AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje

CRÔNICAS / POESIAS / OPINIÃO

LUCIANO CAMPOS BEZERRA

Advogado e cronista afogadense

 

 

 

 

 

SAIU PIZZA COM COBERTURA DE MARMELADA

O futebol medíocre do Maranhão foi manchete de primeira página em jornais do mundo inteiro. Na Itália, por exemplo, deu “pano pras mangas”; na Argentina, o alarido foi grande; li também alguma coisa num Jornal da Espanha. Enfim, o que era para ficar por baixo dos panos explodiu como uma bomba e ainda está rendendo.

Tudo começou na cidade de Chapadinha, cidade de porte médio (ou, pode-se dizer grande, para os padrões maranhenses). É uma bonita cidade. Plana, quase 100% asfaltada, bem sinalizada, uma população em torno de 80 mil habitantes; agências de automóveis, de todas as marcas; vários bancos, Regional da Justiça do Trabalho, enfim, uma cidade que “transpira” progresso, na imensidão de miséria que assola grande parte do Estado. Falo isso porque conheço, não só Chapadinha, mas, também, quase todo o Maranhão.

Nos idos de 70 trabalhei como extensionista rural, visitando os mais longínquos lugares daquele Estado. O meu carinho pelo Maranhão vem de longa data. Ali pude sedimentar meu senso crítico e foi onde recrudesceu minha obstinação pela defesa dos oprimidos, principalmente daqueles que não têm, sequer, o discernimento de indignar-se com as falcatruas que lhes fazem vítimas.

Mas, foi o futebol que trouxe mais um charco enlameado à história do Maranhão? Vamos aos fatos: o Moto Clube que é um dos “grandes” da capital, disputava com o Santa Quitéria, timezinho de uma cidadezinha às margens do Parnaíba; o outro concorrente era o Vianense, outra equipe inexpressiva, e, por fim, o Chapadinha. No intervalo do primeiro tempo entre Chapadinha e Vianense, ficou-se sabendo que o Moto Clube goleou o Santa Quitéria, em partida que jogou o prefeito da cidade e ex-atleta, com 52 anos de idade, pelo placar de 5 a zero, num resultado suspeito de haver funcionado a mala preta.
Nesse ínterim, lá em Viana, confabularam a Prefeita de Chapadinha, a jovem Danúbia Carneiro e seu “secretarido” (misto de secretário com marido) e juntamente com os dirigentes do Chapadinha e o Vianense, combinaram o placar de 11 a zero, que seria o suficiente para o Vianense tirar o Moto Clube da 1.ª Divisão. Começa o segundo tempo com o Chapadinha perdendo de 2 a zero; bola prá lá, bola prá cá, até que no tempo recorde de nove minutos o Vianense faturou nove gols em cima do Chapadinha. Foi o suficiente para todo o imbróglio que se formou na imprensa mundial. Um resultado surpreendente, não para mim, que conheço as coisas do Maranhão.
Na sequência, pasmem vocês, entra na defesa do Chapadinha um Deputado adversário da prefeita e faz pronunciamento na Assembléia Legislativa; os correligionários adversos prometem ação na Justiça; fala-se numa propina de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais). As acusações prosseguem de lado a lado e a mistura para uma “ingresia“ está perfeita: futebol e política. Enquanto isso, o Maranhão prossegue a passos de tartaruga rumo ao desenvolvimento.

Essa foi mais uma num Estado tão rico e miseravelmente pobre. Esta não será a última, pois o meu querido Maranhão traz um estigma (ou carma) até no próprio nome. Você que leu até aqui, sabe o que é Maranhão? Veja só o que registra o Aurélio:
1 - mentira;
2 - intriga caluniosa, mexerico, fofoca.
Prá você está explicado ou precisa dizer mais alguma coisa?

A madrugada vai solta, o dia não tarda a chegar e eu vou dar um cochilo, sem sonhar (assim espero) com os maribondos de bigodes.
Até a próxima.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 22 de outubro de 2009

 

 

CHEGA DE LIXO MUSICAL!

Por dois finais de semanas consecutivos estive na aprazível cidade de João Pessoa - ou, como nos lembra Ariano Suassuna, Nossa Senhora das Mercês, onde nasceu, e só aos dois anos de idade, por circunstâncias não muito favoráveis, mudou-se com sua mãe e irmãos para a pequenina Taperoá, vivendo ali até a adolescência, quando se muda para o Recife.

Mas eu iniciei falando da minha estada em João Pessoa. No feriadão aproveitei e fui até a Ponta do Seixas que é, seguramente, o ponto mais oriental das Américas. Como não sou afeito a banho de mar, aproveito para contemplar a imensidão do oceano e ratifico, para mim mesmo, a grandiosidade do Criador do Universo e a pequenez de nós, mortais. O mar me desperta um fascínio extasiante. É incrível a perpetuação das ondas num vai e vem interminável, como que programados por um “computador divino e infalível.”
Esta é a primeira lição que nos dá a praia. Segunda: que não se deve ousar um desafio com a força indomável daquelas águas. Terceira: a transmutação do colorido das ondas, que é inimitável até pelo mais experiente e exímio pintor. Este foi o lado bom, daquele fim de semana.

No segundo, por compromissos sociais, não fui à praia. Apenas compareci ao evento previamente programado, e no final da tarde do sábado fiquei em casa. Foi aí que me dei conta de que a alienação musical não é privilégio de alguns, apenas. Em todo canto encontra-se um provável desajustado mental que equipa seu veículo com um possante e irritante som de péssimo gosto e sai impondo sua excrescência musical a todos por onde passa. Até parece que combinam esses imbecis e gravam a mesma baboseira. E haja barulho, num total desrespeito à população, pois, além de ”abrirem’ todo o volume, saem desfilando como se estivessem fazendo a coisa mais positiva. Não entendo como as autoridades não tomam uma providência. É certo que a polícia não é onipresente, mas também é certo que esses perturbadores quase sempre e sempre saem impunes nesse vandalismo musical. E ao passarem pelas ruas com um barulho ensurdecedor não imaginam nem de longe que estão a perturbar pessoas idosas, enfermas e mesmo pessoas normais que têm o direito ao sossego.

Aqui, em Afogados da Ingazeira, já tivemos um período em que tais abusos eram coibidos severamente, mas... como tudo que é bom dura pouco, o nosso abnegado Dr. Cláudio Castro já não é mais o Delegado de nossa cidade, e a população fica a sofrer pela inércia daqueles que deviam, por ofício, tomar as providências cabíveis em favor da população que é vítima desses anormais que fazem do veículo instrumento de sua ostentação descabida e até certo ponto desafiadora dos poderes constituídos.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 22 de outubro de 2009

 

 

Queridas (e queridos), VOLTEI!

Estive ausente por estes dias, não porque eu quis, mas por imposição da lide forense. O acúmulo de trabalho forçou-me a essa “hibernação” involuntária. Mas nesse ínterim, não deixei de dar uma rápida passada pela Tribuna Democrática e fui agraciado com artigos, poesias, enfim, com a verve dos confrades. Fiquei lisonjeado com o presente, direto, que me enviou o Ademar. Aproveito para dizer ao menino travesso das barrancas do Pajeú que se encontra lá na terra do carimbó, que não se deve pedir licença para enaltecer - QUINCAS RAFAEL. Seus méritos como cidadão, como poeta, como ícone do Pajeú por si justificam qualquer homenagem, ainda mais, quando já se vai uma década de seu afastamento material de nosso convívio.

Por falar no Poeta QUINCAS FAFAEL, meu caro Ademar e demais confrades, sempre me vem à lembrança, em forma de lamento, quando lembro o tesouro que se perdeu na poeira do tempo, quando nossos Astros Maiores da poesia, em madrugadas a dentro, “jorravam” obras de valor inestimável e não havia como se perpetuar aquelas jóias que nasciam já lapidadas. Como exemplo, lembremos o que se perdeu de Antônio Marinho, do início de Pinto de Monteiro, Cego Aderaldo, Inácio da Catingueira (esse, segundo estudiosos no assunto, embalava seus versos ao som, do pandeiro); o que não se teria passado à posteridade se na época tivéssemos já os recursos tecnológicos de hoje. É certo que a oralidade vem “empurrando” para as gerações futuras, mas nada como a voz original do autor a transmitir a emoção sentida e expressa pelo próprio vate.

Um verso do Jó Patriota passado por terceiro, nunca terá a força emocional do mesmo verso por ele cantado. O lirismo de Jó, só ele sabia transmitir. Mas, de qualquer forma, aqui vamos cultuando nossos valores e guardando na lembrança, com carinho, esses espíritos iluminados que nos antecederam nessa passagem terrena.

Já a nossa Elvira cortou na carne, expondo as vísceras do problema “descaso” generalizado que se perpetua em detrimento dos nossos professores. Concordo, professora, com tudo o que foi dito e sinto que deveria ser dito muito mais, até que os nossos governantes mirem o espelho retrovisor da memória e lembrem-se que para sentar no trono onde estão, tiveram que sentar no banco da escola, diante da professora; para saber soltar as mentiras com as quais enganam os incautos, tiveram que ouvir verdades bem intencionadas de quem lhes ensinou as primeiras letras; para “meter a mão” no dinheiro que deveria promover o bem-estar do povo sofrido, eles tiveram uma mão com sopro divino a lhes guiar nas primeiras letras; para sugar o suor dos miseráveis, eles tiveram pessoas honestas que deram o seu suor para lhes abrir a mente e lhes incutir princípios morais, tão esquecidos e tripudiados por eles mesmos; para conseguir uma “obesa” aposentadoria, depois de poucos anos de embromação, estes políticos assistem, impassíveis, professores aposentados percebendo aviltantes proventos, padecendo nas filas do SUS, sem lazer, sem alimentação nutritiva e suficiente, sem medicamentos, sem ter o respeito que merecem e a que fazem jus pelo muito que fizeram.

Mas, cuidado(!) eles já estão vindo. Na surdina estão tramando os “chapões”, acordos, tramóias, maracutaias. Logo, logo estarão com o “bloco” na rua, travestidos de salvadores da pátria. A metamorfose camaleônica sempre surte efeito e se concretiza nos milhares de votos conseguidos a troco de mentiras, já desgastadas de tanto repetidas. São os mesmos de sempre: as soluções para os problemas já vêm prontas, já trazem na ponta da língua. Acredita quem quiser.

Já disse e repito, os crápulas não têm culpa do sucesso que conseguem, e se estão se perpetuando no poder, devem (ou agradecem) aos que os levaram ou mantiveram lá.

No mais, meus fraternos, aqui vou ficando, mas deixo um forte abraço a todos. Até breve.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 16 de outubro de 2009

 

 

QUASE HONESTO... SÓ UM POUCO CORRUPTO

O mouse levava-me para outras “paragens”, até que me deparei com uma pesquisa sobre o comportamento (índole) do brasileiro, que apresenta dados, no mínimo preocupantes, senão, estarrecedores. Eis o primeiro: 17 milhões de brasileiros admitem ter vendido o voto, ao menos uma vez. Desse contingente há o desdobramento: 10% por cento votaram em troca de favores; 6% por dinheiro; 5% em troca de presentes. Se ficássemos apenas nisso, já seria o suficiente para explicar a postura dos políticos, quando afirmam “que não estão nem um pouco preocupados com a opinião pública”.

Ora, sendo eles os estelionatários eleitorais mais “espertos” que a maioria de milhões de venais, sabem que qualquer migalha será suficiente para comprar-lhe o voto, pois segundo a pesquisa, 12% “estão dispostos a mudar o voto por dinheiro”. Um percentual desse muda qualquer cenário político (eleição) fazendo com que os crápulas continuem refestelados no poder. Mas, a “bola de neve” da decadência moral avoluma-se quando a pesquisa aponta que 79% “acreditam que os brasileiros vendem o voto”. Isso deixa implícito que há uma certeza (acomodação) arraigada no ideário popular.

O brasileiro carente (e aqui falamos da maioria) aceita, passivamente, que vender o voto, trocá-lo por migalha é o certo. Numa eleição passada, presenciei quando um cidadão (ou quase isso, pois cidadão mesmo jamais agiria dessa forma), mostrava com ar vitorioso uma gaiola e nela um cancão. E explicava ele: recebeu R$ 10,00 (dez reais) para votar “na filha do homem”; com R$ 5,00 (cinco reais) comprou o pássaro e com o restante iria beber de cachaça. E dizia ele: “aquela da “boa idéia”. Confesso que fiquei sem ter o que dizer, diante da fragilidade da maioria de nosso povo. Aquele rapaz era apenas uma partícula do grande contingente de alienados que contribuíram e continuam a contribuir para o nosso retrocesso político.

O desânimo se robustece quando pinçamos mais um dado da pesquisa: 33% “concordam com a ideia de que não é possível fazer política sem um pouco de corrupção”. Confesso que ainda estou “queimando os neurônios” para entender o que é - um pouco de corrupção. Para mim não há meio termo; assim como não existe mulher quase virgem, um pouco virgem, não pode haver alguém - pouco corrupto. “To be, or not to be (Ser, ou não ser). Ou se é honesto ou se é corrupto. Na minha escala de valores, não comporta transigência nesse quesito. Uma vez ladrão, ladrão sempre. E a pesquisa aponta como último dado: 79% dos brasileiros são corruptos.

Aqui fico a meditar sobre a gravidade de tais revelações. Devo acomodar-me? Jamais. Nem eu nem ninguém que sempre almeja um Brasil para todos. Um Brasil igualitário, onde as oportunidades não sejam direcionadas apenas aos apadrinhados. Mas, o número insiste em me incomodar, afinal, 79% são corruptos. E a dúvida é ainda maior: quem fez esta pesquisa está fora ou incluído nesses 79%. Quem fez essa pesquisa é MUITO ou POUCO corrupto? Afinal, no Brasil, também, se “fabrica” pesquisa. Alguns podem até manipular os dados em troca de um mísero cancão, outros, porém, o fazem pensando em apoderar-se de toda nossa flora.

Isso é Brasil. Não esqueça que 2016 vem aí (e tome pão e circo). Agaciel Maia já ameaçou que será candidato. E os “maribondos de bigode” continuam sobrevoando o Congresso.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 06/10 2009

 

 

TRANSPOSIÇÃO DE IDEIAS...

Nos últimos dias estivemos, involuntariamente, afastados de nossa Tribuna, porém, de algum modo, procuramos acompanhar a participação dos confrades que sempre nos presenteiam com ideias magníficas. De registro mais relevante, dentre outros, tivemos a participação do Soberano das rimas e métricas - Dedé Monteiro. Nosso Bigodão, por sua vez, trouxe opinião abalizada e com muita propriedade, haja vista, que o Edson conhece esses rincões, a história e as angústias deste povo sofrido do Nordeste, como “a palma da mão”.

A propósito, conversávamos sobre este assunto, quando a Mana Elvira me cobrou uma opinião a esse respeito. Eu lhe disse que não entraria no mérito, pois a exemplo do Boíba e do Edson, sem esquecer D. Francisco e outros profundos conhecedores do assunto, eu já tive a oportunidade de ouvir, ler, assistir palestras dos defensores e opositores do tema - transposição - e confesso, por falta de conhecimentos técnicos, abstenho-me de emitir um juízo de valor, definitivo, sobre o assunto. Reconheço, no entanto, que algo deve ser feito, pois o problema perdura desde os tempos do Brasil colonial.

O espectro da seca é algo desolador. A inclemência do sol que devasta o verde de nossa paisagem sai espalhando pelas margens das estradas, carcaças de animais mortos; o nosso querido sertão e o Nordeste, como um todo, transfiguram-se num semblante assustador que só a genialidade de Josué de Castro ou a verve de um poeta sabe defini-la, como bem disse Rogério Menezes (salvo o engano) – “Toda casa, de taipa, abandonada//tem um grito de fome dentro dela".

O tema, em si, é controverso. Aparentemente, a ideia de transposição com o propósito de matar a sede de milhões de sedentos, é humanitária, porém - sempre tem um porém -, não podemos vislumbrar até aonde vão os propósitos de cunho político. Alguns até antevemos, mas a mente dos governantes, principalmente a deles, é insondável. Diante dessa celeuma, com o mais profundo sentimento humanitário, só nos resta, na nossa impotência, almejar que esta obra de proporções faraônicas, traga os benefícios anunciados pelos seus defensores. O que não se pode conceber é que nos tempos atuais, quando o homem dispõe de tecnologia que lhe permite realizar prospecções em Marte, na busca de água, milhares de pessoas e animais, incluindo a vegetação, morram esturricados, com tanta água sob nossos pés, segundo já se defendeu a idéia de que existe um manancial subterrâneo inexaurível à disposição, faltando apenas a vontade política de trazê-la à superfície.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 29/09/2009

 

 

PODERES HARMÔNICOS E INDEPENDENTES, MAS... NEM TANTO

Para não perdermos o costume, chegaremos aos últimos dias de setembro com mais um imbróglio nas hostes do Poder. Para não fugir à regra avisamos que mais uma pizza está para ser servida ao “ingênuo e inerte” povo brasileiro. Os ingredientes estão à disposição: desta feita, tem-se a indicação pelo Presidente Lula, como é de praxe, do advogado - José Antônio Dias Toffoli - para o Cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal. O indicado, até onde se conhece dele, não é recomendável para cargo de tamanha envergadura. Pelo que se sabe, comprovadamente, e não é apenas suposição, Toffoli foi condenado a devolver R$ 700 mil (setecentos mil reais) ao Amapá, sob a acusação de ter ganho licitação supostamente ilegal em 2001 para prestar serviços advocatícios ao Governo Estadual. A primeira pergunta que cabe aqui: o Amapá não tem Procuradoria? Por que a contratação de um Escritório de Advocacia para Representar o Estado? Mas, vamos em frente. O processo tramitou, normalmente e o José Antônio Dias Toffoli foi condenado, por Sentença prolatada em 1.ª Instância pelo Juiz Mário Cezar Maskelis.

Com a indicação pelo Presidente Lula, surgiram as primeiras conjecturas a respeito do nome e, como não poderia ser de outra forma, passou-se a descobrir fatos pretéritos que não condizem com a postura de quem pretende investir em Cargo da mais Alta Corte de Justiça do país.

O processo de análise do candidato prossegue e foi indicado para relator o Senador Francisco Dorneles, que após minucioso estudo das qualidades do postulante ao Cargo de Ministro, deverá responder a duas perguntas básicas: Toffoli dispõe de - notável saber jurídico? O indicado de Lula tem reputação ilibada?

Aqui vai uma sugestão ao Dorneles. Procure agir como um poeta que, segundo Pinto do Monteiro, “tira de onde não tem para por onde não cabe”.

Como tirar conduta ilibada de um passado nebuloso? Como pôr isenção de ânimo em alguém tão comprometido com fatos e circunstâncias anteriores.

A priori, nos parece que a imagem do postulante ao Cargo de Ministro já vem arranhada com uma Sentença condenatória no âmbito criminal. E quanto ao quesito - notável saber jurídico, eu sempre condenei esse critério, pois comparando-se ele - Toffoli com um insipiente advogado formado nesses “balcões de diplomas”, travestidos de Faculdades, que existem por aí, é evidente que Toffoli dá de dez a zero. Terá comprovadamente, notável saber jurídico.

Continuemos: após o relatório do Francisco Dorneles, Toffoli será sabatinado na Comissão de Justiça do Senado, no próximo dia 30. Detalhe: nos dois escrutínios - comissão e plenário - a votação será secreta. Isso é tranquilizante, no sentido de se garantir independência na votação e aprovação pelos parlamentares? Nem tanto. Já se propaga aos 4 ventos que o Governo (entenda-se: Lula) tem maioria em ambos os colegiados. Isso significa dizer, salvo melhor juízo, que é mais um jogo de cartas marcadas. Como se pode dizer que “o governo tem maioria?” Não nos ensinaram que os Poderes: executivo, legislativo e judiciário são independentes? Que independência é esta em que um manda (executivo) e o outro obedece (legislativo) para a indicação de um membro que terá a missão, única e exclusiva, de julgar.

O candidato - Toffoli - em sendo aprovado pelos Parlamentares, será novamente sabatinado pelos Ministros do Supremo, dentre eles, Joaquim Barbosa, Cesar Peluso, Carlos Ayres de Brito, Ricardo Lewandoswki, Carmem Lúcia e Eros Grau, todos estão lá por indicação do presidente Lula.

Como se esperar isenção de ânimo de alguém como o Toffoli que foi advogado em 3 (três) campanhas de Lula; foi auxiliar de José Dirceu na Casa Civil.

Mas o Presidente do Supremo Tribunal Federal - Gilmar Mendes - disse que a condenação de Toffoli em 1.ª Instância não deve ser supervalorizada. E justificou que qualquer homem público é passível de ser acusado. Eu diria, Ministro, com meus parcos conhecimentos, que não só o homem público, mas qualquer um, poderá sofrer uma acusação. Provar a inocência, num tribunal isento de ingerências externas é que são elas. E não é de hoje que se tem notícias de “panos mornos”, “anistia criminal” em troca de benesses e apoios futuros. Os "Maribondos" deram suas ferroadas eficazes e... a vida continua.

E a indicação de José Antônio Dias Toffoli é para preencher a cadeira do - Ministro Menezes Direito - morto de câncer, em 1.º de setembro.

Saiu o Direito entra o "torto" mesmo. Não seriam, ainda, os efeitos colaterais do câncer que matou o “Direito” Ministro e, ameaça, agora, o Direito Positivo?

É só esperar pra ver. Logo, logo, teremos mais uma pizza quentinha, ao sabor brasileiro

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 21/09/2009

 

 

REVERÊNCIA BANALIZADA - EMINÊNCIAS PARDAS...

Há pouco mais de um mês senti-me intimamente instigado a abordar um assunto que me deixa inquieto, mas para que não descarregasse toda a emoção nas palavras, aquietei-me, deixei que predominasse a razão. O ímpeto inicial arrefeceu e outros temas foram surgindo. Ficou o dito pelo não dito ou, melhor dizendo, o “escrito pelo não escrito”.

Eis que, novamente, tomo conhecimento que mais um foi agraciado com o título de cidadão. Deixo de citar o homenageado e a cidade, pois não pretendo enaltecer futilidades. Por imposição do próprio tema, devo dizer da minha oposição ao título de cidadão que o Deputado Nelson Pereira sugeriu e conseguiu de seus pares que fosse outorgado ao casal Chimbinha e Joelma da Banda Calipso.
Não vejo um motivo, um sequer, que justifique a honraria. Ora, se os agraciados cantam bem (o que não acho), isso não traz vantagem para mais ninguém, senão a eles próprios. Se o casal elogia Pernambuco, como foi citado na justificativa, não fazem eles, mais que a obrigação de tratar bem onde são bem recebidos. Em síntese, para mim, isso foi uma “puxação de saco” de um Deputado que se descuida de coisas mais produtivas, priorizando a futilidade.

Há muito tempo, quando residia em Arcoverde, soube, oficiosamente, que um vereador (desses que só conseguem um mandato e... nunca mais), conseguiu aprovar um Título de Cidadão para Edson Arantes do Nascimento, um tal de Pelé. Aquele que renegou a própria filha - Sandra - que só foi reconhecida depois de ferrenha batalha judicial numa Ação de Investigação de Paternidade. Pois bem, o Título de Cidadão ainda hoje está por ser recebido pelo agraciado - Pelé. Se um dia ele descobrir que Arcoverde existe, talvez se disponha a vir buscar o pergaminho que o declara cidadão arcoverdense, pelos relevantes (???) serviços prestados (à cidade).
É por estas e outras que me insurjo contra as veleidades; sou radicalmente contra os elogios gratuitos. Atitudes dessa natureza só têm um objetivo: elogiar quem não merece, gastando o dinheiro público com futilidades. Não se esqueça que um expediente de funcionamento de uma Câmara de Deputados ou de vereadores custa e muito para nós contribuintes. Enquanto isso, o que deve ser feito vai ficando para depois. E o que é mais grave: enquanto se reverenciam as eminências pardas, banalizando a importância do Título, vai-se nivelando por baixo aqueles que realmente merecem o nosso respeito, a nossa gratidão.
Isso é o que penso, e pouco me importa as críticas que possivelmente virão. Eu não sei bater palmas, “de graça”, só porque a maioria está aplaudindo.

Só para finalizar: certa vez me encontrava numa solenidade e uma pseudo-intelectual falava um monte de baboseiras. Ao término de sua fala foi aplaudida “efusivamente”. Alguém que estava ao meu lado perguntou porque não aplaudi, ao que respondi: Por que não vi nada de interessante. Se eu aplaudo isso aí, estarei nivelando-a aos Oradores que a antecederam e que merecem aprovação pelas palmas. Não gasto palmas em vão. Do mesmo modo que não reconheço Título de Cidadão concedido levianamente.
Tenho dito

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 20/09/2009

 

 

AFOGADOS É UMA CIDADE MUITO BONITA, MAS...

Depois de ler nesta Tribuna e em outros blogs comentários e observações a respeito de alguns descasos da administração de nossa cidade, e ao mesmo tempo inúmeras pessoas solicitarem que me pronunciasse sobre o assunto, resolvi emitir minha opinião, baseado em observações in loco, e chegamos à conclusão que Afogados pede, urgente, providências em determinados pontos. O nosso redator-chefe Fernando Pires poderá ilustrar o que aqui apontamos, pois em seu acervo existe farto material disponível. Vejamos, pois, como se encontra a nossa cidade:

Há pouco tempo foi mostrado o problema do lixão que teima e desafia governos seguidos e permanece intacto, manchando, literalmente, a imagem de Afogados, como se aquilo ali fosse um problema insolúvel.
A entrada da cidade, para quem chega de Carnaíba, não perde em feiúra para a outra, logo pertinho, que dá acesso a Tabira. O trecho que compreende do Cemitério Parque da Saudade, até a Ponte Dom Francisco, já poderia ser calçado, com jardins em ambos os lados, o que daria melhor presença àquela artéria. No Bairro São Francisco, embora tenhamos a Academia da Cidade, não obstante o bairro ter recebido asfalto em toda sua extensão, ainda persiste uma praça que foi construída no Governo João Alves Filho e que hoje não passa de um terreno baldio, ocioso, feio, sem qualquer aspecto que lembre uma praça. Aquele imenso terreno destoa, completamente, da visão agradável que proporciona a Academia. Prá usar a linguagem de Lula, é o mesmo que vestir um terno da melhor grife, calçando sandálias “japonesas”.
Saindo do Bairro São Francisco, passamos pela Ponte Hortêncio José Bezerra e chegamos à Praça da Alimentação, onde somos recebidos pelos moradores daquela área: cães e gatos que dão as boas vindas, atestando que a Vigilância Sanitária precisa dar mais atenção ao serviço. Na dita Praça, eu já disse e repito: nunca passei, sequer, na calçada de uma Faculdade de Engenharia, mas posso apontar pelo menos 10 (dez) erros crassos de engenharia na construção daquele espaço destinado ao lazer. Isso sem contar que ao construírem (?) aquela praça esqueceram que Afogados situa-se no Sertão, com temperaturas médias altíssimas e desprezaram a arborização. Aliás, esta não existe. Em síntese, aquela Praça deve passar, urgentemente por uma reforma para que se possa tê-la como um local confortável. Tudo isso e mais, eu já apontei para pessoas ligadas diretamente à administração, porem, até agora, fizeram - ouvidos de mercador.

A Praça Mons. Arruda Câmara já não recebe o mesmo tratamento que recebia assim que foi inaugurada. Os fragmentos de colunas do antigo Coreto que foram resgatadas nas escavações para construção da Praça continuam lá, abandonados. Por várias e várias vezes o Secretário de infraestrutura prometeu que fará um pedestal onde serão afixadas as colunas, para melhor apresentação. Diga-se, ainda, que havia em todas elas poemas em plaquetas de vidro, decantando a Praça e o saudoso coreto. Algumas dessas plaquetas foram surrupiadas na calada da noite, talvez, por vândalos, ou quem sabe, por pessoas indignadas em ver tanto descaso com os nossos poetas e com a memória do nosso inesquecível Coreto.

Saindo da praça tentamos trafegar pelas ruas que não têm asfalto. Em qualquer delas é um desafio à suspensão dos veículos. Não existe um carro, por mais novo que seja, que não apresente ruídos estranhos (grilos) provocados pelo péssimo estado de conservação dos calçamentos de nossa cidade. E não se deve perder de vista que uma parcela do IPVA que nós pagamos, é destinado ao município onde o veículo é matriculado.

Outro ponto negativo, alvo de inúmeras e reiteradas críticas, é o trânsito. Na Avenida Manoel Borba a coisa se complica, atingindo o limite do absurdo. Primeiro, porque cada um faz como quer. Caminhões param em fila dupla para descarregar mercadorias a qualquer hora. Os donos dos estabelecimentos, de ambos os lados, proclamam-se donos das calçadas e de metade da rua, colocando mercadorias nas calçadas, cavaletes e cones de sinalização em frente ao estabelecimento para guardar a vaga de seu próprio veículo. Assim, cada um vai contribuindo para dificultar a vida do pedestre que, inevitavelmente, arrisca-se a transitar pelo meio da rua, onde deveriam circular apenas os veículos. Isso sem falar nas bicicletas e carroças de burros que circulam na direção que bem desejarem. Para estes não existem mão ou contra mão.

E problemática mesmo é a situação na Rua Henrique Dias, no sábado, com o movimento da feira, quando circulam ao mesmo tempo pessoas, carroças de burros, carros de bois e veículos. É um desafio à Física, quando, inocentemente, dizia que “dois corpos não ocupam o mesmo espaço, simultaneamente". Vá à Henrique Dias prá ver!

Por enquanto são apenas esses descasos que denunciamos. Outros e outros existem para desespero nosso e demérito de nossa cidade que teima em continuar aprazível aos olhos, a despeito do desleixo daqueles que devem zelar por sua imagem.

Apesar dos pesares, Afogados da Ingazeira é uma cidade MUITO bonita, mas...

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 16/09/2009

 

 

O REDUTO DO GUERREIRO

Aproveitamos a oportunidade para nos juntar aos amigos que confraternizaram no dia de hoje com o nosso amigo, ex-professor e colega Dr. Roberto Beserra Pinto (o pai).
O Roberto tem um exemplo de vida a ser seguido. Como professor de matemática (e dos bons) transmitiu ensinamentos a centenas (ou milhares) de jovens, desde o Ginásio Monsenhor Pinto de Campos, passando pelo Colégio Normal Estadual, deixando seu nome gravado na história educacional de Afogados da Ingazeira e região. Na sequência formou-se em Direito e passou a militar no Fórum de Afogados da Ingazeira.

São intermináveis as passagens que o Roberto relembra de sua época de atuação junto ao saudoso Juiz Dr. Ed-Ek Gonçalves Lopes. Na época, também atuando no Ministério Público, a saudosa Dra. Claudete Oliveira. Mas o Roberto Pinto ingressou no Ministério do Trabalho, onde prestou relevantes serviços, sendo destacado por seus colegas. Aposentado, o ex-professor de matemática vai levando uma vida mansa na aprazível cidade de Carnaíba. Todas as manhãs, encontramos o Roberto rodeado de amigos, “jogando conversa fora” debaixo de uma sombra aconchegante de um pé de castanhola, na terra de Zé Dantas. É ali o reduto do guerreiro que ora reverenciamos e que continua sendo o amigo de sempre; prestativo, solícito, atendendo a todos que o procuram, com a mesma presteza.

Ao Roberto desejamos saúde, paz e que continue, mesmo gozando sua merecida aposentadoria, contribuindo para o soerguimento da querida Carnaíba, seu refúgio predileto.

Um abraço, Robertão, tudo de bom... Você merece!

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 15/09/2009

 

 

DEDÉ MONTEIRO, “O SESSENTÃO”

Ontem, dia 13 de setembro, para mim, terminou em alto estilo. Primeiro porque tive a alegria da visita de Elvira Siqueira que jantou conosco e tentamos deixar as nossas reminiscências nos seus devidos lugares; em segundo lugar, porque, juntamente com Elvira, aumentamos o contingente de milhares e milhares de admiradores do Soberano da Poesia - Dedé Monteiro -, que desde ontem é SESSENTÃO.
Telefonamos para o Dedé e lhes dissemos “poucas e boas”, do jeito que ele merece. Na conversa que tivemos com o Dedé, fizemos uma súplica-convocação para que ele frequente este nosso espaço, presenteando-nos, pobres mortais, com o néctar preparado pelas ninfas do Olimpo, que lhe é enviado, em domicílio. E nesta madrugada tive a intuição de que lá na outra dimensão houve festa, ontem, em homenagem a Dedé, pois os verdadeiros amigos não nos esquecem, estejam onde estiverem. Tenho certeza que sob a presidência de Patativa do Assaré, secretariado por Cancão, a plêiade reuniu-se em noite de Gala na Morada do Altíssimo.
Ainda se fizeram presentes Os Faraós do Egito: Dimas, Otacílio e Lourival; Jó Patriota, Marinho, Xudú e Manoel Filó. A saudação ao Poeta Dedé ficou por conta do Professor Zé Rabelo (Zé de Quitéria). Para não perder a hora, Zé Liberal passou a noite na porta, aguardando o grande momento. Presentes, também, Rogaciano Leite, Severino Ferreira, Zeto e Zá Patriota, dentre outros. Mas,o Dedé me deu a honra de receber, ainda “fresquinho” o “alimento do espírito”, que acabou de sair do forno:

GIRADA DE TRINCO (Último soneto, antes dos 60)
São vinte e duas e mais trinta e cinco / Gira o ponteiro, o tempo se promove
E a nova idade vai girando o trinco / Da porta velha dos cinquenta e nove
Imperturbável, só aguardo e brinco / com a mudança que não me comove
porque dos céus, eu sinto que me chove / benção divina com sagrado afinco!

Mereço menos do que Deus me deu.
Minha família - o grande prêmio meu
Se o tempo passa fica mais querida.
Daqui a pouco o cinco se arrebenta,
O nove morre e eu entro nos sessenta
Rendendo graças ao Senhor da vida!

Dizer mais o quê? Viva Dedé Monteiro!!!

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 14/09/2009

 

 

O DEVER DE CASA...

Preciso fazer o dever de casa, como a Mestra determinou. Preciso usar uma linguagem correta para que as palavras traduzam o meu pensamento. A redação só é bem feita e merece uma boa nota, quando eu deixo gravado no papel o que sente o meu coração. Foi a Mestra quem me ensinou.

Mas essa redação é difícil, pois não tenho palavras adequadas que possam exprimir com exatidão todo o amor que sinto por ela. Toda a ternura que me vem ao coração, não cabe e nem poderá ser refletida na palidez do papel. Mas eu devo deixar explícito aqui os valores que ela me transmitiu e que me servem como bússola para a caminhada nos tortuosos caminhos da vida.
Como iniciar enfatizando as qualidades de minha Mestra se toda a sua vida é um exemplo de tenacidade e perseverança? Revivendo seu passado, através de sua autobiografia, percebo que ela também é grata à sua primeira professora. Assim percebo porque sempre foi dadivosa ao nos transmitir seus ensinamentos. Assim é fácil perceber a altivez em todos os seus gestos, a determinação em sua conduta, a rigidez em suas admoestações; a ternura e o amor com que dedicou sua vida de - operária divina - como bem denominou o poeta, na canção.
E mais uma última lição que ela me deu, não faz muito tempo. Estávamos, eu e o Fernando Pires num Mercado, quando casualmente a encontramos; aproximamo-nos dela, e eu lhe dei um beijo, afagando-lhe os cabelos prateados. E disse-lhe: você sempre bonita e até parece mais nova que eu! Ao que ela me olhou bem nos olhos e sentenciou, do alto de sua sabedoria: “A idade está aqui”. Disse isso apontando para a cabeça, numa metáfora, a lembrar-me que a idade está na mente, ou como disse o filósofo: “você é o que pensa”.
Esta foi mais uma lição de dona Ione, fora da sala de aula, fora do Grupo Escolar Padre Carlos Cottart, que foi praticamente seu segundo lar, por anos seguidos. Essa Mestra é um espelho a refletir lições de vida por onde passa.

Noutra ocasião, fui vê-la no meio de sua vastíssima e indestrutível obra realizada ao longo dos anos. Por ocasião do Centenário de Afogados da Ingazeira, as Professoras que foram alunas da Mestra-Mor prestaram-lhe uma homenagem num encontro de profundo significado sentimental. Lá estava ela rodeada por suas ex-alunas e foi emocionante ver pessoas de alto nível intelectual reverenciando aquela que consideramos o princípio de nossa caminhada pelas sendas do saber. Confesso que se me fosse permitido falar naquele momento, não saberia descrever o óbvio. A cena era muito forte; a emoção aflorava à pele. Eu presenciei o supra-sumo da cultura de Afogados da Ingazeira naquele encontro de amigas e senti, em cada gesto, a pureza de uma criança, como que agradecendo o momento vivido. Não me lembro de ter vivenciado momento mais fraterno em minha vida. Mesmo sem ser professor, coloquei-me no meio das ex-alunas, como ex-aluno que sou e, ao meu modo, pedi ao Pai Supremo que transforme em felicidade todo o bem que me minha Mestra realizou na sua profissão-sacerdócio ao longo da vida.

Não sei dizer mais nada, querida dona Ione, pois basta sua presença, sua memória para justificar nosso respeito, nossa gratidão. Aceite um beijo filial e respeitoso. Não me dê uma nota baixa, nesta redação, pois você é grande demais para a minha pouca cultura. Mas, prometo: mesmo sem saber dizer aqui, vou guardar na memória e praticar todas as lições de vida que você me ensinou. Aliás, você, por si, minha eterna professora, já é uma lição de vida.

Deus te abençoe, Dona Ione, Minha grande mestra.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 13/09/2009

 

 

REQUIEM AO NOSSO PAJEÚ

A tarde já recebia os matizes avermelhados numa mistura de cores e tons que extasiam os olhos até dos menos insensíveis. É impossível não se comover com a beleza ímpar da natureza, quando a noite se aproxima e o astro rei vai-se escondendo, devagarzinho, por trás das serras. É o deslumbrante por do sol que contemplamos na Praça de Alimentação.
Estávamos ali, os três: minha querida Elvira Siqueira, meu estimado Fernando Pires e eu, a trocar idéias várias. Em dado momento, Elvira olha para mim e pergunta: Por que não escreves sobre o Rio Pajeú? Mais que uma pergunta, esta indagação traz implícita a preocupação que é de Elvira e que deve ser de todos nós, principalmente daqueles que têm condições de fazer alguma coisa pelo nosso Rio que agoniza, como já denunciaram em versos, vários poetas, dentre eles Diomedes Mariano.

Com a pergunta de inopino, feita por Elvira, senti que tenho uma parcela de culpa pela degradação do Rio, até o momento em que me calo diante da brutalidade que se pratica com essa dádiva da natureza.

É preciso lembrar aos nossos governantes que todo Rio, sem exceção, não é apenas um curso d’água a embelezar uma região. Se retrocedermos na história da humanidade encontraremos a Mesopotâmia, formada pelos Rios Tigre e Eufrates, donde surgiram civilizações que precedem à história do próprio Cristo. A Europa, com seus países no ápice da civilização, é cortada, literalmente, pelo Rio Reno. A beleza incontestável de Paris, a cidade luz, recebe uma moldura especial pelas águas do Rio Sena, o “rio dos namorados”.
Aqui entre nós, neste país que é sobejamente agraciado pela Natureza, depois da junção dos Rios Negro e Solimões, assistimos perplexos a pujança do Rio Amazonas que se torna, até certo ponto, assustadora, diante da nossa pequenez. E mais pertinho temos o Rio São Francisco - o Velho Chico - o Rio da integração nacional. O Velho Chico que foi visto com os olhos de um progressista como Delmiro Gouveia, ao contemplar a força indomável daquelas cachoeiras prevendo que dalí o homem poderia tirar o progresso que hoje é uma realidade. Assim, repetimos, todo rio, seja ele grandioso como o Amazona ou pequenino como o Pajeú, todo ele tem muito a oferecer, por onde passa.

O Rio, assim como a natureza, em todas as suas formas, não veio para agredir o homem, mas para ser por ele domado e lhe proporcionar melhoria de vida. Mas essa mesma natureza, quando agredida, volta-se de forma implacável, retribuindo com drásticas consequências a insensatez do próprio homem, que ainda não compreendeu que matar a natureza é matar, num futuro, não muito distante, seu semelhante. Basta observar os revides constantes do Rio Tietê, que já não suporta mais tanta agressão ao seu leito.

A exemplo de todos os rios acima citados, também o nosso Pajeú merece e carece de mais atenção. É preciso que vozes se alevantem e denunciem sua morte iminente. O Pajeú agoniza, pede socorro, enquanto é tempo e enquanto se pode fazer alguma coisa para salvá-lo. Não podemos ficar apenas na indignação da Professora Elvira e neste frágil desabafo solitário que faço neste momento.

O Pajeú não é propriedade privada nem existe para atender interesses individuais. O Pajeú é uma referência de todo um povo... O Pajeú é uma identidade coletiva... O Pajeú somos nós que trazemos no sangue a índole indômita...
Deve-se despertar em cada um de nós a intrepidez de vontade em socorrer nosso rio, assim como são as suas águas indomáveis durante as cheias que trazem para nós um espetáculo indescritível, além da bonança, indiscriminada, para todos os ribeirinhos. É esse Pajeú que pede socorro...
É esse presente de Deus que não podemos jogar ao ostracismo, assistindo inerte e passivamente sua morte por culpa de uma OMISSÃO COLETIVA

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 13/09/2009

 

 

PARABENS, SÃO LUÍS!

Neste 8 de setembro de 2009, a cidade de São Luís completa 397 anos de fundação. Conta a história que na época das conquistas de terras desconhecidas, na corrida desenfreada por novos domínios, foram os portugueses, os primeiros a chegar em terras maranhenses, no ano de 1535. Vieram nessa empreitada 500 homens distribuídos em 3 navios. Por volta do ano de 1612, os franceses liderados por Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardiere, construíram, na Baía de São Marcos, o Forte de São Luís, onde hoje se localiza o Palácio dos Leões, sede do Governo Maranhense.
Ainda no mesmo ano de 1612, os franceses fundaram a França Equinocial. A luta acirrada entre franceses e portugueses pelo domínio daquelas terras perdurou até o ano de 1615, quando os portugueses conseguiram vencer e expulsar os franceses. Por volta do ano de 1621 foi instituído o Estado do Grão-Pará. Em 1641, os portugueses enfrentaram a investida de novos invasores, sendo desta feita, os holandeses. Após três anos de batalhas estes foram expulsos.

Para quem visita São Luís, é perceptível a influência dos primeiros habitantes daquela cidade. Nas paredes ainda persiste a beleza dos azulejos seculares. A arquitetura desafia aos mais atentos em compreender como puderam construir verdadeiros edifícios sem contar com a tecnologia atual.
A topografia irregular, no Centro Histórico, as ruas estreitas envolvem a cidade numa atmosfera de encantamento e mistério. É como se você adentrasse na história, convivendo com os nossos antepassados.

São Luís respira e transpira história. Cada praça, cada esquina oferecem-nos um quadro deslumbrante, emoldurado por palmeiras seculares. A proximidade do mar, o cheiro forte do peixe que se aspira no Mercado da Praia Grande é como um bálsamo embriagador que nos faz antever, ao longe, a chegada dos desbravadores portugueses. No mirante do Palácio dos Leões avista-se toda a baía de São Marcos como um quadro multicolorido.
Na Rua de Santana e vielas adjacentes, com um pouco mais de imaginação, pode-se vislumbrar, caminhando ladeira a cima, os negros do Brasil colonial, carregando os fardos pesados que compunham a bagagem de seus senhores.

Quem contemplar São Luís, à noite, com os ouvidos da imaginação, ouvirá nitidamente a batida ritmada do tambor de crioula. O alarido vai crescendo e ecoa pelas praias de São Luís, envolvendo as areais de Araçagi, Calhau, Olho D´água e Ponta D´areia. São os negros na sua festa maior. É o sincretismo religioso que se concretizava naqueles tempos e nos foi legado através dos séculos. Essa São Luís de magia e encantamento merece o nosso afeto pelas belezas naturais que nos oferece graciosamente. A essa " Pérola do Atlântico", roguemos às Forças Superiores que a mantenha sempre bela, como a natureza a criou.

Parabéns, querida Ilha aprazível... parabéns, São Luís!

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 08/09/2009

 

 

DE VOLTA PRO NOSSO ACONCHEGO

Após uma Semana atribulada no Recife, aqui estou de volta. De logo, devo dizer que aceito o convite-intimação do meu amigo Geraldo-Crôi-Trepidant’s. Dependendo da oportunidade, Geraldo, iremos comer um sarapatel no Mercado, num dia de sábado, junto com o nosso povo, ouvindo as estórias do nosso homem do campo; entre eles não se trama – atos secretos, licitações de cartas marcadas etc; espero que nesse nosso encontro esteja o Fernando Pires com sua máquina implacável para registrar o fato.

Mas, Geraldo, vamos lembrar um pouco do Colégio: tínhamos o Sérgio Pipa, inspetor de disciplina, só que o mais indisciplinado era ele próprio, que vivia “conservado em álcool”, feito cobra de farmácia. O outro era o Oliveira, analfabeto e não tinha moral nem com a turma do ginásio que ainda era, na sua maioria, crianças; quando o Diretor Isaias decretava ponto facultativo para a banca de estudos, que iniciava às 19h30 até as 21h20, a turma aproveitava para divertir-se com Oliveira. E perguntávamos: “Oliveira, a banca hoje é facultativa ou vai quem quer?” Ele, muito sério, respondia: “O Professor Isaias disse que é facultativo, não sei se vai quem quer”. Enquanto isso, outro gritava “coça-coça!”. Era o bastante para o Oliveira perder a esportiva.

O ir(responsável) por nossa comida era o Lula cozinheiro. O tempero das gororobas que Lula aprontava era a FOME. Numa certa ocasião, aprontamos uma com o Lula e sua equipe. A Globo estava passando uma novela que o Brasil todo assistia, inclusive, nós. Mas resolvemos dar o troco. Naquela tarde-noite, foi servida uma sopa que era mais gordura do que sopa. A fila para o jantar - que era servido das 18h às 19h - começava a ser formar às 17h40. Como já sabíamos que a sopa era gordurosa, combinamos para entrar no refeitório depois das 18h. Assim fizemos; o colégio em peso. Servida a sopa não tivemos pressa em tomá-la e sempre com o cuidado de sujar toda a bandeja, deixando-a toda untada de gordura. Resultado, Lula e sua equipe perderam a novela, pois não tiveram tempo de lavar as bandejas, antes das 20h. Sujas não poderiam ficar, pois seriam utilizadas no café da manhã do dia seguinte. Essa foi mais uma dos “anjinhos” do Colégio Agrícola. Na minha turma tinha o Luiz Cavalcanti, o “Debréia”. Contou-nos, ele mesmo, que estando em casa, sua mãe lhe perguntou, o que pretendia estudar, depois que concluísse o Técnico Agrícola. “Debréia” disse-lhe: Eu pretendo fazer vestibular na Rural... Nisso seu pai que escutava a conversa, saltou aos gritos: “na rural você não pega mais... você é irresponsável, fica a correr pela rua, arriscando matar uma pessoa... não senhor, na rural, de jeito nenhum”. Explicando: o pai de Debréia tinha uma rural (lembra da rural?). Quando o garoto ia prá casa, em férias, não dava sossego ao velho pai; tirava o carro escondido e aprontava. Esse ao ouvir Debréia falar que iria fazer vestibular na rural, explodiu: O velho pensava no Carro e “Debréia” se referia à Universidade Federal Rural.

São fatos do passado que vêm à tona a uma simples provocação de um amigo e contemporâneo. Como disse o poeta, meu Caro Geraldo, éramos felizes e não sabíamos.

Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira/PE, 06/09/2009

 

 

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