AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje

CRÔNICAS / POESIAS / OPINIÃO

LUCIANO CAMPOS BEZERRA

Advogado e cronista afogadense

 

 

 

 

 

Princesa Desgrenhada
ou Gata Borralheira...

A tarde estava quente, apesar do sol do ocaso já se prenunciar com o firmamento recebendo os matizes avermelhados de tons deslumbrantes. Eu me encontrava na Praça Mons. Arruda Câmara em companhia de Tarcísio Sá e lhe mostrava a escultura do Edierk que retrata o casal que deu origem ao nome de nossa cidade.
Logo depois se aproximou um casal de visitantes e me indagou sobre aquelas colunas deixadas ao descaso; algumas contendo plaquetas com sonetos que falam de um coreto. Tentei lhes explicar o que deveria ser aquilo, porém não pude evitar o constrangimento. Como dizer para aquelas pessoas que aquilo é uma homenagem ao passado de Afogados e que aqueles versos são de autoria dos nossos geniais poetas. Numa das colunas jogadas ao desprezo encontra-se uma plaqueta com um soneto de ninguém menos que Dedé Monteiro, premiado recentemente e reconhecido, mais uma vez, em âmbito internacional; agora oficialmente.

O que não pensaram eles, ao verem como tratamos nossa memória cultural. A prova está ali; desde a primeira gestão do Governo Municipal que aí está, o Secretario - de não sei o quê - promete que irá construir uma base ou coisa semelhante para acondicionar aqueles fragmentos que lembram o saudoso coreto, tão reclamado pelos que viveram a Afogados da Ingazeira de outrora, inclusive ele, o secretário Carlos Rabelo. E a mulher, admirada com aqueles “restos de história”, nos disse que já morou em Afogados - décadas passadas – e relembrou fatos que ocorreram naquela praça, quando o coreto contribuía para a beleza daquele espaço.
Mentalmente fiquei pedindo que o casal não generalizasse o desprezo que o Governo Municipal continua a dar à nossa memória, como se fosse o sentimento de todo o povo desta cidade. E fiquei pensando que impressão levará aquela mulher e o seu marido das ruas da nossa Princesa do Pajeú, que está mais para Gata Borralheira.

Se compararmos nossa Afogados com o corpo humano, vem-nos o pavor diante do perigo iminente de um aneurisma, pois suas artérias estão obstruídas pelo trânsito caótico, como sempre. A cada dia a coisa fica pior, contrariando a tese do Tiririca. Aqui, Tiririca, cada dia que passa pior fica. O semblante da Princesa está horrível, com ruas esburacadas, um anel viário de obra interminável, uma sinalização do trânsito que nunca serviu para nada; foi uma maquiagem que fizeram no rosto da Princesa, mas que desbotou antes da festa começar. E a Princesa, na sua vaidade feminina, deve estar bastante triste, pois se aproxima o final de ano, época em que mais visitantes vêm lhe rever e a encontrarão envelhecida pelos maus tratos que lhe dá esse Governo que aí está.
As entradas que são os braços abertos da Princesa, continuam sujos; lixo por toda parte, empoeirados, causando uma péssima impressão aos que chegam para rever ou conhecer a Princesa do Pajeú.
E naquela tarde de constrangimento, restou-me ajoelhar com todo o respeito que merecem as coisas provindas do Criador do Universo e reverenciei o Soneto de Dedé Monteiro, que diz:
Volto feliz petrificando abraços / Contando histórias, revivendo o show
Pra que a memória imortalize os traços / Do meu formato que o tempo apagou
Volto na forma de humildes pedaços / Como um gigante que ressuscitou
E se deslumbra co’os velhos espaços / Que a mão da arte revalorizou

Mas também volto pra fazer tribuna
Deste humilde resto de coluna
Que é testemunha do meu triste fim
E numa frase suplicar ao povo
Que, independente, de aplaudir o novo
Honre a lembrança que restou de mim.

A nossa amargura é bem maior, porque o Governo Municipal tentou, por duas gestões, deixar a marca de uma administração: “Por amor a Afogados”. É com esse “amor estranho” que vemos nossos valores culturais jogados, desprezados, envergonhando aos que verdadeiramente amam esta terra, diante dos visitantes que levam uma péssima impressão daquilo que estão vendo.

E não é só isso... Tem muito mais...
Falta muito para transformar a Gata Borralheira de hoje na Princesa do Pajeú.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 17 de novembro de 2010

 

[Retornar ao MURAL]

 

 

Imagine o Brasil ser dividido
E o Nordeste ficar independente


A ideia discriminatória e separatista surgida no sul em detrimento do Nordeste, não é de hoje; há algum tempo tivemos o desprazer de ver uma corrente de sulistas defendendo a desagregação de nosso país, sob o pretexto de que o Nordeste seria um fardo pesado que o Brasil estaria suportando desde seu nascimento como Nação.

Com a mesma indignação de hoje, escrevi, naquela época, há cerca de 15 anos, para um Jornal, e depois fiz inserir em meu livro Relembrações . Hoje, transcrevo nesta página para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de ler nem o livro nem a minha opinião sobre o assunto:
Propaga-se aos quatro ventos, alto e bom som, que lá no sul do país surgiu a ideia estapafúrdia de um separatismo esdrúxulo com o objetivo de se desvincular o NORDESTE do restante do Brasil.
Seria a ideia original se não lembrasse o que ocorreu com a União Soviética. Os sulistas (daqui do Brasil) aceitaram a ideia, pois têm o preconceito de que o NORDESTE é um fardo pesado para eles. Esquecem, porém, que o NORDESTE é um celeiro de valores inexaurível - desde o mais modesto peão de obra até os mais privilegiados, intelectualmente.

A república e as letras jurídicas devem muito ao baiano Ruy Barbosa. A Ciência do Direito tem um marco inesquecível na Obra do alagoano - Pontes de Miranda.
Quem quiser conhecer as ruas ladeirosas de Salvador, quem quiser sentir a opulência do ciclo do cacau; quem pretender familiarizar-se com o acarajé, o caruru, o vatapá... basta “saborear” a Obra de JORGE AMADO que o mundo inteiro conhece.
Os terreiros de candomblé, as igrejas coloniais, a Baixa do Sapateiro, o sincretismo religioso, a Lagoa do Abaeté, tudo toma forma e beleza na sensibilidade poética de DORIVAL CAYMMI.

Nos tempos rumorosos da nefanda escravidão, alevantou-se em defesa do negro e da dignidade da negritude o condoreiro CASTRO ALVES.
E o NORDESTE, em todos os seus quadrantes, faz brotar poetas como brotam as ervas silvestres nas colinas.
Foi a saudade imorredoura que inspirou o vate GONÇALVES DIAS com pérolas como esta: “Minha terra tem palmeiras... onde canta o sabiá”.
E o Maranhão forjou no verdor dos buritis, babaçus e carnaúbas, ao depois, nos casarios seculares de São Luís, a personalidade de JOSUÉ MONTELLO.

E a intrépida Paraíba viu nascer gênios como: José Américo de Almeida, Epitácio Pessoa, Pedro Américo, Ronaldo Cunha Lima, Raimundo Asfora e tantos outros. Na aridez dos sertões esturricados, nasceu e cresceu nas plagas de Taperoá o “menino travesso” - ARIANO SUASSUNA - que se imortalizou com o AUTO DA COMPADECIDA e toda sua Obra, gravando seu nome com a mais intensa luminosidade nas ribaltas do mundo. E no ápice da pirâmide, podemos colocar AUGUSTO DOS ANJOS.

Do ranger das moendas, do cheiro doce do melaço, das toadas dos cambiteiros, da prepotência dos senhores feudais, da escravidão do homem pelo homem, do fausto da CASA GRANDE e da indigência da SENZALA - GILBERTO FREIRE - cunhou sua Obra sociológica fazendo Escola e mostrando, de forma cientifica, um mundo até então desconhecido.
E a cultura nordestina, a vida, os sonhos e penúrias de sua gente tiveram autentico porta-voz na pessoa de LUIZ GONZAGA, o matuto que transpôs as fronteiras do Araripe, de Pernambuco e é reconhecido pelo mundo. No seu encalço seguiram: Gonzaguinha, Elba Ramalho e tantos outros que dão continuidade ao trabalho do REI DO BAIÃO.

Este é o nosso NORDESTE cultural, não esquecendo os repentistas-violeiros que têm em PINTO DO MONTEIRO, CANCÃO, DIMAS, OTACÍLIO, LOURIVAL BATISTA, JÓ PATRIOTA, JOÃO PARAIBANO e SEBASTIÃO DIAS, para citar apenas estes, como os maiores expoentes da poesia improvisada.

Sem falsa modéstia, pode-se considerar o NORDESTE autossuficiente desde o sal de cozinhar até a matéria prima de alta tecnologia.
Ficando independente do Brasil o NORDESTE poderá até postular uma vaga como membro da OPEP. Petróleo o NORDESTE tem em Barreirinhas, no Maranhão e em Parnaíba, no Piauí. Como também se encontra no Recôncavo baiano. Faltando o petróleo, o NORDESTE tem como alternativa de combustível a cana-de-açúcar e, faltando esta, tem ainda a casca do coco babaçu, que é, comprovadamente, um excelente substituto dos derivados do petróleo.

Em síntese, o NORDESTE é um celeiro inesgotável de riquezas minerais, desde o metal nobre até as montanhas de ferro de Carajás.

Da mente privilegiada de DELMIRO GOUVEIA veio à luz a força indomável da hidrelétrica de PAULO AFONSO que ilumina e impulsiona o progresso do NORDESTE que abriga em suas entranhas o “Velho Chico” - o Rio de integração nacional. Mas o NORDESTE sempre tem um trunfo a mais e dispõe de Tucuruí, ali vizinho, e que faz parte da região que os sulistas querem se ver livres.

O NORDESTE que os sulistas tanto discriminam é, sem dúvida, uma potência emergente e que poderia ter outra condição de vida se não vivesse atrelado ao resto do país que só sabe sugar tudo desta nossa região. Não foi sem razão que o repentista-violeiro disse:
“Imagine o Brasil ser dividido / E o Nordeste ficar independente".

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 08 de novembro de 2010

 

 

Mayara Petruso
Imbecilidade + Alienação = Pústula Social


É bom saber que nós - nordestinos - não estamos sozinhos. Melhor ainda é ler e reler o que disse o Danizete em defesa dessa gente brava, ordeira e que sempre dignificou a História do Brasil. Danizete Siqueira é um Mestre das palavras: bom de verso e de verbo. Sua verve é brilhante em todos os sentidos da comunicação, seja na poesia ou na prosa. Não sei onde o Danizete domina melhor. Aliás, em ambas.

Degustei à saciedade e fico admirando sua fluência verbal e leveza ao tratar assunto de tamanha profundidade, sem ser enfadonho. Pelo contrário, é atrativo. Coisa de poeta nordestino que sabe o que diz e como dizer.

Já a - Mayara Petruso - uma “estudantezinha de mente miúda”, nos leva à conclusão que são pessoas com essa índole que ao saírem da Faculdade - muitas delas meros balcões de vender diplomas - que denigrem a NOBILÍSSIMA (ela sabe o que é isso) missão do advogado.
Não conheço essa moça (nem pretendo), mas tenho certeza que ela, como a maioria dos paulistas, pronuncia adevogado (sic). Desconhecem eles, os paulistas mais “ilustrados”, a etimologia do termo. Como também é comum ouvir-se o paulista dizer gratuíto (sic).
São esses “intelectuais de sovaco” que presunçosamente se consideram superiores aos Nordestinos. Nós temos o nosso sotaque, o nosso modo de falar, mas esse mesmo sotaque do Nordestino é puro, original, nascido da idiossincrasia do nosso povo, sem estrangeirismo; é puro como a água cristalina que brota da terra e segue na limpidez dos regatos vivificando a relva que lhe margeia.

Para ofuscar essa pústula travestida de estudante, bastariam alguns versos do paisagismo sertanejo saídos da mente fértil do nosso João Paraibano; ou ainda, para completar, qualquer página dourada saída do estro de Cancão; como poderemos dar ouvidos a uma neoplasia social lá de São Paulo, quando temos Dedé Monteiro fazendo o nosso sertão ser conhecido por todos os quadrantes do universo.

Como perder tempo com uma iniquidade, quando temos Ariano Suassuna a nos embalar com sua Obra respeitada no mundo inteiro. Por que o Nordeste vai se amiudar diante de uma reles pseudoestudante, quando a História do Brasil não pode ser contada se não se falar de Ruy Barbosa até Josué Montello; de José de Alencar até Gilberto Freire; a nossa história... a História do Brasil faltará a verdade se omitir em suas páginas os valores intelectuais de Câmara Cascudo e Graciliano Ramos; como fazer um relato completo sem citar Josué de Castro.

Tudo isso é o Nordeste que essa nulidade opaca lá de São Paulo não conhece. Mas se ela, a tal Mayara, com seu ímpeto beligerante e discriminatório quiser aulas de fraternidade e amor ao próximo, espelhe-se no exemplo e na vida do nordestino - Dom Helder Câmara - saído das plagas esturricadas do Ceará e que produziu frutos imortais, que são conhecidos no mundo inteiro.

E o Nordeste tem muito mais; o Nordeste é tão pródigo de valores que não cabe num comentário exíguo como esse. Essa alienada é minúscula demais para conseguir atingir a grandiosidade do Nordeste e o que sua gente representa na História desse país.
O Brasil começou no Nordeste, desde as Capitanias, passando pelo primeiro Grito de Independência. Resta, pois, lamentar que tenhamos que perder tempo ouvindo pessoas vazias ofendendo a dignidade de toda uma gente.

Concluo este comentário com a certeza de que essa moça de mente tão minúscula, não tem a capacidade de assimilar a gravidade da excrescência que seus resumidos neurônios expeliram.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 08 de novembro de 2010

 

 

E haja deslize na legislação eleitoral...

Durante toda a campanha eleitoral procurei me manter à distância, observando a conduta de todos os postulantes. Neste segundo turno a atenção de todo o país foi redobrada para os dois últimos pretendentes ao cargo máximo. O que se viu foi uma sequência interminável de infrações à legislação eleitoral, ameaçando inverter a lógica, quando a exceção torna-se regra.

A boa notícia é que os fichas sujas serão alijados da vida pública por algum tempo. Menos mau. Por último, noticia-se - no blog do Magno Martins - que o candidato Serra, no discurso de encerramento de campanha, em Uberlândia, triângulo mineiro, teria dito que “os que trabalham na saúde, área em que Serra atuou como ministro, podem conseguir cinco votos para ele”. E acrescentou: “Se é menina bonita, tem que ganhar 15 (votos)”. “É muito simples – teria dito o Serra – “faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que tem mais chance quem votar no 45”.

Analisando esta afirmativa à luz do que dispõe o Código Eleitoral em seu art. 299, tem-se uma infração caracterizada, cometida por alguém que pretende ser o mandatário da nação. Não precisa qualquer esforço mental para se vislumbrar o crime eleitoral que está explícito. Diz o dispositivo legal:
“Art. 299 - Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita”.
Pena - reclusão até quatro anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa”.

No momento em que se induz a alguém a oferecer vantagem, no caso, a “menina bonita” que deverá “acenar” para os pretendentes com uma promessa de dádiva ou vantagem: “tem mais chance quem votar no 45”. Temos, com todas as letras, uma tentativa de aliciamento de eleitores. E isso não é uma conduta recomendável a ninguém, muito menos a quem pretende ser o mandatário de uma nação. Com a palavra o eleitor que na cabine de votação será o Juiz Supremo da escolha, segundo os ditames de sua consciência.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 29 de outubro de 2010

 

 

Minipresídio
O que foi, sem nunca ter sido!

Nas minhas idas e vindas para a cidade de Carnaíba, assisti ao surgimento de uma obra, desde o alicerce até seu término e, inclusive, estive presente quando da inauguração. Por esta razão, sei contar tudo, ou quase tudo, sobre aquilo que seria o minipresídio de Afogados da Ingazeira, hoje reduzido a escombros. Ainda ressoam as palavras do governador, de então, Jarbas Vasconcelos, ao afirmar que seu governo “só se empenha por obras estruturadoras”. Essa era sua palavra de ordem. Aliás, qualquer discurso seu, sempre cabe esse refrão.
Mas o minipresídio tão decantado, era mesmo esperado com ansiedade, pois seria “um pingo d´água no oceano” diante do alarmante déficit de vagas no sistema prisional de Pernambuco, para não falarmos do Brasil como um todo. E ele foi construído e inaugurado, ou melhor, engendrou-se uma inauguração eleitoreira, com solenidade, discursos, etc. e tal. E, no mesmo dia, ficou provado que aquele prédio não se prestava para conter os presos. Havia falhas gritantes na construção. ERRO CRASSO DE ENGENHARIA: Paredes que não ofereceriam segurança. Enfim, toda a obra foi condenada. Isso sem contar que ele fora construído NO CENTRO DE UM CONJUNTO RESIDENCIAL. Tem absurdo maior do que esse? E ficou lá o elefante branco, inerte, sem prestar para coisa nenhuma...

Enquanto isso, a Cadeia Pública de Afogados da Ingazeira continuava com as sua celas fétidas, esgoto a céu aberto, o mato tomando as dependências, a sujeira e a fedentina, aumentando o castigo inconcebível da pena àqueles que lá cumpriam. Assim, convivia-se com duas situações lastimáveis: um presídio recém-construído, sem serventia, e uma Cadeia que jogava no esgoto a dignidade humana.
Eis que um cidadão – o bom samaritano Zé Batatinha -, por iniciativa própria, reformou a Cadeia Pública. Ele e ninguém mais. Na omissão do Estado, Zé Batatinha deu uma aula de administração, de cidadania e, acima de tudo, refez uma “obra estruturadora”.
E não é que ao se anunciar uma solenidade modesta, em reconhecimento ao trabalho do Zé Batatinha, muitos apareceram para assumir a “paternidade da criança”? O fato é que a Cadeia continua lá, servindo bem ou mal, mas continua.
E o presídio? Aquela “obra estruturadora” que sugou mais de um milhão de reais do nosso bolso, enquanto contribuinte, encontra-se espalhado pelos grotões, em forma de entulho.

O minipresídio foi demolido por tratores e seus restos transportados por caçambas, jogados como entulho, numa demonstração clara e inequívoca de como se “torra” o dinheiro público. Não é demais se perguntar: onde estão aqueles que projetaram e aqueles que autorizaram a obra; aqueles que eram responsáveis pela gerencia da coisa pública. De quem é a responsabilidade por tamanho desperdício? O povo merecia uma resposta, mas esta não veio. E o povo, por sua vez, deu uma resposta, recentemente. Mas não é só isso que importa. O que se faz necessário é que os responsáveis pela construção de uma “obra estruturadora” que só serviu para jogar fora o dinheiro do povo, responda pelos seus atos.
Até quando teremos que ver esses descalabros administrativos? Até quando vamos pagar a conta dos desmandos que só servem como instrumentos de angariar votos para os mesmos que se repetem nos cargos e nos desmandos? O minipresídio que foi sem nunca ter sido, já não existe. Foi uma obra que consumiu a soma considerávelde mais de um milhão de reais e que seu destino foi a transformação em dezenas e mais dezenas de caçambas de entulhos. Lá está só o terreno vago e, segundo dizem, será construído outro Presídio no mesmíssimo lugar. É difícil acreditar... mas vamos esperar para ver.

Por essas e outras é que nós, pagadores das contas, devemos pensar e pensar muito, antes de outorgar poderes, através do voto, para alguém que vai ser o gerente dos bens públicos.
Aproveite este domingo e passe lá onde seria (ou será?) o presídio e você verá aonde foi parar o imposto que você pagou e que foi utilizado em mais uma “obra estruturadora".

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 19 de outubro de 2010

 

 

Padre Assis, 70 anos...
E que venha o Centenário!

Estou desarrumando a mala, depois de mais uma longa viagem. Esta, porém, das mais prazerosas que já fiz. No dia 9, sábado passado, pela madrugada, saímos de Afogados. Eu, Ivanise, minha companheira de todas as horas e a amiga Jandira Alcântara. Passamos em Tabira, onde nos esperava o Mestre Dedé Monteiro, e seguimos viagem rumo a Fortaleza, para levar o nosso abraço ao Padre Assis Rocha.
Descíamos a Serra de Teixeira quando os primeiros raios de sol reluziam nas rochas e despenhadeiros, oferecendo-nos um espetáculo deslumbrante. E o Dedé, tal qual uma mina inexaurível, ia glosando versos e mais versos, com a tranquilidade que lhe é peculiar. Lembrei-me daquele verso impagável, no qual o Poeta não usa nenhum verbo e, instiguei-lhe: “Poeta, A casa de vovó Januária é, para mim, o que há de mais perfeito em sua obra. Mas, você vai ficar me devendo outro verso sem verbo”. Ele me olhou e disse: “Tá prometido, poeta!”.
E a viagem prosseguia; a conversa girava em torno de poesia e poetas; versos eram lembrados e algum comentário sobre quando e por quem foram criados; conversa de apologista.
Transpomos a fronteira da Paraíba, adentramos no Rio Grande do Norte e, enquanto mirávamos a paisagem árida do esturricado Seridó, dentro do carro havia chuva de prata, de ouro, de pepitas e diamantes... eram os versos de Dedé Monteiro; feitos na hora, igual a caldo de cana. A viagem não era de urgência, por isso, paramos várias vezes em postos de gasolina, ora para abastecer ora para um lanche e assim seguíamos despreocupados com o relógio. Não tínhamos hora marcada para chegar.
Na manhã do dia 10, seguimos da cidade de Bela Cruz/CE até a Fazenda Santa Maria, onde nos esperava o Pe. Assis. Lá, a festa continuava pelo segundo dia; a casa repleta de amigos vindos dos quatro cantos do Brasil. Foi bom rever o Pe. Assis e atualizar nossas conversas. De saúde ele está bem; de cabeça, melhor ainda. A vitalidade camufla as 7 décadas de uma vida profícua e atribulada. O Padre e sua família, mais uma vez, deram a todos nós um exemplo vivo de fraternidade, de um amor que deve existir entre consanguíneos. Assim, entre os seus irmãos de sangue e seus “irmãos culturais”, o Padre Assis viu desfilar diante de seus olhos e, mais ainda, mexendo com seu coração, todo o carinho, respeito e gratidão que lhe temos por toda a obra que conseguiu edificar na sua trajetória de vida como sacerdote e como cidadão.
Num determinado momento, em conversa com o Padre, mostrei-lhe o verso-desafio que o Dedé havia feito na noite anterior, quando estávamos no hotel, onde dormimos para viajar no dia seguinte. Eis mais um diamante, já lapidado, da lavra do Dedé: “EITA QUE CARRO AZOGADO / O CORSINHA DO DOUTOR! / QUE POTENCIA A DO MOTOR! / QUE DESEMPENHO ARRETADO / PELÍCULA PRA TODO LADO / MACIEZ DE AEROPLANO / BOM NO BURACO E NO PLANO / PRONTO PRA QUALQUER PROJETO / EIS O RESUMO COMPLETO / DO CORSA DE LUCIANO”.

Na volta, já era quase meia-noite, mais precisamente, o relógio marcava 11 horas e 57 minutos, quando passávamos em Fortaleza, o poeta disse: “Estamos há várias horas / Tombando a estrada nos ombros / Tô como uma casa velha / Toda coberta de escombros / Faltando só 3 minutos / Pra hora dos mal-assombros”.

E ao transpormos a fronteira da Paraíba, depois de tantos momentos de plena satisfação, o Poeta, talvez achando pouco, ainda saiu-se com essa: “Cruzamos quatro fronteiras / Pra participar da cena / Das 70 primaveras / De um ser que ninguém condena / Vencemos, rindo, o deserto / O longe tornou-se perto / Custou, mas valeu a pena!”.

Chegando em Tabira, o poeta ficou em sua casa, mas antes de despedir-se ratificou o compromisso de estarmos juntos no centenário do Padre Assis. É o que desejamos.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 11 de outubro de 2010

 

 

A Coisa Pública

Muito já se comentou neste espaço sobre a Sinalização do Trânsito em Afogados da Ingazeira. A necessidade de um disciplinamento faz-se necessário, com urgência. Isso não é novidade. Desde o mês de julho que se vem fazendo um arremedo de providências neste sentido.
Já se instalou um semáforo desnecessário (aquele que fica nas imediações da Prefeitura); já se “ornamentou” o centro da cidade com faixas amarelas; já se estabeleceu ponto de taxi; já se definiu faixas de pedestres etc. Fez-se tudo isso, porém, esqueceu-se de uma coisa: fazer valer a Lei .
Primeiro a Lei que rege os contratos, pela qual o prestador do serviço, no caso a Firma que pintou a sinalização, deveria ter usado um produto, uma tinta de qualidade, pois a maioria das faixas já se apagou, já largou nos pneus dos veículos. A faixa que foi pintada na confluência da Manoel Borba com a Barão de Lucena, a exemplo de outras, já não existe mais. E a pintura de toda a sinalização não tem três meses completos.
Como se explica um fato dessa natureza? O povo pagou para que as ruas fossem demarcadas e o material usado é de péssima qualidade. É dinheiro jogado fora. Ficamos a perguntar se no Governo Municipal existe um órgão que fiscalize os prestadores de serviços contratados.

A outra Lei que deveria vigorar, aqui em Afogados da Ingazeira, é a LEI DO TRÂNSITO - O Código de Trânsito Brasileiro - Lei 9.503/97, que no dia 23 de setembro p.p. completou 13 (treze anos) de vigência, em todo território nacional, exceto em Afogados da Ingazeira.

E o Código de Trânsito, diz em seu art. 1º - O trânsito de qualquer natureza nas vias terrestres do território nacional, abertas à circulação, rege-se por este Código. E o Código é mais explícito em seu art. 2º - São vias terrestres urbanas e rurais as ruas, avenidas, os logradouros, os caminhos, as passagens, as estradas e as rodovias, que terão seu uso regulamentado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre elas, de acordo com as peculiaridades locais e as circunstâncias especiais.
Isto é o que estabelece a Lei do Trânsito Nacional. E não se deve esquecer que a Lei, toda ela tem, na essência, o requisito: “erga omnes”, ou seja, vale para todos.

Aqui em Afogados, é diferente, todos se acham no direito de fazer a SUA “LEI”. Cada um faz ao seu modo, como melhor lhe aprouver. O resultado é isso que vemos: uma sinalização servindo apenas como alegoria, pintada com material de péssima qualidade, o dinheiro do povo jogado fora.
E a lei, mesmo, poucos a respeitam. A maioria nem sabe que existe.

Mas, titulamos esse comentário como: A coisa pública - para lembrar que a coisa É PÚBLICA porque se destina ao bem comum e por isso mesmo deve ser motivo de preocupação de todos que dela usufruem, principalmente aqueles que têm o dever de zelar pelo que lhes foi confiado.

Enquanto isso, as autoridades a quem competem as providências, continuam na contramão da Lei, enquanto os demais atropelam o Código de Trânsito Brasileiro e, aqui, acolá, algum pedestre, também.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 07 de outubro de 2010

 

 

Assim falou a mestra de “O Quinze"

No último dia 02 de outubro fomos agraciados por mais uma pesquisa do Fernando Pires, nesta página, com a magistral aula de cidadania que nos dá a inigualável Raquel de Queiroz num artigo escrito para a Revista O Cruzeiro, datado de 1º de janeiro de 1947.
O artigo avulta-se pela profundidade do tema abordado e sobressai-se pela maestria com que só a Raquel sabe “conversar” com seus leitores. A cearense maneja a caneta e vai soltando as palavras com a mesma familiaridade que tinha o Machado de Assis. É prazeroso lê-los. Até parece que estamos a conversar, tão suave é a narrativa.

Já ao abordar o ato de votar, a Cearense de bom quilate corta fundo as entranhas de nossa consciência, mostrando com todas as letras o que significa o voto. O ato é simples e, agora com a utilização da tecnologia, rápido, instantâneo. Suas consequências, todavia, poderão ser nefastas para quem votou e para toda uma nação. Da inconsequência de meu voto, poderei estar contribuindo para o caos generalizado. Pela minha omissão ou negligência na escolha, poderei estar deixando germinar a semente do mal e outorgando poderes para que um canalha tome decisões por mim e em meu nome, durante quatro longos anos. É o meu destino e o de milhões de pessoas que ficarão à mercê dos escolhidos.
Nessa linha de raciocínio, a Mestra Raquel vai nos levando a refletir sobre a importância do voto, do votante e do votado. O voto não pode ser moeda de troca, de retribuição de favor ou demonstração de complacência; o voto não deve ser instrumento de solidariedade. Votar é escolher e escolher bem . É com ele que o cidadão tem o poder de interferir na vida da Nação.
Durante todo um Governo, é essa a vez do povo expressar a sua vontade. Depois disso é esperar as consequências do seu ato. Daí dizer-se, “cada povo tem o governo que merece”. De sua escolha virá, inexoravelmente, o seu merecimento.

Na prática, tivemos a campanha do candidato “Ficha Limpa” que se encontra tolhida, até então, pela Alta Corte de Justiça do país, que ainda não decidiu se valerá para este ano. Enquanto isso fica a ansiedade da espera para sabermos se os crápulas serão extirpados da vida pública.

Também na prática tivemos o cenário deprimente que ficou nas ruas de nossas cidades, de norte a sul, no dia da eleição. O Brasil acordou e ficou estarrecido com tamanha sujeira de panfletos jogados ao chão, demonstrando que aqueles que devem dar o exemplo de limpeza, foram os primeiros a emporcalhar ruas e avenidas. Quanto dinheiro vivo foi jogado fora.
Enquanto isso falta material escolar para as crianças; enquanto isso, faltam medicamentos, dos mais simples, nos hospitais. Aquelas montanhas de papeis jogadas fora serviriam com certeza, para amenizar a fome de muita gente, se o que se gastou em sua confecção fosse utilizado de modo coerente e responsável.
Em suma, foi para estes e outros aspectos que a Professora do Ceará, nos chamou a atenção. Assim como em seu primoroso Romance - O Quinze - onde enfatiza sua preocupação com os problemas sociais, também no artigo da Revista O Cruzeiro, a Imortal Escritora “sacoleja” nossa mente para que não tenhamos de que nos arrepender, depois que deixarmos na cabine indevassável, nossa expressão maior da Democracia: o voto ..

Fica aqui o prazer de “ouvir” os sábios conselhos da Ilustrada cearense, e nossa gratidão ao Fernando Pires por tão relevante presente, neste momento em que necessitamos refletir, e muito, antes de tomar a decisão de votar .

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 06 de outubro de 2010

 

 

Depois da reflexão da querida Elvira, vou buscar no baú do mestre Dedé Monteiro, esta aula de bem viver.

E assim disse o Velhinho de Tabira

Não estranhe a passagem dos janeiros
Que acontece de forma inevitável
Quem deseja freá-la é miserável
Desconhece os desígnios verdadeiros
Se quiser colocar-se entre os primeiros
Não se apresse que vai se arrepender
Fique atrás, não precisa aparecer
Deus não dá privilégio a seu ninguém
Não precisa chamar que a morte vem
Mas precisa saber envelhecer.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 25 de setembro de 2010

 

 

À guisa de esclarecimento

Nesta quarta-feira, dia 22, o blog do Itamar traz a seguinte nota:
“Um incêndio destruiu parte da casa da aposentada Creuza Queiroz, de 86 anos, residente na Rua Júlio Câmara, em Afogados da Ingazeira. De acordo com informações, o fogo foi provocado pelo filho dela, Silvério Queiroz, advogado e ex-prefeito de Afogados da Ingazeira. O incêndio foi controlado pelos vizinhos. Silvério foi encaminhado para o Recife, afim de ser medicado (...)”.

Ao ler o texto acima, preocupei-me. Primeiro porque sei que muitas dúvidas surgirão a respeito deste fato. O Silvério é meu amigo particular e assim como eu, não são poucas as pessoas, também amigas, que neste momento estão ávidas de maiores detalhes sobre o incidente. O fato ocorreu na madrugada. O fogo ocorreu apenas no quarto onde dorme o Silvério, tendo destruído a cama e o aparelho de ar condicionado. Dona Creuza não sofreu nada mais que o susto, o que já é muito para a sua idade. As demais dependências da casa ficaram apenas com os efeitos da fuligem. Nenhum outro dano.
Nas primeiras horas da manhã, quando soube da notícia, dirigi-me até a residência do Silvério e lá encontrei-me com Silvano - o Bombinha - que estava tomando as providências para reparar os danos. De logo, fica descartada a presunção de que houve tentativa de suicídio. Nada disso!
Nenhum incidente entre Silvério e sua mãe, Dona Creuza. Fica a dúvida se houve algum descuido dele, Silvério, e o fogo alastrou-se na cama. Na verdade havia uma garrafa plástica de álcool. Supõe-se que ele teria ateado fogo no quarto. Apenas hipótese. Quando as pessoas chegaram ao local, encontraram Silvério bastante nervoso, porém, nada havia entre ele e sua genitora, a única pessoa que estava em casa naquele momento.
Por fim, atribui-se, por presunção, que o fato teria ocorrido em razão do Silvério encontrar-se em momento de profunda depressão. Dizer mais que isso é especular. Registrei tudo o que vi, com o intuito de desfazer qualquer suposição de que Silvério teria ateado fogo em sua casa com o propósito de causar qualquer dano a sua mãe.
No mais, faço votos de que tenha contribuído para dissipar as dúvidas dos amigos distantes e que, ao lerem, como eu, uma nota resumida, ao invés de tranquilizarem-se, aumenta-lhes a preocupação.
Qualquer fato novo que surgir, levarei ao conhecimento dos amigos e leitores desta nossa página.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 22 de setembro de 2010

 

 

Habemus Papam!
Ademar voltou!


Para alegria geral da nossa “corriola”, o Ademar APARECEU! Sua ausência me deixava num misto de apreensão e curiosidade. Cheguei até a comentar com o Fernando Pires sobre os nossos faltosos escribas: Ademar, Danizete, Zezé Moura, Fátima Pereira, etc.
Cogitamos na possibilidade de um premeditado complô e, por fim, um movimento paredista - por aumento de salário. E o líder seria, sem dúvida, o Ademar. Todo poeta é inquieto, mas, por esse prisma entraria no rol dos suspeitos o Danizete. Mas, deixa pra lá.

Pensei, por outra, que o Ademar, moleque travesso de Jabitacá, tivesse singrado as ondas do Rio Guamá, passando pelo Moju e, despedindo-se do Rio Acará, tinha ido aportar num lugar distante, levando no alforje um preparado de “Chama dinheiro” adquirido na tenda de alguma mandingueira.
Não descartei a hipótese de que o Ademar estaria perdido no Majestoso Mercado Ver-o-Peso, que se mostra imponente com suas quatro torres mirando o céu do Pará, acordando a belíssima Cidade de Belém por quatro séculos de beleza e pujança naquelas plagas desse imenso BRASIL de Mãe Preta e Pai João.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 19 de setembro de 2010

 

 

Tiririca: Condena ou Absolve?

A campanha eleitoral aproxima-se da reta de chegada. Há alguns dias eu dizia que o quadro, já naquele período, estava decidido. Agora, muito mais se desenha o resultado irreversível que teremos no Day After, quando as cortinas se fecharem no dia 03 de outubro. De todos os postulantes aos cargos Executivo e Legislativo, podemos dizer que um deles chamou a atenção do país inteiro e, se estivesse concorrendo à Cadeira nº 1 do Brasil, não faria feio na disputa.

Francisco Everardo Oliveira Silva, um nordestino, nasceu, cresceu e aprendeu muito com a “fartura de necessidades” que sempre o rodeou. Correu para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Seu currículo vitae é exíguo. Um item apenas: profissão palhaço. Seu viver é de palhaçada. Executor da difícil arte de fazer rir. Com esta bagagem postula um cargo de legislador. E o Brasil volta suas atenções para este cidadão. Alguns já o execraram, outros o enaltecem, outros mais, torcem por sua emblemática candidatura.

Eu, particularmente, vejo o Tiririca como o mais AUTÊNTICO de todos os concorrentes. Ele é isso aí que está mostrando. Não prometeu nada além do que uma grande verdade, num dos seus minidiscursos, ao se indagar: “Você sabe o que o Deputado faz? Eu também não. Quando chegar lá, eu te conto”. A essa altura, muitos “honestos” e de “conduta ilibada” estão tremendo, pois o Tiririca VAI CHEGAR LÁ. E se ele resolve contar tudo? Nos bastidores, pelas vias judiciais que permeiam toda campanha, tentaram, de todas as formas, “barrar” a corrida do Tiririca e sua “avalanche de votos” que já se prenuncia. Tudo em vão.

O Francisco Everardo Oliveira Silva é brasileiro e está no gozo pleno de seus direitos políticos. A Carta Magna diz que “todos são iguais perante a Lei”. Qual o impedimento legal que paira sobre o cidadão Francisco Everardo. Nenhum. Ele é palhaço? E os outros, o que são? Ele está debochando da política, do povo brasileiro? Não vejo assim. Tiririca se diz e é o palhaço. Os outros, e não são poucos, fazem do povo brasileiro milhões de palhaços. Tiririca é do povo e em seu nome quer exercer um mandato. Essa é a essência da Democracia, desde que ultrapassou os limites de Atenas, seu berço natal, e foi adotada em vários países, com suas providenciais e casuísticas modificações.

A provável eleição de Tiririca acrescentará um Plus ao controvertido parlamento brasileiro. Lá em cima, tratei esta candidatura como emblemática e não é pra menos. O tiririca PALHAÇO está se dando a conhecer por suas próprias definições. Já a outra tiririca, segundo o mestre Aurélio, citando a botânica, diz ser uma “Erva daninha, graminiforme, da família das ciperáceas (Cyperus rotundus), famosa pela capacidade de invadir velozmente terrenos cultivados”. Noutro significado, trata-se de: “Fenômeno que se observa no rio Pará e consiste na agitação incessante de suas águas, com ondas desencontradas e mais altas que no resto do rio”. E, por último, como gíria do Rio Grande do Sul, Tiririca, significa “batedor de carteira, punguista”.

O Tiririca - palhaço e candidato - conseguiu invadir velozmente terrenos, já antes cultivados, desbancando velhas raposas da politicagem brasileira. Maluf que o diga. O crescimento vertiginoso da candidatura com sua “incômoda” (para muitos) provável votação já provocou “agitação incessante” nos hostes partidárias de todos os matizes.

Por fim, resta-nos torcer para que o Tiririca, ao se eleger, dê lugar ao nordestino decente, humilde, honesto e bravo - Francisco Everardo - que imbuído dos melhores propósitos, deixou o seu Ceará e foi tentar a vida na cidade grande, ganhando o pão com o suor de seu rosto. Torçamos para que ao se eleger não se transforme e não passe a fazer parte do contingente de “batedores de carteiras, engravatados” que posam de honestos.

Quatro de outubro se aproxima!

Tirica - palhaço-candidato - é apenas a catarse da mediocridade com que a falta de pudor de muitos conseguiu banalizar o Parlamento Brasileiro.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 19 de setembro de 2010

 

 

Um Poema à Nossa “Mãe”...
Amém...


Tenho diante de mim um Poema... Uma declaração de amor filial partida das entranhas do coração. A minha querida Elvira superou-se, mais uma vez, ao expor seu mais puro sentimento à nossa estimada Mestra Dona Ione . São palavras “encharcadas” de amor, de gratidão, de reconhecimento.

Você me fez, Elvira, retroceder aos tempos do Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, quando nossa Professora, ainda no vigor da mocidade, moldava a nossa personalidade, em formação. Era rígida, sim... Havia ternura nos gestos... Também...
Pelas repreensões, não guardo rancor; pelos ensinamentos, serei sempre grato. Sua lembrança faz parte dos bens inalienáveis que guardo no coração. O tempo passou, é verdade. Mas o tempo que nos tira o vigor e o ímpeto da juventude, também abranda nosso espírito e suaviza as feições, como na foto que vemos da nossa “mãe afetiva”.

Seus cabelos prateados são o testemunho de uma vida dedicada a formar gerações. Seu corpo, hoje frágil, já despendeu muita energia na faina diária, na árdua e divina tarefa de transmitir conhecimentos. Sua luta não foi inglória; seu troféu está representado em cada um de nós que não poupamos palavras de agradecimento.

Que dizer num momento como este àquela que nos deu tanto? E sua dádiva - o conhecimento, o saber - hoje lhe retorna, Dona Ione, em forma de palavras, em forma de Poema, como o de Elvira, na nossa vã tentativa de dizer tudo o que sentimos, mas as palavras são pequenas diante de sua grandiosidade. Mesmo assim, aceite este modesto tributo...

Se lhe oferecemos o máximo de gratidão, ainda é o mínimo que damos, diante de tudo que recebemos. A exemplo da minha irmã Elvira, invoco aqui as palavras de Saint Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração”.
Assim, Dona Ione, sua obra abstrata só toma a verdadeira dimensão quando a olhamos com os olhos do nosso coração enternecido. Que o Grande Arquiteto do Universo lhe cubra de bênçãos e conserve a serenidade com que, ainda hoje, transmite experiência aos mais jovens.
Um beijo, com todo o respeito deste seu discípulo e admirador.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 13 de setembro de 2010

 

 

Óleo de Peroba pra Cara de Pau...
Água Sanitária e Detergente para Desencardir Ficha-Suja!


Aproxima-se o dia fatal para uns e, o “grand finale” para outros. A campanha conseguiu, até agora, atrair a antipatia do eleitor que já não aguenta tanta barulheira, tanto trânsito emperrado pelos carros de propaganda, indiferentes ao fluxo do tráfego, ou se atrás deles vem alguém que tem pressa de chegar, incluindo aí, ambulâncias, polícia, bombeiros etc.

A poluição visual é outra realidade intrigante. Nunca vi tanta foto com pessoas sorridentes; são sorrisos tão verdadeiros quanto uma cédula de três reais. Até lá teremos que suportar a poluição sonora, pois não se vê nenhuma medida inibitiva. A legislação eleitoral, neste ponto, até agora, é letra morta, convém lembrar. Isto porque nenhum carro de propaganda foi apreendido por excesso de som; pelo menos não se tem notícia disso.

No auge do desespero, lembrando a sugestão do irmão Tadeu Goes talvez tenhamos que recorrer ao Bispo.

Todos nós percebemos, mas parece que os candidatos desconhecem que a esta altura dos acontecimentos, pouca gente ou quase ninguém está indeciso. O quadro, a despeito de pesquisas, já está delineado. E o esforço que se fez para que prevalecesse a - ficha limpa - vem-se revelando inócuo.
O povo fez sua parte, até agora. Mas no complicado labirinto de leis do país, existem as famosas "brechas" e recursos que vão protelando o desfecho de qualquer demanda judicial.

Em síntese, o que se vê é o seguinte: o sujeito não tem só a ficha imunda, podre, execrável, mas também é infectado o seu caráter e tudo o mais, porém, vai se esgueirando pelas fendas da lei, consegue deixar o mandato sub judice até que se expira o prazo, termina o mandato e nenhuma decisão judicial lhe impõe a merecida punição.

Nessas condições temos centenas deles. Alguns até já morreram e não se conseguiu uma condenação para as suas falcatruas. Assim age o modorrento sistema judiciário brasileiro.
Mas o Brasil está na iminência de abrir uma página inusitada em sua história. Pelo menos duas possibilidades existem de termos nas rédeas do poder uma mulher.

O que virá por aí? A reedição de uma Cristina Kirchner ou mesmo uma Evita Perón, da nossa vizinha Argentina. Quem sabe, a terra de Santa Cruz, "onde se plantando tudo dá" - o polígono da maconha está aí para provar isso - não viverá uma era sob a batuta de uma Margareth Tatcher tropical. Ou por último, poderemos estar no limiar de um comando à Indira Gandhi. Outubro vem aí e quem viver verá.

Lembrete final:
No kit do eleitor não deve faltar: óleo de peroba para muita cara-de-pau e detergente, água sanitária, para desencardir, muita ficha-suja que conhecemos por aí.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 02 de setembro de 2010

 

 

Tudo como d'Antes no quartel de Abrantes...

Mais uma semana se finda e alguns problemas de solução esperada continuam , a exemplo da buraqueira nas estradas. O silêncio das tardes calmas é quebrado pelos carros de propaganda política que abrem o volume ao máximo, tirando o sossego de todos. A legislação eleitoral e o limite de som por ela estabelecido, até então... é letra morta. Não se vê nenhuma providência sendo tomada e cada um faz como entende.

No plano afetivo tivemos mais uma perda irreparável com a passagem para a outra vida da Sra. Creuza Amaral Cesar. E com este fato nos vem à lembrança a figura do Sr. Newton Cesar, seu esposo. Ambos eram pessoas de fino trato. Dona Creuza com um sorriso largo e uma simpatia, uma lhaneza ao tratar quem quer que fosse. Nunca a vi de mau humor. Já seu Newton Cesar era intransigente, quando porteiro do Cine São José, não deixando passar ninguém que não tivesse a idade certa para a censura do filme que estava sendo exibido. Não adiantava insistir. Não tivesse a idade da censura, não entrava mesmo.

Na manhã deste sábado, 28, mais uma família enlutada com o fatídico acidente na estrada da Ingazeira. Dois jovens vinham para Afogados, depois da festa (de Santa Rosa) e o carro capotou, numa curva, ceifando a vida de um, chamado Fábio, e o outro, filho de Anísio Lemos, foi levado para o Recife. Seu estado de saúde inspira cuidados. A campanha eleitoral está começando a acirrar os ânimos e a cidade é tomada por novos painéis de propaganda política nas paredes. Os velhos dão lugar aos novos, mas os nomes continuam os mesmos. Não entendo como é que pregam a alternância do poder, a renovação na política, mas as caras são as de sempre, as promessas idem e os incautos permanecem na vã esperança de que tudo vai mudar.

As ruas estão bem ornamentadas com a sinalização de trânsito e a desobediência persiste. Ninguém atende às faixas amarelas, que já estão ficando pretas de tantos pneus encostarem-se a elas; a Manoel Borba é “um Deus nos acuda”, com seu trânsito incontrolável.
Noticiou-se que uma equipe do DETRAN virá e, por uma semana teremos apenas advertência e, depois disso, a coisa vai valer. Quero ver!

Por último, registro um fato que me deixou transtornado, diante de TANTA ESTUPIDEZ : EU VI uma mulher, ainda jovem, amamentando uma criança, aparentemente, de menos de um ano, ao mesmo tempo em que dirigia o veículo, em plena Praça Mons. Arruda Câmara. Isso à noite. Diante desse descalabro, dispensa-se comentário.

Amanhã é domingo e, como dizia o poeta Antônio Maria “os bares estarão cheios de homens vazios, porque é domingo”.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 28 de agosto de 2010

 

 

No Dia em que “O Boi Não Valeu”

Na última vinda de Fernando Pires a Afogados da Ingazeira, conversávamos sobre os escribas e eu destaquei a ausência do Ademar. Não citei o nome de Tadeu Góes, outro estimado amigo e companheiro de outras lutas no passado.

Ademar fez-me relembrar o Tadeu Aragão que conheci na década de 80. Certa vez o Tadeu me convidou para “chamar” uma vaquejada, em sua fazenda. Tentei convencê-lo de que o microfone, para mim, era coisa do passado, mas depois de muita insistência, tive o prazer de passar três dias na sua fazenda e estreitamos nossos laços de amizade.
Conheci toda a família e foi realmente uma festa inesquecível, não houvesse ocorrido um fato inusitado e, quase trágico, no segundo dia de vaquejada. Vamos aos fatos: havia um cabo de energia que alimentava todas as barracas e a iluminação da pista de corrida. Já era noite e, de repente, esse cabo pegou fogo.

De longe se via aquela “serpente de fogo” circundando o parque. O pânico foi grande; pessoas correndo atordoadas, o gado se espantou, a escuridão cobriu todo o brilho da festa. Passado o susto, chegou-se à conclusão que um curto-circuito havia ocasionado o colapso na energia. Daí veio a incompreensão de alguns, querendo dar continuidade à corrida de bois. Tadeu argumentava que não tinha condições pela falta de iluminação. Alguns intransigentes insistiam; até que se encontrou uma tentativa: puseram vários veículos com os faróis acesos, iluminando a pista e recomeçou a chamada dos vaqueiros. Mas, logo se viu que não havia condições. Com muita ponderação ficou decidido que se recomeçaria as corridas tão logo o sol surgisse. Assim foi feito.

Nos primeiros raios do sol demos início à competição que se estendeu por todo o dia, até a premiação dos vencedores. Nessa festa o Tadeu teve um grande prejuízo, mesmo assim, quando nos despedíamos ele abraçou-me e, sorridente, assegurou: “no próximo ano eu conto com você aqui”. Depois disso, sempre me encontrava com Tadeu, em Tuparetama, e nossos papos se alongavam. Grande figura o Tadeu Aragão. Valeu a lembrança, Ademar.

E o outro, Tadeu Góes (de Pedro de Bastinha), me fez lembrar nossos tempos de república, na Manoel Borba, esquina com Rua da Soledade. Naquela noite eu ia com minha bagagem num taxi, vindo do Parque 13 de Maio, transpusemos a ponte, passamos ao lado do Teatro Princesa Isabel e quando chegamos no sinal dos Correios, este fechou; quando olho ao lado, estava o Tadeu Góes. Ao chamá-lo, este perguntou para onde eu iria, no que disse que estava indo em busca de uma república; o Tadeu entrou no táxi e ali mesmo resolvemos que eu iria para a pensão onde ele estava residindo.

Para mim, mudar de rumo era muito fácil, como facílimo era mudar de endereço, pois no meu tempo de estudante no Recife, dali do Edifício Módulo até o Cine São Luís, morei em 26 lugares diferentes.

Foi assim que passamos, eu e Tadeu, uma temporada na Esquina da Soledade, depois fomos para a Rua da Saudade, quando mudei mais uma vez, o Tadeu ficou e perdemos o contato, temporariamente. Mas com este outro Tadeu, também tenho estória para recordar; desde o nosso tempo de Colégio Agrícola como ele bem lembrou.

São estas lembranças que nos afagam o ego e nos dão a certeza de que as verdadeiras amizades perduram a despeito do tempo, da distância e das circunstâncias que nos separam temporariamente.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 23 de agosto de 2010

 

 

30 Anos de advocacia
Trinta Anos em Busca da Justiça


Neste momento contemplo na parede, à minha frente, o Diploma de Bacharel em Direito que me foi outorgado pela Universidade Católica de Pernambuco, no dia 22 de agosto de 1980, portanto, há 30 anos.

Absorto em meus pensamentos, revivo o momento em que me dirigi à sede do INCRA, em São Luís do Maranhão, em meados de 1976 e, resoluto, pedi a minha demissão. Para surpresa de meus superiores, não aceitei qualquer ponderação em demover-me daquela ideia e lhes dizia que estaria voltando para Pernambuco, onde me tornaria advogado. Estaria partindo para realizar o meu sonho de criança.
Aqui chegando submeti-me ao vestibular, fui aprovado e, assim, estaria vencida a primeira etapa. Teria cinco anos pela frente. A batalha foi árdua, mas consegui antecipar a conclusão do curso e, após quatro anos e meio, eu estava com um Diploma na mão e muita esperança no peito. Mesmo antecipando a conclusão, com muito esforço e noites insones, consegui ser laureado na minha turma.

E como prêmio, ao prestar juramento na Ordem dos Advogados do Brasil, tivemos como Padrinho da turma, Dom Helder Câmara, com quem tive a ventura de conviver, por algum tempo, como estagiário na Comissão de Justiça e Paz. Já advogado, parti, inicialmente, para a advocacia particular para depois ingressar no serviço público, como Assessor Jurídico do Estado de Pernambuco e, atualmente, Defensor Público.

São 30 anos de percalços e venturas. Na advocacia criminal já presenciei tragédias que dizimam espiritualmente famílias; a desgraça se abate no recesso do lar, desmorona as pilastras afetivas, culminando, quase sempre, com vidas humanas ceifadas, estupidamente. Os dramas mais terríveis e que passam despercebidos para muitos, desembocam na sala de atendimento, com toda crueza, fazendo com que nos envolvamos e sintamos, inexoravelmente, as angustias do próximo. Por mais que se queira encarar os dramas humanos, profissionalmente, é difícil ou impossível manter-se refratário aos efeitos devastadores das tragédias cotidianas.

Sempre que ocupo a tribuna do Júri, elevo meu pensamento ao saudoso, inesquecível e... meu Mestre: Dr. José Rabelo de Vasconcelos – para mim, inigualável, como jurista; insuperável como poeta, o Grande Zé de Quitéria.
No direito civil, mais especificamente - no direito de família - os conflitos familiares avolumam-se da mesma forma ou talvez com mais intensidade, transformando a sala de atendimento num “muro de lamentações”.

Assim, já são transcorridos 30 anos de faina diária. Não amealhei fortuna material, mas tenho um patrimônio a transmitir aos meus filhos: a dignidade profissional; a certeza de que jamais tergiversei, jamais transigi em detrimento dos direitos sagrados de meus constituintes. Tenho a convicção de que construir patrimônio material é fácil quando se sobrepuja valores transcendentais; quando se regateia com os princípios éticos; se passei incólume até o presente, espero que o futuro que ainda trilharei não seja maculado pelo afã do lucro fácil; pela ganância do vil metal.

Nesse dia, que é um marco nas etapas de minha vida, nada tenho de que me envergonhar, no exercício da profissão. Ando de cabeça erguida e falo alto e bom som, respeitosa e destemidamente, como deve ser todo aquele que anda com a verdade.
Nesse dia de “pit stop” mental, quero apenas, e tão somente, meditar e perceber o que deve ser aperfeiçoado no meu caminhar e, acima de tudo, a companhia do Grande Arquiteto do Universo para que possa desempenhar o papel que me foi confiado por Ele neste exíguo espaço de tempo que passamos no plano terrestre.

Até hoje, como advogado, me dou por realizado e posso dizer... sou feliz!
E que venham mais 30 anos...

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 22 de agosto de 2010

 

 

São Luís - A pérola do Atlântico

No início da década de 70, fui a São Luís do Maranhão pela primeira vez. Passei 15 dias naquela Capital e depois viajei ao interior do Estado. Na época, lotado na Secretaria de Agricultura, fui designado para fazer pesquisa de preços nas feiras livres para incremento da política de preços mínimos dos hortifrutigranjeiros do Estado. Assim, tive a oportunidade de conhecer toda a cidade, em pouco tempo. Confesso que sou apaixonado por São Luís. Tanto assim que registrei as impressões que me causou naquela época. Minha declaração de amor àquela encantadora cidade está no meu livro Relembrações, pág. 67/69.             

São Luís é, por vários motivos, uma cidade encantadora. Tudo nela transpira história: os casarios seculares, as fachadas de azulejos, as ruas estreitas e de ladeiras intermináveis dão um ar de saudosismo; tornam a cidade acolhedora. Há muito verde e a proximidade do mar faz com que se tenha sempre uma atmosfera aconchegante.

A culinária do Maranhão é algo que causa curiosidade, de início, e deixa saudades quando não dispomos daqueles pratos estranhos, para nós que não costumamos usar o azeite de babaçu, o arroz de cuchá, a farinha d’água. Os sorvetes e sucos são deliciosos. Quem saborear um sorvete de cupuaçu ou de bacuri ou de buriti, não esquece jamais.

Nos dias de folga, nos finais de semanas, aproveitava para viver São Luís na sua plenitude, subindo e descendo as ladeiras. Sempre gostei e gosto de São Luís. Ao andar naquelas ruas, sinto uma sensação de bem-estar, algo indescritível. Tem-se a impressão de que na próxima esquina vai-se encontrar Daniel de La Touche, seu fundador, nos idos de 1622. 

Quanta magia, quanto segredo, quanta história existem impregnados naqueles casarões da  França Equinocial que teimam em resistir ao tempo e às intempéries. São nada menos que 3.500 prédios tombados, no centro histórico, e destes, 1100 foram declarados, oficialmente, patrimônio da humanidade.

Eu considero um privilégio poder andar naquelas calçadas de pedras que alisaram ao longo dos séculos. As pedras dos calçamentos, de tão lisas, chegam a brilhar à luz do sol; privilégio igual é tocar naquelas paredes seculares impregnadas de uma atmosfera singular, como a nos quererem falar dos antepassados que ali deram início à nossa história. 
      
Quanta beleza existe no Teatro Arthur Azevedo, o segundo mais famoso do Brasil, construído em estilo colonial, por volta do ano de 1817. Caminhando por aquelas ruas, não se pode deixar de dar uma passadinha na Rua do Sol, mais precisamente, na Casa onde Aluísio Azevedo escreveu “O Mulato” – um clássico de nossa literatura.
A sede da Prefeitura de São Luís, por exemplo, é outra preciosidade que enche os olhos; é o Palácio La Ravardiere construído em homenagem ao fundador da cidade Daniel de La Touche em 1689 e remodelado no Século XIX.

Não se pode esquecer o Fórum de São Luís, um prédio em estilo eclético, do Século XIX, com suas majestosas colunas romanas, outra joia da arquitetura que  enaltece a Praça Pedro II, onde fica também o Palácio dos Leões  sede do Governo do Estado.
São Luís é uma interminável sequência de páginas de história preservadas em pedra e cal e no tijolo de adobe, que os engenheiros da época nos legaram através de obras raras como a - Fonte do Ribeirão; as fachadas de azulejos da Rua de Santaninha, da Rua do Passeio, da Praia Grande, bairro mais antigo e tradicional da cidade.

Na praia grande ainda é bonito se ver as Ruas Portugal, do Trapiche, do Giz, Rua do Sol e tantas outras. É indescritível a beleza inigualável da festa multicolorida do bumba-meu- boi. O bumba-meu-boi faz parte da tradição cultural do povo maranhense. O espetáculo é de uma beleza rara. Sua origem vem da época da escravidão. Era o lazer dos negros que se reuniam nos pátios das senzalas, fazendas e engenhos para brincar.

O bumba-meu-boi, com toda sua beleza, apresenta-se no mês de junho, envolvendo dezenas e dezenas de grupos folclóricos das cidades do interior que vêm à capital. Dos inúmeros grupos, podem-se destacar os bois Maracanã, da Maioba e da Madre de Deus. São Luís é tudo isto e muito mais, que só vivendo e vendo se pode sentir a aura de misticismo que envolve aquela Ilha, aquela Pérola do Atlântico.

As praias de São Luís, ainda hoje, a despeito da agressão à natureza, teimam em preservar a beleza original. São belíssimas as praias de Ponta d’areia, Calhau, Olho d’água e Araçaji. Pedaços do Paraíso que Deus deu de presente e o homem na sua irracionalidade vai aos poucos destruindo.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 20 de agosto de 2010

 

 

Carta Aberta aos Candidatos

O brasileiro, de todos os quadrantes, vive momentos de extrema (in)satisfação. Não podia ser diferente, estamos na fase do "horário eleitoral gratuito". Gratuito para os candidatos e oneroso para a plebe rude e ignara que depois paga a conta. Pagamos para que nos tirem o sossego. Não bastando os carros de som durante o dia, desafiando o limite de decibéis estabelecido pela Justiça Eleitoral, ainda vêm os postulantes a salvadores dos desvalidos invadir nossas salas, nossa intimidade com discursos encardidos de tantas vezes repetidos.
Mas, façamos uma trégua e, antes do voto propriamente dito, aquele que vai pra urna, demos um voto de confiança aos futuros dirigentes desse nosso querido Brasil.

Aqui faço um apelo em nome das crianças e jovens. E transcrevo o que eu pensava há mais de uma década e que se encontra em meu livro RELEMBRAÇÕES, pág. 18/20. Naquela oportunidade, eu pensava e dizia o que ainda é pertinente por sua atualidade.

Atualmente, é triste admitir, neste mundo conturbado, a criança amadurece precocemente, introjetando valores que, no mais das vezes, deformam a sua personalidade. A criança assimila, muito cedo, o sentimento de violência, de agressividade. O tráfico de drogas é coisa corriqueira, mesmo nas cidades do interior.

A criatividade dos traficantes vai além das medidas repressivas. Não dá para entender como o governo não encontra meios de restringir a venda indiscriminada da famigerada - cola de sapateiro. É incrível a facilidade com que os menores adquirem cola de sapateiro, maconha, craque, cocaína, etc.

As estatísticas continuam sendo estarrecedoras e as mais recentes confirmam, infelizmente, que a droga está matando milhares de crianças todo ano. São vidas, ainda no início, fadadas à morte implacável. Não posso conceber que o Governo não tenha meios de dar um basta nisso tudo. Sou forçado a acreditar que o comércio da cola (da droga em todas as suas espécies) traz vantagens para muita gente que deveria agir contra ela.

A criança de hoje, lamentavelmente, já não faz jus ao conceito de Blase Pascal – “a criança é o homem no estado puro”. E a culpa é da criança? Evidente que não. Como também a culpa não é só da sociedade, como afirmam alguns, numa definição simplista para esse caos que corrompe, de forma cruel as nossas crianças.

A verdade – nua e crua – é que o Estado de Pernambuco, de há muito, ostenta o vergonhoso 2.º lugar como matador de crianças. Os números são dantescos... apavorantes e pedem, exigem, providências coibitivas de tão grave situação. Os fatores determinantes da delinquência infanto-juvenil não são segredo para ninguém. As origens vão desde o “inchaço” das grandes cidades, passando pela fome, desemprego, falta de moradia, descambando para o ingresso da criança pelas drogas, furtos, roubos, assaltos à mão armada, enfim, o marginal completo e acabado – quando o jovem mal saiu da puberdade. Isto quando não se transforma em “presunto”: sendo friamente metralhado, nas caladas da noite, como “queima de arquivo”. 

O Brasil decantou aos quatro ventos o Estatuto da Criança e do Adolescente, lei especificamente direcionada à proteção dos direitos dos menores, sancionada em – 13 de julho de 1990.

Na época em que foi sancionada a nova Lei, mostrava-se à nação o Estatuto como sendo a solução que faltava para os problemas de nossas crianças de rua. E, assim, num projeto megalomaníaco, como  sempre foi a  característica do (des)governo Collor de Mello, o governo anunciava a construção de milhares de CIAC’s que permitiriam o ingresso do Brasil no 1.º mundo - no setor educacional.

O Estatuto, não se pode olvidar, teoricamente, trouxe um avanço considerável na forma de se encarar o problema da delinquência juvenil. Em paralelo, deixou e ainda deixa – passados mais de 10 anos – Juizes, Promotores, Defensores Públicos – de mãos atadas, no momento em que se deparam com o caso concreto.

É a velha estória: de nada adianta se ter uma lei eficaz (no papel) sem se proporcionar os instrumentos essenciais para executá-la. As rebeliões de menores estão aí na televisão, quase toda semana. O sistema já deu sinais claros de que não recupera o menor infrator. O que se discute muito é a necessidade urgente de se reduzir a  - responsabilidade penal do menor. O que hoje é estabelecido como 18 anos, baixaria para 16 anos, ou seja, a partir de 16 anos o indivíduo responderia por todos os seus atos criminosos. Não vejo grande vantagem, apenas neste ponto.

O que este nosso Brasil necessita, urgentemente, é reformular o seu sistema prisional. E isso não é novidade.  Cesare Becaria, médico e jurista italiano, já no século XVIII, portanto, há mais de 200 anos já dizia qual o sentido primordial da pena – recuperar o indivíduo.                             
E nosso sistema prisional, da forma que está, jamais conseguirá atingir esse fim. Aqui fica mais esse alerta para as nossas autoridades. Cuidem das nossas crianças para não ter que punir os adultos.

A solução existe, pois dinheiro não falta à nação. Quando se quer, se faz. Portanto, cuidar das nossas crianças, proporcionando-lhes meios para que cresçam longe dos descaminhos – é bem mais fácil, menos dispendioso e é mais produtivo do que se manter criminosos trancafiados nas grades, entregues, inócua e perniciosamente, à ociosidade, maquinando outras perversidades futuras, que serão levadas a efeito quando voltarem ao convívio social.

Diante de uma realidade irreversível, cruel, nefasta e inaceitável, enquanto os governantes, e a quem mais competem, continuarem indiferentes e  não partirem para instrumentalizar a Justiça com os meios coibitivos à delinquência juvenil; enquanto não se olhar para os meninos de  rua – como uma obrigação constitucional -, como um dever de cada cidadão; enquanto não se levar à frente um projeto sério de assistência à criança abandonada, milhares delas serão dizimadas nas caladas da noite, milhares de delinquentes-mirins continuarão superlotando os necrotérios para vergonha de toda uma nação. Para o constrangimento de todos nós. E os matadores de aluguel continuarão “fazendo justiça” com as próprias mãos.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 18 de agosto de 2010

 

 

Memórias Resgatadas
e Objeto Voador Não Identificado (...à distância)


Este final de semana foi bastante proveitoso. Os anais de Afogados que vêm sendo reunidos pelo Fernando Pires recebeu subsídios preciosos com as duas entrevistas que conseguimos realizar. A primeira, com o nosso amigo e ex-companheiro de Rádio Pajeú José Tenório Cavalcanti, ou simplesmente Zé Tenório. Foi um papo descontraído e fomos rebuscando no passado fatos e pessoas da nossa convivência. Os colegas de rádio, passaram todos ou quase isso: O Abílio Barbosa que não largava uma revista de palavras cruzadas e tinha uma letra muito bonita; Fernando Souza, Geraldo Magela Valadares, um dos primeiros locutores da Rádio Pajeú; Aroldo Souza - o Aroldinho; Gilberto Santos, que teve rápida passagem, assim como GG Araújo, que surgiu em Afogados como mágico e, logo depois, retornou e passou a trabalhar na Rádio Pajeú; Miguel Alcântara, Geny Rodrigues, Barnabé Ramos, Djacy Veras, Dinamérico, Waldecy Menezes, Iraildo Bezerra e tantos outros. A entrevista com o Tenório está imperdível.

Hoje, domingo 15, logo cedo o Fernando me liga e vamos ao encontro do Cícero Avelino da Silva, que é nada menos que o Lulu Pantera. E com Lulu não foi diferente; repassamos a história da orquestra de Afogados da Ingazeira, relembrando músicos como: Dinamérico Lopes, Guaxinim, Luís de Ernesto, Expedito “abeinha”, Tota Vasco, Mestre Biu e outros, como: João Alves Filho, Aderval Viana, Zezito Sá. Fomos ao fundo do baú, puxando pela lembrança e nossos valores do passado foram desfilando em nossa mente. A emoção tomou conta do Lulu Pantera quando lembrou e passou a falar do saudoso Bernardo Ferreira, um grande músico e exímio jogador de sinuca e bilhar. Um seresteiro e compositor que se foi prematuramente, num carnaval, deixando de luto toda a cidade que ainda hoje sente sua perda.

Terminada a entrevista que gravamos no prédio onde, inicialmente, funcionou a Rádio Pajeú, gravamos também uma matéria sobre o Museu do Rádio, mostrando equipamentos e detalhes do rádio de outrora.

Ao nos dirigirmos para o centro da cidade, percorremos grande parte do trecho do anel viário e, nas imediações do Estádio Vianão, inesperadamente, presenciamos uma cena típica da índole do brasileiro. Lá no fio de alta tensão, pendurado, estava, e ainda está, um Objeto Voador Não Identificado (à distância). Chamei a atenção do Fernando Pires e as lentes da máquina captaram a imagem. Não sei como, mas alguém conseguiu arremessar e deixar exposto um tênis de tamanho agigantado, para surpresa de quem passa por ali.

Por isso, digo, ganhamos o fim de semana e a história de Afogados ganha subsídios que serão de valia para quem cultua nossa memória e sua gente.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 15 de agosto de 2010

 

 

Pinto de Monteiro - O Jurista

O maior dos poetas repentistas, Severino Lourenço da Silva Pinto, ou simplesmente Pinto de Monteiro, escreveu sua própria história e se tornou legendário e lendário. Agigantava-se quando cantava; a ninguém temia e era por todos respeitado. A “alcunha” que se revestia de título honorifico, traduzia toda a potencialidade de seu estro.

Pinto era a “Cascavel do Repente”. Pela tradição oral sempre há algo novo a se ouvir sobre Pinto. São “causos” que se vão transmitindo rumo à imortalidade. Conta-se... (verdade ou não, o importante é o “causo”) que um amigo de Pinto caminhava sob sol a pino, sedento, por perto não havia casa onde pudesse pedir água. Ao avistar na roça de Pinto uma apetitosa melancia, não teve dúvida, pulou a cerca, quebrou a melancia na pedra e a “devorou” num minuto. Com a honestidade que é peculiar ao sertanejo, escreveu seu nome na casca da melancia e lá deixou para que Pinto soubesse quem havia estado ali.
E saciado pensava: “quando me encontrar com Pinto vou lhe agradecer pela melancia”. No sábado seguinte, estando na feira, avistou Pinto e dirigiu-se a ele para contar o ocorrido. Não chegou a dizer nada, porque o Poeta o interrompeu dizendo:
“Cometeste um delito / Ao entrar em meu roçado / Mas depois de ter entrado / Fizeste um papel bonito / Por causa de um grito / Se perde uma vacaria / Eu também assim faria / Se me achasse com fome / Comia e deixava o nome / Na casca da melancia”.
Nesse verso, Pinto nos dá uma aula de Direito Penal. De uma “tacada” só o Poeta nos mostra vários institutos da Ciência do Direito Criminal. Senão vejamos:
“Cometeste um delito / Ao entrar em meu roçado”. Aqui o poeta se refere ao delito de “invasão de domicilio”.
E prossegue: “Mas depois de ter entrado / Fizeste um papel bonito / Por causa de um grito / Se perde uma vacaria.” O poeta deixa implícito que reconhece uma - atenuante - para “o delito” do amigo.
”Eu também assim faria / Se me achasse com fome”. Eis aqui o que o Direito Penal considera - estado de necessidade, que é excludente da criminalidade do ato praticado, ou seja, quem tira o alheio para saciar a fome, não comete crime.
E, por fim, diz o Vate: “Comia e deixava o nome / Na casca da melancia”. Tem-se aqui a - confissão espontânea - que é uma - atenuante - oportunizando uma minoração na dosagem da pena.

Só quem tem o privilégio de ouvir estes iluminados cantando num pé de parede, consegue perceber que o poeta fala pela voz da providência, com a sabedoria Suprema. Eu precisei alisar banco de Faculdade durante cinco anos para aprender o que Pinto disse num minuto. Alguém duvida que esses “monstros sagrados” são dotados de uma Luz Superior?

E certa vez, num júri, usei este fato no meu discurso de defesa. O caso assemelhava-se, pois o homicídio teve como vetor principal uma querela entre vizinhos, originada de invasão de terrenos contíguos. E, por coincidência, havia também a subtração de melancias por um dos envolvidos.
Um feliz dia dos pais para todos nós!

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 07 de agosto de 2010

 

 

Uma Estrada e Seus Afluentes Culturais

No último sábado 31, como sempre faço todo mês, fui a João Pessoa. Tal qual o jangadeiro que em sua frágil jangada enfrenta a imensidão do mar bravio, também me aventurei a enfrentar o que restou de rodovia entre Afogados da Ingazeira / Albuquerque-Né. São menos de 50 quilômetros de estrada e milhares de buracos e crateras, desafiando nossa paciência e o poder de determinação das autoridades que fazem ouvidos de mercador.

Vencido o desafio, passamos por Sertânia até a divisa de Estado. Ali mesmo, no primeiro centímetro de solo paraibano, já se sabe que saímos de Pernambuco, porque a rodovia foi recapeada, recentemente, e até João Pessoa é um “tapete” que desfrutamos ao longo do percurso. Passamos por Monteiro, a terra do Grande Vate - Pinto. À margem da Rodovia, está uma Praça em sua homenagem, seu retrato e a viola com que ganhou a vida e deu vida às coisas do sertão, dentre outras. Ali se lê uma pérola do Poeta-Maior: “Poeta é aquele que tira de onde não tem para botar onde não cabe”.

Seguimos e passamos por Sumé, o berço natal do Matuto Zé Marcolino . Naquelas paragens, com certeza, ele foi sedimentando toda sua bagagem, enchendo o matulão da mente, até fazê-lo transbordar com joias preciosas que se tornaram e o fizeram imortal.
Mais à frente, passamos por São João do Cariri, com a triste lembrança de que naquelas imediações a morte traiçoeira nos levou o pequeno-Grande Severino Ferreira .

E a viagem prossegue até chegarmos a São José da Mata, que dá acesso a Puxinanã. Na lembrança nos vem Zé da Luz que decantou a Flor de Puxinanã, dizendo: “Três muié, ou três irmã / Três cachorra da mulesta / Eu vi num dia de festa / no lugar Puxinanã / A mais véia, a mais ribusta / Era mermo uma tentação / Mimosa flô do Sertão / Qui o povo chamava Ogusta / A segunda a Guileimina / Tinha uns oi qui ô! Mardição / Matava quarqué cristão / Os oiá dessa minina / Os oi dela parecia / Duas istrela tremendo / Se apagando e se acendendo / Im noite de ventania / A tercêra era a Maroca / Cum o côipo munto má feito / Mas porém, tinha nos peito / Dois cuscús de mandioca / Dois cuscús qui, prú capricho / Quando ela passou pru eu / Minhas venta se acendeu / Cum o chêro vindo dos bicho / Eu inté mi atrapaiava / Sem sabê das três irmã / Qui eu vi em Puxinanã / Qua era a qui mi agradava / Iscuiendo a minha cruz / Prá saí desse embaraço / Desejei morrê nos braço / Da dona dos dois cuscús”.

Pouco tempo depois, contornamos Campina Grande, a Rainha da Borborema, a se exibir com toda sua majestade e pujança de uma cidade que cresce a olhos vistos. Saímos de Campina Grande e o que já era bom, ficou melhor ainda: pegamos a duplicação da rodovia com excelente pista e uma paisagem que nem mesmo a rotina faz com que deixemos de nos deleitar com o cenário verde dos canaviais; aqui, acolá palmeiras e, para deleite do mais observador, os alcantis decantados pelo poeta Daldete Bandeira .
À margem da pista, já próximo a João Pessoa, é inevitável uma paradinha para comprar frutas sazonais, fresquinhas, viçosas e agradáveis tanto quanto a terra que lhes fez brotar. Até que chegamos à antiga Nossa Senhora das Mercês de quem tanto fala Ariano Suassuna - hoje João Pessoa.
Falar de suas belezas é querer alongar “nosso papo” ao infinito. Mas, ao passar à margem da Lagoa com seus coqueiros e palmeiras, fico a especular se não teria sido ao contemplar tanta beleza que o poeta, boêmio e seresteiro, além de intelectual da mais alta estirpe Raimundo Asfora, teria concebido: “Amei muitas pequenas / Brancas, pretas e mulatas / Umas mansas como gatas / Outras bravas como hienas / Louras, sardentas, morenas / Boas de papo e de cama / Fiz tudo que foi programa / E a solidão continua / Não há quem substitua / A mulher que a gente ama”.

É prazeroso andar por uma estrada que nos acaricia o espírito com a lembrança de tantos valores imortais. É este o Nordeste que temos, que amamos e que não devemos NUNCA permitir que vândalos culturais o destruam com a baboseira que só o modismo mercantilista pode saturar. Nós não. Que vivam em nossa lembrança os Mestres de outrora e de sempre.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 03 de agosto de 2010

 

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