edinho, filho do artista plástico Edierck José.
Hoje, a cantora recebe o título de cidadã de Afogados da Ingazeira, numa solenidade na Câmara Municipal. Embora tenha morado muito tempo em Afogados, Paizinha nasceu em Jaboatão dos Guararapes e agora, finalmente, ganha a cidadania afogadense graças a iniciativa de vereadora Joana D`arc, do PT.
O esforço da viagem valeu mais ainda porque, após o show, Paizinha deu uma canja especial para alguns conterrâneos, entre eles este blogueiro, que acabou varando a madrugada. Na verdade, revivemos uma noite de seresta, com direito a lua e o sereno gostoso da noite sertaneja.
Ali, em frente ao Bar de Dimas, colado ao Cine São José, Paizinha machucou o nosso coração. Reviveu sucessos do arco da velha, dor-de-cotovelo. Uma madrugada romântica e inesquecível. Entre os que tiveram o privilégio da seresta, o meu irmão Augusto Martins, vice-prefeito; o promotor Lúcio Luís de Almeida; Humberto Gomes, tabelião; Petrônio Pires; os artistas plásticos Edierk José e Geraldo Ferreira, irmão do saudoso Bernardo Ferreira; e a empresária da cantora, Jô.
Magno Martins
Recife, 15 de abril de 2011
Maria José Martins de Brito
“Perdi, sexta-feira passada, minha tia Maria José Martins, a Zezinha, irmã de mamãe. Lá se foi a segunda Maria das seis por parte de mãe – a outra que já havia partido para a eternidade se chamava Maria de Lourdes. Restam as quatro Marias – Margarida, minha mãe, Maria Luiza, esta residente no Recife; Maria Lídia, que mora em Vitória da Conquista e Maria do Carmo, que já viveu muito tempo também em Conquista, mas se fixou em Afogados.
De tia Zezinha tenho boas recordações. Costureira de mão cheia, fazia minhas roupas de fim de ano e também as do meu mano Marcelo. Naquele tempo havia uma tradição da família usar roupas iguais, como se fosse farda. Marcelo e eu formávamos, assim, o chamado par de jarros.
Tia Zezinha só entregava “os jarros” no dia da festa de fim de ano ou no Natal. Se entregasse antes, dizia ela, o rompimento do ano perdia a sua graça. Tinha que celebrar de roupa nova, todos os filhos iguais, perfilados diante dos pais. Tia Zezinha caprichava em cores fortes e fazia questão de ver a gente perfumado e com brilhantina.
As seis Marias são muito parecidas. Têm traços indígenas. Tia Lourdes, por exemplo, era a que mais tinha semelhanças com índio. E por viver muito isolada no sitio tinha, igualmente, hábitos indígenas, sabendo muito mal assinar o nome. Todas elas, inclusive a minha mãe, puxaram muito ao pai Severo Martins, meu avô.
Vovô Severo era um homem de forte personalidade. Carrancudo, nunca levou desaforo para casa. Era um homem valente, destemido. Analfabeto, ganhou o pão como motorista de caminhão. Daí a razão das ramificações de algumas das filhas em Vitória da Conquista, território baiano.
De todas as Marias, a mais parecida com Vovô Severo é a minha mãe. Nunca vi tão corajosa e dura na criação dos filhos. Papai não batia na gente, mas mamãe sim. Por isso, a gente morria de medo dela. Até hoje, quando ela dá uma ordem é para ser cumprida. Se não...
Mas tia Zezinha, que nos deixou, era a mais beata das seis Marias. Tanto que estudou apenas para ser professora de Religião. E assim ingressou na rede pública municipal, mas nunca deixou a máquina de costura de lado. Formou uma família bonita e feliz, era alegue e divertida. Deixa muita saudade.
Na vida, com o passar dos tempos, a gente vai desenhando como um escultor os quadros com linha, como verdadeiras bordadeiras. O quadro da minha linha de vida retrata uma família que, apesar de todas as adversidades do sertão, soube ser feliz. E isso é o que importa!”
Magno Martins
Recife, 26 de julho de 2010
Que Vergonha, Governador! - Já cansei de bater na tecla, mas bem que o governador Eduardo Campos (PSB) poderia cumprir agenda de campanha nos próximos dias no Sertão do Pajeú. Mas, de carro, como faz o cidadão comum, e não de avião ou helicóptero, transportes que usa nos seus deslocamentos para áreas mais distantes.
O governador iria se deparar, certamente, com um cenário vergonhoso. Entre Albuquerque-Né e Afogados da Ingazeira, onde passei ontem, a estrada acabou. São apenas 40 km de buracos, de canto a canto. Estou fazendo figa para Eduardo andar ou tentar passar por ali de carro. Não vai conseguir!
Mas, seria ótimo, pois mandaria imediatamente tapar a buraqueira. Encontrei cenário igual no trecho de Serra Talhada para Afogados da Ingazeira. Ali, os acidentes se multiplicam e o governo não está nem aí. Que vergonha, governador!
"Estradas abandonadas - Se o governador não mandar tapar os buracos das estradas no sertão vai perder muito voto por lá, principalmente no Pajeú. Dois trechos estão intransitáveis: Serra Talhada a Afogados da Ingazeira, com pouco mais de 60 km, e Albuquerque Né para Afogados, com apenas 40 km. Uma vergonha!" (blogdomagno.com.br)
Magno Martins
Recife, 26 de julho de 2010
Bate-papo na calçada (A felicidade está nas coisas simples da vida)
Quando vou ao sertão adoro reviver os velhos e saudosos tempos de uma prosa na calçada, em noite enluarada. Trata-se de um hábito salutar e prazeroso, principalmente quando se restringe aos familiares e amigos próximos. Quem conhece a vida mansa do interior e os papos intermináveis nas calçadas sabe do que estou falando. E bate palmas.
Na última segunda-feira, matei a saudade de tudo isso em Afogados da Ingazeira, flagrada na lente do blogueiro sertanejo Itamar França, que passou por acaso na frente da casa dos meus pais Gastão e Margarida. Ao lado deles, do meu irmão Tasso e sua Leninha e minha irmã adotiva Fernandinha e seu filhote Antônio, superei o estresse do dia quente de trabalho no sertão. Foi uma noite inesquecível, apesar de calorenta.
Adoro conversar com meus pais na calçada. Aos 88 anos, papai continua mais sábio do que nunca. Dá lições de política que fico de queixo caído. Conversar com ele é comprar um passe para a universidade da vida. Telúrico, romântico e doce, ele vai divagando no passado da nossa convivência de pai e filho. Mas, antes da prosa, ele vai à cozinha e prepara uma irresistível paçoca enquanto mamãe dá o trato no arroz mexido e no xerem com bode cozido.
De pança cheia, é só estender as cadeiras na calçada é tome conversa! A vizinhança fica de orelha queimando. No sertão, ninguém resiste a uma falação sobre a vida alheia. Ficar papeando na calçada é tão antigo quanto à calça boca de sino, a brilhantina Glostora e o sapato cavalo de aço.
Quem se lembra dos apetrechos? Aqueles, claro, que já passaram dos 40, entraram na casa dos 50 e, principalmente, os sessentões. Quando a Jovem Guarda explodia no Rio com Roberto, Erasmo e Wanderléia, em Afogados da Ingazeira a gente dançava de rosto colado num clubinho chamado JAI. Não me pergunte o significado da sigla, não lembro e, na verdade, nunca procurei saber.
O sucessor do JAI é mais estranho ainda: Senzala. Não faça ilações com escravos nem negritude. Não tem nada a ver. O novo ponto de encontro dos embalos da noite coincidiu com a chegada do iê-iê-iê dos Beatles, adaptado para a nossa realidade por Renato e seus Blue Caps.
Ali, a gente tinha os mesmos sonhos embalados pelas guitarras elétricas, para quem gostava de dançar. E aos domingos, para quem gostava de uma diversão sadia, mais calma e cultural, pegava Waldecy Menezes com as suas tardes do Domingo Alegre. Waldecy foi um dos maiores talentos que conheci na adolescência.
Falava fluentemente inglês, francês e tinha uma base de latim, além de ser catedrático em História e OSPB. Na verdade, Waldecy era o nosso Chacrinha refinado, responsável pela revelação de muitos talentos, entre eles minha amiga Paizinha, a Maria da Paz, que ganhou o mundo e faz sucesso no Brasil.
Prosar na calçada, como se vê, nos leva a isso, a recordar tantas coisas boas, que nos fizeram felizes. Rubem Alves diz que a felicidade está nas coisas simples da vida. Já viu algo mais simples do que matar o tempo numa conversa no meio da rua, como se diz lá no sertão? A felicidade se conquista assim: diz o poeta que basta apenas olhar a vida com outros olhos, os olhos da simplicidade.
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 11 de março de 2010
Direto da minha Pasárgada: Feliz 2010
Cheguei, ontem, em Afogados da Ingazeira, a minha Pasárgada. Como faço há muito tempo, até mesmo durante os 20 anos em que me exilei voluntariamente em Brasília, passo o réveillon no aconchego da minha família, hoje por um motivo mais que especial: meus pais, Gastão Cerquinha, 87 anos, e Margarida Martins, 82 anos, comemoram bodas de diamante, 60 anos de amor.
O que é o amor? Diz o poeta que é “vida exuberante”. Segundo o apóstolo Paulo, o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece. Meus pais se entrelaçam na vida assim. Criaram nove filhos com muito amor e dedicação. Hoje, aliás, todos estão em Afogados da Ingazeira para beber da fonte, a fonte do prazer, da alegria, da felicidade real.
Tenho uma profunda devoção aos meus pais, constante fonte de inspiração. Meu pai começou vendendo banana nas feiras livres de Afogados, virou servidor público federal dos Correios, já foi dono de padaria, um dos maiores comerciantes da cidade e depois ingressou na política, sendo eleito vereador por quatro mandatos e vice-prefeito.
Olho meu pai como um espelho resplandecente. Por causa dele, que era um autodidata e concluiu o secundário já depois dos 50 anos, conheci o amor que uniu ele a minha mãe, primeiro, nos livros.
Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. E descobri que os livros eram um tapete mágico que me levavam instantaneamente a viajar pelo mundo. Lembro de Rubem Alves, que disse, certa vez, que, lendo, deixava de ser o menino pobre que era e se tornava menino rico de conhecimento.
Bodas de diamantes! Poucos têm igual privilégio. Machado de Assis dizia: “Regues uma planta e ela te presenteará uma bela flor. Meus pais foram regando e adubando o amor sabendo que as flores, seus filhos, brotariam. Diz a Bíblia: “Promovas a bondade e alcançarás, como fruto, a mão de Deus”.
O dom da vida está na arte de saber viver. No momento em que esperamos abrir a janela de um novo ano, motivo de tantas meditações no dia de hoje, recordo dos ensinamentos de infância convivendo com o meu pai no sertão. O sertão é a sua pátria, o seu reino, o seu tesouro, o seu porto seguro, o amor sem fingimento, a sua deusa de inspiração.
Foi na voz dele que ouvi pela primeira vez Luar do sertão, de Catulo da Paixão Cearense. “Oh! Que saudades! Do luar da minha terra/Lá na serra branqueando? Folhas secas pelo chão! Este luar cá da cidade/ Tão escuro não tem aquela saudade/ Do luar lá do sertão”.
Dizem que a virada do ano existe para que, forçosamente, deixemos para trás algumas coisas velhas, porque temos dificuldade de nos desapegar do passado.
Mas, como perder o elo de um passado tão belo? Drumonnd, o poeta que inventou o romantismo, dizia que as coisas não mudam simplesmente por “decreto de esperança”.
Volto a Rubem Alves: “Somos como um navio em que os detritos do mar vão se grudando, em meio a muito navegar. De tempos em tempos é preciso que o casco seja raspado, para voltar de novo e deslizar suave pelas águas”.
Vou brindar 2010 daqui, como matuto feliz, abraçado aos meus pais, com Aline Mariano, minha esposa, Magno Filho, a ponta de rama, de um ano e oito meses, mas também com a saudade de meus outros dois rebentos – Felipe e André Gustavo, que moram nos Estados Unidos. Só me resta matar a saudade deles abrindo a champanha do ano que floresce contemplando o esplendoroso luar de Catulo da Paixão Cearense
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 31 de dezembro de 2009
RÁDIO PAJEÚ - 50 ANOS DE SUCESSO!
Há muitas coisas na vida que a gente gostaria imensamente que a borracha do tempo não apagasse. No meu caso, por exemplo, quero preservar até o último suspiro em vida as lembranças dos meus anos dourados em Afogados da Ingazeira, que voaram na velocidade de um jato. A sensação mais real desse vôo bate à minha porta, sem pedir licença, com o cinqüentenário da Rádio Pajeú, cujas comemorações começam hoje. O tempo é o grande mestre da vida. Num belo poema, Drummond diz que cada um de nós tem um pedaço na terra em que nascemos, que, se bem regado, floresce e semeia a vida, mas com o tempo, também pode virar pedra.
No meu pedaço de terra em Afogados da Ingazeira esse pedaço de terra ainda não virou pedra, porque nele residem muitas boas recordações, entre elas a minha convivência diária, de amor bem curtido, com a Rádio Pajeú. Aliás, de tanto grudar os ouvidos no rádio, de calça curta e imberbe, parece que um raio se abriu à minha frente, despertando-me para o jornalismo.
Meu ídolo era o ídolo de todos os pajeuzeiros daquela época: Waldecy Xavier de Menezes, radialista, professor poliglota, poeta, escritor, enfim, uma figura encantadora, sedutora e apaixonante. Waldecy era o nosso Sílvio Santos, também.
Sim, porque ele criou, por muitos anos, com a sapiência e o talento que Deus lhe deu, o “Domingo alegre”, programa de auditório transmitido ao vivo pela Rádio Pajeú, sempre aos domingos, que fazia a alegria de todos nós, que vivíamos naquele mundo feliz, sem televisão, sem jornal, muitas vezes até sem energia, ilhados do mundo.
O “domingo alegre”, no auditório do velho e saudoso Cine São José, revelou talentos musicais, poetas, cantadores, entre tantos, Maria da Paz, a nossa Paizinha, que tanto sucesso faz no sul - maravilha.
Emissora pioneira no Sertão, graças aos caprichos e a obstinação de Dom Mota, a Pajeú serviu de laboratório para grandes nomes: Dinamérico Lopes, Ulisses Lima, Abílio Barbosa, José Tenório, Padre Assis, Barnabé, Toinho Xavier, Fernando Moraes, Roberval Medeiros, Miguel Alcântara, Naldinho Rodrigues, Antônio Medeiros, Juraci Torres, Luciete Martins, Rogério Oliveira, Marcone Edson, Fernando Pessoa, Wanderley Galdino, Carlos Pessoa e tantos outros que me fogem à memória.
Mas a trajetória de Waldecy, nascido na cidade de Nazaré da Mata e descoberto por Dom Mota, se confunde com os 50 anos da Rádio Pajeú. Tive a honra de ser aluno dele cursando o segundo grau em Afogados da Ingazeira. Suas aulas eram indescritíveis. Professor de História e Ciências Sociais, além de inglês, não recorria a um só livro como referência didática. Estava tudo armazenado na sua memória. Aliás, aquilo não era uma memória, mas um computador.
Waldecy, que é irmão do famoso maestro José Menezes, era um intelectual refinado, boêmio, apreciador de serestas em noites enluaradas do sertão, um apaixonado pelo sertão e sua gente simples. Quanto ele faz falta!
Mas, a Pajeú não vive do passado. Espelha-se lá atrás para construir o seu presente de atualidade e modernidade. Sem pieguismo nem paixões, talvez seja a emissora do Interior de Pernambuco com a mais completa programação de jornalismo, talentos que poderiam muito bem atuar em qualquer veículo do País, como Nill Júnior, diretor e apresentador do programa de maior audiência; Anchieta Santos, Aldo Vidal e Celso Brandão.
Fico feliz em ser parte deste sucesso da emissora, integrante da Rede Pernambucana de Rádios, canal em que apresento o programa Frente a Frente, de segunda-feira a sexta-feira, das 18 às 19 horas, com o companheiro Adriano Roberto.
Rubem Alves diz que, ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar. E o vemos então pela primeira vez. Para isso, caminhamos a vida inteira. Para chegar ao lugar de onde partimos. E, quando chegamos, é surpresa. È como se nunca o tivéssemos visto. Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros, olhos de velhice, de saudade.
Os 50 anos da Rádio Pajeú representam o reencontro com essa saudade gostosa! Saudade que o tempo nunca vai matar.
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 1º de outubro de 2009
RUMO AO CENTENÁRIO, PAPAI!
Hoje, meu pai Gastão Cerquinha está completando 87 primaveras. Havia programado passar o seu aniversário em Afogados da Ingazeira, a 386 km do Recife, no aconchego da nossa família. Mas, como tem um feriadão pela frente, preferi adiar um pouco a emoção de ficar ao seu lado nessa data tão especial. E vou por os pés na estrada na quinta-feira para matar a saudade dele e de minha mãe Margarida, a sua musa inspiradora.
Sertanejo de alma limpa e leve, telúrico, amante das noites de luas para uma boa prosa, meu pai é daqueles que têm pavor a festa de aniversário. Quer ser amigo dele? Não ligue para parabenizá-lo no dia 25 de abril, quando dá um passo à frente rumo à maturidade. E a eternidade!
Quando liguei, hoje cedo, sabendo dessa fama, provoquei: “Parabéns, rumo ao centenário”. “Se Deus quiser”, disse ele, rindo. Quanto mais o tempo voa mais vou descobrindo as virtudes do varão dos Fonseca e Martins. Nunca perde o bom humor. É eternamente jovial, revigorado. Como todo poeta, só gosta de falar de coisas boas.
O místico medieval Ângelus Silesius disse que o homem tem dois olhos. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino”. Para mim, os olhos do meu pai pintam o mundo de fora com as cores que moram dentro dele. Os olhos dele, certamente, são luminosos, só enxergam o mundo colorido.
Afinal, quem tem olhos de trevas vê o mundo negro. Nosso corpo é uma fronteira entre as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Minhas paisagens do meu passado dependente do meu pai em Afogados da Ingazeira nunca apagam. São nas horas do meu silêncio que escuto a voz dele, lá de longe.
Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito a ele, quando convivíamos, pai e filho, na infância e na adolescência, mas não consegui. As orações, quando as faço no dia-a-dia em reflexões que recarregam as minhas energias, põem música no meu silêncio até hoje.
Na contabilidade, meu pai não conhece divisão, só soma. Somou ao longo da vida uma legião de amigos e admiradores. Talvez dos filhos – são nove ao todo - eu seja um dos mais parecidos com ele. Herdei dele, aliás, o gosto pela escrita, pela poesia, pelo jornalismo e, sobretudo, pela política.
Meu pai faz política 24 horas por dia: a política partidária, a política da boa vizinhança, a política de receber bem e de dar atenção às pessoas. Se você não é adepto de uma mesa farta não vá a casa dele. Ele faz, com o seu jeito manso e agradável, você se empanturrar de tanto comer. É um anfitrião de mão cheia.
Aos 87 anos, meu pai dá lições a muito cabra besta, que aos 60 anos, acha que está velho. No momento, vive debruçado na escrita do seu terceiro livro sobre Afogados da Ingazeira. E quando o parabenizei, hoje cedo, ele foi logo me dizendo: “Arranje um espaçozinho no jornal para um artigo que fiz sobre os 100 anos de Afogados da Ingazeira”.
Este é meu pai! Precisa dizer mais alguma coisa?
Magno Martins
Recife, 25 de abril de 2009
Ao final de 2006, quando pisei em meu solo natal - Afogados da Ingazeira - para romper o ano com meus pais, produzi um artigo sobre o meu sertão, que o Diário de Pernambuco republicou em sua edição domingueira de 7 de janeiro. Fiquei impressionado e ao mesmo tempo muito feliz com a sua repercussão. Recebi diversos telefonemas, cartas e e-mails. Eliezer Germínio, que não recordo dos tempos passados lá na terrinha, enviou um dos textos mais emocionantes, que faço questão de publicá-lo na íntegra:
"Lendo, hoje, como costumeiramente faço, diariamente, nosso velho Diário, deparei-me com a Opinião do nobre Jornalista e conterrâneo Magno Martins sobre nossa querida Afogados da Ingazeira e suas 'Reminiscências do Meu Sertão'. Não pude deixar de me emocionar e de sentir uma enorme saudade de nossa terra natal. Foi duro segurar as lágrimas e a grande emoção daquelas recordações de um lugar e tempo que não voltam jamais. Suas palavras despertaram em mim uma grande nostalgia, ao relembrar como eram maravilhosos aqueles tempos na nossa querida Cidade, jogando aquelas peladas de futebol, apostando bola de gude ou 'chimbre' como chamávamos. Lembro-me dos anos dourados da década de 50, das primeiras aulas na 'Escolas Reunidas', no Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, da Professora Natércia Nogueira (você lembra, Magno?).
Como poderia esquecer o luar de nossa terra, da energia elétrica gerada pelo velho motor e que era desligada às 22h em ponto? Eu então, mais ainda Magno, por ter nascido e vivido meus primeiros 10 anos no sítio, ou na Fazenda Queimadas que seu pai Gastão Cerquinha adquiriu de minha mãe, após o falecimento do meu pai. Acredito que você, ainda pequeno, deve ter trilhado os mesmos caminhos que eu naquela Fazenda e seu famoso engenho de rapadura e mel, onde todos os afogadenses eram sempre bem recebidos pelos meus pais (João José e Carmélia - graças a Deus ainda viva). Realmente, naqueles confins e naquela época não havia televisão, e os jornais e as revistas O Cruzeiro ou Seleções, os Gibis de 'cowboys' chegavam no trem puxado pelas 'Marias Fumaça' e que chegavam do Recife, já tarde da noite. E os aparelhos de rádio RCA Victor que eram raridades e 'coisa de ricos'? Lembra dos carros da Cidade? As famosas 'fubicas' de seu pai, de Toreba, de Luiz Guaxinim, de Dr. Hermes e Da. Terezinha (estes, eram os 'ricões' da nossa Cidade, à época).
É, amigo, não havia luxos, riquezas ou modernidades, mas havia uma coisa que não se recupera nunca mais: a felicidade, a paz e aquela vida mansa e tranqüila que não existe mais em nenhum lugar do mundo. Quanta saudade do nosso engenho, onde no mês de julho inteiro as 'Queimadas' difundiam aquele cheiro adocicado e peculiar (Gastão e Dona Margarida devem ter levado você lá um dia!), com fartas doações de rapadura, 'batida', mel, alfenim, etc. Realmente, fomos felizes e somente hoje compreendemos que não sabíamos disso. Você só esqueceu de falar de uma coisa, amigo, ou de um lugar onde nos encontrávamos toda semana: a velha sala do querido Cine Pajeú, ou melhor, Cine Teatro Pajeú, onde assistíamos aos velhos faroestes com Rocky Lane, Roy Rogers e os famosos seriados da época (lembra disso?).
Nada contra São José, mas por que mudaram o nome de Cine Teatro Pajeú para Cine São José? Não dá para esquecer os 'velhos' amigos Virgílio Magro, Virgílio Gordão, Sílvio, Nilton César, Tarcisio e tantos outros que já não vejo mais há muitos e muitos anos. Ali, acredito, eramos uma enorme família que desfrutava do parentesco generalizado ou em amizades familiares que alcançavam muitas gerações. Lembro da imensa quantidade de tios, primos, e primas onde um grande percentual dos moradores daquele paraíso bucólico tinha no sobrenome a marca das famílias Siqueira, Mariano, Bitu, etc, todos meus parentes .
Por último, Magno, não deixaria de anotar que era assim uma espécie de 'afilhado' do seu pai Gastão, onde todos os sábados nos dirigíamos à Padaria dele para comprar pães e suas famosas 'bolachas canela' ainda hoje relembradas por minha mãe. Quantas saudades!"
ELIEZER GERMINIO.
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ROMÃO MARQUES
Lá se foi uma celebridade sertaneja da alegria - Morreu, hoje, Romão Marques dos Santos, 91 anos. Não é uma celebridade política para ocupar tanto destaque neste blog. Mas, peço a licença dos leitores para homenagear o personagem, celebridade lá nos rincões do meu Pajeú, entre Tabira, onde nasceu, e Afogados da Ingazeira, terra que se fez gente como alfaiate.
"Seu" Romão, como era conhecido, talvez tenha sido uma das pessoas de maior presença de espírito que já conheci no meu sertão. Um poeta nato, repentista dos bons. Fantástico contador de causos. Uma memória privilegiada. Como todo sertanejo que deixa o seu torrão para trás, sofreu e trabalhou duro. Para educar os filhos – seis ao todo - ele se refugiou no Recife, em meados dos anos 60. Na capital, continuou fazendo roupa, de paletó a gibão, com uma maestria de causar inveja. Mas, sabendo que a mulher era uma exímia cozinheira, abriu uma hospedaria, que mais tarde ganhou fama entre os matutos como a "Pensão de Dona Salvina".
Estudante no Recife, fui hóspede do casal por várias vezes. Aliás, cheguei a morar uma temporada lá. A pensão ainda funciona hoje, na Rua de Santa Cruz, no velho e tradicional Pátio de Santa Cruz, sem ter mais, claro, o charme e o movimento de 30 anos atrás. Dela, "seu" Romão tirou o sustento, trabalhando dia e noite, com um único objetivo: abrir a janela do conhecimento para seus filhos. Dois deles viraram médicos e três, engenheiros. Era o grande orgulho dele: ter formado os filhos.
"Seu" Romão era um homem bem-humorado, mas ao mesmo tempo rude. Um personagem folclórico. Morria de medo de dona Salvina, que é braba feita um siri na lata. Amante da poesia, Romão esquecia do tempo declamando versos, fazendo repentes e contando as estórias mais engraçadas da política e da gente sertaneja. De repente, dona Salvina tacava-lhe um puxão de orelha, no meio da freguesia, porque o tempo havia passado e ele esquecido de entregar as marmitas. As marmitas, sim! Seu Romão não pagava aos moleques para fazer a entrega da clientela. Ele mesmo ia lá, de casa em casa, entregar a saborosa comida de Dona Salvina. Como os clientes sabiam que ele adorava uma prosa, sempre pediam para contar piadas e causos novos. E aí, tome atraso e puxão de orelha, novamente, de dona Salvina.
Seu Romão também gostava de fazer umas presepadas. Certa vez, perdeu a paciência com um gato que vivia de arrego na pensão, comprou um caixote e remeteu o animal para Afogados da Ingazeira, num ônibus da antiga empresa Progresso. Ao cobrador, deu uma gorjeta e fez a recomendação: entregar a Guardiato Veras, que, na realidade, era um velho companheiro de infância, que continuou morando em Afogados da Ingazeira. Guardiato tomou um tremendo susto ao abrir a encomenda, mas se divertiu, depois, com um telefonema do amigo.
O velho Romão fazia versos de tudo e com todos. Distante do sertão, a grande paixão de sua vida, matava a saudade com os fregueses da pensão, igualmente folclóricos e matutos como ele. Viveu a vida inteira assim: fazendo molecagem. Era um velho jovem, um moleque que o tempo nunca conseguiu destruir.
Um dos seus filhos, o médico Djalma Marques, que é um grande violinista, com prêmios internacionais, herdou a veia poética do pai. Djalma tem uma coleção de estórias vividas por 'Seu' Romão que parecem mentiras. Tem, também, um arquivo das suas poesias e versos. Seu desejo é juntar tudo isso num livro, idéia fantástica. Vamos aguardar! Não sei se o velho Romão pediu aos filhos, mas no seu jazigo deveria ser posto, hoje: "Aqui jaz um homem que viveu feliz, alegrando a humanidade".
Magno Martins
Recife, PE - 09/02/2007
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