AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje

CRÔNICAS / POESIAS / OPINIÃO

LUCIANO CAMPOS BEZERRA

Advogado e cronista afogadense

 

 

 

 

 

DEFENSORIA PÚBLICA INICIA NOVA GESTÃO
COM DRA. MARTA FREIRE


No último dia 19 - Dia do Defensor Público - a Defensoria Pública do Estado de Pernambuco realizou eleição para escolha do novo Defensor Público Geral do Estado de Pernambuco. No caso foi eleita a Dra. Marta Brito Freire, para gerir os destinos da Instituição por dois anos.

Algumas considerações, pretendo fazer com o objetivo de conclamar a classe, em sua totalidade, no sentido de unirmos esforços com um pensamento único: o soerguimento da Defensoria Pública. É certo que numa campanha eleitoral, seja de que caráter for, os ânimos se acirram e ofensas pessoais são proferidas no calor da emoção, deixando resquícios de mágoas e ressentimentos. Isso porque a emoção sobrepõe-se à razão.
Daqui pra frente, “desarmados os palanques”, entendo que devemos aceitar a vontade da maioria (assim se concretiza o pleito democrático) e termos em mente que somos todos nós, agentes públicos e que devemos prestar o melhor serviço à nossa clientela, a população carente.
Não se pode olvidar que a Dra. Tereza Joacy Gomes de Melo fez uma administração exemplar, elogiada e reconhecida por todos. Ao colocar seu nome ao julgamento da categoria, esteve no mesmo patamar de preferência dos outros dois mais votados: Dr. Edmundo Antônio Siqueira Campos e Dra. Marta Brito. A apuração demonstrou que os três primeiros colocados tiveram grande respaldo dos votantes. Foi uma eleição disputadíssima.
Pela legislação que rege a Instituição o processo de escolha se dá, em primeiro lugar, pela categoria e os três nomes mais votados são apresentados ao Governador do Estado que nomeia aquele que lhe convier. Assim, usando do permissivo legal, o Exmo. Sr. Governador entendeu de nomear a Dra. Marta Brito. Não nos compete aqui discutir uma decisão que, por um imperativo legal, se dá “ad nutum”.

À nova direção da Defensoria, desejamos, sinceramente, uma gestão profícua e que consiga dar continuidade ao trabalho da Dra. Tereza Joacy, principalmente com o objetivo de tirar a Defensoria Pública do Estado de Pernambuco do incômodo lugar de Pior Salário do Brasil. Devemos estar todos imbuídos, doravante, do propósito de fortalecer a Instituição que tem como escopo maior: garantir ao cidadão carente a defesa dos seus direitos básicos para que, com dignidade, possa ele exercer sua cidadania em pé de igualdade com os mais aquinhoados.
É uma nova etapa que se inicia. Viramos uma página na nossa história com a administração da Dra. Tereza Joacy que demonstrou dedicação e empenho pelo melhor para a Instituição. Vamos confiar na nova Gestora e cada um dar de si na missão que hoje desempenhamos, afinal, a Instituição Defensoria Pública é maior que qualquer projeto pessoal. Como operadores do Direito Ciência e Direito Positivo, devemos abstrair o açodamento, o impulso emocional em nossas ações, pois o melhor não se faz às pressas.
Deixo aqui um apelo, e faço votos que os colegas lembrem-se sempre que a cizânia, a retaliação é contraproducente para qualquer grupo, mesmo porque a divisão sempre enfraquece, ao passo que com a união de esforços os objetivos serão alcançados mais facilmente. É isto o que penso.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 21 de maio de 2010

 

 

PELO RETROVISOR DA MENTE

Começo de mais um dia e aqui estou frente ao espelho, no banheiro, terminando o asseio diário. Os dentes que escovo já não são todos originais. Os cabelos, antes pretos, já estão prateados. O rosto antes liso e a pele com o vigor da juventude, hoje se me apresenta com rugas que foram se formando no passar dos anos. Este é o aspecto físico, exterior.

No íntimo, também, amarguras e decepções deixaram-me rugas indeléveis que nem o tempo ainda conseguiu extinguir. Abro minha carteira porta-cédulas e vejo a fotografia de minha Identidade. Sou eu mesmo? Sim, porém, mais velho que ontem e mais novo que amanhã. Não adianta duvidar da fotografia no documento. Basta lembrar que a marca de meio século de vida já dobrou a esquina do tempo.

Olhando pelo retrovisor da mente, relembro das peripécias de um jovem destemido, atirado e inconsequente por muitas vezes. Já no limiar da fase adulta os ideais mudaram e a consciência política aflorou com mais intensidade, levando-me a outros episódios dignos de serem lembrados, pois mesmo em algumas ocasiões, até mesmo pondo a vida em risco, havia um objetivo a ser alcançado. Fazia sentido até, se fosse o caso, o sacrifício da própria vida. Era um sonho que acreditava e que por ele, não media as consequências. A vida continua e com ela os percalços, lutas inglórias, mais adiante... vitórias que premiaram o esforço empreendido.

No lado afetivo também ficaram ranhuras e, outras vezes, doces lembranças. Alguns amigos já se foram. Por esse mundo conheci pessoas dignas e crápulas; amigos que ainda me dão uma saudade que dói, pela ausência e a certeza de um impossível reencontro. Como cidadão, faço minhas as palavras do Mestre Ariano Suassuna: “Não sou pessimista, sou um realista esperançoso”.
Diante da realidade atual, já não acalento sonhos irrealizáveis nem me deixo levar por promessas cretinas de escroques proselitistas. Mirando o espelho reconheço neste rosto envelhecido, o envoltório de uma mente que aprendeu com os percalços da vida. Cada fio de cabelo embranquecido representa as decepções pelos sonhos não convertidos em realidade.

Resta-me conservar a paciência, diante dos impulsos inovadores da juventude que me cerca, e, humildemente, transmitir-lhe, sem empáfia nem a arrogância própria dos egocêntricos, a experiência adquirida ao longo da existência com a esperança de que os jovens de hoje possam, amanhã, mirarem-se no espelho da parede e observar no retrovisor da mente sem nada ter de que se envergonhar.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 17 de maio de 2010

 

 

VALE A PENA NÃO VER DE NOVO...

Aproxima-se mais uma etapa da hipocrisia nacional. O que deveria ser uma festa da cidadania dará lugar às falcatruas tramadas nas caladas da noite. Os falsos salvadores da pátria farão superlotar as praças de incautos que aplaudirão todo o engodo que lhes é “enfiado de consciência adentro”.

Em breve terá início a campanha eleitoral, com ela as visitas de candidatos com promessas inexequíveis. Quantas consciências serão manipuladas; quantos votos “encabrestados”; as cenas se repetirão em todos os quadrantes deste país (que dizem ser abençoado por Deus). Volta à tona a expressão “boca preta”. Para quem não conhece o termo, o boca preta é aquele que vota no candidato contrário, ou seja, quem não vota no meu candidato, será para mim um “boca preta”. Daí para as provocações, para o achincalhe ao próximo é um passo.

Não é raro vermos famílias se dividirem, guardando ódio por discórdias eleitorais. É o provincianismo com todas as letras. E o que é mais curioso, são as mesmas figurinhas carimbadas, deixando a ideia de que num Estado, por mais populoso que seja, só existem aqueles mesmos capazes de governá-lo. São as “panelinhas”, as mutretas, a maladragem travestida de legalidade. O voto secreto, livre e consciente, só existe teoricamente. Secreto nunca foi; livre jamais, e consciente está longe de ser. O voto é trocado por qualquer migalha.
E a “fidelidade partidária?” Essa só é exigida do eleitor. Ele, pobre coitado, não tem o direito de mudar de partido ou candidato, mas o candidato pode pular de galho em galho, até encontrar um que lhe deixe mais próxima a uma “teta cheia” para se locupletar por mais outro mandato. E o eleitor que é vendido como rebanho, não percebe que aquele minuto que ele passa para eleger um salafrário, significa uma “procuração assinada em branco” para que um crápula o represente por 4 anos, com poderes plenos.
E não me venham falar em cassação, que essa é a possibilidade mais remota. Quantos fichas sujas se elegerão, e outros se reelegerão no próximo pleito? Enquanto isso, os problemas continuarão. Os morros descerão na enxurrada; as favelas proliferarão; as estradas em estado de calamidade; as escolas e a saúde sucateadas; as escolas públicas – de nível superior – cada vez mais inacessíveis aos descamisados. É o caos, mas tudo bem.

Vamos aplaudir e votar no Salvador da Pátria, pois ele frequentou minha casa, ele não perde um sepultamento e, regularmente, envia um cartão de natal. Aliás, pago com meu dinheiro. É a festa da democracia vilipendiada. Mas, isso é Brasil que exulta de alegria em dobro: ano de eleição e copa do mundo.

Quer mais o quê?

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 11 de maio de 2010

 

 

RESPONDENDO À PERGUNTA DE FÁTIMA

Primeiro, deixe-me dizer do contentamento que me traz qualquer comunicação de alguém que reside distante e manda seu texto impregnado de saudade, de lembranças remotas, enfim, algo que nos faz retroceder no tempo e reviver momentos da infância nas bucólicas tardes de nossa Afogados de antigamente. Fátima; lembro-me dela desde o nosso tempo de criança. Aqueles olhinhos sempre vivos, inteligência que já se prenunciava, confirmando a máxima: “espinho que vai furar, já traz a pontinha aguçada” (é mais ou menos isso). E deu nisso aí.
O que sentimos nos seus textos: muita profundidade, preocupação com os desníveis sociais, curiosidade pelos problemas que afetam à coletividade. Uma cidadã com letras maiúsculas.

Bem, Fátima, o colega Gilberto “acertou na mosca”. O que deve prevalecer é a hierarquia das leis, que determina a Supremacia da Constituição Federal, a nossa Carta Magna. Assim sendo, nenhuma lei poderá dispor ao contrário do que preconiza a constituição.
O Professor José Afonso da Silva leciona: "A rigidez constitucional decorre da maior dificuldade para sua modificação do que para a alteração das demais normas jurídicas da ordenação estatal. Da rigidez emana, como primordial consequência, o princípio da supremacia da constituição que, no dizer de Pinto Ferreira, "é reputado como uma pedra angular, em que assenta o edifício do moderno direito político". Significa que a constituição se coloca no vértice do sistema jurídico do país, a que confere validade, e que todos os poderes estatais são legítimos na medida em que ela os reconheça e na proporção por ela distribuídos.
É, enfim, a lei suprema do Estado, pois é nela que se encontram a própria estruturação deste e a organização de seus órgãos; é nela que se acham as normas fundamentais de Estado, e só nisso se notará sua superioridade em relação às demais normas jurídicas." E, como arremate, destaque-se que: "A ideia de controle de constitucionalidade está ligada à Supremacia da Constituição sobre todo o ordenamento jurídico e, também, à de rigidez constitucional e proteção dos direitos fundamentais.

Desculpe a prolixidade, mas o caso requer um esclarecimento nesta dimensão.

Um forte abraço a Fátima e aos seus familiares.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 9 de maio de 2010

 

 

UMA SOTURNA MADRUGADA

Naquela madrugada (2 de maio), fria e interminável, jazia rodeado de coroas de flores e inscrições com homenagens dos remetentes, o corpo do nosso querido e inesquecível Dr. Hermes. Absorto em meus pensamentos, vi passar toda uma Afogados de outrora. Olhando para o outro lado da Praça revivi os tempos das festas de finais de ano, quando as famílias compareciam à loja de Seu Guardiato Veras, toda ornamentada e uma árvore de natal gigantesca, repleta de brinquedos que inebriavam os olhos das crianças.
A Praça Domingos Teotônio (na época) era pequena para a multidão que se apinhava à espera da missa de passagem de ano. Lá, mais embaixo, estava a Farmácia de Seu Helvécio Lima, grande empreendedor, homem de visão futurista e que muito contribuiu para o desenvolvimento de nossa cidade.
E nessa peregrinação mental, revejo o casal: Dona Aurora e Seu Ezequiel Moura, naquela casa de esquina, vizinho à casa do Padre Antônio. Nas nossas brincadeiras de crianças nos afoitávamos a ir até o beco de Seu Ezequiel. Ninguém ousava ultrapassar para a Rua 13 de Maio (hoje Senador Paulo Guerra), pois bem ali, onde hoje é o Fórum, havia um cemitério, que era o terror da meninada. E a Praça Domingos Teotônio ainda tinha outro atrativo que era o Bar de Seu Aurélio, onde se dava início às festividades do carnaval. Os casais faziam ali o “aquecimento” e, lá pelas onze horas da noite, dirigiam-se ao ACAI.
Lá no canto da praça, residia a querida e saudosa professora Letícia Góes: competente em sua missão, rígida na cobrança das tarefas, e autoritária, quando necessário.

A madrugada vai-se escoando e os pensamentos fluem, as lembranças trazem, nitidamente, outros que já se foram: até parece que é real a imagem de Seu Deda Capitão, assim era conhecido o cidadão Manoel de Sá Maranhão. Mais uma vez adentro na casa de Seu Guardiato e vejo móveis antigos que parecem dizer-me que foram feitos pela habilidade e competência do exímio marceneiro Antônio Aleixo. E me vem a pergunta: onde o artífice adquiria os pregos, cola, verniz para dar o acabamento e deixar aqueles moveis com tanta beleza? A resposta vem de pronto: encontrava tudo isso e muito mais no Empório de Zezé Rodrigues; este, homem de coração generoso e de sentimentos religiosos arraigados que o faziam, na sexta-feira Santa, abrir meia porta de seu estabelecimento e distribuir, gratuitamente, gêneros alimentícios para as pessoas carentes.

E as divagações continuam trazendo-me a figura de Dona Estelita ao lado do marido Luiz Amaral, naquele Cartório onde comparecia, regularmente, Seu Miguelito com um indefectível cigarro e passava horas a ler o jornal, só interrompendo a leitura para algum comentário sobre política.
As ideias, tal qual um pêndulo, vão-me trazendo outros vultos que fazem parte da nossa Afogados de outrora e assim vejo Antônio de Carvalho Lima, ou Antônio de Amara, ou, ainda, Antônio Pirraia, lá no Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, distribuindo leite para a meninada, em canecas de alumínio, na hora do recreio. E quando alguém pretendia oferecer um banquete com esmero, convidava para chefiar a cozinha – Dona Lica, exímia cozinheira, aplaudida por todos aqueles que tiveram a ventura de provar de sua arte na culinária.

Lanço um olhar mais ao longe e vejo Amaro Batista, ou Amaro pé de pato, com um talão de passar bicho na mão e dizendo para alguém a numeração da placa de um carro. Amaro sabia, decoradas, todas as placas dos automóveis da cidade.
Na atual Praça de alimentação – antiga Praça Oscar de Campos Góes e, atualmente, Praça Miguel de Campos Góes, tínhamos o Hotel de Dona Iracema, ponto de encontro dos estudantes, após as aulas no Ginásio Pinto de Campos, onde lecionaram: Geraldo Cipriano, Geraldo Campos, Assis Ribeiro, Luiz Justino dentre outros que já se foram.

Vou rebuscando lá no fundo da memória e sinto a lacuna sentimental que deixou o Coreto que ficava no meio da Praça. Com ele me vem a figura de Gesualdo Pereira da Silva, o carismático – Nego Sapateiro. E nessa divagação encontro ainda José Florentino, conhecido por Zé Flor, que se dizia meu admirador na Tribuna do Júri. Sempre que me encontrava, dizia: “esse aí vi nascer e hoje não perco um júri seu”. Realmente, sempre que eu chegava na tribuna, passava o olhar na platéia e lá estava Seu Zé Flor que ouvia atentamente os debates, só retirando-se quando era anunciada a Sentença.

O sol já anuncia a chegada de um novo dia. O cansaço quer me dominar, fecho os olhos, e ainda me acena a lembrança de Francisco Alberto de Moura, o Beto de Bião, um companheiro de infância e que, tempos depois, viria a me incentivar a ingressar na maçonaria.
Já é dia claro. A cidade vai aos poucos despertando; o movimento vai aumentado com os transeuntes das primeiras horas. Retorno à realidade e percebo que se aproxima o momento de acompanharmos, em sua última viagem, mais um afogadense que ajudou a construir a história desse povo. Dirijo o olhar para o esquife e nele vejo um grande homem que cumpriu sua trajetória com dignidade.

Estes foram os últimos instantes em que estivemos juntos, Dr. Hermes, porque sua caminhada na verdadeira vida teve início.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 3 de maio de 2010

 

 

Dr. HERMES - AO ENCONTRO DE HIPÓCRATES

Regozijam-se todos os anjos, exultam os querubins e os arcanjos perfilam-se. A Corte Celestial neste dia engalanou-se para receber um Espírito de Luz. É certo que os Espíritos Superiores são despojados da vaidade e dispensam a pompa. Para nós, ainda nesse mundo material, é difícil abstrair uma imagem de ostentação quando se pretende descrever a chegada do Anjo da Saúde , Dr. Hermes , no Plano Superior, na Morada do Pai.

Hoje não quero pensar em tristeza, embora a separação material seja consequência inexorável e determinada pela ordem natural a que é passível todo vivente.

Hoje, devemos guardar e rememorar toda a sua obra de amor e obstinação na busca de aplacar os sofrimentos materiais do ser humano. Na sua faina diária mitigou muitas dores e sofrimentos. Sua presença amiga ao adentrar num lar onde agonizava alguém era certeza de que a saúde estava chegando. Sua paciência, sua mão suave e amiga, seus medicamentos “milagrosos” seu olho clínico já foi lenitivo para milhares de moribundos.

Hoje o Anjo da Saúde descansa na paz dos justos. As forças vitais que ele tanto recuperou nos outros, já não estão presentes em si próprio. Outras forças, porém, atuam sobre ele e sobre os que lhe amam: a força espiritual que nos conforta com a certeza de que seus méritos lhe deixaram reservado um lugar junto ao Pai.

A nós, que aqui ficamos, resta guardar com carinho e na lembrança aquele que foi um exemplo vivo da prática dos postulados da deontologia médica, defendida por Hipócrates e que ele jurou e cumpriu em todos os seus momentos de médico, deixando esse legado aos profissionais que pretendem conduzir-se sob o manto da ética.

Vai em paz, discípulo de Lucas e Hipócrates. Do Pai tu vieste e a ele retornas, ficando eternamente na nossa gratidão e memória.

Até breve, Dr. Hermes.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 1º de maiol de 2010

 

 

 

Estou voltando. Aos poucos... mas estou!

Conforme o mano Fernando Pires já divulgou, passei alguns dias na aprazível – Salvador – participando do 12º Congresso Mundial de Justiça Criminal e Prevenção ao Crime, promovido pela ONU. A princípio, é de se destacar o aspecto da capital baiana. Em nada se compara com a nossa querida Recife, que reclama maiores cuidados nos itens limpeza, trânsito, segurança, etc.

Em Salvador, apesar do temporal que enfrentamos durante quase toda a semana, não tem a sujeira generalizada da nossa capital; o trânsito flui com maior rapidez e não se sente o stress dos condutores com suas buzinas estridentes, como se apertando a mão na buzina resolvesse o problema. O pelourinho é algo que só vendo para acreditar na beleza da paisagem que se descortina aos olhos do visitante. De igual modo o elevador Lacerda que nos oferece um espetáculo digno de repetição, com a marina bem à frente. E tive o privilégio de lá estar no por do sol.

Sempre que nos foi possível visitamos outros pontos de destaque, sem deixar de experimentar a culinária baiana. Já o Congresso, em si, impressiona pelos números: quatro mil participantes; 150 paises representados. Organização beirando a perfeição; segurança máxima, pois éramos revistados minuciosamente na entrada e em todos os recintos encontrávamos policiais (masculinos e femininos) das Nações Unidas. Aliás, todas as dependências do Centro de Convenções passaram a ser território sob controle da ONU e no primeiro dia, ou seja, na abertura do Congresso, o Governador fez a entrega oficial do Centro, arriou-se a bandeira nacional brasileira e hasteou-se a bandeira da ONU.

Como troca de informações, diria que o Encontro foi positivo. Várias experiências foram relatadas, assim como empreitadas de vários Estados brasileiros também foram divulgadas. Trouxemos um acervo considerável de informações que nos serão úteis no dia a dia forense. Pelo menos tentarei aplicar o que for possível do que assimilamos naquelas proveitosas conferencias.

E como os bons ventos estão me favorecendo, hoje, dia 27, passei o dia na não menos simpática cidade de Triunfo, a nossa Suíça sertaneja, onde funcionei na defesa de uma mulher acusada de tentativa de homicídio contra seu próprio marido. Logrei êxito na tese apresentada que foi acolhida por maioria, conforme a nova sistemática processual. E aqui estou bisbilhotando nossa Tribuna comunitária.

Para finalizar, digo que é com imenso prazer que leio as crônicas da nossa conterrânea Maria Luiza Martins de Moura. Suas lembranças são impregnadas de amor e uma nostalgia gostosa que nos leva, como num filme, a rever imagens e episódios que já estavam bem guardados nos escaninhos da mente.
Para o Zezé de Moura a Maria Luiza foi buscar, lá no fundo do coração, toda a gratidão que tem por nossa saudosa professora dona Aurora. Continue assim, Maria Luiza, é disso que precisamos: resgatar a nossa memória, repassando-a para os que têm amor às suas origens.

Um fraternal abraço a todos e que o Grande Arquiteto do Universo nos ilumine sempre

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 27 de abril de 2010

 

 

SÓ DE CAMAROTE

Tenho estado ausente desta Tribuna comunitária, involuntariamente, pois se o tempo me permitisse estaria todos os dias azucrinando os leitores e cronistas dessa salutar confraria. Como não me está sendo permitido participar diuturnamente, contento-me em ler os valorosos escribas que enchem essas páginas de sabedoria para deleite de nós todos.
Volto, nesta oportunidade, em respeito a uma amizade que já ultrapassou algumas décadas, embora ultimamente as circunstâncias conspirem contra nós, fazendo com que os desencontros me impeçam de ver e dar um afetuoso abraço num dos caras que mais admiro e por quem nutro o mais profundo apreço. O singular – Edson Bigodão.
Meu caro e velho companheiro, recebi seu recado, na “linha privada” e entendi o que você sentiu em não reconhecer o Helder, meu filho, quando lhe visitou na Terra de Zé Condé. Não lhe culpo, porque não raras vezes converso com pessoas que só tempos depois consigo lembrar de quem se trata. Fiz seu pedido quando ele (Helder) esteve aqui em casa; aliás, lemos juntos o e-mail e dei-lhe as devidas explicações.

Quanto ao seu pedido de que eu ingresse naquele negócio de orkut, eu confesso que não ousarei ingressar nessa porque não sei mexer com essas coisas. Pergunta ao Fernando Pires que ele é testemunha de que sou um exímio internauta às avessas. Já pedi e aqui reitero milhões de desculpas às pessoas que me enviam essas coisas e ficam sem resposta. Não adianta, não sei mexer com isso e me conformo com a máxima: “Papagaio velho não aprende falar”.

Meu caro Fernando, embora essa minha inserção tenha um cunho quase que pessoal, solicito publicar, haja vista que o recado final vai para o Bigodão e demais amigos que me mandam esses recados de orkut e eu, por ignorância cibernética, deixo-os sem resposta.

Um forte abraço a todos.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 26 de abril de 2010

 

 

 

A CRÔNICA QUE JAMAIS FAREI...

O genial Zé Simão afirma que “O Brasil é o país da piada pronta”. Tomando emprestada a idéia deste genial articulista, eu diria que Afogados da Ingazeira é, atualmente, “a cidade da crítica pronta”. De minha parte, assumo com os frequentadores desta tribuna comunitária, o compromisso de nunca mais falar dos desgovernos desta cidade que tem tudo para ser a “sala de visitas do Sertão”.

Por enquanto, e não sei até quando, está mais para o quarto de despejo. Não falarei nunca mais que hoje a Avenida Manoel Borba, por volta das 10 horas entrou em colapso; caminhões baús fazendo entregas nas casas comerciais, parados em fila dupla, travando o fluxo de veículos; enquanto o trânsito estava na inércia, as motos colocavam em risco a vida daqueles que se aventuravam atravessando a rua. Lá, mais na frente, na Barão de Lucena, a situação não era diferente com mercadorias pelas calçadas, impedindo a passagem dos pedestres.

Quero esquecer que o transporte de carne continua sendo feito com a mesma falta de higiene, desafiando até as autoridades; não direi, doravante, que a Praça Monsenhor Arruda Câmara, tão decantada e elogiada no início, já demonstra sinais de decadência, com a grama seca, amarelada, alguns bancos já destruídos, as colunas do coreto que foram desenterradas, quando da construção da praça, estão jogadas no maior abandono; as plaquetas com sonetos dos nossos poetas foram surrupiadas.

Não esperem que não falarei nas entradas de nossa cidade que causam a pior impressão a quem chega; não direi em nenhuma crônica que a Avenida Rio Branco, desde o início da noite até a madrugada, transforma-se em pista de corrida de motos e veículos; as motos com descargas barulhentas que se pode ouvir a quilômetros de distância. Jamais falarei que os bares tomam conta de metade das ruas com mesas e cadeiras, instalam um palco para seus cantores e a algazarra vai madrugada adentro, desrespeitando o sossego público para gáudio dos boêmios e lucro certo para a iniciativa privada.
É a inversão de valores, quando a máxima diz: “O interesse público prevalece sobre o particular”. Aqui é exatamente o contrário. Não insistam que jamais falarei sobre os calçamentos de nossas ruas; quase todos em deplorável estado. Quem quiser saber é só dirigir por qualquer rua e verá que a coisa está fora de controle.

Esquecerei que o Anel Viário, há bastante tempo concluído na parte de asfaltamento, ainda hoje não recebeu a sinalização horizontal. Deixarei passar despercebido que a sinalização que foi feita no centro da cidade já “apagou”, largou a tinta. O motivo, não sabemos; talvez a qualidade da tinta usada.

Não serei eu que direi que na Praça Monsenhor Arruda Câmara, nas imediações do Banco do Brasil, é um “samba do crioulo doido” com as lotações parando de qualquer jeito e não se vê qualquer medida dos poderes competentes para coibir os abusos. Não me perguntem que não direi que vi e vejo a qualquer hora menores dirigindo; sem falar em pais e mães, também, que dirigem com crianças no colo; esquecerei que a regulamentação do trânsito já foi prometida por diversas vezes e até agora nada... nada... nada...

Esta é a situação da nossa Princesa do Sertão que está mais para a Gata Borralheira. Esta é a crônica que nunca mais farei.

Desculpem, mas... paciência tem limite.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 6 de abril de 2010

 

 

 

DR. HERMES - 100 ANOS DE ABNEGAÇÃO

Na historia de qualquer povo, seja do passado mais remoto ao mais recente, existem vultos que são cultuados e exaltados por seus feitos, sua bravuras, outros pela obra que deixaram, enfim, sempre existirão os anônimos e aqueles dignos da imortalidade, após deixarem o plano terreno. Com a história de Afogados da Ingazeira não é diferente. Dentre os vultos que merecem nossa eterna gratidão existem aqueles que sempre estão em nossa lembrança, como: Mons. Arruda Câmara, Manoel Arão, Gustavo Fitipaldi, o italiano que aqui chegou e radicou-se, trazendo consigo o espírito empreendedor; também outro, de terras distantes que deixou talvez a obra mais marcante e proeminente foi o Padre Carlos Cottart, que nos legou a majestosa Catedral que encanta a todos com sua beleza inigualável. Com o perdão daqueles que serão omitidos neste espaço, voltamos nossa atenção para uma pessoa que merece, de todos, o mais profundo respeito e toda a gratidão de que for capaz qualquer ser humano.

Ao ser instigado a tecer algum comentário sobre esta data, sinto a impotência intelectual apoderar-se de mim diante da falta de palavras para definir o que significa o homem, o profissional, o exemplo de vida que foi e continua sendo Dr. Hermes de Souza Canto.

Na passagem deste século de vida, tenho certeza que o espírito daquele guerreiro, hoje numa semi-letargia que lhe combaliu as resistências físicas, sente-se com o dever cumprido. Como profissional foi exemplo de dedicação, honrou até o último minuto de seu exercício, o juramento de Hipocrates.

São muitos os testemunhos de pessoas que viram Dr. Hermes, noite a dentro, enfrentando a fúria do Rio Pajeú e, destemidamente, atravessá-lo para atender a uma parturiente que agonizava num singelo leito de uma casa humilde, na zona rural. E o médico, o protetor da vida, sem temer a intrepidez do rio, momentaneamente caudaloso, jogava em risco sua própria vida na ânsia de levar o lenitivo e trazer ao mundo mais uma criatura de Deus. E assim, Dr. Hermes, em sua obstinação, completava a obra do Criador, que gerara, e lhe confiara trazer para o mundo mais um ser.

Não posso olvidar, neste momento, que lhe devo a vida também. Ainda criança, muito enfermo e raquítico, fui salvo pelo olho clínico e os cuidados do Dr. Hermes. Por isso externo aqui, de coração, palavras de agradecimento e na memória o terei com muito respeito.

Dr. Hermes, esse “estrangeiro” que fincou raízes no sertão, pôde demonstrar sua capacidade como gestor de uma comuna. Por sua competência e zelo pela coisa pública, ainda hoje temos a prova de sua administração. Ainda hoje pisamos em calçamentos que foram construídos em sua gestão. Na saúde foram revolucionárias suas decisões. E ficaríamos aqui a citar uma interminável lista de realizações da gestão Hermes Canto - prefeito. E como exemplo de sua retidão de conduta, no final de seu governo compareceu à Câmara de Vereadores, onde pronunciou discurso de despedida, fazendo uma ‘radiografia” completa de tudo que realizara prestando contas de cada centavo que fora por ele gerido.

Como chefe de família, legou à posteridade, o exemplo de pai amoroso, esposo dedicado e, como exemplo, é o amor que ainda se encontra pujante ao lado de sua querida Terezinha.

Como companheiro das horas vagas tinha um amigo que era quase inseparável, o saudoso Ulisses Mariano, com quem não dispensava, nos finais de tarde, duas ou três doses de uísque e muitos dedos de prosa. Isso não impedia de Dr. Hermes ser gentil e atencioso com os demais. Para ele existiam os amigos, independentemente de condição social ou econômica. Seu consultório era o refúgio e a salvação dos aflitos.

Quando o “contador” do tempo registra cem anos de vida, o que equivale a trinta e seis mil e quinhentos dias, aqui pensamos e rendemos homenagem a esse homem que dedicou incontáveis dias, sem descanso, e tantas e tantas noites insones, em prol de seu semelhante.

Por tudo isso, Dr. Hermes, e por tudo que a nossa pobreza de memória não conseguiu gravar nestas páginas, receba o nosso agradecimento e a certeza de que o teremos no ápice da exaltação àqueles benfeitores que o Criador nos envia com uma missão determinada. A sua incumbência, enquanto profissional foi nobre; sua vida como ser humano é exemplo a ser seguido por todos.

De parabéns estamos todos nós que lhe amamos, e rogamos a Deus que esteja sempre ao seu lado, por seus méritos.

Viva... Viva sempre, Dr. Hermes!

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 29 de março de 2010

 

 

 

A SAUDADE DOS TEMPOS QUE VIAJARAM NO TREM
E NÃO VOLTARAM...


No momento estou às voltas com a preparação de uma defesa para um Júri, porém, não consegui resistir e deixar passar em branco essa relíquia que nos foi presenteada pelo Fernando Pires... sempre ele! A chegada do trem na estação...
Quanta lembrança nos vem e quanta saudade. Isso sem falar na estupidez dos governantes que se dobraram diante das multinacionais e sucatearam até acabar com a malha ferroviária do Nordeste. Enquanto na Europa se dá prioridade ao transporte de trem, aqui no Brasil, a opção é pelas carretas que danificam as estradas, encarecem os preços dos fretes e ceifam milhares de vidas humanas nas estradas esburacadas desse imenso Brasil.

Mas, no meu livro - Relembrações - faço referência ao trem e a festa que era sua chegada todas as manhãs e tardes, na estação. Lá no livro eu digo assim:
Afogados era uma festa todas as tardes, quando o trem chegava à estação. Era como uma obrigação que tínhamos: ir para a estação às 09 horas da manhã e às 05 horas da tarde; não perdíamos o “bigú” naquele trem que fazia parte do nosso mundo de fantasias.
Quando o monstro de ferro dava partida, cada um de nós escolhia uma porta e, ali pendurado, dava um passeio” até que o comboio aumentasse a velocidade, quando saltávamos. O desafio era para ver quem saltava mais distante. Foi numa dessas que diante da velocidade já avançada, dois de nós fomos saltar lá no “Costa”, correndo o risco de sermos esmagados pelas rodas do trem.

O pátio da estação fervilhava de gente: eram vendedores de cocadas, bolos de mandioca, tapioca, cafezinho, frutas sazonais, enfim, aquele formigueiro humano só dispersava, ao sinal de partida, quando o trem seguia para Serra Talhada para voltar no outro dia pela manhã, com destino ao Recife.

À espera dos eventuais passageiros, formavam fileira os Ford-29 de Toreba, de Iraclides (meu pai), José Panqueta (meu tio), de Augusto (sacristão) e outros mais. Havia ainda o ônibus de Jola (de Tabira) e outro ônibus, o de Toreba, que faziam linha regular para a cidade de Tabira.

Até logo que o trem das recordações já vai partir...

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 2 de fevereiro de 2010

 

 

SAUDEMOS A TURMA DO PIJAMA
E DO CHINELÃO...


A pujante e indomável Cachoeira de Paulo Afonso é cantada em versos pelo Rei do Baião, Luiz Lua Gonzaga, citando Delmiro Gouveia, Apolônio Sales, Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas.
No nosso caso, o “garimpeiro” Fernando Pires mergulhou a “bateia” e foi buscar no caudaloso rio de valores afogadenses as pepitas preciosas que contribuíam, cada um no seu segmento, para a formação dessa comunidade que tem muito a agradecer pelos relevantes serviços que prestaram às gerações posteriores.

Encabeçando a lista vemos o Zé de Góes, hoje um autêntico “bon vivant”, que preside as sessões do “Senadinho”, que se reúne todas as noites, ao lado da Catedral, onde são repassadas as notícias de destaque do dia. O Zé de Goes e seus parceiros de “senadinho” revivem as mesmas reuniões que aconteciam, na década de 60, na Praça Joaquim Nabuco, lá em Recife, para onde acorriam, todas as noites, impreterivelmente, os afogadenses residentes na capital e aqueles que estavam em trânsito, que levavam e traziam notícias dos filhos distantes.

E vemos Dona Ivone que singrou e continua com seu inseparável Doutor Aloísio Arruda a singrar “mares de tempestades e bonança” ao longo de uma vida a dois; Dr. Aloísio esse FANÁUTICO doente incurável, que um dia deixou sua Surubim, chegou aqui, grudou e não quis nem queremos mais que ele saia.

Outro “forasteiro” que é afogadense “da gema” é o Dr. Hermes de Souza Canto, a quem o Pajeú deve todo um oceano de gratidão. Aquele médico que chegou por essas plagas nos idos de 40 e no dia 16 de novembro de 1945 uniu sua vida à da bela jovem Terezinha Cezar Veras, pelos laços sagrados do matrimonio.
E nosso reconhecimento estende-se, também, à querida Mestra: Dona Genedy Magalhães, intrépida timoneira do Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, por onde passaram várias gerações de afogadenses; no comércio, ainda insipiente da pequena Afogados, é nítida a lembrança do pioneiro Aniceto Elias de Brito com o seu “Bazar das Miudezas”, que priorizava a venda de peças para bicicletas, no memorável “beco de Zezé Rodrigues”.
E, já no ocaso da existência, aquela que tanto fez pela saúde dos enfermos, encontra-se hoje debilitada, nossa querida Dona Carmélia que vive sob o mesmo teto com o nosso estimado Garibaldi, “o Badinho” seu único filho, também debilitado e que deambula, raramente, por nossas ruas, no seu andar claudicante. O Sílvio Leandro, hoje também usuário do pijama, era um freqüentador das noitadas de longos papos, na referida Praça Joaquim Nabuco, lá no Recife.

O Moxotó nos emprestou por tempo indefinido, um dos seus filhos mais valorosos, o Dr. Raul Cajueiro de Albuquerque. Aqui chegou como Coletor Estadual, ainda solteiro formou uma república, lá na Avenida Artur Padilha, tendo como companheiros, dentre outros: Renato Bernardo Vieira - que era Gerente da Anderson Clayton -, Conrado e outros mais. O Raul Cajueiro “enganchou-se nas barrancas do Pajeú, criou raízes, e, juntamente com sua inseparável Dona Lourdes, aqui ficou e continua a distribuir frutos por uma longa existência de honradez e benemerência.

Já se vão longe os dias em que fumegava a chaminé da padaria de Seu Luizinho Bezerra, oriundo das terras de Ibitiranga e que hoje, meu vizinho, vive a colher nos primeiros raios de sol, as lembranças de quando militou na política nos tempos em que a ética e retidão de conduta eram a tônica dos homens públicos; Sr. João Olegário, outro comerciante de outrora, que, ainda esbanjando vitalidade, prossegue na sua caminhada com sua cara metade, Lúcia Virgínio, outra oriunda da Fazenda Canafístula; Lúcia é mais uma descendente do honrado e saudoso Zé Virgínio.

Na sequência vemos o Zé Coió, que traz em seu currículo uma vida toda de comércio no famoso Beco de Zezé Rodrigues; e seu Andrelino Lucas da Silva, um entusiasta e fundador do Clube ACAI, animado folião e que, no seu ramo de atividade, desbravou para milhares de nordestinos as sendas desconhecidas do Sudeste do país, com a venda de passagens; e o nosso Gastão Cerquinha, que continua a fazer e contar a história de Afogados

Retornando o vídeo-tape da memória, vamos encontrar seu Seba subindo e descendo pelas ruas da pequena Afogados com uma varinha na mão e ligando as lâmpadas da iluminação pública, quando os motores roncavam, por volta das dezoito horas, lá no final da antiga Rua 13 de maio, defronte à casa de Seu Zeca Pereira. Era seu Seba quem fazia, pacientemente, essa tarefa que hoje é realizada pelas fotocélulas.
Dona Ivone já nos referimos acima e Zezinha Martins, figura simpática e outra descendente dos primeiros habitantes que ilustraram a sociedade afogadense; Zezito Moura, uma vida dedicada ao progresso de Afogados, seja como funcionário público, cuidando do erário, seja como político que sempre teve influência nos destinos de nossa terra; João Godê ou João Morais, viu nascer a estrada que liga Afogados a Serra Talhada e, nos tempos da “emergência” fornecia gêneros alimentícios para os cassacos, como se chamavam aqueles que eram alistados nos serviços de emergências implantados pelo governo para socorrer os flagelados da seca; e o Severino Campos ou Severino de Martinha, ainda hoje, do alto de seus noventa e seis anos, nos conta histórias de uma Afogados que “engatinhava” até se tornar essa gigante do Pajeú.

Antônio de Dondon, aquele que operava as máquinas do Cine Pajeú (São José); quando, no melhor do filme, a fita quebrava, ele, coitado, era xingado por uma platéia inteira que lhe acusava de “estar roubando”... Era essa a reação daqueles que estavam vidrados no suspense de mais um episódio de Rock Lane ou Tarzan – o rei das Selvas.
Outro que ilustra o painel é o Chico Guimarães ou Chico Fogueteiro, o nosso Professor Pardal. Chico tinha solução para tudo, desde uma arma encrencada a uma máquina de costura que desregulou o ponto; uma chave que se perdeu ou um cofre que “teimava” em não abrir... Era só chamar o Chico Fogueteiro e a solução vinha de imediato. E, por último, temos o nosso Vicente Veras, que a meninada ouvia dos adultos e repetia: “Vicente Boião”, associando o nome à sua figura superlativa. Vicente ainda vive de suas lembranças, sentado numa sombra prazerosa, em frente à casa de seu pai, o empreendedor da Afogados de tempos idos - o Sr. Guardiato Veras.

Não poderia esquecer Dona Ione, a quem tenho o mais profundo respeito, e vejo nela, que foi uma das minhas primeira professoras, a figura afável de minha mãe. Dona Ione sabe do carinho que lhe dedico, e da minha imensa gratidão por tudo que fez não só por mim, mas, também, por uma legião de afogadenses.

Em seguida vem o Isaías de quem ao lembrar não podemos dissociar a professora Luzinete Amorim, essa tabirense que se metamorfoseou em afogadense e ainda continua na sua profícua lida de educadora. Também a estes, todo o nosso apreço e que Deus prolongue sua caminhada entre nós.

Ao manusear os comandos e botões do computador (essa traiçoeira máquina, para os insipientes e munhecas de pau) deixei de transpor a alusão feita ao meu ilustre vizinho Edvaldo Xavier de Albuquerque, que é tratado pelo vulgo de “Vavá de Toreba”. Esse ex-quase padre, ainda jovem estudou em seminário, mas determinou a Providência Divina que renunciasse à frágil vocação e percorresse outros caminhos. Assim o Vavá é hoje “suportado” pela paciente Carminha, ao longo de uma vida de tranquila união. Vavá iniciou na vida Cartorária ainda no tempo de Luiz Amaral e Dona Estelita; militou e respirou a poeira dos cartórios por muito tempo e hoje se dedica a levar as netas na Escola.
É um dos frequentadores do Senadinho, sob a batuta de Zé de Góes. Por último, pode-se dizer que o Vavá é um sósia do nosso inesquecível Dom Francisco. Não só eu, mas muita gente diz isso. Será que ele aprendeu a se parecer com o bispo no seminário?

Eis, pois, apenas alguns dos nossos ilustres afogadenses... Todos e cada um ao seu modo, contribuíram para a construção desse pedacinho de Brasil que, às vezes, nos causa dissabores mas que, no fundo do coração, amamos como a nossa própria mãe.

Se foi longo o nosso relato, maiores foram os benefícios que trouxeram esses aposentados para todos nós e para aqueles que ainda virão.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, Pe, 26 de janeiro de 2010

 

 

A BABEL DO STRESS

Afogados da Ingazeira viveu nesse início de ano dois grandes eventos: o ARERÊ e, por último, o Encontro de Motociclistas. É indispensável ressaltar a importância de tais empreendimentos, do ponto de vista financeiro. Ambos trazem divisas para a cidade, movimentam hotéis, bares, o comércio em geral. Por outro lado levam a cidade, na lembrança dos participantes, para os mais distantes lugares. Isso é bom, aliás, é ótimo.
Ditos eventos, todavia, que crescem a cada ano, demonstraram, inequivocamente, que a Avenida Rio Branco já não comporta o volume de público que se concentra durante os dias de suas realizações. Não se pode exigir que o som seja baixo, ou que não se toque música. É contrariar a lógica e a própria essência daquelas manifestações. Por outro lado, não se pode usurpar o direito que têm as pessoas de dormir tranquilamente; isso sem falar que não só a Avenida Rio Branco, mas as ruas adjacentes, também, se transformaram em sanitários. A fedentina é uma só. Diga-se, a bem da verdade, que sanitários químicos foram instalados, mas existem aqueles que optam pela lei do menor esforço e, com isso, urinam na primeira árvore, na primeira porta que encontrar.

Além desses dissabores, para não dizer falta de respeito e atentado à higiene e à saúde pública, temos outro problema mais cruciante ainda: durante os dias de festejos, em ambos os eventos, a Avenida Rio Branco fica interditada com a instalação de barracas, stands e palco, causando verdadeiro transtorno à circulação de veículos. Com isso, alguns passam a transitar pela contramão e a balbúrdia se generaliza. Aliás, o trânsito de Afogados da Ingazeira perde de dez a zero para as enlouquecedoras ruas da Índia.
Quantas promessas já se fizeram de que técnicos do DETRAN virão para regulamentar o trânsito e, até agora, nada. Juntem-se todos esses desacertos administrativos e se terá a receita certa para o stress. A esperança que resta - sempre a esperança - é que o Prefeito, segundo foi anunciado, estaria se encontrando nesses dias, em Fortaleza, com alguém, representante da Rede Ferroviária, com o objetivo de se construir no Pátio da Estação um local para a realização de eventos. Isso é mais uma promessa...
Até lá... aguentem: nervos e coração

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, Pe, 25 de janeiro de 2010

 

 

A CULTURA FERVILHANDO
E O POVO FREVANDO


O mundo das letras e, por consequência a história nacional, vem cultuando e rendendo homenagens, nestes dias, ao grande vulto de nossa história - Joaquim Nabuco - que foi, sem dúvida, o maior defensor do abolicionismo. Enquanto historiadores e a imprensa, notadamente do Rio e São Paulo, destacam a figura de Nabuco e sua importância para a nossa história, é curioso perceber como no meio estudantil Nabuco não é tão conhecido. Culpa dos alunos ou dos currículos que não incluem no seu conteúdo programático a vida e lutas de tão importante figura que contribuiu para aniquilar a mácula de nossa história, que foi a Escravidão.

De outro lado, já o povo do Recife e de todo esse Brasil gigante respira e transpira o clima de carnaval. Nesta última semana passei em Recife participando do 2.º Congresso luso-brasileiro de direito, que teve como tema central: O Direito na sociedade de risco - e que foi promovido pela Escola Superior da Magistratura. Devo destacar que minha participação se deu por convite do Exmo. Sr. Desembargador e Presidente da ESMAPE, Dr. Frederico Neves - à Defensoria Pública, o que me oportunizou vivenciar aquele Conclave da mais alta envergadura nas letras jurídicas e ouvir palestras, verdadeiras aulas, dos exponenciais da Ciência do Direito Brasileiro e Português.

Cumpridas as tarefas do Encontro, vivenciei e pude perceber que o Recife já é um frevo só. E com mais ênfase nos vem à lembrança aqueles que fizeram o verdadeiro carnaval que é marco da cultura pernambucana. Daí, começamos por render nossas homenagens ao Grande Capiba e ao seu melhor intérprete Claudionor Germano; no mesmo estilo e com voz parecidíssima, podemos completar o naipe de excelentes interpretes com o Expedito Baracho; aqui falo de intérpretes, pois cantores de frevo surgiram às dezenas; intérprete é diferente. Na linha de compositores, a plêiade é imensa, a partir de Ascenso Ferreira, J. Michiles e tantos outros. Mas o carnaval autêntico de Pernambuco sempre se fortaleceu com a contribuição de Zé Menezes - irmão do nosso saudoso Waldecy Menezes. A Orquestra de Zé Menezes tem o tempero certo do ritmo contagiante e a cara do folião pernambucano.

Transportando-nos para a nossa Afogados, vem a lembrança dos grandes propulsores de nossos carnavais, encabeçando a lista o professor-maestro-compositor-pistonista - Dinamérico Lopes, que era seguido pelos músicos com “M” maiúsculo: Guaxinim, Expedito Abeinha, Tota Vasco e, mais, Mestre Biu, Jabinha, Zé Nenem, Zé Malaia. Só para citar estes que faziam o ACAI ferver com os acordes da Orquestra de Frevos Pajeú. Era esse o nosso verdadeiro carnaval, com o frevo genuinamente pernambucano. Os mais velhos foliões, com suas brincadeiras sadias, porém irreverentes, sem perder a decência nem abater a moral, iam incutindo nos jovens o sentido daquela festa multicolorida que congregava toda uma cidade, no mais puro espírito de amizade e que podia servir de exemplo a qualquer jovem. É certo que havia cachaça, em fartura, afinal estávamos no festejo de momo, porém não faltava o respeito ao pudor e à moral. As músicas carnavalescas, principalmente as de CAPIBA eram verdadeiros hinos ao amor. Aliás, ainda hoje são tocadas, mesmo que raramente, para se comprovar o que aqui se afirma.

Mas o carnaval transfigurou-se... Como exemplo, tivemos o ARERÊ, que não lembra, nem de longe, os “Gritos de Carnaval” no ACAI. Era o 1º Grito e o 2º Grito de Carnaval, quando os salões ficavam repletos, numa demonstração prévia do que seriam os festejos momescos daquele ano que se iniciava.

Esse último ARERÊ, para as pessoas de bom senso, não deixará saudades, com certeza. Aliás, nas “chamadas comerciais” se dizia: “Se você não pode ir à Bahia, a Bahia vem até você”. Como se isso fosse uma novidade. Como se isso não fosse a repetição do lixo em forma de música que querem e conseguem impor às novas gerações de foliões.
O que se viu nesse ARERÊ, felizmente fui poupado por estar fora de Afogados, foram as mesmas excrescências e, como saldo, grande parte da população prejudicada com a poluição sonora que se impõe às pessoas que residem na Avenida Rio Branco e adjacências. A falta de respeito continua... O direito que as pessoas têm ao sossego é vilipendiado com a desídia e a benevolência do Poder Público - aqui falo do Executivo - que já passou da hora de dotar a cidade de um lugar apropriado para grandes concentrações e manifestações desse porte.

É lamentável que Afogados da Ingazeira, que já foi palco de grandes carnavais, seja hoje carente da boa música que é patrimônio cultural de Pernambuco e seja, o que é mais grave, carente de um espaço onde quem deseja possa brincar a noite toda, sem agredir o sossego e até a saúde daqueles que não querem ou não podem - os idosos - participar de tais manifestações culturais.

Para finalizar, quero registrar que nas últimas horas que passei em Recife, recebi a visita do nosso estimado Fernando Pires. Conversamos por mais de uma hora e ele, com a preocupação de sempre, perguntava-me: como está Afogados? O Fernando além de se preocupar com os valores imateriais de Afogados - a nossa história e os que a fazem - preocupa-se com o aspecto físico.
Aguardem-me, Fernando e os demais participantes dessa confraria, que na próxima vamos dar um passeio por Afogados para que os mais distantes percebam a que ponto chegou a nossa querida terrinha.

Um abraço e votos de um carnaval com o autêntico frevo e muita paz, acima de tudo

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, Pe, 23 de janeiro de 2010

 

 

O Rádio que era o xodó do meu pai

Naquela manhã de domingo ensolarado, na companhia de Fernando Pires, visitamos a residência-tesouro do nosso amigo Zezinho Marceneiro, no bairro Borges. Ele nos recebeu com muita cortesia e, depois de saber o motivo de nossa visita, passou a nos mostrar sua imensa coleção de rádios antigos. É uma preciosidade: rádios de várias marcas, modelos e alguns, na maioria, com mais de 40 anos de fabricados; alguns deles, com mais de 50.

Além dos rádios, há também uma infinidade de radiolas, em pleno funcionamento. O colecionador, além de ser um apaixonado por rádios, dedica-se ao melindroso trabalho de recuperá-los. Para cada exemplar de sua coleção ele tem um breve relato sobre o ano de lançamento, a marca do aparelho, suas qualidades técnicas, e assim ele fica extasiado, deixando-nos admirados por seus conhecimentos no assunto.

Depois de percorrer várias dependências da casa, observando cada exemplar apresentado, descemos para uma parte subterrânea e lá encontramos mais rádios. Dentre eles, um me chamou a atenção. Fiquei paralisado diante daquele Rádio lá no canto de uma prateleira, todo empoeirado, porém, em perfeito estado de conservação. Não podia ser o que eu estava pensando... as lembranças do tempo de criança me vieram como um filme que a gente assiste, com todas as cores.

E o Zezinho não parava de falar, mostrando outros rádios, com as explicações técnicas, que o Fernando ouvia atentamente. Eu estava como que petrificado, absorto em minhas reminiscências. Com receio de ofender os brios de um colecionador, perguntei ao Zezinho se ele vendia algum dos seus rádios. Ele disse-me que, no caso de exemplares duplicados, seria possível se fazer negócio. Demoramos algum tempo e nos despedimos. Andamos ainda pela cidade, mas o rádio não me saía da cabeça.

No outro dia passei a averiguar sobre o destino que havia tomado o rádio que era o “xodó” de meu pai. Pergunta daqui, pergunta dali, e ninguém sabia onde fora parar o rádio. Ainda relutei um pouco, até que no outro domingo fui ter com o Zezinho em sua residência. E lhe disse que estava ali para comprar aquele rádio Mullard. Ele me disse que o rádio estava com uma válvula queimada, e que não seria interessante fazer negócio naquelas condições.

Eu insisti e lhe perguntei de quem ele havia comprado o rádio. Ele me disse que não lembrava, mas a pessoa que lhe vendera falou que aquele rádio pertencera “àquele homem que dirigia uma caçamba da Prefeitura”. Nessa hora “tremi nas bases” e com voz entrecortada lhe disse: “Aquele homem era meu pai”. Depois disso, notei que o Zezinho percebeu o meu interesse pelo rádio e me falou: “O rádio é seu. Sei que você vai guardá-lo com carinho. Na sua mão ele está melhor que aqui em casa”. Passei-lhe o cheque com o preço ajustado; coloquei o rádio no banco da frente do carro, como quem conduz uma criança frágil e cheguei em casa, radiante.

Ao me ver com aquele rádio nos braços, Ivanise, minha mulher, perguntou entre surpresa e curiosa, onde eu havia encontrado aquele objeto, motivo de tanta euforia. Fui lhe explicar todo o ocorrido e, juntos, passamos parte da manhã daquele domingo limpando o rádio, escovando, tirando a poeira, enfim, dando-lhe um tratamento todo especial. Em determinado momento, ao virar o rádio, encontrei, escrito à mão as iniciais: IB, feitas por meu pai... com a sua letra. Era ele mesmo, aquele rádio pertencera ao meu pai: Iraclides Bezerra. Ele tinha o costume de marcar com as suas iniciais todos os seus objetos. Não havia mais dúvida.

Foi naquele rádio que, ainda criança, na Avenida Rio Branco, ouvi as notícias da inauguração de Brasília, no dia 21 de abril de 1960. Lembro que meu pai ligou uns fios na bateria do carro, e as pessoas se aglomeraram para ouvir as festividades que o rádio transmitia na inauguração da Capital Federal. Só depois consegui entender o propósito de Juscelino Kubitschek de construir Brasília, o colosso da engenharia fruto da competência de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

Aquele rádio, que ocupava lugar de destaque na sala de visitas, era ligado todas as noites e meu pai ouvia as notícias da Voz do Brasil. Ele, sempre curioso, ia girando o botão de sintonia e me explicava os nomes das rádios sintonizadas: Rádio Sociedade da Bahia, Rádio Globo do Rio de Janeiro, Rádio BBC de Londres - para o Brasil; Rádio Excelsior da Bahia, Rádio Jornal do Commercio. E eu ficava maravilhado. Foi assim que aquele rádio me fez crescer culturalmente, recebendo notícias do mundo. Algumas informações, tenho certeza, contribuíram para o meu amadurecimento, pois entendo que somos o produto da sedimentação de informações ao longo da vida.

Talvez eu esteja sendo enfadonho com essas lucubrações, mas, se você chegou até aqui, colocando-se no meu lugar, vai entender que aquele rádio, mesmo mudo como está no momento, me transmite sons e imagens que só o coração pode escutar. “O Essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração.” Antoine De Saint- Exupéry, lembra?
Nele vejo a imagem do meu pai. E hoje, o meu querido e velho amigo - Rádio Mullard - ocupa um lugar de destaque na sala de minha casa e ali ficará, por tempo indefinido, a me transmitir sons e imagens do passado.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, Pe, 26 de novembro de 2009

 

 

O CONJUNTO RESIDENCIAL MIGUEL ARRAES NÃO TEM ÁREA DE ATIVIDADES CULTURAIS E RECREATIVAS

O Conjunto Residencial Miguel Arraes sempre foi motivo de controvérsias. Ainda hoje o Governo Municipal é alvo de críticas a respeito da distribuição das casas, quando, comprovadamente, os critérios de distribuição foram estabelecidos por uma comissão apartidária e, até prova em contrário, isenta de injunções exteriores.

Outro aspecto que se deve observar é que naquele Conjunto de proporção considerável, haja vista que comporta uma população de crianças e adolescentes - em torno de 600 habitantes - não foi incluído, no projeto, uma área de lazer, um espaço para atividades culturais, um salão, digamos assim, onde se possa reunir aquelas crianças e adolescentes para atividades lúdicas. Existe, apenas, e tão somente, uma quadra, em construção. Nada mais. E o que vemos são as crianças brincando na terra, na poeira, pois o calçamento prometido ainda não chegou.

Existe um trabalho (social voluntário) desenvolvido pela professora Luciete Martins, que deve ser olhado com mais carinho pelo Governo Municipal. Aliás, estou sabendo, e agora torno público, que a Professora Luciete Martins solicitou do Governo Municipal autorização para utilizar uma casa que se encontra ociosa e nela concentrar as atividades com as crianças; a permissão não foi dada de pronto, mesmo diante dos justos argumentos apresentados pela professora.

Na mesma oportunidade solicitou que fosse destinada uma área onde ela pudesse, juntamente com a comunidade, construir um local para as reuniões e atividades culturais e recreativas. Também não recebeu resposta positiva. Em resumo, a professora está aguardando que seu pedido seja apreciado e percorra toda a buRRocracia, até que se chegue à conclusão óbvia: o Conjunto necessita URGENTEMENTE de um espaço onde se possa ocupar aquela gente, principalmente as crianças, com atividades (culturais) e de lazer.

Espero que o prefeito Totonho consiga entender o alcance da obra que a Professora Luciete Martins vem fazendo diuturnamente naquela comunidade, preenchendo uma lacuna deixada pelos Governos Estadual e Municipal.

O que digo, aqui, ninguém me contou. Eu sei por que passo diariamente naquele Conjunto e vejo as crianças ao relento. Como vejo, constantemente, a professora Luciete Martins no meio deles, sempre levando algum lenitivo para amenizar as agruras daquelas crianças.
No momento, a professora está empenhada em promover o Natal das crianças do Conjunto Miguel Arraes. E está pedindo a parceria de todos para que se proporcione um sorriso naqueles rostinhos inocentes, mesmo que seja um sorriso amarelado pelas agruras que só são lembradas pelos “salvadores da pátria” no momento oportuno - PARA ELES, salvadores. É bom lembrar que 2010 está chegando, e, com ele, as promessas de sempre.

De tudo que foi exposto, fica o registro: um Conjunto Residencial, com mais de 600 crianças e adolescentes, onde não há espaço para atividades recreativas e culturais. Errou feio o arquiteto...

Por uma questão de justiça, destaco o trabalho da professora Luciete Martins que, “nadando contra a maré”, vem fazendo muito mais e falando muito menos que os “profissionais do voto”. Ela me assegurou que, mesmo com uma resposta negativa do Governo Municipal, irá construir um espaço para as atividades recreativas no Conjunto Miguel Arraes.

Só espero - eu, Luciano Bezerra -, que, depois da obra pronta, não venham os oportunistas que estão, até agora, na inércia, reclamar a “paternidade da criança”.
O momento de abraçar a causa é agora. Depois de pronto, falar é fácil.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, Pe, 22 de novembro de 2009

 

 

ORGIA FINANCEIRA PATROCINARIA O SUPÉRFLUO

Um amigo enviou-me um texto de autoria do craque (inativo) Tostão. Não o considero ex-craque. No contexto vê-se toda a indignação de Tostão pela notícia que está sendo ventilada de que o Governo (Lula) estaria com a ideia de “premiar, com um pouco mais de R$ 400 mil reais cada um dos campeões do mundo brasileiros, em todas as Copas”. E Tostão afirma, literalmente: “Não há razão para isso. Podem tirar o meu nome da lista, mesmo sabendo que preciso trabalhar durante anos para ganhar essa quantia”.

Essa tomada de posição do honesto Tostão nos dá um alívio. Pelos menos um já declarou que repele ideia tão esdrúxula, para não dizer IMORAL. Onde está a moralidade, ao se premiar com o dinheiro público pessoas que já foram premiadas durante a vida? No mesmo raciocínio, está sendo anunciado o Programa “Bolsa Celular”. Outro desmando, outra “orgia financeira”, que será compulsoriamente patrocinada pelo povo brasileiro. As opiniões contrárias vão se disseminado sob os mais ferrenhos argumentos. Entendo que, antes de telefone celular, a grande maioria precisa, urgentemente, de saúde, segurança e moradia. Isso sim; Celular é supérfluo.
Mas o celular poderá salvar uma vida, em momento de extremo perigo, facilitando o pedido de socorro de uma ambulância do SAMU, diria alguém. E pergunto eu: de que adianta chegar rápido no hospital se lá não tem medicamentos, nem médicos de plantão para prescrevê-los. Antes de Celular, e com a montanha de dinheiro que será gasta nesse Programa, o Governo poderia adquirir ônibus para o transporte de estudantes da zona rural, eliminando a triste cena dos nossos jovens serem transportados em paus-de-arara (o que, aliás, é proibido pelo Código de Trânsito Brasileiro), financiados pelo Governo.

Aqui fica o nosso repúdio às medidas acima: Prêmio a ex-jogadores e Bolsa Celular, que são, repita-se, uma afronta ao trabalhador que ganha migalhas e, depois de aposentado, mais uma vez, recebe um tratamento aviltante.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 14 de novembro de 2009

 

 

AFOGADOS DA INGAZEIRA - UMA CIDADE QUE NÃO É SÓ RUÍDO E CAOS

O Poeta Dedé Monteiro, com sua fértil e prodigiosa imaginação, nos leva a dimensões variadas através da poesia. Do épico ao trágico, do satírico ao inebriante sentimento do amor. O magistral tabirense vai navegando e levando-nos a reboque de seu estro maravilhoso.

Pincei uma parte de - FIM DE FEIRA - para mostrar o contraste da “feira de Dedé” com a nossa feira da Afogados da Ingazeira que pretende ser civilizada. Na “feira de Dedé” tem a figura do jumento que chega a ser comovente pela inteligência demonstrada por um ente que é estigmatizado como símbolo da falta de senso. E diz o poeta:

Um jumento estropiado, / Magro que só a desgraça
Quando vê que a feira passa / vai prá frente do mercado
O endereço ao danado / eu não sei quem diabo ensina
Eu só sei que baixa a crina / entre as cinco e as cinco e meia
Lancha, almoça, janta e ceia / depois que a feira termina.

Já na nossa feira, o quadro é deprimente. Estávamos nós, na Travessa Tiradentes, quando avistamos a aproximação de uma carroça de burro, transitando pela contramão, vindo da Praça de Alimentação rumo a Barão de Lucena. A CARROÇA VINHA CARREGADA, PELAS ALTURAS, COM CARNE PARA SER VENDIDA À POPULAÇÃO. De início lamentamos não ter como registrar o fato, pois estávamos desprovidos de uma máquina fotográfica. Perdemos a imagem.

Não demorou muito e lá vem um rapaz conduzindo um carrinho de mão, transportando carne. Nesse momento, com um celular registramos o fato para que alguém tome as providências. Salvo o engano, o Governo Municipal adquiriu um caminhão, tipo baú, adaptado para o transporte de carne do matadouro até os açougues. Onde está este veículo? E onde está a Vigilância Sanitária? É preciso que esse órgão desperte da letargia e passe a trabalhar para justificar todo o dinheiro que a população gasta com a manutenção do próprio órgão e o salário dos funcionários. A carne que você consome é transportada por carroça de burro ou em carinho de mão. É só conferir.

Alguém pode pensar e até dizer que já é implicância essa repentina abordagem sobre o trânsito de Afogados da Ingazeira. Mas a imagem que tivemos hoje diz mais que qualquer palavra. Em plena Rua Barão de Lucena, por onde flui o tráfego advindo da Manoel Borba, flagramos neste fim de feira, “não um jumento na frente do mercado”, mas, DUAS CARRETAS PARADAS EM FILA DUPLA.

As fotos não deixam dúvidas. Isso é sinônimo de falta de ordem; faltando ordem, falta, obviamente, a Lei e faltando a lei que representa o Poder, conclui-se que se concretiza o que os gregos conceituavam como: anarquia. E Aurélio registra como sendo: “negação do princípio da autoridade. O trânsito de Afogados da Ingazeira, até então, é isto: bagunça generalizada, ANARQUIA. Alguém duvida?

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 7 de novembro de 2009

 

 

PASSOU A FESTA... BORROU A MAQUIAGEM

Passada a euforia das comemorações do Centenário, Afogados da Ingazeira encontra-se com a “maquiagem” que lhe fizeram para aqueles eventos totalmente borrada.

No pequeno trecho de rua que faz ligação entre a Avenida Rio Branco e Rua Senador Paulo Guerra, o que se vê é um exemplo perfeito de falta de civilidade. É elementar que para se viver em coletividade deve-se ter estrita observância aos princípios básicos de convivência. Nunca esquecer que o seu direito termina onde começa o meu. No caso presente, é o contrário. Alguém se acha no direito de produzir o lixo, lá nos seus domínios, e para se livrar do incômodo, vem depositá-lo na porta do vizinho; no caso, se trata de uma anciã que, por Lei específica, merece respeito redobrado. Sem contar que o lixo que vai se acumulando agride, também, aos princípios de higiene. Onde está a vigilância sanitária que não vê fatos dessa natureza e que vem se repetindo diariamente?

No trevo que dá acesso ao futuro CEFET, já concluído pela construtora, não se pode passar, pela irresponsabilidade da Companhia Telefônica que deixou um cabo rente ao chão, interditando a passagem de veículos por aquela artéria. Esse descalabro já vai há mais de 30 dias. Ninguém toma qualquer providência: nem a Companhia infratora, nem o Governo Municipal, a quem compete o poder de polícia, para disciplinar a vida do município. E o povo que pagou pela obra fica impedido de usufruir dela por incompetência generalizada dos órgãos que deveriam agir mais e falar menos. Se puderem, provem-me o contrário.

Hoje, dia de finados, foi grande a afluência de pessoas aos dois cemitérios de nossa cidade. No cemitério velho - São Judas Tadeu - é possível que se faça a visita à noite, pois neste tem iluminação. Já no novo - Parque da Saudade -, o que se vê é uma “gambiarra” que ilumina apenas uma pequena parte que fica mais próximo da entrada.
Mais um ano se percebe o descaso com que são tratados os nossos mortos e os vivos também. É inaceitável que numa necrópole onde existem mais de 15 mil corpos sepultadas, não se disponha de iluminação. Acrescente-se, ainda, que o Cemitério novo que foi planejado, com um mapa delineando todos os lotes, encontra-se grande parte num total desacerto, onde não se obedece o traçado original, numa prova de que cada um ali faz como quer. O resultado é o caos que vai se acumulando até que não se tenha mais como solucionar o problema, a exemplo do Cemitério Velho, onde até para se andar entre as sepulturas, comete-se, inevitavelmente, o desrespeito de pisar, pular sobre os túmulos, pois não há outra alternativa.

Novembro chegou e com ele está prevista a vinda dos Técnicos do DETRAN que, segundo o vice-prefeito Augusto Martins, em entrevista à Rádio Pajeú, assegurou que estarão sinalizando toda a cidade. Não deixa de ser um avanço, pois a sinalização atual já está obsoleta e não atende às necessidades do volume de trânsito, principalmente no centro da cidade.

Deve-se lembrar, todavia, que sinalizar não basta. Além do sinal deve existir FISCALIZAÇÃO rigorosa e punição aos infratores. O trânsito de Afogados da Ingazeira, comparando ao de qualquer outra cidade, é uma verdadeira “roleta russa”. Passar num cruzamento é jogar na loteria. Motoqueiros não respeitam a lei de trânsito, ultrapassam pela direita; andam em alta velocidade; carroceiros circulam em qualquer sentido sem serem incomodados; ciclistas arriscam a própria vida, pois para eles qualquer sentido de trânsito é permitido.
A Polícia Militar, mesmo diante de um flagrante delito de trânsito (e isso acontece a cada minuto em nossas ruas) permanece inerte sob a alegação de que para agir, teria que haver um convênio firmado entre o Governo Municipal e o Comando da Polícia Militar. Eu discordo desse posicionamento e o faço com respaldo no art. 301 do Código de Processo Penal que assim dispõe:
Art. 301 - Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes DEVERÃO prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.
Já o Art. 302 do Código de Processo Penal, diz: “Considera-se em flagrante delito quem: I - está cometendo a infração penal; II - acaba de cometê-la. Acrescente-se que o Código e seus dispositivos acima citados, não faz exclusão dos delitos de trânsito, logo, é DEVER da Polícia COM ou SEM convênio REPRIMI-LOS.
Por hoje é só. Aqui ficamos com: lixo na rua; trevo interditado e trânsito louco.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 2 de novembro de 2009

 

 

Olha o Natal aí, gente!

A máquina do tempo prossegue, celeremente, na sua jornada. Logo mais estaremos vivendo o clima de Natal e as esperanças de um novo ano. Falta pouco; apenas 58 dias. Neste ano que já vai “dobrando a última esquina do tempo” fatos ficarão marcados como lições às gerações que nos sucederem. E a política ou os que a fazem, dão-nos motes para muitos comentários. Há exemplo do nosso Presidente que se saiu com mais uma “verborragia” atraindo para si comentários de censura da comunidade católica e seguidores do Cristianismo. Pois, o filósofo de Caetés, com sua costumeira oratória metafórica, imiscuiu Cristo nas artimanhas usadas pelos que sentem pavor de afastar-se do Poder.
Poder e Fama. Isso é uma “arma” perigosíssima, quando não se sabe usar, quando não se está preparado para exercê-los. Aquele que se encontra no cume do Poder, principalmente quando o Cargo é transitório, deve agir com parcimônia e nunca, nunca esquecer que o seu poderio começa a findar a partir do primeiro minuto de sua assunção naquele mesmo Cargo. A vaidade, porém, entorpece a mente levando o governante (ou famoso) a pensar e dizer coisas que chocam e revelam o seu verdadeiro âmago. É difícil esquecer-se de uma frase do João Batista Figueiredo, que foi repercutida em todos os jornais. O então Chefe da Nação declarou, com todas as letras: “prefiro o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo”. O que podemos esperar de um Mandatário que prioriza seus cavalos em detrimento dos cidadãos? Aquele outro, lá de São Paulo, revelando seu senso de Justiça, seu caráter, não vacilou e bradou esta: “Estupra, mas não mata”.
Aqui me pergunto: Se lhe fosse dado escolher para uma filha ou uma neta, com qual alternativa ficaria o Maluf? Ainda de São Paulo, tivemos o Quércia que se vangloriou ao término de uma campanha, revelando: ”Quebrei São Paulo, mas fiz meu sucessor”. Isso é, no mínimo, falta de escrúpulo. É expor, descaradamente, o jogo sujo que permeia todo processo político no Brasil. Quebrar São Paulo significa dizer que os cofres ficaram vazios em busca de uma vitória conseguida a troco de corrupção, da compra de consciências. Essa praxe é generalizada. Aqui, bem pertinho de nós, alguém que é endeusada por alienados, já disse: “em política, feio é perder”. Lá vem Maquiavel: “... o fim justifica os meios”. Fora do âmbito dos políticos, tivemos mais um exemplo perfeito de que a Fama pode “erodir” princípios morais e sentimentos mais nobres do indivíduo; basta lembrar que um dos rapazes de Liverpool, no auge da Fama chegou a dizer que eles, os Beatles, eram mais conhecidos que Jesus Cristo. Por menos que isso, milhares foram dizimados pela Santa (?) Inquisição - acusados de heresia. Mas, não esqueçamos: o Natal nos acena ali do horizonte bem próximo. Lá em Brasília já estão trabalhando a todo vapor na confecção dos Cartões que serão enviados aos milhares. Tudo por nossa conta: o papel, a impressão, a postagem nos Correios. Isso faz parte da liturgia do cargo (não é Sarney?). Quando você menos espera o carteiro deixa em sua porta um cartão multicolorido com uma mensagem comovente e a assinatura – mecânica - daquele Deputado ou Senador que você nunca falou com ele, nem por telefone. Mas ele sabe que você existe (???). Ele faz questão de cumprimentá-lo e enviar-lhe uma mensagem natalina. Pura hipocrisia. Imagino o que comentam eles, quando estão na ceia de Natal tomando o melhor escocês, no mais requintado reveIllon, tudo também às nossas custas. Para você que é vítima, igual a mim, dos Judas aliados do Lula, desejo, antecipada e sinceramente, que o Verdadeiro Cristo ilumine a todos nós; dê-nos o discernimento para separar o joio do trigo; que continue sendo nosso Líder Maior nesse Novo Ano que não tarda a chegar.
Saúde, paz e fraternidade a todos

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 26 de outubro de 2009


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