MAGNO MARTINS
Jornalista e blogueiro afogadense
Maria José Martins de Brito
“Perdi, sexta-feira passada, minha tia Maria José Martins, a Zezinha, irmã de mamãe. Lá se foi a segunda Maria das seis por parte de mãe – a outra que já havia partido para a eternidade se chamava Maria de Lourdes. Restam as quatro Marias – Margarida, minha mãe, Maria Luiza, esta residente no Recife; Maria Lídia, que mora em Vitória da Conquista e Maria do Carmo, que já viveu muito tempo também em Conquista, mas se fixou em Afogados.
De tia Zezinha tenho boas recordações. Costureira de mão cheia, fazia minhas roupas de fim de ano e também as do meu mano Marcelo. Naquele tempo havia uma tradição da família usar roupas iguais, como se fosse farda. Marcelo e eu formávamos, assim, o chamado par de jarros.
Tia Zezinha só entregava “os jarros” no dia da festa de fim de ano ou no Natal. Se entregasse antes, dizia ela, o rompimento do ano perdia a sua graça. Tinha que celebrar de roupa nova, todos os filhos iguais, perfilados diante dos pais. Tia Zezinha caprichava em cores fortes e fazia questão de ver a gente perfumado e com brilhantina.
As seis Marias são muito parecidas. Têm traços indígenas. Tia Lourdes, por exemplo, era a que mais tinha semelhanças com índio. E por viver muito isolada no sitio tinha, igualmente, hábitos indígenas, sabendo muito mal assinar o nome. Todas elas, inclusive a minha mãe, puxaram muito ao pai Severo Martins, meu avô.
Vovô Severo era um homem de forte personalidade. Carrancudo, nunca levou desaforo para casa. Era um homem valente, destemido. Analfabeto, ganhou o pão como motorista de caminhão. Daí a razão das ramificações de algumas das filhas em Vitória da Conquista, território baiano.
De todas as Marias, a mais parecida com Vovô Severo é a minha mãe. Nunca vi tão corajosa e dura na criação dos filhos. Papai não batia na gente, mas mamãe sim. Por isso, a gente morria de medo dela. Até hoje, quando ela dá uma ordem é para ser cumprida. Se não...
Mas tia Zezinha, que nos deixou, era a mais beata das seis Marias. Tanto que estudou apenas para ser professora de Religião. E assim ingressou na rede pública municipal, mas nunca deixou a máquina de costura de lado. Formou uma família bonita e feliz, era alegue e divertida. Deixa muita saudade.
Na vida, com o passar dos tempos, a gente vai desenhando como um escultor os quadros com linha, como verdadeiras bordadeiras. O quadro da minha linha de vida retrata uma família que, apesar de todas as adversidades do sertão, soube ser feliz. E isso é o que importa!”
Magno Martins
Recife, 26 de julho de 2010
E, para chegar a Afogados da Ingazeira teve, também, que percorrer a via-crúcis - os 40km a partir do marco-zero da PE-292 (Albuquerque-Né).
"Que Vergonha, Governador! - Já cansei de bater na tecla, mas bem que o governador Eduardo Campos (PSB) poderia cumprir agenda de campanha nos próximos dias no Sertão do Pajeú. Mas, de carro, como faz o cidadão comum, e não de avião ou helicóptero, transportes que usa nos seus deslocamentos para áreas mais distantes.
O governador iria se deparar, certamente, com um cenário vergonhoso. Entre Albuquerquené e Afogados da Ingazeira, onde passei ontem, a estrada acabou. São apenas 40 km de buracos, de canto a canto. Estou fazendo figa para Eduardo andar ou tentar passar por ali de carro. Não vai conseguir!
Mas, seria ótimo, pois mandaria imediatamente tapar a buraqueira. Encontrei cenário igual no trecho de Serra Talhada para Afogados da Ingazeira. Ali, os acidentes se multiplicam e o governo não está nem aí. Que vergonha, governador!
"Estradas abandonadas - Se o governador não mandar tapar os buracos das estradas no sertão vai perder muito voto por lá, principalmente no Pajeú. Dois trechos estão intransitáveis: Serra Talhada a Afogados da Ingazeira, com pouco mais de 60 km, e Albuquerque Né para Afogados, com apenas 40 km. Uma vergonha!" (blogdomagno.com.br)
Magno Martins
Recife, 26 de julho de 2010
Bate-papo na calçada (A felicidade está nas coisas simples da vida)
Quando vou ao sertão adoro reviver os velhos e saudosos tempos de uma prosa na calçada, em noite enluarada. Trata-se de um hábito salutar e prazeroso, principalmente quando se restringe aos familiares e amigos próximos. Quem conhece a vida mansa do interior e os papos intermináveis nas calçadas sabe do que estou falando. E bate palmas.
Na última segunda-feira, matei a saudade de tudo isso em Afogados da Ingazeira, flagrada na lente do blogueiro sertanejo Itamar França, que passou por acaso na frente da casa dos meus pais Gastão e Margarida. Ao lado deles, do meu irmão Tasso e sua Leninha e minha irmã adotiva Fernandinha e seu filhote Antônio, superei o estresse do dia quente de trabalho no sertão. Foi uma noite inesquecível, apesar de calorenta.
Adoro conversar com meus pais na calçada. Aos 88 anos, papai continua mais sábio do que nunca. Dá lições de política que fico de queixo caído. Conversar com ele é comprar um passe para a universidade da vida. Telúrico, romântico e doce, ele vai divagando no passado da nossa convivência de pai e filho. Mas, antes da prosa, ele vai à cozinha e prepara uma irresistível paçoca enquanto mamãe dá o trato no arroz mexido e no xerem com bode cozido.
De pança cheia, é só estender as cadeiras na calçada é tome conversa! A vizinhança fica de orelha queimando. No sertão, ninguém resiste a uma falação sobre a vida alheia. Ficar papeando na calçada é tão antigo quanto à calça boca de sino, a brilhantina Glostora e o sapato cavalo de aço.
Quem se lembra dos apetrechos? Aqueles, claro, que já passaram dos 40, entraram na casa dos 50 e, principalmente, os sessentões. Quando a Jovem Guarda explodia no Rio com Roberto, Erasmo e Wanderléia, em Afogados da Ingazeira a gente dançava de rosto colado num clubinho chamado JAI. Não me pergunte o significado da sigla, não lembro e, na verdade, nunca procurei saber.
O sucessor do JAI é mais estranho ainda: Senzala. Não faça ilações com escravos nem negritude. Não tem nada a ver. O novo ponto de encontro dos embalos da noite coincidiu com a chegada do iê-iê-iê dos Beatles, adaptado para a nossa realidade por Renato e seus Blue Caps.
Ali, a gente tinha os mesmos sonhos embalados pelas guitarras elétricas, para quem gostava de dançar. E aos domingos, para quem gostava de uma diversão sadia, mais calma e cultural, pegava Waldecy Menezes com as suas tardes do Domingo Alegre. Waldecy foi um dos maiores talentos que conheci na adolescência.
Falava fluentemente inglês, francês e tinha uma base de latim, além de ser catedrático em História e OSPB. Na verdade, Waldecy era o nosso Chacrinha refinado, responsável pela revelação de muitos talentos, entre eles minha amiga Paizinha, a Maria da Paz, que ganhou o mundo e faz sucesso no Brasil.
Prosar na calçada, como se vê, nos leva a isso, a recordar tantas coisas boas, que nos fizeram felizes. Rubem Alves diz que a felicidade está nas coisas simples da vida. Já viu algo mais simples do que matar o tempo numa conversa no meio da rua, como se diz lá no sertão? A felicidade se conquista assim: diz o poeta que basta apenas olhar a vida com outros olhos, os olhos da simplicidade.
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 11 de março de 2010
Direto da minha Pasárgada: Feliz 2010
Cheguei, ontem, em Afogados da Ingazeira, a minha Pasárgada. Como faço há muito tempo, até mesmo durante os 20 anos em que me exilei voluntariamente em Brasília, passo o réveillon no aconchego da minha família, hoje por um motivo mais que especial: meus pais, Gastão Cerquinha, 87 anos, e Margarida Martins, 82 anos, comemoram bodas de diamante, 60 anos de amor.
O que é o amor? Diz o poeta que é “vida exuberante”. Segundo o apóstolo Paulo, o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece. Meus pais se entrelaçam na vida assim. Criaram nove filhos com muito amor e dedicação. Hoje, aliás, todos estão em Afogados da Ingazeira para beber da fonte, a fonte do prazer, da alegria, da felicidade real.
Tenho uma profunda devoção aos meus pais, constante fonte de inspiração. Meu pai começou vendendo banana nas feiras livres de Afogados, virou servidor público federal dos Correios, já foi dono de padaria, um dos maiores comerciantes da cidade e depois ingressou na política, sendo eleito vereador por quatro mandatos e vice-prefeito.
Olho meu pai como um espelho resplandecente. Por causa dele, que era um autodidata e concluiu o secundário já depois dos 50 anos, conheci o amor que uniu ele a minha mãe, primeiro, nos livros.
Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. E descobri que os livros eram um tapete mágico que me levavam instantaneamente a viajar pelo mundo. Lembro de Rubem Alves, que disse, certa vez, que, lendo, deixava de ser o menino pobre que era e se tornava menino rico de conhecimento.
Bodas de diamantes! Poucos têm igual privilégio. Machado de Assis dizia: “Regues uma planta e ela te presenteará uma bela flor. Meus pais foram regando e adubando o amor sabendo que as flores, seus filhos, brotariam. Diz a Bíblia: “Promovas a bondade e alcançarás, como fruto, a mão de Deus”.
O dom da vida está na arte de saber viver. No momento em que esperamos abrir a janela de um novo ano, motivo de tantas meditações no dia de hoje, recordo dos ensinamentos de infância convivendo com o meu pai no sertão. O sertão é a sua pátria, o seu reino, o seu tesouro, o seu porto seguro, o amor sem fingimento, a sua deusa de inspiração.
Foi na voz dele que ouvi pela primeira vez Luar do sertão, de Catulo da Paixão Cearense. “Oh! Que saudades! Do luar da minha terra/Lá na serra branqueando? Folhas secas pelo chão! Este luar cá da cidade/ Tão escuro não tem aquela saudade/ Do luar lá do sertão”.
Dizem que a virada do ano existe para que, forçosamente, deixemos para trás algumas coisas velhas, porque temos dificuldade de nos desapegar do passado.
Mas, como perder o elo de um passado tão belo? Drumonnd, o poeta que inventou o romantismo, dizia que as coisas não mudam simplesmente por “decreto de esperança”.
Volto a Rubem Alves: “Somos como um navio em que os detritos do mar vão se grudando, em meio a muito navegar. De tempos em tempos é preciso que o casco seja raspado, para voltar de novo e deslizar suave pelas águas”.
Vou brindar 2010 daqui, como matuto feliz, abraçado aos meus pais, com Aline Mariano, minha esposa, Magno Filho, a ponta de rama, de um ano e oito meses, mas também com a saudade de meus outros dois rebentos – Felipe e André Gustavo, que moram nos Estados Unidos. Só me resta matar a saudade deles abrindo a champanha do ano que floresce contemplando o esplendoroso luar de Catulo da Paixão Cearense
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 31 de dezembro de 2009
RÁDIO PAJEÚ - 50 ANOS DE SUCESSO!
Há muitas coisas na vida que a gente gostaria imensamente que a borracha do tempo não apagasse. No meu caso, por exemplo, quero preservar até o último suspiro em vida as lembranças dos meus anos dourados em Afogados da Ingazeira, que voaram na velocidade de um jato. A sensação mais real desse vôo bate à minha porta, sem pedir licença, com o cinqüentenário da Rádio Pajeú, cujas comemorações começam hoje. O tempo é o grande mestre da vida. Num belo poema, Drummond diz que cada um de nós tem um pedaço na terra em que nascemos, que, se bem regado, floresce e semeia a vida, mas com o tempo, também pode virar pedra.
No meu pedaço de terra em Afogados da Ingazeira esse pedaço de terra ainda não virou pedra, porque nele residem muitas boas recordações, entre elas a minha convivência diária, de amor bem curtido, com a Rádio Pajeú. Aliás, de tanto grudar os ouvidos no rádio, de calça curta e imberbe, parece que um raio se abriu à minha frente, despertando-me para o jornalismo.
Meu ídolo era o ídolo de todos os pajeuzeiros daquela época: Waldecy Xavier de Menezes, radialista, professor poliglota, poeta, escritor, enfim, uma figura encantadora, sedutora e apaixonante. Waldecy era o nosso Sílvio Santos, também.
Sim, porque ele criou, por muitos anos, com a sapiência e o talento que Deus lhe deu, o “Domingo alegre”, programa de auditório transmitido ao vivo pela Rádio Pajeú, sempre aos domingos, que fazia a alegria de todos nós, que vivíamos naquele mundo feliz, sem televisão, sem jornal, muitas vezes até sem energia, ilhados do mundo.
O “domingo alegre”, no auditório do velho e saudoso Cine São José, revelou talentos musicais, poetas, cantadores, entre tantos, Maria da Paz, a nossa Paizinha, que tanto sucesso faz no sul - maravilha.
Emissora pioneira no Sertão, graças aos caprichos e a obstinação de Dom Mota, a Pajeú serviu de laboratório para grandes nomes: Dinamérico Lopes, Ulisses Lima, Abílio Barbosa, José Tenório, Padre Assis, Barnabé, Toinho Xavier, Fernando Moraes, Roberval Medeiros, Miguel Alcântara, Naldinho Rodrigues, Antônio Medeiros, Juraci Torres, Luciete Martins, Rogério Oliveira, Marcone Edson, Fernando Pessoa, Wanderley Galdino, Carlos Pessoa e tantos outros que me fogem à memória.
Mas a trajetória de Waldecy, nascido na cidade de Nazaré da Mata e descoberto por Dom Mota, se confunde com os 50 anos da Rádio Pajeú. Tive a honra de ser aluno dele cursando o segundo grau em Afogados da Ingazeira. Suas aulas eram indescritíveis. Professor de História e Ciências Sociais, além de inglês, não recorria a um só livro como referência didática. Estava tudo armazenado na sua memória. Aliás, aquilo não era uma memória, mas um computador.
Waldecy, que é irmão do famoso maestro José Menezes, era um intelectual refinado, boêmio, apreciador de serestas em noites enluaradas do sertão, um apaixonado pelo sertão e sua gente simples. Quanto ele faz falta!
Mas, a Pajeú não vive do passado. Espelha-se lá atrás para construir o seu presente de atualidade e modernidade. Sem pieguismo nem paixões, talvez seja a emissora do Interior de Pernambuco com a mais completa programação de jornalismo, talentos que poderiam muito bem atuar em qualquer veículo do País, como Nill Júnior, diretor e apresentador do programa de maior audiência; Anchieta Santos, Aldo Vidal e Celso Brandão.
Fico feliz em ser parte deste sucesso da emissora, integrante da Rede Pernambucana de Rádios, canal em que apresento o programa Frente a Frente, de segunda-feira a sexta-feira, das 18 às 19 horas, com o companheiro Adriano Roberto.
Rubem Alves diz que, ao final de nossas longas andanças, chegamos finalmente ao lugar. E o vemos então pela primeira vez. Para isso, caminhamos a vida inteira. Para chegar ao lugar de onde partimos. E, quando chegamos, é surpresa. È como se nunca o tivéssemos visto. Agora, ao final de nossas andanças, nossos olhos são outros, olhos de velhice, de saudade.
Os 50 anos da Rádio Pajeú representam o reencontro com essa saudade gostosa! Saudade que o tempo nunca vai matar.
Magno Martins
Afogados da Ingazeira, 1º de outubro de 2009
RUMO AO CENTENÁRIO, PAPAI!
Hoje, meu pai Gastão Cerquinha está completando 87 primaveras. Havia programado passar o seu aniversário em Afogados da Ingazeira, a 386 km do Recife, no aconchego da nossa família. Mas, como tem um feriadão pela frente, preferi adiar um pouco a emoção de ficar ao seu lado nessa data tão especial. E vou por os pés na estrada na quinta-feira para matar a saudade dele e de minha mãe Margarida, a sua musa inspiradora.
Sertanejo de alma limpa e leve, telúrico, amante das noites de luas para uma boa prosa, meu pai é daqueles que têm pavor a festa de aniversário. Quer ser amigo dele? Não ligue para parabenizá-lo no dia 25 de abril, quando dá um passo à frente rumo à maturidade. E a eternidade!
Quando liguei, hoje cedo, sabendo dessa fama, provoquei: “Parabéns, rumo ao centenário”. “Se Deus quiser”, disse ele, rindo. Quanto mais o tempo voa mais vou descobrindo as virtudes do varão dos Fonseca e Martins. Nunca perde o bom humor. É eternamente jovial, revigorado. Como todo poeta, só gosta de falar de coisas boas.
O místico medieval Ângelus Silesius disse que o homem tem dois olhos. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino”. Para mim, os olhos do meu pai pintam o mundo de fora com as cores que moram dentro dele. Os olhos dele, certamente, são luminosos, só enxergam o mundo colorido.
Afinal, quem tem olhos de trevas vê o mundo negro. Nosso corpo é uma fronteira entre as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Minhas paisagens do meu passado dependente do meu pai em Afogados da Ingazeira nunca apagam. São nas horas do meu silêncio que escuto a voz dele, lá de longe.
Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito a ele, quando convivíamos, pai e filho, na infância e na adolescência, mas não consegui. As orações, quando as faço no dia-a-dia em reflexões que recarregam as minhas energias, põem música no meu silêncio até hoje.
Na contabilidade, meu pai não conhece divisão, só soma. Somou ao longo da vida uma legião de amigos e admiradores. Talvez dos filhos – são nove ao todo - eu seja um dos mais parecidos com ele. Herdei dele, aliás, o gosto pela escrita, pela poesia, pelo jornalismo e, sobretudo, pela política.
Meu pai faz política 24 horas por dia: a política partidária, a política da boa vizinhança, a política de receber bem e de dar atenção às pessoas. Se você não é adepto de uma mesa farta não vá a casa dele. Ele faz, com o seu jeito manso e agradável, você se empanturrar de tanto comer. É um anfitrião de mão cheia.
Aos 87 anos, meu pai dá lições a muito cabra besta, que aos 60 anos, acha que está velho. No momento, vive debruçado na escrita do seu terceiro livro sobre Afogados da Ingazeira. E quando o parabenizei, hoje cedo, ele foi logo me dizendo: “Arranje um espaçozinho no jornal para um artigo que fiz sobre os 100 anos de Afogados da Ingazeira”.
Este é meu pai! Precisa dizer mais alguma coisa?
Magno Martins
Recife, 25 de abril de 2009
Ao final de 2006, quando pisei em meu solo natal - Afogados da Ingazeira - para romper o ano com meus pais, produzi um artigo sobre o meu sertão, que o Diário de Pernambuco republicou em sua edição domingueira de 7 de janeiro. Fiquei impressionado e ao mesmo tempo muito feliz com a sua repercussão. Recebi diversos telefonemas, cartas e e-mails. Eliezer Germínio, que não recordo dos tempos passados lá na terrinha, enviou um dos textos mais emocionantes, que faço questão de publicá-lo na íntegra:
"Lendo, hoje, como costumeiramente faço, diariamente, nosso velho Diário, deparei-me com a Opinião do nobre Jornalista e conterrâneo Magno Martins sobre nossa querida Afogados da Ingazeira e suas 'Reminiscências do Meu Sertão'. Não pude deixar de me emocionar e de sentir uma enorme saudade de nossa terra natal. Foi duro segurar as lágrimas e a grande emoção daquelas recordações de um lugar e tempo que não voltam jamais. Suas palavras despertaram em mim uma grande nostalgia, ao relembrar como eram maravilhosos aqueles tempos na nossa querida Cidade, jogando aquelas peladas de futebol, apostando bola de gude ou 'chimbre' como chamávamos. Lembro-me dos anos dourados da década de 50, das primeiras aulas na 'Escolas Reunidas', no Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, da Professora Natércia Nogueira (você lembra, Magno?).
Como poderia esquecer o luar de nossa terra, da energia elétrica gerada pelo velho motor e que era desligada às 22h em ponto? Eu então, mais ainda Magno, por ter nascido e vivido meus primeiros 10 anos no sítio, ou na Fazenda Queimadas que seu pai Gastão Cerquinha adquiriu de minha mãe, após o falecimento do meu pai. Acredito que você, ainda pequeno, deve ter trilhado os mesmos caminhos que eu naquela Fazenda e seu famoso engenho de rapadura e mel, onde todos os afogadenses eram sempre bem recebidos pelos meus pais (João José e Carmélia - graças a Deus ainda viva). Realmente, naqueles confins e naquela época não havia televisão, e os jornais e as revistas O Cruzeiro ou Seleções, os Gibis de 'cowboys' chegavam no trem puxado pelas 'Marias Fumaça' e que chegavam do Recife, já tarde da noite. E os aparelhos de rádio RCA Victor que eram raridades e 'coisa de ricos'? Lembra dos carros da Cidade? As famosas 'fubicas' de seu pai, de Toreba, de Luiz Guaxinim, de Dr. Hermes e Da. Terezinha (estes, eram os 'ricões' da nossa Cidade, à época).
É, amigo, não havia luxos, riquezas ou modernidades, mas havia uma coisa que não se recupera nunca mais: a felicidade, a paz e aquela vida mansa e tranqüila que não existe mais em nenhum lugar do mundo. Quanta saudade do nosso engenho, onde no mês de julho inteiro as 'Queimadas' difundiam aquele cheiro adocicado e peculiar (Gastão e Dona Margarida devem ter levado você lá um dia!), com fartas doações de rapadura, 'batida', mel, alfenim, etc. Realmente, fomos felizes e somente hoje compreendemos que não sabíamos disso. Você só esqueceu de falar de uma coisa, amigo, ou de um lugar onde nos encontrávamos toda semana: a velha sala do querido Cine Pajeú, ou melhor, Cine Teatro Pajeú, onde assistíamos aos velhos faroestes com Rocky Lane, Roy Rogers e os famosos seriados da época (lembra disso?).
Nada contra São José, mas por que mudaram o nome de Cine Teatro Pajeú para Cine São José? Não dá para esquecer os 'velhos' amigos Virgílio Magro, Virgílio Gordão, Sílvio, Nilton César, Tarcisio e tantos outros que já não vejo mais há muitos e muitos anos. Ali, acredito, eramos uma enorme família que desfrutava do parentesco generalizado ou em amizades familiares que alcançavam muitas gerações. Lembro da imensa quantidade de tios, primos, e primas onde um grande percentual dos moradores daquele paraíso bucólico tinha no sobrenome a marca das famílias Siqueira, Mariano, Bitu, etc, todos meus parentes .
Por último, Magno, não deixaria de anotar que era assim uma espécie de 'afilhado' do seu pai Gastão, onde todos os sábados nos dirigíamos à Padaria dele para comprar pães e suas famosas 'bolachas canela' ainda hoje relembradas por minha mãe. Quantas saudades!"
ELIEZER GERMINIO.
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ROMÃO MARQUES
Lá se foi uma celebridade sertaneja da alegria - Morreu, hoje, Romão Marques dos Santos, 91 anos. Não é uma celebridade política para ocupar tanto destaque neste blog. Mas, peço a licença dos leitores para homenagear o personagem, celebridade lá nos rincões do meu Pajeú, entre Tabira, onde nasceu, e Afogados da Ingazeira, terra que se fez gente como alfaiate.
"Seu" Romão, como era conhecido, talvez tenha sido uma das pessoas de maior presença de espírito que já conheci no meu sertão. Um poeta nato, repentista dos bons. Fantástico contador de causos. Uma memória privilegiada. Como todo sertanejo que deixa o seu torrão para trás, sofreu e trabalhou duro. Para educar os filhos – seis ao todo - ele se refugiou no Recife, em meados dos anos 60. Na capital, continuou fazendo roupa, de paletó a gibão, com uma maestria de causar inveja. Mas, sabendo que a mulher era uma exímia cozinheira, abriu uma hospedaria, que mais tarde ganhou fama entre os matutos como a "Pensão de Dona Salvina".
Estudante no Recife, fui hóspede do casal por várias vezes. Aliás, cheguei a morar uma temporada lá. A pensão ainda funciona hoje, na Rua de Santa Cruz, no velho e tradicional Pátio de Santa Cruz, sem ter mais, claro, o charme e o movimento de 30 anos atrás. Dela, "seu" Romão tirou o sustento, trabalhando dia e noite, com um único objetivo: abrir a janela do conhecimento para seus filhos. Dois deles viraram médicos e três, engenheiros. Era o grande orgulho dele: ter formado os filhos.
"Seu" Romão era um homem bem-humorado, mas ao mesmo tempo rude. Um personagem folclórico. Morria de medo de dona Salvina, que é braba feita um siri na lata. Amante da poesia, Romão esquecia do tempo declamando versos, fazendo repentes e contando as estórias mais engraçadas da política e da gente sertaneja. De repente, dona Salvina tacava-lhe um puxão de orelha, no meio da freguesia, porque o tempo havia passado e ele esquecido de entregar as marmitas. As marmitas, sim! Seu Romão não pagava aos moleques para fazer a entrega da clientela. Ele mesmo ia lá, de casa em casa, entregar a saborosa comida de Dona Salvina. Como os clientes sabiam que ele adorava uma prosa, sempre pediam para contar piadas e causos novos. E aí, tome atraso e puxão de orelha, novamente, de dona Salvina.
Seu Romão também gostava de fazer umas presepadas. Certa vez, perdeu a paciência com um gato que vivia de arrego na pensão, comprou um caixote e remeteu o animal para Afogados da Ingazeira, num ônibus da antiga empresa Progresso. Ao cobrador, deu uma gorjeta e fez a recomendação: entregar a Guardiato Veras, que, na realidade, era um velho companheiro de infância, que continuou morando em Afogados da Ingazeira. Guardiato tomou um tremendo susto ao abrir a encomenda, mas se divertiu, depois, com um telefonema do amigo.
O velho Romão fazia versos de tudo e com todos. Distante do sertão, a grande paixão de sua vida, matava a saudade com os fregueses da pensão, igualmente folclóricos e matutos como ele. Viveu a vida inteira assim: fazendo molecagem. Era um velho jovem, um moleque que o tempo nunca conseguiu destruir.
Um dos seus filhos, o médico Djalma Marques, que é um grande violinista, com prêmios internacionais, herdou a veia poética do pai. Djalma tem uma coleção de estórias vividas por 'Seu' Romão que parecem mentiras. Tem, também, um arquivo das suas poesias e versos. Seu desejo é juntar tudo isso num livro, idéia fantástica. Vamos aguardar! Não sei se o velho Romão pediu aos filhos, mas no seu jazigo deveria ser posto, hoje: "Aqui jaz um homem que viveu feliz, alegrando a humanidade".
Magno Martins
Recife, PE - 09/02/2007
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