LUCIANO CAMPOS BEZERRA
Advogado e cronista afogadense
UNIÃO ESTÁVEL DE HOMOSSEXUAIS...
RECONHECIMENTO COMO ENTIDADE FAMILIAR
O tema é polêmico; isso não resta dúvida. As opiniões são as mais contraditórias. E desde que surgiu a idéia de criação de uma lei que reconheça como “entidade familiar” a união estável de duas pessoas do mesmo sexo, eu tenho uma posição firmada e, até hoje, não mudei meu ponto de vista, que considero como a solução para o impasse e que, de certa forma, atenderia o anseio daqueles que vivem sob o mesmo teto e constroem um patrimônio pelo esforço de ambos, assim como acontece com casais heterossexuais.
O nó górdio dessa celeuma prende-se, única e tão somente, ao aspecto de direitos sucessórios. E, com muita razão, não se deve perder de vista, o fato de que o casal - homo – “batalha” toda uma vida, forma um patrimônio considerável e, na morte do companheiro, o outro fica sem um amparo legal na meação.
Aqui é que vem minha posição a respeito desse aspecto patrimonial: Nada impede, legalmente, que duas pessoas registrem um imóvel ou dez ou cem, no nome de ambos. O domínio será de ambos e no Registro de Imóveis constará, detalhadamente, a quota parte de cada um. Em caso de morte, o companheiro sobrevivente terá assegurado o seu quinhão na meação; na hipótese do falecido deixar descendentes, a parte que pertencia ao falecido será dividida entre estes, se forem mais de um - evidentemente. Não deixando descendentes, o quinhão hereditário será dividido entre os ascendentes. Não vejo nenhum óbice que se aplique a legislação que rege a sucessão, como se acha inscrita no Código Civil vigente.
Outro aspecto: o reconhecimento como união estável. Isso se dará, juridicamente, através de uma Ação Declaratória. E o procedimento está previsto na legislação. Exemplifiquemos: duas mulheres (ou dois homens) vivem sob o mesmo teto e pretendem que seja declarado por Sentença, que vivem em estado de companheirismo. Ingressam com a ação Declaratória e exporão os fatos, provando, inclusive, com testemunhas.
O juiz não poderá se escusar de Declarar por Sentença os fatos alegados, aplica, neste caso, o brocardo: “Da mihi factum, dabo tibi jus” (dá-me o fato, que te darei o direito). Aqui não se cogita sobre a ocorrência de conjunções carnais; não é detalhe imprescindível. A lei não impõe como conditio sine qua non este detalhe. Declarado por sentença que existe uma convivência de companheirismo e havendo o registro do patrimônio, em condomínio, estará solucionado, a meu ver, o problema sucessório.
Já no que diz respeito à previdência: poderão os companheiros estáveis optar pela previdência privada (plano de saúde) ou contribuir, cada um, para o INSS e, na época certa, postular sua aposentadoria com base no tempo pretérito de contribuição.
Esse é o meu ponto de vista. Por outro lado, vislumbro que os casais - homo - pretendem um reconhecimento pela lei, da união estável, de modo semelhante ao casamento civil. Embora respeitando a opinião de tantos quantos assim pensam, eu vejo mais como um propósito de caráter subjetivo.
E aqui lembro as milhares de pessoas que vivem maritalmente, sem o casamento civil e nem por isso estarão descobertos, quando da morte de um deles, pois já existe previsão na Constituição Federal para tais casos. Mas, cada cabeça é uma sentença!
Para concluir, posso dizer que já cuidei de casos semelhantes, ingressando com Ação Declaratória de convivência entre pessoas do mesmo sexo e, aliás, num desses casos, causou-me admiração detalhes que me foram confessados por elas, que vivem em plena harmonia, deixando tudo esclarecido com respeito ao patrimônio. Mesmo porque uma delas tem um filho adolescente que, segundo as próprias, só fortalece a união. O que é preciso, urgente, quando se trata desse assunto, é abstrair preconceitos e falso moralismo. Afinal, a vida íntima de cada um só pertence ao próprio. Já é - íntima - por isso mesmo. ou; tudo de bom e um abraço.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 30 de agosto de 2009
GARIMPANDO PEPITAS DE ARTE E TALENTO:
CORONÉ LUDUGERO E OTROPE
Sempre que visito uma loja de discos, procuro por relíquias que, aliás, estão sempre aparecendo em regravações. Assim é que já tenho em meu acervo “monstros sagrados” como: Ângela Maria, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol, centenas de músicas de Nelson Gonçalves, oferta do meu estimado Fernando Pires; tenho, ainda, Orlando Dias, Nubia Lafayete, Moacyr Franco, Orlando Silva e muitas outras preciosidades, sem esquecer o Consagrado Luiz Gonzaga.
Nessa minha última peregrinação, encontrei o saudoso - Ludugero e seu companheiro inseparável, até na morte - Otrope. O Coroné Ludugero que foi uma criação de Luiz Queiroga, impressiona-me, sempre, pela singeleza com que nos faz rir. São cenas do cotidiano enfocadas por Queiroga, com o tempero e o talento de Ludugero e Otrope. Havia uma pureza na linguagem sem perder o satírico, levando ao humor cabível em qualquer recinto e aconselhável para qualquer idade. O que não acontece com os pseudo-humorísticos de hoje.
A Globo, por exemplo, “torra” a nossa paciência com o “Zorra Total”, que consegue tudo, menos provocar uma risada. São quadros que beiram a idiotice; apelativos e caricatos sem o mínimo de inteligência. Foi-se o tempo em que o Brasil parava para ouvir e rir às escâncaras com o gênio - Chico Anísio. Também vão longe os tempos áureos da “Praça da Alegria” que o Carlos Alberto insiste em manter, em memória do seu pai, com A Praça é Nossa. Nesse humorístico salva-se pouca coisa, porém, é visível o propósito apelativo com mulheres sempre em trajes sumários. Não que eu seja contra a exibição de mulher bonita, mas cada coisa no seu devido tempo e na hora certa. Destaque-se aqui um súdito do Chico Anísio que esbanja talento, honrando a tradição do Ceará em nos legar excelentes humoristas: o Tom Cavalcante.
Na música, como iniciei esse registro, resta-nos sair à procura das preciosidades do passado, pois hoje são raríssimas exceções que merecem fazer parte de um acervo que se preze. E fico pensando como será a “memória musical” dessa juventude que hoje “engole” a música eletrônica ou as baboseiras desses grupos musicais de existência meteórica. O que mais se houve é barulho, não música, e nada de poesia, nada de letra, enfim, quanto mais zoada mais agrada, infelizmente, a toda uma geração que será órfã de um passado musical. Hoje para se gravar não precisa cantar bem... não precisa nem cantar, nem ser afinado... a tecnologia faz isso por você. Concorda comigo, Bigodão?
Por isso fico extasiado com nossos valores de outrora e exultante ao encontrar a dupla de gênios: Luiz Jacinto e Irandir Peres Costa que são os mesmos: Coroné Ludugero e Otrope, que nos deixaram ao perecerem num fatídico acidente de avião, na Baía de Guajará-Mirim, em Belém do Pará, no dia 14 de março de 1970. Hoje descansam em paz, na terra de Zé Condé e são carinhosamente lembrados por quem tem a sensibilidade de exaltar o talento desses valorosos ícones da nossa cultura.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 25 de agosto de 2009
MUTIRÃO DA JUSTIÇA... UM PRÊMIO AO RELAPSO
O CNJ – Conselho Nacional de Justiça, finalmente, resolveu confessar sua desídia e, num arroubo de austeridade, decretou a implantação de um mutirão nacional, com a finalidade de “desenferrujar” a máquina judiciária. Falando mais claramente, como gosto de dizer as coisas: o CNJ resolveu forçar os juízes relapsos a cumprirem com as obrigações para as quais são pagos, e bem pagos. Eu considero esse - mutirão nacional - um prêmio aos juízes relapsos, pois eles serão coadjuvados por aqueles juízes cumpridores de seus deveres e que serão deslocados de suas Comarcas, com o objetivo de desencalhar processos que “dormem” por meses e anos nas prateleiras dos Cartórios. Ora, o juiz que está com sua Comarca em dia, é porque cumpriu o expediente e, mais que isso, obedeceu a todos os prazos processuais.
Se assim não fosse, estaria na mesma situação daquele que só vai na Comarca um dia ou dois na semana e quando vai, não produz nada. E Pernambuco foi declarado como o Estado na pior situação no país, ou seja, a Justiça aqui está perdendo na caminhada até para tartaruga. Quem milita no Fórum sabe que é raro o juiz que gosta de despachar Processo de Inventário. Isso além de causar prejuízo às pessoas e ao Estado, prolonga um constrangimento de se esperar anos seguidos pelo deslinde de uma partilha de bens, quando não dissemina a discórdia entre familiares, levando, muitas vezes, à intriga irreconciliável.
Esse é apenas um dos pontos cruciais da lide forense. Quando o advogado particular tem a infelicidade de trabalhar com um Juiz preguiçoso, ele, advogado, perde em conceito perante sua clientela que, desconhecendo os meandros da Justiça, lança a responsabilidade pela demora processual sobre o advogado. E diz: “comeu meu dinheiro e não faz nada... não se interessa”. Quando o processo está sob a responsabilidade do Defensor Público, o leigo opta pela solução mais simplista que é culpar o Defensor e, sentencia: “Ele (defensor) não faz nada porque sou pobre... porque é de graça”. E o Juiz, aquele que devia respeitar as pessoas, a Justiça, a Lei, sai ileso, mesmo porque as partes não têm, quase sempre, o topete de enfrentar um Juiz. Nem mesmo reclamar seus direitos perante a ouvidoria. E o caos vai-se avolumando para desespero de milhares de infelizes que buscam resposta para seus problemas na Justiça.
No Brasil existe Lei prá tudo. E todo esse arcabouço de Leis só serve para serem descumpridas. Como exemplo, citemos a Lei de Execuções Penais. Essa, no meu entender, é a maior fonte de criminalidade. E explico: a partir do momento em que não se cumpre a lei, a partir do ponto em que os direitos inalienáveis dos presos são conspurcados, o Estado está criando nos depósitos de presos futuros marginais que, ao invés de saírem ressocializados, retornam à sociedade com “curso de pós-graduação no crime”. Não se pode esperar nada positivo de uma pessoa que foi trancafiada, como uma fera, num cubículo lotado, passando anos sob condições aviltantes. “O que menos se observa na vida do apenado é que ele está ali para refazer seus conceitos; reformular seu modus vivendi”, enfim, é responsabilidade do Estado trabalhar uma personalidade deformada e transformá-la a fim de que se adapte aos padrões aceitáveis pelo todo coletivo. Cezar Beccaria, já em 1764, dizia que a pena não deve ser uma vingança estatal. A pena não deve reduzir o penalizado a mais indigna das condições.
No âmbito da lei específica ao menor - E.C.A. - que foi decantado como um monumento jurídico, e não discutimos a perfeição dessa lei. O que não entendemos é que decorridos 19 anos depois, ainda não se dispõe dos instrumentos necessários à concretização do desiderato desse ordenamento. Os sinais de trânsito de qualquer cidade estão aí para comprovar o que digo. E por falar em falta de instrumentos, não se deve perder de vista que a superpopulação dos presídios não é culpa dos deliquentes que são muitos, mas o Estado que não constrói presídios suficientes. E quando constrói, o faz de modo imprestável, a exemplo do Cadeião (apelidado de presídio) que temos aqui em Afogados, que foi “inaugurado” e nunca serviu prá nada, a não ser para o proselitismo político, discurso eleitoreiro, constar nas estatísticas manipuladas e “torrar o dinheiro” do povo.
Mas, voltando ao - mutirão nacional - devo dizer que, por uma questão de bom senso, não sou contra, pois milhares de processos esperam por uma resposta. O que não posso é calar, até por um dever funcional; devo expor os problemas acima, para que a sociedade tome conhecimento das mazelas que emperram a “máquina judiciária”.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 23 de agosto 2009
À PAIZINHA: UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL, EM FORMA DE ESTRELA
Foram dias “turbulentos”, estes últimos, motivados pelos acontecimentos lá em Brasília. O desfecho do episódio - Sarney - deixou marcas profundas e que só a Sociologia e Cientistas Políticos do futuro, poderão explicar. Aqui na planície, tiramos nossas conclusões, cada um ao seu modo. Há até aqueles que justificam aguerridamente uma - absolvição - que é e continuará sendo condenada pela opinião pública. O Senado expôs suas vísceras, dando-nos a dimensão exata dos critérios usados pelo Conselho de Ética.
E nesse clima de desolação eu me encontrava “ruminando” as idéias, quando, de repente, toca o telefone. Era a luz no fim do túnel que me aparecia. Só que em forma de Estrela de Quinta Grandeza.
Nada mais prazeroso do que receber um telefonema, no meio da tarde, dessa criatura afável que se chama Maria da Paz. Também pudera, a “danada”, tem Paz até no nome.
O meu carinho por Paizinha vem de longe. Vem dos tempos em que éramos crianças, eu mais velho (e muito) que ela. Vem dos tempos em que brincávamos nas calçadas de Seu Zé Bezerra, de um lado da rua, e de Seu Elpídio Nogueira, do outro. Vem dos tempos em que Inez, tia de Paizinha, ela Inez, já mocinha, me levava para o Hotel de Dona Quitéria, e me empanturrava de doce de mamão, doce de leite. Aquele hotel com jeito de nossa casa. Dona Quitéria, com seus olhinhos brilhantes, sempre a conversar com seus clientes, fazendo de cada um, um amigo.
Nos dias de feira, o Beco de Zé Bezerra fervilhava de gente; eram as pessoas que vinham dos sítios e enchiam as bodegas fazendo compras, outros tomando umas biritas; aqui e acolá, não muito frequentemente, surgia um começo de briga... era alguém que tomara mais da conta. Lá na esquina, Seu Elpídio Nogueira, com seu armazém de compra de ovos e peles de animais. Seu Elpídio, uma figura simpática, homem cordato, respeitador e respeitado por todos. Tinha um jeito singular de tratar a todos, por “meu irmão”, “minha irmã”. Mas ele “carregava” no “R” e só ele pronunciava: “meu Rimão”, “minha Rimã”.
Ainda ouço a zoada do - motor - de seu Elpídio. O tempo afeminou a máquina, que hoje é tratada por - “a moto”.
Lembrando de seu Elpídio, nos vem nitidamente à memória Roberto Nogueira, que saiu tal qual o pai: um sorriso sempre nos lábios, uma mansidão em pessoa; e Roberto, para concretizar o sonho do seu velho pai, partiu para o Recife, dedicou-se com afinco aos estudos e formou-se em Medicina.
Tive a oportunidade de visitá-lo numa república de estudantes, lá no Recife, e presenciei Roberto Nogueira virando as madrugadas, estudando. Amanhecia o dia e ele partia para a Faculdade, com o mesmo entusiasmo, como se não tivesse passado a noite em claro. Mas quis o Criador do Universo que o Doutor Roberto Nogueira Lima, nos deixasse tão cedo. Sua lembrança ficou naquele beco, nas ruas e praças, onde convivemos. Se o nosso médico não desempenhou sua profissão, como filho cumpriu sua missão enchendo de alegria o coração de seus pais: Seu Elpídio e Dona Ritinha. Como amigo Roberto será sempre uma lembrança agradável.
São essas lembranças, Paizinha, que um telefonema seu nos provoca e nos traz à tona o outro hotel que havia defronte ao de dona Quitéria: o de seu Sérgio, que nos servia doces caseiros de sabor inesquecível. Era assim a Afogados dos nossos tempos de criança. Terminava a feira e os caminhões partiam cheios de gente, rumo ao Posto Fiscal, seguindo por aquela estrada de terra, cheia de buracos, na direção do Colégio Normal. Naquele Posto estava alguém de plantão: Seu Eduardo Veras, ou Inocêncio Nobelino, ou Gonzaga Dias. Eram os funcionários aduaneiros de nossa cidade.
A noite se prenunciava, dando lugar, antes, ao pôr-do-sol que o Pintor Divino nos doava com matizes indescritíveis, cobrindo toda a cidade com um manto de estrelas... daqui a pouco soaria a sirene do Cine São José, anunciando que teríamos mais um filme de Rock Lane, com um episódio do seriado que prendia a nossa atenção, e a ansiedade tomava conta, até a semana seguinte, para a continuidade do enredo. Vamos ao Cine São José, pois seu Newton César já está lá na portaria, conferindo a idade de cada um, de acordo com a censura do filme.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 20 de agosto 2009
MICROFONE: falou... tá falado!
Na história da Rádio Pajeú, existem “causos” hilariantes, produzidos, talvez, pela displicência e, outros, pelo sentimento de auto-suficiência de alguns que nunca aceitavam qualquer sugestão, como bem frisaram - Bigodão e Gilberto. Os “causos” adiante são verídicos, no entanto, omitirei o nome do “santo”, só vão “os milagres”:
E o locutor estava apresentando o noticiário sobre a queda de um avião "teco-teco", quando saiu essa:
RIO DE JANEIRO - Nesta manhã, no Rio de Janeiro, caiu um avião teleco... tecolé... teteco... O controlista ao ver o colega vermelho, coçando a cabeça, subiu uma música qualquer. E até hoje não sabemos se houve vítimas fatais. O certo é que os ouvintes foram vitimados por esse escorrego, que o microfone não perdoa.
Aquele outro locutor, ao ler um aviso sobre uma GARROTA que havia sido, provavelmente, furtada do curral de seu proprietário, leu inadvertidamente:
“Atenção: Quem souber do paradeiro de uma GAROTA branca com malhas pretas, um ferro no traseiro direito, com um chocalho, pesando mais ou menos 15 arrobas...
A essa altura o controlista, do outro lado do vidro, gesticulava, acenava, mas o locutor não via, pois estava de olhos fixos no papel...
Já imaginou, o drama: Uma garota com um ferro no traseiro, com um chocalho e pesando 15 arrobas? O microfone é isso, bobeou... dançou.
O cidadão nasceu nas plagas do Pajeú, cresceu por aqui e, como ocorre com muitos nordestinos, foi tentar a sorte em São Paulo. Depois de algum tempo, voltou. E voltou com aquele sotaque “paulistês”, que só ouvimos nos recém-chegados da paulicéia. Um detalhe é que vêm mudando a geografia, pois se referem à nossa terrinha como “o norrrte”. Aqui chegando, conseguiu ser locutor na Rádio Pajeú. E se auto-proclamava com voz idêntica à do Silvio Santos. Precisava ver a empáfia.
Certa vez, num intervalo comercial, lascou essa:
“Agora, em Afogados da Ingazeira, temos a Pediatra Dra. Teresinha Padilha. Fique tranquilo... Se você tem qualquer problema nos PÉS, procure a pediatra Dra. Teresinha Padilha”. É mole?
Pelo que me consta, Dra. Teresinha nunca cuidou, nem “pegou no pé” de ninguém. Mas, bem que esse aí merecia um puxão de orelha.
Certa vez, meus caros Bigodão e Gilberto, fiz uma sugestão a guisa de correção e o homem “queimou ruim”. Disse que estava vindo de São Paulo, que sabia “fazer rádio”. Nunca mais eu lhe disse nada. Quem sou eu, diante de um recém-chegado de São Paulo?
Aqui já tivemos uma figura que dava nó em pingo de éter. Tinha lábia pra derrubar o “Concorde”. E este nosso amigo apresentava um programa que homenageava as cidades da região. Era o “Expresso da Alegria”. A técnica entrava com um efeito sonoro, que era um trem partindo, aumentava a velocidade, até chegar à cidade homenageada naquele dia. E o nosso amigo entrou dizendo: “Hoje vamos fazer uma homenagem PÓSTUMA à cidade de Iguaracy”.
Não foi mais que dois minutos o telefone tocou. Era o Padre Assis (o ombudsman), sempre alerta. O Padre chamou o homem na responsabilidade, disse-lhe que aquilo era um absurdo, explicou-lhe o que significava - homenagem póstuma. Mas o “artista” não se abalou. Calmamente, prometeu ao Padre que iria dar um jeito no estrago que fizera. E quando voltou ao microfone, saiu-se com essa: “Meu amigos, eu estou fazendo uma homenagem póstuma a Iguaracy, na pessoa dos grandes homens desta terra. E passou uns quinze minutos “enchendo linguiça”. A emenda saiu pior que o soneto.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira. PE, 17 de agosto de 2009
RÁDIO PAJEÚ (ZYK39, 1520 kilociclos): FALANDO PARA O MUNDO!
50 ANOS: HÁ VAGAS PARA OMBUDSMAN (?!...)
Acredito que já não preciso dizer ou provar o amor que tenho pela Rádio Pajeú. Assim como acontece com várias pessoas, a Rádio Pajeú é parte integrante da nossa vida. As lembranças da juventude e início da fase adulta estão permeadas da presença constante e indelével da Rádio Pajeú. Partindo de tais premissas, adentremos no assunto que pretendo, focalizando nossa idéia no enunciado acima.
É fato que a Rádio Pajeú, no início de suas atividades, foi sintonizada na Suécia e em outros países da Europa. Isso se explica pelo fato de que, na época, estava com toda aparelhagem nova; o transmissor, o primeiro: um RCA VICTOR, de válvulas, rendia cem por cento de sua capacidade, o que permitia, mesmo operando na faixa de 1520kc (kilociclos), uma penetração ao extremo. E nessa condição, fazia com que o saudoso Ulisses Lima, num “bairrismo saudável”, usasse a expressão: “Rádio Pajeú, falando para o mundo”. Havia verdade, nessas palavras, embora até certo ponto discutível, se considerarmos que a penetração da Rádio Pajeú não era de forma efetiva, vez que, seu alcance se estendia mais à noite.
Voltemos ao tema; Hoje a Rádio Pajeú e qualquer outra emissora de “um quilo” pode se dar ao luxo de propalar que está - “falando para o mundo”. Isso porque, na atualidade consegue-se a junção Rádio-Internet. Nesse “casamento”, é possível levar o som e a voz da Rádio Pajeú para os confins do universo. Aqui é que mora o PERIGO. Nós, através da Rádio Pajeú, já não somos ouvidos APENAS aqui no nosso âmbito “familiar”. Os nossos acertos e nossos erros alcançam dimensões de audiência, incalculáveis. O mundo nos escuta. É preciso que se tenha o cuidado no que se diz e como se fala. É preciso, para fazer uma boa figura, lá fora, caprichar na linguagem, evitar erros crassos de português e, quando possível, evitar uma linguagem chula. Afinal, já disse o Mestre dos Mestres: “o mal é o que sai da boca do homem”. Para que se consiga o melhor conceito da Rádio Pajeú, lá fora, principalmente, diante daqueles que não nos conhecem “pessoalmente”, faz-se necessário que seus profissionais tenham reciclagens constantes, em busca do aperfeiçoamento. Isso é elementar: ninguém sabe tudo; e o profissional que não se recicla, será ultrapassado, inexoravelmente.
Sei que este meu comentário é contundente e poderá ferir suscetibilidades, mas minha preocupação é com a Rádio Pajeú, com o que poderão - lá fora - pensar de nós que somos por ela representados. Preocupo-me que ela - Rádio Pajeú - seja admirada, não só por seu pioneirismo, por sua ousadia em realizar, com mínimos recursos, aquilo que as grandes Empresas realizam com equipes numerosas e dinheiro farto.
Em síntese, e aqui vai a sugestão para a alta cúpula da Rádio Pajeú: Já é hora de ter em seu corpo administrativo, um OMBUDSMAN. Para quem não tem afinidade com o termo, que, aliás, é intraduzível, ao pé da letra significa “alguém que deve ter a missão de criticar os erros da própria empresa, notadamente, aqueles erros persistentes que o microfone não esconde jamais”.
E façamos um “mea-culpa”; não é raro ouvirmos alguém dizendo “algumas coisas” que só podem ser frutos da falta de atenção. Errar é humano, mas procurar evitar o erro é inteligente e muito mais produtivo, principalmente naqueles que se propõem à comunicação de massa. Para a correção desses erros, é que existe o OMBUDSMAN - aquele que tem a missão de proporcionar uma ligação entre a Rádio e os ouvintes. Todos os grandes Jornais Escritos e Emissoras de Rádio têm o seu OMBUDSMAN. Seria uma ouvidoria em busca do melhor para todos. E isso não é demérito nem para a Rádio nem tampouco para aqueles que nela militam.
Aqui fica a sugestão e espero que não me queiram mal, pois só tive, como tenho sempre, a intenção de ajudar e ver o melhor na nossa Rádio Pajeú. Afinal, é por ela que nós, sertanejos, “FALAMOS PARA O MUNDO!”.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 16 de agosto de 2009
PAI, O NOSSO DIA
Meu pai, ontem foi o “nosso dia”. Sim, porque já vai longe o tempo em que, no dia dos pais, eu, contando com a “cumplicidade” de minha mãe, comprava um presente para você. Isso, geralmente no dia anterior, e ficava me “roendo” de ansiedade até que chegasse a hora para lhe entregar aquele embrulho com um papel bonito. Hoje, meu pai, eu faço as suas vezes, quando recebo de meus três filhos as manifetações de carinho. E a cena se completa com meus dois netinhos: Paulo André e Geovana, que se “intrometem” e também querem homenagear o vovô. São eles os portadores dessa alegria.
Mas você se foi, meu pai, deixando-me aqui, até que voltemos a nos encontrar. Não precisa lhe dizer que a saudade é grande. Até fui lá na sua última morada, ontem. Esta visita que lhe fiz representa para mim, apenas um simbolismo, pois na dimensão em que você se encontra, não existe impedimentos de distância, espaço geográfico ou de tempo. O nosso encontro mental poderá ocorrer em qualquer momento e nas mais diversas circunstâncias. E fico a imaginar, tendo quase certeza que você, onde está, encontra-se melhor do que se ainda estivesse nesse mundo conturbado. A cada dia que passa, meu pai, os valores vão-se invertendo e seu exemplo de retidão de conduta, de honestidade, transformam-se em algo à mercê da interpretação casuística dos maus. Há dias que assistimos a mentira, a disfarçatez, o cinismo prevalecendo em detrimento da ética e da moral.
Você me ensinou a respeitar as autoridades constituídas e, principalmente, trilhar pelos caminhos da moralidade. Só que estou confuso, meu pai. Será que entendi errado ou errado estão aqueles que se apoderam dos bens públicos e ainda exigem respeito, ainda se arvoram de senhores de bem. A Justiça, é triste dizer, ganhou no imaginário popular um lugar de descrédito. Não sei se você suportaria assistir as cenas degradantes que nos trazem todos os dias, os dirigentes de nosso país. Eu, aqui nesse mundo cheio de ganância, de disputa pelo poder, de conchavos tramados às escondidas; você numa dimensão onde se expurga a inveja, a vaidade, os sentimentos mais mesquinhos que nos impinge a matéria.
E quanto mais penso, meu pai, acredito que seu mundo é bem melhor que esse daqui. Sua missão ja foi cumprida, resta a mim prosseguir na caminhada, regendo-me pela bússola da honradez que você me legou.
Tenho orgulho de toda sua trajetória por essa vida. Sinto-me fortalecido quando ainda ressoam em meus ouvidos suas orientações, pois, mesmo tendo uma instrução rudimentar, você foi um Mestre que me falava pelos ditames da razão. É certo, meu pai, que já não sou aquela criança frágil que sentia segurança ao caminhar pegado em sua mão.
Hoje devo mirar no seu exemplo para dar aos meus a continuidade do patrimônio que você me legou: uma vida de humildade, porém de honradez. Não vejo nada em seu passado, meu pai, que me possa envergonhar. É isso que pretendo deixar para meus sucessores. O patrimônio moral, você me fez compreender, é indestrutível; o material se dissipa com a vaidade.
O patrimônio moral fortalece o espírito, o material, pela ânsia de consegui-lo, muitas vezes, entorpece o coração e degrada o homem.
E, para finalizar, lembro aqui uma mensagem que é sempre divulgada pela Rádio Pajeú, que foi sua companheira inseparável: “É melhor ter a consciência limpa, mesmo sofrendo privações, que ter tudo com o remorso da desonestidade”. Assim como você, meu pai, pretendo ter sempre a minha consciência tranquila e limpa, para ser digno de sua memória e da admiração de todos, principalmente, daqueles que hoje me têm como pai.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 10 de agosto de 2009
UM BREVE ALÔ A TODOS...
Neste momento, perante todos os frequentadores desta Tribuna Democrática quero fazer uma confissão. Quem é assíduo nesta página, percebeu que a minha frequência é de pouco tempo. Na verdade o Fernando já havia me convidado várias vezes, e eu sempre relutava, pois não achava que meus escritos fossem chamar a atenção de alguém. Eu estava enganado por não considerar e até subestimar a generosidade dos amigos. O fato é que depois da primeira crônica (ou postagem) a coisa virou coceira, (daquela que dava entre os dedos e a gente ficava roçando na beira da rede, lembra?). Uma coceirinha daquela não havia dinheiro que pagasse.
Mas, sem tergiversar... depois que começou, veio a próxima e a outra e outra mais... Nessa interação, reencontrei velhos amigos que têm o efeito de um bálsamo no ego. É bom saber que os nossos companheiros de outrora estão bem e com a mesma lucidez dos velhos tempos. Assim, destaco a alegria de ter, de vez em quando, a participação do Edson Bigodão (essa fera!); o Gilberto que é um bom caráter, mas faz o tipo cri-cri... Gilberto, a vida é isso. Cada qual ao seu modo. Esse seu jeito e sua postura no Blog do Itamar, não reflete, necessariamente, sua índole, sua personalidade. Eu sei disso.
Já do Zezé Moura, espero ansioso e leio avidamente, o que ele escreve, pois vem recheado de uma nostalgia gostosa, transportando-me para a antiga Rua 13 de maio (hoje Senador Paulo Guerra). À tardinha, todos os dias, eu vinha na casa de vovó Rosa (meu avô Zé Constância), comer bolo de caco. Ela já estava a me esperar com os bolinhos na mesa, cobertos por uma toalha feita de saco, bem branquinha de tão limpa. Eu comia os bolos e descia até a casa de tia Eunice (esposa de Chico Berto). Quando voltava, já anoitecendo, ao chegar no antigo cemitério, onde hoje é o Fórum, a carreira era grande com medo das almas. Do jeito que vinha, entrava no beco de Seu Ezequiel Moura e saía na Rio Branco.
São essas lembranças que o Zezé Moura faz despertar, trazendo uma Afogados de outros tempos. Mas, hoje eu tive a imensa satisfação de rever - pois o Fernando pôs a foto do meu querido - Geraldo Trepidant’s. O Geraldo, para quem não sabe, é dotado de uma inteligência privilegiada. É “capa-gato” como eu (prá quem não sabe, “capa-gato” é Técnico Agrícola). Aliás, quando cheguei no Colégio Agrícola da UFRPE, a fama de Geraldo já estava consolidada. Ele se foi e a fama ficou. Contava-se que foi o Geraldo o inventor da Regra de Crôi (será essa a grafia?), pouco importa, o fato é que o Geraldo tinha a dita - Regra de Crôi - que permitia resolver mais facilmente os complexos problemas de matemática.
Geraldo sabe que quem conviveu num Colégio Agrícola, principalmente quando estávamos num período de formação da personalidade, desenvolveu, dentre outras qualidades: o espírito de coleguismo, de fraternidade, e muitas amizades surgiram no internato e perduram até hoje.
Pois bem, meus amigos, é por estas e outras razões, destacando a oportunidade que temos de aprender com os amigos, que a frequência no Blog, torna-se uma mania saudável e, para mim, quase compulsiva. Quando chego em casa e ligo o computador para trabalhar, vou antes, saber quem deu o “ar de sua graça”; como agora, que tive a grata surpresa de encontrar a intervenção do Gilberto Moura. E aqui vai um pedido: Gilberto, conte-nos, também, fatos que você tem guardado na memória, sobre a nossa Afogados. Por último, quero enfatizar a beleza de reflexão que fez minha irmãzinha - Elvira Siqueira - num texto belíssimo, como ela sabe fazer. Depois que Elvira fala, eu me calo.
Vocês, todos, são demais! Um beijo carinhoso na veia aorta (com cateterismo e tudo, viu Bigodão?)
Luciano Bezerra
Afogados da ingazeira, PE, 7 de agosto de 2009
NOSSA GENTE... NOSSA HISTÓRIA
Vou buscar na mente cenas do cotidiano de nossa Afogados e me vejo nos anos 60. Na minha casa havia, lá no quintal, um quarto quase ocioso, onde meu pai armou um balanço no qual eu passava horas a brincar com meus colegas vizinhos: Aloisio, o Lula, filho de Seu Inocêncio Nobelino, Nêgo, irmão de Lula, Esdras meu primo, enfim, sempre havia um colega a desfrutar daquele balanço que meu pai fizera e que, ainda hoje, vive a balançar nas doces lembranças dos tempos de menino.
Mas, naquele domingo, de manhã, meu pai chegara em casa e determinara: “Vá cortar o cabelo, já falei com Seu Domingos. Esse era o meu barbeiro, trabalhava num dos cômodos da casa de Seu Zé Bezerra, meu avô, na esquina da Avenida Rio Branco. Atravessei a rua e lá estava seu Domingos me esperando. Alguns minutos depois e eu estava exibindo o corte que era padrão para a cabeça da meninada. (Aliás a foto do Gilberto dá uma idéia exata do costume da época: o corte Jack Demis). De cabelo cortado, meu pai levou-me para a Praça Domingos Teotônio, onde tomei um copo do sorvete de João de Chica, que àquelas horas já estava a postos, servindo à freguesia. Naquele momento, passa Zé “Doido” em passos apressados, contorna a Igreja e retorna para pedir algum dinheiro: Aproxima-se e exclama: “Dá uma nooota!...”. Zé Doido era uma figura estimada por todos, apesar de seu jeito estabanado. E meu pai, para brincar com ele dizia: Eu lhe dou uma nota se você disser bem rápido: “Um papo de peru com um papo de pato dentro”. Ora, Zé Doido não conseguia nunca pronunciar esse trava línguas, depois de várias tentativas e isso era motivo de risadas. Até ele mesmo terminava sorrindo, quando recebia a nota e partia em disparada, que era seu modo de andar.
Subindo a ladeira do Rio Pajeú, podia-se ver Dom João, com sua dentadura feita de “aspas de ferro”. Quem se lembra!? Ainda hoje fico a imaginar como alguém concebeu aquela tortura para o pobre Dom João.
Em frente à Casa Freitas de Seu Fernando, ficavam a postos os dois engraxates: Perna de Pau e Aniceto. O Perna era pacato, respeitador, bom de papo, enquanto não tomava algumas biritas, porque depois que esquentava a cuca, tornava-se bravo e enfrentava qualquer parada. Contava-se que, certa vez, numa briga que enfrentou um desafeto, ao se ver em desvantagem, retirou a perna de pau e fez dela uma arma, pulando num perna e com a outra postiça, espancava seu contendor, fazendo com que este abandonasse a briga em vergonhosa carreira.
Outro engraxate que tinha vasta clientela, era o “Mão-de-Onça”. Esse vivia praticamente na casa de Seu Luiz Amaral. Fazia refeições lá e era tratado como alguém de casa, por Dona Estelita e por todos. O Mão-de- Onça tambem gostava da “água que passarinho não bebe”. E quando tomava mais da conta, ficava intratável.
E no cenário de nossos personagens, havia o “Sapinho de Rabo” - que era o terror da garotada. Este era nervoso, não aguentava a mínima provocação e “despejava” uma enxurrada de palavrões. E havia também o artista das ruas: o nosso Pedro Maravaia. Com sua sanfona, reco-reco e ganzá, o Pedro executava músicas que só ele poderia conceber harmonia tão desengonçada. Mas no seu mundo era um hit-parade. E o Maravaia enchia as ruas com seus acordes, despreocupado com a vida e com os problemas que ele não os tinha.
Dessas “figuras” lendárias, tínhamos o querido Lodi. Esse, um exímio jogador de peão. Ai de quem deixasse seu peão à espera de uma “fincada” do Lodi. Com sua mão certeira, abria qualquer peão em bandas. Era impressionante a pontaria de Lodinho ao jogar o peão sobre o outro. E o resultado era esperado. Mas o Lodi gostava de fumar cachimbo. O seu pai também fumava. Lodi às vezes pedia o cachimbo e o velho nem sempre o deixava fumar. Mas, certo dia, pela manhã, Lodi vinha descendo a Avenida Rio Branco, radiante de alegria, exclamando, na sua inocência: “Ui, pai morreu... ui... agora o cachimbo é meu! Podia-se ver que a despeito do trágico acontecimento, para ele, havia algo “de bom” pois com a morte do pai, poderia fumar no cachimbo, quando quisesse. Era compreensível, tratando-se de Lodi. E Deus conhece a pureza do coração dos seus, sabendo que nessa exclamação de alegria não havia desprezo pelo pai.
Nas nossas reminiscências do Centenário não poderíamos alijar essas pessoas simples de coração, humildes e que também fizeram parte do nosso cotidiano. São “retalhos” de Afogados que vamos recolhendo para formar o multifacetado mosaico humano de nossos tempos.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 6 de agosto de 2009
Deus lhe abençoe, Madrinha Dora...
As homenagens que já foram prestadas ao Dr. Hermes Canto, durante o Centenário de Afogados da Ingazeira, foram justíssimas. Embora tudo o que se disse, todas as reverências, todo o amor que dediquemos a este discípulo de Hipocrates, representa muito pouco diante de tudo o que Afogados da Ingazeira e esta região deve a título de gratidão a este profissional da Medicina.
Com a mesma dedicação que sempre exerceu a sua profissão, Dr. Hermes teve como contemporânea na luta em defesa da vida, uma mulher que também esteve presente nos momentos mais difíceis de grande parte da população de Afogados, nas décadas de 40 a 60. Aqui me refiro a - Madrinha Dora, era assim que a tratávamos. Aquela mulher franzina de corpo, porém gigante em determinação. Ainda lembro-me de seu sorriso cativante, seus gestos carinhosos, sua maneira afável.
Durante muito tempo, e desde que “me entendi de gente”, ela era fumante insaciável. Sempre ao lado do marido, “Seu Nelson Galvão”, auxiliava-lhe nos dias de feiras, no atendimento aos clientes no Armazém Souza Irmão, na Avenida Rio Branco. Por volta do meio dia, chegava Madrinha Dora, lá em casa, ia entrando e com a alegria de sempre, almoçava conosco, relatando para minha mãe, o trabalho que tivera na noite anterior, ao assistir mais uma parturiente. E a conversa se alongava entre Madrinha Dora e minha mãe, que conversavam “em código” para que eu, criança, não entendesse o que diziam. Naquele tempo, havia conversa de adulto que criança não podia ouvir. Era feio falar em parto, diante de crianças. E madrinha Dora, sempre presente lá em casa, fez nascer em mim um respeito filial por aquela que me trouxe ao mundo. Era a parteira preferida de um número infindável de mulheres.
Hoje, diante dos recursos que dispõem os médicos, agiganta-se a minha admiração por aquela mulher que apenas com os conhecimentos empíricos e a fé em Deus, enfrentava a divina tarefa de completar a obra do criador, trazendo uma criança ao mundo. E a sua presença bastava para que reinasse a tranquilidade entre um pai apreensivo, a mãe que se contorcia de dores, no trabalho de parto. Era Madrinha Dora e sua competência a dominar o ambiente, com palavras de conforto, passando, acima de tudo, confiança.
Na pessoa de Madrinha Dora, reverencio a todas as outras parteiras de sua época, quando a medicina, entre nós era insipiente e carente de recursos. E esta mulher admirável, teve também outra participação significativa na vida de Afogados da Ingazeira.
Na Câmara de Vereadores também teve assento e, com ela, Dona Cirene Alves, esposa do Sr. Inocêncio Nobelino. Foram as pioneiras da representatividade feminina na Casa Legislativa de nosso município. Ainda tenho nítida a lembrança de quando Madrinha Dora, passava apressada, lá em casa, dizendo que iria à reunião da Câmara. Sempre foi assídua, também na atividade de parlamentar municipal. Isso no tempo em que Vereador não tinha salário ou qualquer vencimento. Ela o fazia com o mesmo desprendimento com que se dedicava à sua missão de parteira. Até onde a conheci, levou uma vida de doação. Sua vida foi de amor ao próximo, sem esperar nada em troca. Assim a tenho na memória e creio que muitos ao lembrá-la, sentem um alívio espiritual pelos eflúvios irradiados por seu espírito de luz. Por toda sua vida de abnegação, rogo ao Criador que lhe abençoe, Madrinha Dora. Seu nome honrará sempre os anais da Casa de Mons. Arruda Câmara, que teve como Vereadora a Sra. Teodora Galvão. Para mim, sempre - Madrinha Dora.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 5 de agosto de 2009
OS JOGOS ESCOLARES MERECEM CARTÃO VERMELHO
Inicio este comentário lamentando profundamente ter que registrar uma série interminável de desacertos que estão ocorrendo nesta edição dos Jogos Escolares, ora vivenciados por educandários de Afogados da Ingazeira e região.
Não se deve perder de vista que os ditos Jogos Escolares têm sua origem na idéia do Barão de Coubertin, criador dos Jogos Olímpicos - da era moderna. O barão, que era pedagogo, idealizou os jogos olímpicos como forma de dinamizar a educação através da prática dos desportos e, com isso, promover o desenvolvimento pessoal dos jovens. Nesse pensamento central, inclui-se o - desenvolvimento integral - não apenas físico, mas, e... acima de tudo, a formação da personalidade da juventude. Por consequência, aplica-se a máxima latina: Mens sana in corpore sano ("uma mente sã num corpo são"). Até aí tudo bem.
O Lamentável é que nesta edição dos Jogos Escolares, os fatos estão a demonstrar que tudo vai correndo na contramão de todos os conceitos acima. Não podemos omitir que, no dia de hoje, 30 de julho, durante um jogo que envolvia dois educandários, teve início uma briga, que não deveria passar de um pequeno desacerto entre jovens, com o sangue e a “cabeça quente”, pelo calor da disputa; coisa que seria facilmente contornável, porém a balbúrdia generalizou-se, em quadra, que foi invadida pelos torcedores e terminou com professores, técnicos e alunos engalfinhados no corpo a corpo, que não condiz com o desiderato educacional. Não se concebe que numa atividade esportiva, que faz parte da grade curricular de adolescentes, possa terminar nas páginas policiais.
Não podemos calar, diante de fatos inadmissíveis. Acreditamos que a Comissão Coordenadora, através da GRE-Afogados da Ingazeira, irá tomar medidas severas para coibir fatos desta natureza. É preciso reeducar os professores de Educação Física, pois eles que atuam como técnicos devem incutir na mente de seus alunos o sentimento de esportividade. É para isso que existem tais competições. Não basta - o corpo são - para suportar os esforços físicos que a modalidade exige de cada atleta. Mais importante ainda, é que a mente esteja preparada para a vitória que deve ser encarada sem prepotência ou a derrota que deve ser suportada como reconhecimento dos méritos do rival competidor. A rivalidade deve ser sadia, sem resquícios de mágoas ou revanches com intuito de destruir a parte adversa.
Enquanto não se olhar por esse prisma, de nada vale reunir centenas de alunos numa quadra, se não estão imbuídos do espírito de uma competição saudável.
Outra parte que deve ser revista pela Coordenação, é o fato de se admitir a venda de bebidas alcoólicas nas dependências do Centro Esportivo. Ora, pensamos nós: aquele Centro Esportivo representa a extensão de cada educandário que ali se encontra participando, com seus alunos que são todos menores de idade.
Como se explica que numa concentração de centenas de jovens adolescentes, permita-se a comercialização de bebidas alcoólicas? Só o fato de existir a bebida naquele ambiente já é um erro, partindo da premissa de que não se deve admitir bebida em ambiente escolar. O segundo deslize é que, havendo a bebida à vista, o jovem, por impulso é levado a ingerir, mesmo que “escondido”, para aparecer cambaleante depois. Como explicar aos pais desses alunos, principalmente os de cidades vizinhas que mandam seus filhos com a certeza de que estarão às vistas e sob os cuidados dos seus mestres, logo assim, estarão bem guardados (pensarão os pais); mas, depois, para decepção, ficam sabendo que seu filho embriagou-se nas dependências do Centro Esportivo.
Alguém poderá dizer que o comerciante precisa ganhar o “pão de cada dia”. Não discordo, porém, que ele vá ganhar o seu pão no ambiente próprio. Onde estejam os adultos dispostos a consumir sua mercadoria. Em local onde se desenvolvem atividades específicas para jovens menores de idade, não há motivo NENHUM que justifique a presença de bebidas alcoólicas.
O resultado, não pode ser outro: estímulo aos jovens pelo descaminho do álcool; ânimos acirrados que os levam ao desforço corporal, bagunça generalizada, como ocorreu hoje por duas ocasiões, sendo a primeira na parte da manhã e a segunda na parte da tarde. Isso foi o que as emissoras de rádio anunciaram. À Coordenação sugerimos rever, também, a utilização do som que por sua altura estridente, tira o sono e o sossego dos habitantes das casas adjacentes, até muito tempo depois da meia-noite. Basta andar na rua, no dia seguinte, e se ouve as pessoas reclamando de mais uma noite mal dormida, pela perturbação do som que estava além do limite permitido.
Esperamos que todas estas distorções sejam corrigidas para que nossos jovens sejam - realmente - educados através dos desportos, como antigamente deixavam saudade os jogos da época das Professoras: Luciete Martins, Suzana Queiroz e tantos outros Mestres, que comandavam seus pupilos sem incentivá-los a atos de selvageria como estamos tendo notícias pelas emissoras que cobrem esse evento.
É preciso que os Professores-técnicos tenham em mente e passem para seus alunos-atletas o pensamento do Barão de Coubertin: "O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade".
Para concluir, devo dizer que espero, com sinceridade, que no próximo ano tenhamos os Jogos Escolares com nova dinâmica, com o seu regulamento reformulado, pois só assim, teremos em nossos jovens: Mens sana in corpore sano ("uma mente sã num corpo são").
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 30 de julho de 2009
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Hoje à tarde vivenciei um momento de profundo significado e da mais alta importância. Estava, como de costume, dando minhas voltas de fim de tarde, na Praça de Alimentação, aliás, seu nome oficial é Praça Prefeito Miguel de Campos Góes, (Miguelito), outro vulto de nossa história que muito contribuiu para a Afogados que temos hoje. Mas ia dizendo que, de repente percebi um aglomerado de crianças em frente à Catedral. Aproximei-me e fiquei a observá-las perfiladas, recendo instruções dos Soldados que comandavam aquele pelotão de - Patrulheiros Mirins. Um amigo passou e perguntou-me: “Está recordando o passado?” Isso mesmo, acertou em cheio! Eu estava me vendo, nos dias que antecediam o 7 de setembro, quando todo o Grupo Escolar Padre Carlos Cottart ensaiava para o desfile do Grande Dia.
No nosso mundo de criança, estávamos comemorando o Dia da Independência da Pátria, mas isso é outra história. Aquelas crianças, ali sob o comando dos Soldados deram-me a esperança de que nem tudo está perdido. Esse trabalho vem sendo desenvolvido, sistematicamente, pelo 24.º Batalhão, com crianças da faixa etária dos 9 aos 12 anos. E o grupo é misto. Pelos menos para essas crianças temos a certeza de que há um trabalho de formação de suas personalidades, evitando um - desvio de conduta.
E aqui temos mais uma vertente em nossa reflexão: o problema de diminuir ou baixar a responsabilidade penal, para os 16 anos. Não vejo isso como solução. Não considero a punição do menor infrator como meio eficaz para diminuir a violência e a criminalidade. O jovem menor infrator é o efeito de muitas causas e não será transformando-o em adulto, por uma ficção jurídica, o que implicará penas mais graves para os erros cometidos, que se resolverá o problema. Não precisa ir longe, para vermos menores de rua, dormindo ao relento, não por falta de casa, mas por falta de lar. A casa para morar, eles têm. Não têm um Lar. Têm pai e mãe e têm irmãos, mas não têm Família. Esta se esfacelou, ruiu pela força do álcool ingerido pela mãe e pelo pai, irresponsáveis. O homem que tem seu caráter degradado pelo vício, não encontra mais nenhum referencial de valor e, consequentemente, não pode transmitir aos filhos o sentimento de amor à família. Daí para a falência da sociedade é um passo e muito curto.
Esse fenômeno social degradante se verifica em cidades de pequeno e médio porte, do mesmo modo que ocorre nas metrópoles inchadas com seus cinturões de miséria. A falta de políticas sociais voltadas para o aperfeiçoamento da integridade moral de nossos jovens é o vetor principal disseminador dos menores infratores que infestam nossas praças e ruas. Discursos e projetos teóricos existem muitos, porém a prática nos mostra que a realidade é bem diferente.
É por esta e outras razões que nos enchemos de esperanças quando vemos um trabalho sério como o que está sendo realizado pela Polícia Militar com estas crianças que recebem formação integral que engloba exercícios físicos e aulas teóricas de princípios de cidadania. É a Turma do Patrulheiro Mirim, uma semente plantada com dedicação e amor que, sem dúvida, trará frutos positivos num futuro não muito distante.
Aos policiais do 24º Batalhão, Comandantes e comandados, o nosso respeito e gratidão pelo que fazem hoje por essas crianças.as crianças
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 29 de julho de 2009
UM PASSEIO PELA CULTURA
O Mestre Ademar, por reincidência salutar, nos leva a um passeio pela cultura de nossa gente, trazendo pelos braços da musa os traços culturais e multicoloridos das manifestações mais belas que vicejam nesse Brasil de cores e mil encantos.
E o poeta começa dizendo que - “Pro teatro em Mossoró//Levo a dança da catira” - transportando-nos (com a magia que só a poesia tem), lá dos confins da África ou quem sabe da Espanha, berço originário da catira ou cateretê que veio se fixar nos sertões de Goiás, Minas e São Paulo - para as terras ensolaradas de Mossoró, com suas salinas que brilham intensamente sob o sol nos horizontes potiguares.
Enlevado nesse passeio, convidei alguém que dedicou toda sua vida ao estudo da nossa cultura, legando-nos o Dicionário do Folclore brasileiro. Isso mesmo, convidei Câmara Cascudo para nos acompanhar nessa viagem que nos oferece o menino travesso de Jabitacá.
E partimos nós, eu e o Professor Câmara Cascudo; e pelas asas da imaginação do Ademar, aportamos, ou melhor, sentamos à sombra de uma árvore, no “Toco do Gonçalo”, a nossa Tabira terra do Dedé Monteiro. Em companhia dos poetas da “Terra das Tradições”, convidados por Sebastião Dias, a alegria foi contagiante com o Velho Pinduca mostrando para o sertanejo como se dança o carimbó, essa manifestação de beleza ímpar, arraigada no povo paraense, deixada, como dávida, pelos índios tupinambás.
E fomos tangendo os bois Garantido e Caprichoso, seguindo pelas margens do Pajeú até Serra Talhada, de onde “arrastamos” os Cabras de Lampião”, e o Anildomá Willans ia nos ensinando a dançar o xaxado, até que chegamos em Palmas, nas terras de Tocantins.
No mundo fantástico da poesia que abstrai as distâncias, fomos ali em Fazenda Nova, encontramos os Violados "enxugando copos" e estes foram logo convocados para seguir destino até as plagas da “terra da garoa”.
E nessa longa caminhada, chegamos famintos no Mercado Ver-o-peso. Depois de saciar a fome com o pato no tucupi, jogamos “meio mundo de gente no caminhão da imaginação” e seguimos com a Festa do Divino, para pisar em terras agrestinas, conhecer os bonecos de Vitalino e tomar umas bicadas com buchada e sarapatel, num boteco aconchegante na Terra de Zé Condé. Valdir Teles e Moacir Laurentino, não seguiram o comboio, porque já estavam de passagens compradas e foram despejar poesia nas terras paraenses. Lá na Barreira do Inferno, encontramos o Gaúcho, com bombacha e tudo, abraçado com sua “china”.
Atravessando o Parnaíba, seguimos em busca do Boi Bumbá e ficou a dúvida, qual levaríamos dos melhores bois do Maranhão, pois essa manifestação de cultura presenteia, por todos os quadrantes do Estado, com a Festa do Boi, menos suntuosa que Parintins, mas que não perde em beleza. Assim foi que levamos o Boi da Maioba, o de Morros e o de Axixá, para mostrar aos baianos que o Boi não come acarajé, mas, sua vitalidade aliada às cores deslumbrantes de suas fantasias poderá enfeitar as ruas ladeirosas de Salvador até o Pelourinho.
Com cautela, unimos os rivais ferrenhos e deixamos o Caprichoso em Juazeiro. Separando-os, ficaram as Carrancas do Velho Chico e o Garantido mostrou a Petrolina toda a beleza plástica de seu espetáculo.
Num pau-de-arara subiu a turma pela Chapada da Borborema, a poeira cobriu na estrada e lá foram eles, ao som da zabumba, do fole de oito baixos e do triângulo, reverenciar o Cristo Redentor.
O vate-mor de Tabira, avesso à política, foi passear em Macapá e disse àquela gente de sua tristeza, depois que perdeu a Tampa do Tabaqueiro, mas, sem perder a compostura, contou para nossos irmãos distantes, tudo o que acontece “Quando a feira termina”.
Nesse entrelaçado de cultura e poesia, louvamos mais esse legado do Poeta Ademar. E a página virtual de nossa Afogados, o acervo de nossos traços culturais vai-se enriquecendo, graças ao estro dos gênios que nos brindam com peças valiosíssimas para fortalecimento do espírito.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 26 de julho de 2009
AO SARNEY: TODO O MÉRITO, COM LOUVOR...
A cada artigo que escrevo sobre o Sarney, as pessoas me gratificam com seus comentários de aprovação. O último benevolente foi o Vate - Ademar Rafael. Com a devida vênia de todos os frequentadores dessa Tribuna Democrática e suprapartidária, pretendo fazer Justiça ao Sarney e dizer que todos os méritos são seus. A minha participação (que não é meritória) é apenas no sentido de concretizar o que já está pronto e acabado no plano imaterial.
Para usar o raciocínio daquele ministro lá do Supremo que nivelou jornalistas e cozinheiros no mesmo patamar, eu diria que nessa pizza de corrução (se preferir pode ser o arroz de cuxá), sou apenas o cozinheiro, os ingredientes são fornecidos pelo Sarney.
Na “panela da improbidade” eu ponho uma porção de atos secretos, uma pitada de tráfico de influência e acrescento o escândalo da Lunus (lembram da montanha de dinheiro que foi encontrada no Escritório da Lunus?); para dar consistência adicionamos alguns telefonemas sobre a nomeação do namorado da neta; no fogo brando deixa-se por algum tempo e se acrescenta os conchavos feitos, na surdina, pelo Edison Lobão que é Senador pelo Maranhão e “pau-mandado” do Sarney; com uma porção das locupletações do Fernando Sarney, Agaciel e as manobras do Zequinha, vai-se formando aquele bolo de vantagens usufruídas pelos mesmos; não se deve esquecer de acrescentar, na cobertura, fatias de licitações fantasmas de estradas pagas e não construídas pela governadora Roseana.
Antes que eu esqueça: Você sabe qual foi o slogan adotado por ela, depois que recebeu do Supremo o mandato de governadora? Veja só: “Maranhão, de volta ao TRAbalho”. Mas, o brasileiro na sua criatividade, não perdeu tempo e aperfeiçoou, dito slogan para: “Maranhão de volta ao BARalho”. Numa alusão explícita ao hábito (vício mesmo) que tem a Roseana em manusear o carteado.
Pois bem, dito isto, repito que não tenho nenhum mérito. Tudo está à nossa disposição. Como diz o Zé Simão “o Brasil é o país da piada pronta”, pois em matéria de ingredientes para uma pizza, o “homem dos maribondos” é pródigo.
E ainda dizem que o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho: PCC e CV - que AINDA não são partidos políticos fazem parte do crime organizado. Que nada! Organização mesmo existe lá no Planalto. Os fatos estão aí a comprovar.
Como última observação, peço que reflitam no seguinte: apenas uma letra, uma letrinha só, causou toda essa celeuma em torno de Sarney. A letrinha “N”.
Explico: a ética determina que todo administrador público, sem exceção, desenvolva uma gestão - traNsparente. O Sarney não entendeu e fez, desde muito tempo, uma gestão traZparente. Traz o filho, traz a cunhada, traz a neta, traz o namorado da neta, e haja parente para trazer. Só isso. A culpa é da ortografia.
É isso aí, gente. A pizza está no forno, é só aguardar.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 24 de julho de 2009
ÍNDIA: FICÇÃO OPULENTA / REALIDADE CRUEL
Uma considerável fatia da população brasileira vem se deleitando, diariamente, com mais uma novela da Globo, onde consciências e a boa-fé dos incautos são “manipuladas” ao bel-prazer da Autora do enredo e, de acordo com os índices de audiência. "Caminho das Índias" é mais um “faz-de-conta” que leva a (des)informação, criando no imaginário popular uma Índia irreal. Não se pode negar que para o escritor de novelas, folhetins etc, existe o que se convencionou chamar de “licença poética”, porém, o exagero, o inverossímil salta aos olhos. Há cenas que lembram, nitidamente, as alegorias da Marquês do Sapucaí ou o Festival de Parintins, com os bois: Garantido e Caprichoso. É uma Índia, momentânea e ficticiamente carnavalizada.
O propósito da Globo de impressionar pela ostentação do fausto fica evidente pela exaustiva exposição da suntuosidade e imponente exuberância do Taj Mahal.
Assim como o Taj Mahal serve para abrigar a morte, já que foi construído para servir de túmulo, assim também a novela global omite o lado tétrico e lúgubre da Índia. Não mostra cenas do cotidiano com pessoas banhando-se no Rio Ganges ao lado de cadáveres putrefatos, flutuando em suas águas e sendo devorados por abutres.
Vale aqui lembrar que é cultural o hábito de cremar os cadáveres na Índia. No entanto, a maneira como se procede é de forma rudimentar, aviltante à imagem do falecido, pelos menos no nosso entendimento.
Isso a Globo não mostra, no entanto, em decorrência do fanatismo religioso, outros valores são preteridos pelo povo indiano. No seu entorpecimento religioso, passam a venerar uma – vaca -, por exemplo. Aceitam, naturalmente, o Rio Ganges como Deus. Acreditam, piamente, no que lhes determinam os Gurús. É inacreditável que já no estágio de desenvolvimento a que chegou a humanidade possa ainda perdurar crendices tão primitivas. Custa acreditar que toda uma população que ultrapassa um bilhão de habitantes seja refratária aos costumes impostos pela globalização. O fenômeno da aculturação é inexorável, entretanto, na Índia, até então, é ineficaz. Simplesmente, em certos aspectos - a aculturação - inexiste.
Observando a Índia mostrada pela novela e tomando como parâmetro o fanatismo religioso ali existente, preocupa-me com um fenômeno social que vem se alastrando pelo nosso Brasil.
Antes, porém, de adentrar nesse aspecto, devo esclarecer que acredito na existência de um Ser Supremo Criador do Universo e tudo que nele existe. Não houvesse em mim essa convicção, sentida e provada, não seria maçom. Essa é uma condição indispensável para tanto: a crença em Deus, independentemente do modo como você O conceba. Fica, de logo, esclarecido que tenho religiosidade sem ser religioso praticante de qualquer Igreja. Dito isto, deixo-me à vontade para tecer os comentários adiante.
No Brasil, por todos os quadrantes; nos mais longínquos recantos, proliferam como erva daninha, nas campinas, “Igrejas evangélicas” das mais diferentes denominações. São movimentos (ou grupos) que se dizem evangelizadores, no entanto, fica evidente o caráter mercantilista de tais congregações, de cunho eminentemente empresariais. Confesso que me preocupa que no futuro tenhamos conflitos sociais e sectários sob a falsa bandeira da religião. Impressiona-me, sobremodo, o poder de persuasão que têm os “pastores” de tais “igrejas” sobre as pessoas, quando sabidamente esses “líderes” não têm bagagem cultural, cometem erros crassos em seus discursos e, o que é mais grave, toda “pregação bíblica” é permeada de uma coleta monetária.
É palpável a ganância reinante, como é visível o progresso financeiro dessas “empresas da fé”. Jesus, seus ensinamentos, a salvação eterna, a cura de enfermidades, tudo é conseguido em troca do vil metal. Não contentes com os templos lotados de incautos, partem ostensivamente pela mídia, durante 24 horas no ar. Os noctívagos já não dispõem da companhia do rádio, durante a madrugada, pois todos os horários são comprados a peso de ouro, pelos “arautos da verdade”. É curioso como um ex-drogado (e muitos pastores se definem como tal) consegue, de repente, poderes de realizar milagres, fazendo os surdos ouvirem, aleijados abandonarem as muletas, cancerosos sararem, instantaneamente. Não consigo, com minha pouca fé, acreditar naquelas curas por atacado que são mostradas na televisão.
Naquele determinado dia, serão curadas todas as pessoas com dor de cabeça; no outro dia, serão os que sofrem de dor na coluna e assim por diante. Aquilo me cheira a encenação. Não sei como uma pessoa que se confessa falida financeiramente e depois de “fazer a corrente da prosperidade”, o seu patrimônio avoluma-se como fermento no bolo.
Eu conheço um majestoso templo em que logo na entrada, estão dispostas várias máquinas de cartão de crédito; todos aqueles que conhecemos estão lá. Assim, não há desculpa para o obreiro sair sem deixar sua “contribuição”. Tudo em nome da fé. Isso é o que ocorre no dia a dia, na busca voraz das Pequenas Igrejas, Grande Negócios (lembrou de alguma coisa?) em busca do seu objetivo maior – dinheiro.
Não se esqueça de que lá no Congresso (tinha que ser lá, também) já é grande a bancada de evangélicos. Daí, sem maiores comentários, avoluma-se nossa (minha) preocupação. É certo que o Brasil, por sua Lei Magna, não é só tolerante com a opção do credo de cada um, mas até garante como direito inalienável do cidadão, sua liberdade religiosa.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 22 de julho de 2009
O MONÓLOGO DO SENHOR FEUDAL
É inevitável esse comentário, pelo menos de minha parte, ao assistir a cena melancólica protagonizada por José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, vulgo Zé Sarney, na sessão de “despedida” do Senado, anunciando aos seus pares as “merecidas férias” de todos eles.
Pouca coisa ou quase nada restou de positivo desse período parlamentar. Incrédulo, vi e revi, para acreditar, estampada nos jornais, telejornais e blogs a foto de Lula num encontro amigável com Fernando Collor e Renan Calheiros.
Como incrédulo, assisti a luta incansável do Governo para conseguir a presidência da CPI que irá investigar os desmandos ocorridos na Petrobras. De logo, já se sabe que de seus cofres (Petrobras) foi destinada uma verba de mais de um milhão de reais para a Fundação José Sarney, que é gerida por seus filhos e sectários. Antes disso, a Justiça obrigou a dita Fundação devolver ao patrimônio do Estado do Maranhão, o Convento das Mercês, que havia sido incorporado, por “doação”, ao patrimônio da Fundação José Sarney.
No emaranhado de golpes, um filho desse homem, que segundo o Presidente Lula, “não deve ser tratado como uma pessoa comum” foi indiciado pela Polícia Federal por vários crimes cometidos contra o erário público, dentre eles o crime de - formação de quadrilha. Esse filho, que vivia à sombra dos holofotes é o Fernando Sarney, gestor do império de comunicação e de uma outra instituição, esta cultural, o Marafolia, onde se localiza o “ralo da prodigalidade” por onde escoou a verba oriunda da Petrobras.
E o combalido Estado do maranhão, mesmo com o recesso do Senado, não fica isento de ser maculado pelos desmandos de seus governantes. Desta feita, a excrescência vem de uma cidade, onde o Prefeito, a exemplo de muitos administradores, pretende impor sua vontade, rasgando parte da história daquela comuna, remetendo ao ostracismo a luta daqueles que deram de si pela fundação e construção da história de um povo. Trata-se do município de - Barra do Corda - que o Prefeito Manoel Mariano de Souza, anunciou que pretende mudar o nome da cidade para - Pedrolândia - em homenagem ao seu filho. Ora, a cidade de Barra do Corda tem história, sua origem remonta ao Brasil colonial, enquanto isso, tanto o prefeito quanto seu filho são meros desconhecidos, sem nada mais que mereça destaque, muito menos homenagem desse porte.
Com a preocupação que sempre tenho ao tratar o assunto com um mínimo de conhecimento de causa, fui buscar na história de Barra do Corda o seguinte relato:
“Em 1869, Frei José Maria de Loro, capuchinho, foi transferido de Botucatu-SP, para Barra do Corda-MA, onde organizou a aldeia Dois Braços, de cujo trabalho indígena providenciou farinha para muitos famintos por ocasião da grande seca. Negociantes ambiciosos o caluniaram de açambarcar o comércio pelo que teve de justificar-se junto ao governo da Província, mudando-se, após justificado plenamente, para o Rio Grajaú, onde fundou a colônia de Rio Torto, em breve desaparecida com o falecimento de Frei José de Loro, em 1884, vítima de paludismo”. Acrescente-se que Barra do Corda teve como seus primeiros habitantes, os índios Guajajaras, que foram os primeiros contatados pelo Frei José Maria de Loro.
De repente, toda aquela comunidade encontra-se na iminência de ter sua identidade histórica e cultural jogada no lixo do tempo, do esquecimento, porque um prefeito decide homenagear seu filho - Pedro, mudando o nome da cidade para Pedrolândia. Tem cabimento isso? Dá para ficar calado, mesmo sem ter nenhum vínculo direto com a cidade, com o seu povo, com a sua história? Não dá, porque qualquer desmando nesse Brasil, do Oiapoque ao Chuí, é de competência nossa, enquanto cidadão. Devemos nos insurgir contra tais desmandos. É preciso que se diga a todo e qualquer governante que sua passagem é temporária. Que cada Município, cada Estado pertence ao povo brasileiro. O feudalismo é coisa do passado, embora alguns insistam em governar como senhores feudais.
Mas essa atitude do prefeito é sintomática e explica porque lá mesmo no Maranhão existam tantas cidades com nome de ex-governantes. Só para citar algumas, temos as seguintes: Governador Edison Lobão; Governador Archer, Governador Newton Belo, Governador Nunes Freire. Temos ainda a cidade: Presidente Sarney, a cidade de: Ribamar Fiquene e Senador Luiz Rocha. E, ainda, as cidades de: Zé Doca e Vitorino Freire. Tudo isso, ao arrepio da lei, que impede se nomear qualquer praça, rua, avenida ou cidade com nomes de pessoas vivas. Diante do que já se viu e ouviu a respeito do Maranhão nos últimos dias, por conta da vida pregressa de Sarney (que tem nome fictício), fica explicada a petulância do prefeito de Barra do Corda, ao querer impor uma vontade individual e improcedente sobre toda a história de um povo. Isso também é Brasil, infelizmente.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, PE, 21 de julho de 2009
NATAL é sinônimo de alegria, cores, luzes, confraternização. Para mim, aquele Natal foi cinzento. Num quarto de hotel em São Luís, onde havia chegado há pouco mais de um mês. Ainda sem ambiente e meu mundo se resumia na intimidade do quarto, algumas fotografias e as lembranças que teimavam ressurgir com toda nitidez.
Sentado na cama, ouvia, lá fora a euforia das pessoas, recebendo alguns parentes e convidados para a ceia. Eu estava morando naquela casa que fazia as vezes de um hotel, porém, na realidade, era no sistema de vaga cedida a pessoas previamente indicadas. Foi o meu caso. Apesar do ótimo relacionamento com as pessoas da família, não havia aquela intimidade a ponto de participar de uma confraternização que é eminentemente familiar. Faltava a cumplicidade das emoções.
Da sacada da janela eu contemplava o cais do porto e vislumbrava pequenos pontos de luzes dos navios que aguardavam a vez para ancorar. A solidão parece doer muito mais, quando tentamos disfarçar. De repente, resolvi sair. Ao chegar à sala a algazarra era grande das crianças com seus presentes, alguns convidados já de copo na mão. A árvore de natal com suas luzes que tremulavam dando um colorido especial. Eu me senti um estranho naquele círculo familiar. No canto da parede um Papai Noel me fitava, com seus olhos grandes. Confesso que tive vontade de chutar aquele velhinho (que de bom não tinha nada, pelo menos pra mim). E, mentalmente, perguntei-lhe: Por que não me deu um mínimo de alegria, nesse Natal?”. O velhinho não me respondeu, é claro. Apenas me fitava, como a desdenhar de mim, por estar sofrendo com a saudade de minha terra, dos meus amigos.
Desci as escadas, cheguei à rua e caminhei a esmo. Na esquina da Rua Dr. Herculano Parga, dobrei à direita e segui. Ao longe avistei um caminhão parado; as luzes da traseira estavam acesas. Ao aproximar-me, procurei a placa (isso é uma mania antiga: ler placa de carro estranho, em busca de sua origem). Para surpresa, lá estava... PE-AFOGADOS DA INGAZEIRA. Seria muita coincidência, eu estava sonhando, seria alucinação?
Ajoelhei-me e passei a contornar cada letra do nome da cidade, com o dedo. Era como se acariciasse os cabelos de minha mãe. Não, não era sonho, aquele caminhão era mesmo de Afogados da Ingazeira. Eu não estava sonhando. Ao me dar conta da situação insólita, levantei-me, de súbito. Afinal, o que pensaria alguém que passasse, ao ver um homem ajoelhado diante de uma placa de caminhão, alisando-lhe as letras com uma mão e com as costas da outra enxugando uma lágrima que teimava em rolar.
Percebi que na cabine havia luz acesa, um som de rádio, e alguém estava lá dentro. Aproximei-me do vidro. O motorista me reconheceu e quase gritando, perguntou: Eh! Rapaz... está perdido por aqui? A emoção foi forte. Finalmente alguém me dirigia a palavra; alguém que era um conterrâneo; alguém que dias antes pisara na terra onde nasci; talvez trouxesse impregnado o cheirinho do ares do Pajeú. Era o Jaime de Hortêncio que, na época, era motorista de meu tio Zé Panqueta. E ele me chamou: “entra aqui, vem ouvir uma coisa, vem logo”... arrodeei o veículo e entrei na cabine... o Jaime, quase eufórico, dizia: escuta, escuta! Era a Rádio Pajeú... a minha querida Pajeú. O programa: Clube do Disco e o locutor: Ulisses Lima.
Encostei-me na poltrona do caminhão e não sei quanto por tempo me transportei para o bairro São Francisco, passei pela Praça ao redor da Igreja e vi as pessoas se abraçando... Era a minha Afogados da Ingazeira em festa... Era o natal dos velhos tempos, do meu tempo de criança... e andei no jujú, no carrossel de Manoel Jacó, nas canoas pequenas das crianças, comi capucho e vi meu pai comprando um carrinho para mim, na Loja de Seu Guardiato Veras... Despertei daquela “saudável letargia” quando o Jaime me falou; “Agora vamos ali que tem uma coisa boa pra nós”.
Fechamos o caminhão e seguimos. Ele na frente e eu o acompanhando, curioso. Alguns quarteirões depois, o Jaime me disse: “É ali que tem da boa”. Ao entrarmos num barzinho meio acanhado, percebi uma prateleira repleta de - aguardente Serra Grande -, para os íntimos, “o nosso capim santo”. Daí pra frente o papo foi se alongando e nós entramos a madrugada. Não sei quantos “tubos” consumimos.
Quando deixamos o bar, o dia já vinha chegando. Despedi-me de Jaime e subi, com dificuldade, as escadarias. Na sala, outra vez, lá no canto da parede, estava o Papai Noel, com aquela cara de desdém. Puxei minhas orelhas, o quanto pude... estiquei quase um palmo de língua e, com toda vingança, dei uma banana para o velho que zombou da minha fragilidade de filho desgarrado de sua terra mãe. Caí na cama, de roupa e tudo... dormi até tarde...
Enfim, o Natal foi menos triste, menos cinzento, com a companhia do conterrâneo Jaime de Hortêncio.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 17 de julho de 2009
FERNANDO JOSÉ DE SOUZA - UM TRICOLOR “DOENTE”
Dando continuidade às reminiscências da Rádio Pajeú, darei destaque para o estimado e amigo Fernando Sousa.
A nossa vivência remonta aos tempos de infância. Filho de Dona Júlia e seu Pedro Nazário, Fernando era um dos amigos inseparáveis, mesmo porque residindo na rua por trás da Avenida Rio Branco, onde nasci, bastava sair ao portão de minha casa e já me encontrava, praticamente, na sala da casa de Fernando.
Dona Júlia, sua mãe, que vivia de passar roupas, trabalhava diuturnamente. Era uma segunda mãe da meninada. Nunca teve uma palavra brusca, mesmo quando a turma se excedia na algazarra. Dia após dia, lá estava Dona Júlia passando roupa numa mesa bem perto da janela, onde ela aproveitava para um “dedo de prosa” com os que passavam. Já “seu” Pedro, padecia de uma enfermidade degenerativa, que o deixava prostrado numa “preguiçosa”, falando com dificuldade, mas sempre participava das conversas; por vezes, Dona Júlia tinha que repetir para ele do que se tratava o assunto, pois o mesmo, também tinha reduzida a audição. Era assim que vivia aquela família humilde, porém cercada de muita amizade e do respeito de todos.
E com o Fernando menino, meu companheiro, passávamos o dia, como toda criança, aprontando as nossas, com o jogo de pião, garrafão, castanha, chimba (bola de gude), soltando papagaio, sem dispensar o banho no barreiro que ficava por trás da Coletoria Estadual. Toda aquela área, que hoje é habitada, antes havia um matagal, algumas pessoas, cujos nomes não me vêm à memória, tinham chiqueiros de porcos, mas o bom mesmo era o barreiro que ficava cheio no inverno.
Mas o tempo passou e o Fernando Souza foi trabalhar na Rádio Pajeú. Acumulava as funções de controlista (sonoplasta) e discotecário. O Fernando tinha uma memória impressionante; conhecida toda a discoteca, todos os discos e até o escaninho onde eram guardados na estante. Bastava alguém se referir a uma determinada música e, minutos depois, três, no máximo, lá vinha ele com o disco na mão. A programação musical (broadcasting) era feita diariamente. Todas as músicas dos programas eram selecionadas e empilhadas, ficando em cima de uma mesa para que no dia seguinte fossem sendo utilizadas. E o Fernando, com uma agilidade invejável, datilografava toda a programação numa velha máquina Remington, que de tão usada, muitas letras do teclado já não existiam.
Terminado o seu trabalho, Fernando empunhava um microfone e, de gravador ligado, narrava um jogo hipotético, no qual só saía vitorioso o SANTA CRUZ. Não havia adversário que derrubasse o tricolor do Arruda. Para dar mais ênfase ao seu jogo fantasia, a Rádio Pajeú transmitia simultaneamente com a Rádio Olinda, que de lá falava o Aldir Dudman, o Jaime Cisneiros; o curioso, e não poderia ser de diferente, é que na narração do Fernando Souza, a goleada era certa. O Santinha não ganhava por menos de 5 goals de frente.
E o Fernando tinha suas namoradas, as fãs que visitavam a Rádio e depois lhes escreviam cartas amorosas. Muitas delas, copiadas, literalmente, daqueles “manuais de cartas prontas” (lembra?). Pois bem, o Fernando me pedia para responder as cartas, só que ele me fazia uma recomendação: “Lula (me chamava de Lula) não bota palavra difícil, não”. E as cartas em reposta, iam datilografadas mesmo. O que contava era “o amor” (se fosse hoje diríamos “amor do Paraguai”), pois já na outra semana, lá vinha o Fernando com nova carta para ser respondida. Mas a destinatária já não era a mesma. Tempo bom, tempo de amor volúvel!
E o Fernando casou, constituiu família e a nossa amizade continuou. Nossa convivência teve um hiato quando fui estudar em Vitória de Santo Antão, mas nas férias lá estávamos nós a por os assuntos em dia. Fernando Souza, ainda trabalhando na Rádio Pajeú, fazia viagens rápidas a São Paulo e de lá trazia mercadoria para revendê-las aos amigos. E ele, na sua fanfarronice, dizia que conhecia São Paulo como a palma da mão. E tinha contabilizadas as viagens que já fizera. Fernando foi, talvez, o primeiro sacoleiro de que se tem notícia.
Hoje fico a remoer a saudade do amigo que reside em São Paulo e, impossibilitado de vir a Afogados, padece da mesma doença de seu velho pai. Mas, Fernando, onde você estiver, tenha certeza que ainda perdura o mesmo apreço que sempre lhe tive. Saiba que você, na sua humildade, foi um exemplo de funcionário que enobrece a história da Rádio Pajeú; foi um chefe-de-família e pai amoroso e dedicado, quando seus filhos precisavam da sua proteção; e continua sendo um amigo que temos o prazer de incluí-lo no rol das pessoas MUITO especiais.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 16 de julho de 2009
RÁDIO PAJEU – 50 ANOS NO AR
A Rádio Pajeú nasceu de um sonho e da obstinação de Dom João José da Mota e Albuquerque, nosso 1º Bispo Diocesano, que trazia como prioridade na sua vida pastoral conscientizar as pessoas de uma região, mais sofrida naqueles tempos do que é hoje, com todo o avanço da tecnologia e dos meios de comunicação. Não é difícil imaginar a incansável luta que teve D. Mota para sensibilizar as autoridades lá do Ministério das Comunicações, sediado no Rio de Janeiro, mostrando-lhes a necessidade e a importância de uma emissora de rádio, naqueles confins do Brasil, notadamente no Nordeste.
Creio que pesou em todo esse empenho, o prestígio do nosso Bispo, seu poder de persuasão e, acima de tudo, por termos um Presidente que também era um desbravador de obstáculos, um destemido frente aos desafios - o Juscelino Kubistchek - que deu ao mundo o maior exemplo de tirocínio administrativo, ao construir Brasília, enquanto era por muitos tido como visionário.
Eis que a Rádio Pajeú se tornou realidade. Antes, porém, rebuscamos no videoteipe da mente e podemos vislumbrar a construção do prédio que abrigaria, por muitos anos, os estúdios e transmissores da Rádio Pajeú, no bairro São Francisco. Já nessa época estava entre nós, Waldecy Menezes, oriundo de Nazaré da Mata, trazido por Dom Mota, que aqui erradicou-se e aqui viveu até os últimos dias de sua vida. Waldecy Menezes foi o mestre dos mestres, na Rádio Pajeú. Excelente locutor, rádioator, compositor, enfim, Waldecy sabia TUDO de rádio. E fazia questão de transmitir seus conhecimentos aos seus “discípulos” colegas.
As paredes do prédio foram subindo, como também subindo foi a antena sob a assistência técnica do Dr. Sabóia que visitava a rádio periodicamente, ou em caso de pane, quando era chamado às pressas e deslocava-se de Olinda, onde residia. Aqui chegando, muitas vezes virava a madrugada, juntamente com Dinamérico Lopes e Abílio Barbosa, até que conseguiam fazer a Rádio entrar no ar, novamente. O Dr. Sabóia, por um certo período, afastou-se da Rádio Pajeú e foi trabalhar na Rádio Globo do Rio de Janeiro. Ao regressar a Pernambuco, voltou, também, a dar assistência à Rádio Pajeú.
Para quem não se lembra, o Prefixo inicial da Rádio Pajeú era ZYK-39, 1520 Kilociclos; tempos depois, por determinação do Ministério das Comunicações, passou ao Prefixo atual: ZYI-779, 1500 Kilohertz.
Waldecy Menezes era um colecionador de cobras, conservadas no álcool, em garrafas de cor transparente. Havia dezenas de garrafas com cobras das mais diversas espécies, que chamavam a atenção dos visitantes.
A morte de Sofia - Sofia era uma cobra, não peçonhenta, que vivia andando pelos recintos da Rádio e recebia o carinho de todos. Era o xodó da turma. Alguns trabalhavam com ela enrolada no pescoço, para espanto dos desavisados que visitavam as instalações da rádio. Morreu de forma trágica e dolorosa. Quando a rádio saía do ar e o transmissor era desligado, permanecia por algum tempo aquecido, devido às válvulas que baixavam a temperatura lentamente. Sofia, numa noite fria de inverno, encontrou aquele lugar quentinho, entrou por uma abertura que havia no transmissor e, no dia seguinte, quando o aparelho que funcionava com alta tensão, foi ligado, Sofia sofreu um choque de alta voltagem... Foi eletrocutada... Era triste ver a querida Sofia estraçalhada... Vários pedaços dela espalhados dentro do transmissor. A desolação tomou conta de todos com a sua morte.
A Rádio Pajeú, pioneira na região, teve Programas memoráveis: No Terreiro da Fazenda, com Waldecy Menezes; As 15 mais da faixa quente, com Antônio Xavier; Parada de Sucessos, com Zé Tenório; os Programas de auditório: Domingo Alegre e Festa na Roça; a partir do mês de janeiro, Waldecy inseria na grade de programação o programa: “Carnaval à Vista”, com o lançamento das músicas para o próximo carnaval; passados os festejos momescos, o Programa mudava o título para: “Recordando Carnavais”.
Dezenas de pessoas passaram pela Rádio Pajeú. Muitos foram os que tentaram um lugar ao sol, na radiofonia interiorana e, oxalá, no cenário nacional. Alguns desistiram logo no começo, levados por motivos vários, dentre eles: assunção em empregos diversos, como aqueles que ingressaram na CELPE, a exemplo de: José Tenório Cavalcanti, Vianey Galdino, seu irmão, Vanderley Galdino, José Barnabé Ramos, Antônio Xavier de Oliveira, Silvo Romero da Fonseca, Miguel Alcântara; na locução tivemos: Geraldo Magela, Aroldo Souza, o Aroldinho, Ulisses Lima, um dos pioneiros, Iraildo Bezerra, que iniciou na sonoplastia, passou algum tempo na locução e depois se desligou definitivamente da Rádio; Carlos Pessoa, Gilberto Santos, Lila Alves, Roberval Medeiros e na sequência de locutores, podemos citar pessoas que militavam como voluntários, tais como: Célio Pereira, Edson Bigodão, Agamenon Pessoa de Almeida; outros, por perceberem a falta de “queda” (talento ) para a coisa, ficaram pelo caminho; outros mais, mesmo com um potencial excelente, rumaram para outras atividades, no caso, o José Djacy Veras, que se formou em Direito e, ainda hoje tem escritório de advocacia na capital.
E, por último, vêm aqueles que continuam persistindo, apesar de terem, no meu conceito, uma avaliação “sofrível” no quesito desempenho. No entanto, como a Rádio Pajeu não é uma emissora eminentemente comercial, há espaço para todos, desde os eternos insipientes aos mais graduados, como um Anchieta Santos, que domina a audiência em qualquer horário que ele atuar.
Sabe-se que a primeira voz a se ouvir pela Rádio Pajeú, oficialmente, foi a de Tarcísio Sá, que iniciava como controlista (como se chamava), porém, por circunstâncias emergenciais, naquele memorável dia 04 de outubro de 1959, Tarcísio Sá passou o som dos estúdios para o Cine São José, onde a rádio transmitiria uma solenidade que lá se realizava.
Há uma figura da melhor qualidade que merece destaque: o saudoso Davi de Souza Lima, o “Vidinho”, que tinha um programa ao meio dia: “Davi de Souza canta para você”.
Não se pode falar na Rádio Pajeú sem citar pessoa como João Gomes e Dona Maria Gomes, que dirigiam a parte comercial da Rádio, no Escritório que funcionava em uma dependência do Palácio Episcopal. João Gomes, a convite de Dom Mota, foi trabalhar na Rádio Educadora de São Luís do Maranhão, levando consigo nossa querida Marly, que também fazia parte do Departamento Comercial da Rádio. Com a saída destes, assumiu a direção, Jandira Alcântara Bezerra, outra pessoa de eficiência comprovada e que só saiu da Rádio quando foi aprovada em concurso e assumiu seu cargo no BANDEPE. <BR><BR>
A Rádio teve como diretores Waldecy Menezes, Padre Assis Rocha e quando este afastou-se por motivo de estudos na Itália, assumiu a direção da Rádio o Mons. Antônio de Pádua Santos, sendo sucedido por Rogério Oliveira, até que a Rádio passou para a direção atual, depois de transformada em Fundação.
Na gestão do Padre Assis, a Rádio, com todas as limitações técnicas da época, fazia “milagres” com transmissões externas dos mais longínquos lugares. Certa vez o Padre entendeu de fazer uma transmissão do Ceará e assim foi feito. Viajou com o Padre o Dinamérico Lopes, ficando nos estúdios Abílio Barbosa. Através de um equipamento – SSB-Brasan -, a Rádio Pajeú encurtou a distância entre Afogados da Ingazeira e as cidades de Bela Cruz e Sobral, no Ceará. Um feito desse há 30 anos era uma aventura. Hoje não, fala-se pelo celular, de qualquer parte do planeta.
Nos primeiros tempos de sua existência, a Rádio Pajeú disseminou cultura à distância, com um conteúdo programático que lembra o método Paulo Freire, que era denominado - Movimento de Educação de Base - transmitido aos alunos que recebiam, além do material didático, um aparelho receptor e eram acompanhados por uma pessoa (monitor) que os auxiliava nas tarefas. Esse foi, sem dúvida, na época, um programa de profunda repercussão e importância para a alfabetização e formação de consciências.
Estes são apenas fragmentos da história de nossa Rádio Pajeú, esta tribuna democrática que se constitui em atalaia permanente na defesa de toda uma região. Foi através dos microfones da Rádio Pajeú que Dom Francisco insurgiu-se contra as injustiças e defendeu os oprimidos, destemidamente, durante décadas. O seu exemplo frutificou e a Rádio Pajeú continua seguindo sua linha de imparcialidade, como representante legítima do povo do sertão pernambucano.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 12 de julho de 2009
CHICO BERTO E EXPEDITO "ABEINHA"
Com a permissão do poeta Ademar, pego a deixa e o mote “Pessoas do meu Sertão” e vou buscar duas personagens que se destacaram no nosso cotidiano.
O primeiro, “Chico Berto”. Mecânico competente, lanterneiro e pintor inigualável, para os padrões da época. “Bom papo” e exímio criador de casos que seria páreo duro para Dias Gomes. A Globo não sabe o que perdeu em não contratar Chico Berto para o seu quadro de Roteiristas. Sem mais rodeios, Chico Berto era um mentiroso de carteirinha. Faça-se justiça a ele: suas mentiras eram inofensivas. Mentia apenas para dar vazão ao seu gênio criativo.
Quando estava a desamassar uma peça de lataria, suas batidas no martelo eram ritmadas. Ao chegar alguém, iniciava-se uma conversa e logo Chico Berto mandava uma: “Você conhece esse menino de Joaquim Nazário?” Logo se percebia que se tratava do Dr. Ailton. “Pois bem”, - prosseguia Chico Berto – “esse menino, quando chegou aqui, formado, me deu muito trabalho... também, um menino formado há pouco tempo... muitas vezes, eu estava aqui, quando chegava alguém me chamando: Seu Chico, Doutor Ailton, pediu que o senhor vá no hospital, urgente, que ele está com um problema”. “E lá ia eu”, dizia o nosso Chico Berto. “Chegava ao hospital e via que era uma bobagem: uma mulher precisando de uma cesariana. Eu fazia o parto e vinha embora. Assim foram muitas mulheres que eu salvei”.
Certa vez, ao chegar de Maceió, ele me encontrou, logo de manhã, e me fez o relato de sua viagem: “Meu filho, seu tio (ele era casado com minha tia Eunice) está só contando os dias para ficar cego”. Diante de meu espanto, ele explicou: “Fui a Maceió, fiz um exame de vista e o médico me garantiu que no dia 25 de setembro, por volta das 10 horas da manhã eu vou ficar cego”. E depois de entrar em detalhes mínimos da “previsão médica”, eu só tive que lamentar, pois seria uma ofensa duvidar de sua palavra ou mesmo insinuar que não estava acreditando. O fato é que morreu enxergando e muito bem, dos dois olhos.
O segundo personagem era o Expedito “Abeinha”. Por sinal, era compadre de Chico Berto. E quando os dois se encontravam, a disputa era ferrenha. Certa manhã o Expedito Abeinha chegou à oficina e o compadre Chico foi logo reclamando: “Compadre, o que foi que aconteceu, você não aparece por aqui há 5 dias?” E o Expedito, aproveitando a oportunidade, mandou a sua. “Eu estava muito ocupado, compadre. Inventei de fabricar um rádio de madeira e o danado me deu o maior trabalho, mas eu fiz o danado do rádio, compadre Chico. Ta lá em casa, bonito todo. A mulher botou ele lá na sala, pra todo mundo ver”. E Chico Berto perguntou: “E esse rádio funcionou compadre? Expedito, pigarreou, encarou o compadre e garantiu: “Ora compadre, funcionou direitinho. Só que eu inventei de ouvir a Rádio Clube, e o danado tava dando umas notícias das cheias lá do Recife... e não é que começou a sair água pelos botão do rádio? A sala ficou toda molhada”. Nessa hora chegou Pedro Mutuca com um talão de rifa e a conversa tomou outro rumo. Expedito demorou mais um pouco, abriu seu tabaqueiro, tirou uma pitada de torrado e despediu-se. Compadre Chico ficou a observá-lo subindo a ladeira em direção à Catedral, como quem dizia, em pensamento, “É, compadre Expedito, me aguarde, que a próxima vem caprichada”.
São estas personagens de nossa história que compõem o mosaico humano de nossas recordações.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 10 de julho de 2009
NEM TUDO QUE É LÍCITO É HONESTO
Nesta terça-feira, dia 07, realizou-se a audiência da Ação de Indenização por danos materiais movida pelo Estado de Pernambuco contra o Sr. Luiz Gonzaga da Silva – conhecido por Luiz Odon. Como o próprio título sugere, esta Ação tem por objetivo compelir o réu – Luiz Odon – a ressarcir o Estado de Pernambuco pelos danos causados.
Vamos, aos fatos: quando o Luiz Odon era vereador, por várias e reiteradas vezes, denunciou o perigo iminente em que se constituía o trevo que dá acesso à cidade de Carnaíba. Nas suas diligências com o objetivo de sanar o problema, enviou Ofícios e solicitações ao DER-PE. Restaram em vão suas tentativas. Mas, Luiz Odon, que já perdeu um ente querido em acidente naquele trevo rodoviário, tomou a iniciativa e corrigiu um erro crasso de engenharia, eliminando um perigo iminente de colisão frontal de veículos naquele trecho. Foi o suficiente para as inoperantes autoridades responsáveis pela manutenção e conservação da rodovia, tomar a iniciativa de mover processo contra o Luiz Odon. E o réu – Luiz Odon – foi compelido a pagar indenização no valor de R$ 426,40 (quatrocentos e vinte e seis reais e quarenta centavos), acrescidos de custas processuais e honorários advocatícios à base de 20% (vinte por cento) sobre o valor da causa.
Para o leigo e, principalmente, para Luiz Odon, que inclusive jamais se viu processado, é difícil entender os meandros da Lei. Também pudera!
E o Luiz Odon me perguntava, quase suplicava para que eu lhe dissesse onde ele errara. Mesmo sendo pessoa de entendimento mediano, é impossível para ele e qualquer outra pessoa sem o trato íntimo com a Lei, alcançar o significado de: dano patrimonial; nexo de causalidade, obrigação de indenizar, ato ilícito, dolo e culpa – responsabilidade civil. É impossível, repito. Ainda mais, quando ao reformar o trevo estava ele movido da intenção de evitar mais derramamento de sangue humano naquela estrada; o seu intento era evitar que mais vidas humanas fossem ceifadas, estupidamente, por um erro de engenharia que o Estado jamais se preocupou em corrigir.
No entanto, a Ilustríssima Procuradora do Estado vislumbrou na atitude de Luiz Odon – o dolo. Doutrinariamente, tem-se que o dolo se caracteriza quando o sujeito age de má-fé e consciente das consequências que poderão ocorrer e mesmo assim pratica a ação. No caso concreto, a ação, ou seja, reforma no trevo, só trouxe benefícios, pois até hoje é ZERO o registro de acidentes naquele trecho. Em sentido técnico, o dolo é um artifício astucioso empregado para induzir alguém à prática de um ato, que o prejudica.
Em síntese, pode-se perceber quão difícil será para o Luiz Odon e todos os leigos, entenderem o motivo de uma condenação nos moldes como lhe foi aplicada e que ele fez questão de suportá-la, resignadamente. É a imposição do brocardo jurídico: Dura Lex sed Lex (A lei é dura mas é Lei). Na prática, entretanto, pode-se mudar essa máxima para: Dura lex sed látex (A lei é dura mas estica). E como estica. Basta lembrarmos, só como exemplo: o Edmar Moreira, o Senador do Castelo. Este foi absolvido por 9 (nove) votos a seu favor e 1 (um) voto contra (este voto do Roberto Magalhães); aqui a mesma lei que é dura, esticou; o Edmar Moreira causou maior dano ao erário público com sua sonegação que o Luiz Odon, corrigindo um erro numa estrada; pior que Luiz Odon e mais prejuízo causou ao erário público, aquela filha do Senador que viajou de férias, levando um celular de uso exclusivo do Estado, e apresentou uma conta mensal de R$ 14.000,00 (quatorze mil reais); maior despesa tem o Estado, quando sabemos que um minuto, um minutinho apenas, de funcionamento da câmara dos deputados custa R$ 11.545,00 (onze mil quinhentos e quarenta e cinco reais). O resultado dessa gastança, nós já sabemos o que produz: ato secretos, horas extras (não trabalhadas) e pagas, etc.
Desse episódio, restou uma condenação imposta ao Luiz Odon e, só Deus sabe quantos acidentes foram evitados, com sua iniciativa. Já, na mesma estrada, a pouco menos de dois quilômetros, temos a – curva da morte – na qual já foi contabilizada a triste soma de 17 (dezessete) mortes por acidentes. É lamentável que, até hoje, ninguém tenha movido uma Ação contra o Estado, para ressarcimento por danos morais e lucros cessantes, pelas mortes de seus entes queridos. Muitos deles que eram provedores de suas famílias. Conclusão: o Estado que é omisso, sabe agir com celeridade penalizando um cidadão que agiu de boa fé. Esse mesmo Estado que tem o dever de oferecer segurança, mantém-se inerte e assiste, indiferente, o perecimento de 17 pessoas que pagavam impostos e se foram prematuramente, por culpa exclusiva e responsabilidade objetiva do próprio Estado.
Mas, o Estado, por seus Procuradores podem me contestar, asseverando que a condenação é justa e legal porque está segundo a Lei. Para eles vou buscar resposta no Digesto, lá no Direito Romano, com o brocardo: NON OMNE QUOD LICET HONESTUM EST, ou “Nem tudo que é lícito é honesto” e, no caso: Nem tudo que é legal é moral.
Nem sempre a letra fria da lei, na palidez do papel, interpretada açodadamente, exprime o seu desiderato, como propugna Montesquieu, em sua obra monumental: “O Espírito das Leis”.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 08 de julho de 2009
BRASÍLIA - UMA CIDADE LITORÂNEA
Quando Juscelino Kubitschek idealizou e transferiu a Capital Federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central, jamais, ocorreu-lhe, provavelmente, que Brasília se tornaria uma cidade litorânea. Ora, segundo historiadores a intenção de Juscelino era, principalmente, levar a Capital Federal para o centro do país, afastando-a do litoral.
Eis que, contrariando os propósitos iniciais de seu idealizador a nossa Capital encontra-se submersa num “mar de lama”. Pelo menos, metaforicamente, os desígnios da Capital sonhada por Juscelino foram desvirtuados. Aliás, exatamente por falta de virtude nos homens que dirigem este país, é que o Senado encontra-se à deriva num mar bravio e revolto. A causa de toda essa tormenta é a tempestade de denúncias dos atos ilícitos praticados pelo timoneiro do “barco” que se encontra tentando, sofregamente, uma tábua de salvação.
E o imbróglio vem se arrastando, numa avalanche avassaladora de descobertas de atos e mais atos ilegais. Primeiro foram os - atos secretos; depois uma “orgia” de nepotismo; quando se pensava que nada mais restava, surge uma - sala secreta, donde se pode deduzir que os atos secretos eram tramados na dita - sala secreta. Isso contraria os mais comezinhos princípios do Direito Administrativo, pois que, é da essência da administração pública - a publicidade. Um dos requisitos básicos e imprescindíveis.
No meio de tanta “sujeira” vemos os defensores da moralidade, entenda-se, os petistas de outrora, levantando os mais incongruentes argumentos em socorro ao homem dos maribondos. O maranhense - Sarney - que é Senador pelo Amapá. E a Senadora, hoje Governadora - Roseana - por coincidência sua filha, em recente entrevista, afirmou que “o senador Sarney, não tem apego por cargos”. Imagine se tivesse. Mas, voltando aos defensores do indefensável, o que se vê é uma avalanche de sofismas nos discursos proferidos, incansavelmente, pró-Sarney. E o sofisma, literalmente, consiste em se apresentar um argumento que se reveste como aparentemente válido, no entanto, por ele não se chega a uma conclusão lógica, pois o próprio argumento é contrário às leis.
Abstraindo discussões filosóficas, o que vemos na prática é uma inversão de valores, é uma tentativa acintosa de mudar a verdade apontada pelos fatos comprovados. E o que é mais grave é a tentativa dos políticos de fazer de toda uma nação um bando de imbecis. Observe-se que há uma força-tarefa orquestrada no sentido de mudar a origem de todo esse caos, pois, sabidamente, tudo começou com as denúncias que tinham como ponto convergente o Sarney. De imediato passaram seus defensores a atribuir a culpa à imprensa. E nós já dissemos em outro comentário: a imprensa não cria fatos, apenas os registra e os expõe à sociedade. Como medida de retaliação, entrou em vigor uma determinação no Senado que os jornalistas deverão, doravante, remeter suas perguntas, por escrito e estas serão respondidas, também por escrito, num prazo de cinco dias. Quem lida com provas, vestígios e indícios de crimes, sabe que cinco dias é uma eternidade, ou no caso, é tempo suficiente para se destruir qualquer prova contra quem quer que seja incriminado.
É este o Senado que temos. É esta a Câmara Maior, responsável pela produção de leis que devem reger nosso país. A eles, mando duas mensagens. A primeira é divulgada pela nossa Rádio Pajeú, ao longo de sua programação, que diz: “É melhor ter a consciência limpa, mesmo sofrendo privações que ter tudo com o remorso da desonestidade”.
A segunda mensagem é um legado da mente privilegiada de um dos ocupantes, em tempos idos, de uma cadeira na Casa Legislativa de nosso país, quando a regra era a probidade, porém, esta já se prenunciava em risco de extinção. O que oportunizou o Mestre Rui Barbosa alertar-nos:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a se desanimar da virtude, rir da honra e ter vergonha de ser honesto”. Rui Barbosa.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 03 de julho de 2009
AFOGADOS DA INGAZEIRA 100 ANOS OU 36.500 DIAS...
E chegou o 1º de julho. O dia amanheceu com uma claridade ofuscante. O Astro Rei resolveu prestigiar o grande dia e se fez presente. As ruas estavam iluminadas com os raios aquecedores. Lá na Avenida Rio Branco ouviam-se os acordes de uma saudosa retreta... um grupo de afogadenses abraçava-se, numa confraternização enternecedora. Estávamos vivendo as primeiras horas do segundo século de Afogados da Ingazeira.
Logo cedo me encontrei com o escrivão-mor de nossa história - Fernando Pires - que de máquina a postos, registrava cada momento, cada detalhe. Desci até a Praça Mons. Arruda Câmara e lá estavam os bacamarteiros, todos fardados e detonando suas armas, fazendo ecoar os estrondos pelas serras que circundam a Princesa do Vale do Pajeú. Era só o começo da festa. Uma quarta-feira com cara de domingo. Não demorou muito e o adro da Catedral já fervilhava de gente que veio assistir à impecável apresentação da Banda de Música da Gloriosa Polícia Militar do Estado de Pernambuco. Hastearam as Bandeiras do Brasil, do Estado e do Município, que passaram a tremular freneticamente, emolduradas pela beleza impar de nossa Catedral.
À medida que as horas passam, o clima festivo vai-nos contagiando, e um gostoso sentimento bairrista se apodera de todo nosso ser. Contemplando a Praça em sua plenitude, vão passando - como num flashback - os afogadenses que também deram muito de si, legando-nos essa linda cidade.
E eu vi seu Guardiato Veras cruzando a Praça, dirigindo-se até sua loja. Ali no centro, encontrou-se com Expedito Gonçalves, conversaram algo, gesticularam e seguiram cada um para seu estabelecimento. Aquela que vem subindo, apressadamente, é a exímia cozinheira dos grandes banquetes - dona Lica -, lamentando-se que ´perdeu a hora` e já ia se dirigindo para a casa de dr. Jesus a fim de preparar o almoço, pois lá tem muitas visitas. Lá mais adiante vejo três pessoas a conversar; mesmo de longe os reconheço. São eles, a professora Letícia Góes, seu Helvécio e Minéu que já estava com sua loja aberta, àquela hora.
Lá na esquina surgiu a figura inconfundível de seu Miguelito com o indefectível cigarro no canto dos lábios e um jornal dobrado, embaixo do braço. Uma bicicleta cruzou a rua passando em frente ao Palácio Episcopal rumo à Barão de Lucena. E em seguida passa Guaxinim no seu reluzente V-8 preto. Parou e disse para João de Chica, que estava com seu carrinho de raspadinha, que ia até Tabira.
Lá mais embaixo podia ver o Bar de seu Aurélio, já de portas abertas e os primeiros frequentadores se aproximando. De repente, ouvi um grito lá por trás da Prefeitura... era Pedro “bebão”, que curtia a carraspana da noite ou das noites e dos dias anteriores. Descendo a avenida aproximava-se uma Rural Willys vermelha e branca que logo reconheci ser a de dr. Hermes que vinha para o seu consultório. Descendo na direção do hospital Emília Câmara vi dois soldados que logo os reconheci: Era Chico Soldado e Pedro de Bastinha. E os meninos que estavam jogando pedra num pé de castanhola, desabaram em desesperada carreira, com medo de Rivadávia, o juiz de menores.
Os sinos da Catedral repicavam, dando o último sinal da missa e lá no beco de seu Ezequiel Moura despontaram as irmãs: Corina e Nanã, apressadas, que vinham assistir o Santo Sacrifício da Missa. Padre Antônio, com sua batina preta, descia vagarosamente, acompanhado de Beto de Germano.
Com uma saraivada de tiros, voltei à realidade. Os bacamarteiros continuavam atirando. Eu tive apenas um sonho, acordado. Estou, realmente, no 1º de julho de 2009. As pessoas que vi não estão mais em nosso convívio, mas apenas na doce lembrança de outros tempos.
Alguém me chama com insistência e me vejo diante da “estrela maior” dentre os astros que temos. É a nossa Maria da Paz. De braços abertos nos aproximamos e demos um afetuoso abraço que nos transmitiu os mais puros sentimentos, sem se pronunciar uma só palavra. Quanto tempo que não a via. Paizinha, sempre linda, sempre sorridente. Seus olhos brilham, como brilha o seu espírito. Paizinha é uma pessoa especial. Só quem a conheceu desde criança e continua a ter contato com ela pode perceber que Paizinha é como um tecido bom, nunca desbota, tem sempre a mesma vivacidade nas cores. E ao vê-la, lá vem mais recordações. Vi aquela menininha cantando no Cine São José, no Programa de auditório “Domingo Alegre”, em cima de um banquinho, para alcançar o microfone. Quando a “estrelinha” terminava de cantar, Waldecy Menezes vaticinava que estávamos diante de uma excelente artista. Não deu outra. Paizinha foi crescendo, veio o Grupo Os Unidos, com o apoio do Professor e Maestro Dinamérico Lopes. O tempo passa, Paizinha vai embora para Sertânia, ganha o mundo, aprimora sua arte e sai “espalhando”, por onde passa a sonoridade de sua voz maviosa... o dom que lhe deu o Criador.
Por enquanto, fiquemos com o êxtase desse encontro numa manhã de sol, no primeiro dia do 2º Século de Afogados da Ingazeira. Outras emoções serão relatadas, noutra oportunidade.
Até a próxima.
Luciano Bezerra
Afogados da Ingazeira, 02 de julho de 2009
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