AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje

CRÔNICAS E CONTOS

JOAQUIM NAZÁRIO DE AZEVEDO

Engenheiro Agrônomo, pesquisador aposentado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA Meio Norte -, além de cronista.
Joaquim reside em Teresina (PI). Quase todos os meses vai a Afogados da Ingazeira visitar familiares e matar um pouco as saudades do seu torrão natal.

 

Pensão Auriverde

Quando li o livro intitulado João Dantas: uma biografia, do escritor Fernando Melo, que trata do assassinato do governador da Paraíba,  João Pessoa  Cavalcante de Albuquerque, da Revolução de 30 e dos assassinatos do advogado e jornalista João Duarte Dantas e de seu cunhado, engenheiro Augusto Moreira Caldas, veio-me uma grande recordação do tempo que residi na Pensão Auriverde.

A Pensão Auriverde (amarelo e verde), situava-se em uma esquina do cruzamento das ruas  Epaminondas de Melo e Paissandu, nº 620,   Recife – PE.  Era um casarão antigo com 2   pisos, sendo o segundo forrado de tábuas.  Tinha uma escada de mármore que dava acesso à Rua do Paissandu.  Na referida pensão residiam 45 estudantes (xepeiros) que faziam as três refeições na Casa do Estudante  de Pernambuco, divididos em grupos de Caruaru, São Bento do Una, Pesqueira, Sertânia, Floresta e Afogados da Ingazeira. Os estudantes mais abastados residiam no segundo piso.

No início da década de  60, ainda não havia o chinelo de dedo (japonesa) e o uso de tamanco era generalizado na hora do banho.  A reclamação era grande por parte de quem residia no primeiro piso...  O gerente (encarregado) da pensão, Sr. Minervino, homem de estatura baixa, idade em torno de 65 anos, cardíaco, casado pela segunda vez com dona Matilde, tinha uma única filha do segundo casamento, mãe solteira, conhecida por  Dadá que  gostava muito de homens... A família do seu Minervino,  composta por dona Matilde, Dadá com dois filhos e  Manuela que o acompanhava  desde o primeiro matrimônio, residiam na própria pensão, com direito a ocupar  apenas a cozinha e um quarto anexo.  

O Sr. Minervino gostava de conversar muito comigo e dizia que aquela casa havia pertencido  a Dr. Carlos de Lima Cavalcante, interventor do Estado de Pernambuco no período de 1930 à 1937, de quem ele  tinha sido motorista.  Contava a história da revolução de 1930, quando os revolucionários da Paraíba entraram no Recife; um  grupo chefiado por um  irmão de João Pessoa,   Joaquim Pessoa,  que tomou a iniciativa de incendiar as fábricas da  família Pessoa de Queiroz. Outro grupo se deslocou à Casa de Detenção, onde se encontravam recolhidos os assassinos de João Pessoa, que foram mortos sangrados.  

Um dos patrimônios da família Pessoa de Queiroz, incendiado, foi uma fábrica de tecidos situada no cruzamento da Avenida Manoel Borba com a rua Dom Bosco,  onde  foi erguido o condomínio conhecido pelo nome de “Os Condenados”. 
Quando cheguei à referida pensão dividia um quarto com um estudante da cidade de Tabira chamado José Siqueira, filho do fazendeiro João Amanso. Era uma rapaz muito estudioso e de fino trato. Tentou o vestibular de engenharia, não tendo êxito, decidiu ir assumir um emprego de um concurso que havia sido aprovado em um estado do Norte, onde teve morte prematura em consequência de um acidente de automóvel. Era católico praticante e quando foi embora me deixou como lembrança um crucifixo contendo a imagem de Cristo, que ainda hoje se encontra na casa de minha irmã Inês Nazário.

Posteriormente passei a dividir o quarto da Pensão Auriverde com o primo José Nazário de Oliveira (Zuzinha). Passaram pela Pensão Auriverde muitos estudantes afogadenses quais foram:  Garibaldi Marques Pires (Badinho), Hilton Batista de Oliveira (Hiltinho), José Tenório Cavalcante, João Cruz Leandro,  Rubinaldo, Carlos Alberto Cruz (Cacá), João Alberto Magalhães de Siqueira,  Luiz de Góis e outros.
Na Pensão Auriverde era permitido fazer qualquer tipo de bagunça, menos entrar acompanhado de uma mulher. Para intimidar os estudantes, seu Minervino e dona Matilde gostavam de contar a história  de uma surra  que deram em um estudante de direito, da cidade de Caruaru, que teve a ousadia de trazer uma mulher para dormir com ele. Juntaram-se seu Minervino, dona Matilde e Dadá  derrubaram a porta do quarto e cobriram o estudante e a mulher de pancadas. No dia seguinte o estudante  foi despejado   da pensão.

A revolução de 1964 foi acompanhada com muito interesse por seu Minervino através de um rádio (na  época o maior meio de comunicação de massa). Dizia: “o exército de Minas Gerais já partiu para se encontrar e brigar com o exército do Rio de Janeiro”. Acredito que a curiosidade dele nesse sentido  foi porque vivenciou a revolução de 1930.

O proprietário da Pensão Auriverde, Sr. Carlos Augusto, era funcionário do Banco do Nordeste. Costumava fazer uma visita á pensão nos dia de segunda-feira pela manhã para receber o dinheiro dos alugueis dos quartos. Os estudantes inadimplentes se escondiam e o Sr. Carlos Augusto deixava a ordem de despejo para os mesmos. Quando o Sr. Minervino não cumpria suas ordens era muito humilhado e jurado de ser posto fora do emprego.

No fim da década de 60 para o início da década de 70 a Pensão Auriverde foi desativa e lamentavelmente fui informado que o  Sr. Minervino   foi encontrado  na cidade do Recife pedindo esmola.

A estrutura física da casa da Pensão Auriverde foi preservada e anexada ao prédio vizinho. É provável que faça  parte do patrimônio   histórico da cidade do Recife. Com um detalhe: o número 620 não foi preservado.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 07 de novembro de 2011

 

Cidade de Flores

Por Edilton Santana, ex-prefeito de Flores, publicado no Jornal  do Comércio, do Recife, há alguns anos, em que ele fala sobre a história de sua fundação e origem do nome da cidade.

Baseado na tradição popular, logo após a fundação da Casa  Real da Torre, nos fins do século XVI, Garcia d’Ávila empenhava-se na colonização  das terras  à margem do rio São Francisco, organizando diversas expedições, compostas de portugueses e índios domesticados, que partiam em diversos  rumos, a fim de as explorarem , fundando aldeias  aqui e acolá.

Nos meados do ano de 1589, uma daquelas expedições composta de uns 20 e tantos colonos, seguido  as margens de um rio desconhecido - o Pajeú -, chegava a uma aldeia  de índios tapuias,  localizada à margem esquerda daquele rio, no lugar posteriormente denominado Alto das Flores.

Os tapuias estavam em festa, em homenagem ao  chefe  na serra da Baixa Verde  em Triunfo, o guerreiro Aruá, e aprisionaram os componentes da expedição, que mais tarde  seriam trucidados pelos selvagens, salvando-se  apenas duas meninas, que os índios começaram a adorar como divindades, tal a sua beleza, que a princípio  foram chamadas Iara (senhora  de todos) e, mais tarde deram-lhes os nomes de Aracê  à mais velha e Moema à mais moça.
Aquelas meninas ficaram sob a guarda  dos guerreiros mais fortes, que recearam fossem  capturadas por outros silvícolas.

Anos depois, por volta de 1603, outra expedição chegava aquele local, mas já encontraram os tapuias “meio civilizados”, certamente ao contato das duas meninas que lhes  ministravam  certos conhecimentos, não só de português  como de cultivo da terra.

Eram uns 20 portugueses e mamelucos que, se entenderam com os índios, construíram melhores habitações para acomodação de todos os componentes da expedição da Casa da Torre, chefiada pelo português Simeão Pereira Carrinho. Começou assim a fundação de um povoado, à margem direita do rio  Pajeú, mais tarde denominado povoação das Flores em alusão ao cultivo de flores a que se dedicaram Iracê e Moema, versão que é aceita  geralmente.
Aquela povoação foi  destruída por uns índios inimigos, certamente os Cariris,  vindos da Paraíba, pois – dizia Pereira da Costa -  o governo designou um  fazendeiro das margens  do  rio São Francisco, o capitão Manuel Araujo, para combater aqueles selvagens, o que ele fez, expulsando-os, comandando uns 150 homens.

só depois de mais 30 anos a povoação foi reconstruída. Outros portugueses foram  explorando várias partes daquela região, entres estes Domingos Nunes Magalhães, que fundou a fazenda Serra Talhada. Seu filho Joaquim Nunes Magalhães, fundou o povoado  que mais tarde seria o distrito de Flores, e,  por fim constituído o município com a denominação de Vila Bela. Ultimamente voltava a sua denominação primitiva - Serra Talhada.

Joaquim Nunes Magalhães, homem de grande influência naquela época, seria mais adiante nomeado  capitão-mor das ordens de Flores -  E por toda parte iam surgindo povoações – Ingazeira, Floresta, Triunfo, e outras, constituindo  municípios mais tarde, os  quais vinham sendo desfalcados de seus distritos, com a criação de novos municípios.

Fonte: Ulysses Lins de Albuquerque – Três Ribeiras.
 

 

Os Ex-Escravos – Zé Preto, Mãe Canja e sua filha Mãe Ina

O que estou escrevendo é fruto de um pouco de minhas leituras, de histórias não escritas, mas contadas pela minha avó paterna Maria Marques de Sousa (  * - 1966) e por minha mãe Luiza Nazário de Azevedo (1910–1984), e de minha memória.

Os primeiros escravos africanos chegaram ao continente americano em 1509, mas foram poucos até 1530, quando Portugal , primeira nação européia  a negociar com os reinos negros da África Ocidental, começou a mandar escravos para as plantações de cana-de-açúcar no Brasil. O sofrimento na travessia era imenso.  Arrancados das famílias, acorrentados e levados a pé até o litoral, amontoados em barracões para o embarque, a degradação dos escravos não tinha fim. Ficavam semanas, meses, acorrentados em porões de navios, lado a lado com doentes e agonizantes, sem saber qual destino teriam. Quando aportavam no Brasil trabalhavam como artesões, criados domésticos e em maior número, na agricultura e mineração. Em Pernambuco tiveram uma ação decisiva nos trabalhos da cana-de-açúcar e na construção de estradas de ferro. No período Imperial (1822 -1889), foi realizado um tratado do Brasil com a Inglaterra para construir e explorar estradas de ferro através de uma companhia ferroviária inglesa - Great Western, cuja mão-de-obra pesada utilizada pela referida companhia foi a escrava, importada do continente africano.

No Brasil, a abolição da escravidão se deu em 13 de maio de 1888 com a  promulgação da Lei Áurea feita pela Princesa Izabel, filha de Dom Pedro II.  Muitos intelectuais da época, como José de Alencar, defensor do regime político republicano, afirmavam que não bastava libertar os escravos; era preciso dar direitos civis e oportunidades de trabalho a eles. Isto não foi feito e por esse motivo muitos ex-escravos e filhos viviam perambulando pelo Brasil afora.

O transporte ferroviário se tornou o mais praticado no Brasil no período da Monarquia (1822 - 1889). A cidade de Rio Branco, PE, (Arcoverde a partir de 1943), foi um entroncamento comercial entre o Sertão, Agreste e Mata de Pernambuco.

Meu avô paterno, Joaquim Nazário de Souza (1867-1919), proprietário do sítio Brotas, hoje bairro da cidade de Afogados da Ingazeira,  e do sítio Riacho da Onça, e de uma tropa de burros,  era almocreve juntamente com seu filho primogênito Moisés Nazário de Sousa (l891-1971). Transportava fardos de lã de algodão de Afogados da Ingazeira para a cidade de Rio Branco (Arcoverde), final da  linha do trem procedente do Recife, e retornava com  mercadorias demandadas pela região tais como: charque, querosene, latas de banha de porco, tecidos, sal, açúcar mascavo, café, sabão e ex-escravos  que viviam perambulado na estação do trem . Os ex-escravos se destinavam aos trabalhos domésticos, broca e capina das roças, apanha de algodão, trabalhos das bolandeiras (beneficiamento do algodão) e dos engenhos de rapadura, produto de grande aceitação comercial na época no Sertão pernambucano.

Entre os ex-escravos remanescentes da casa de meu avó após sua morte (1919),  ainda me lembro de Zé Preto, Maria Cândida, a Mãe Canja (Canja de Cândida) e Severina Maria da Conceição, a Mãe Ina (Ina de Severina), esta, filha biológica de escravos e  adotiva de Mãe Canja.

Zé Preto (seu nome verdadeiro o tempo o destruiu) era um negro alto, corcunda, barba e cabeça branca, fala mansa e tinha os pés grandes, com acentuado problema de joanete.  No ano de 1915 (seca histórica no Nordeste), passou a trabalhar na casa de meus avós no sítio Riacho da Onça. Dizia que tinha trabalhado na escavação dos túneis da linha do trem que ainda se encontram entre Recife e Caruaru. Fazia seus próprios chinelos de dedo (japonesa de hoje) de couro cru. Lavava sua rede e suas roupas. Tinha a habilidade de descaroçar algodão e fazer a linha (utilizando um fuso de madeira) para remendar sua roupa. Quando ainda tinha energia suficiente, limpava mato, apanhava algodão, e na época de moagem tombava o bagaço da cana do engenho e botava lenha na fornalha para fazer rapadura.

Em 1932 houve uma seca histórica em todo o Nordeste. O açude do sítio Riacho da Onça secou. Os proprietários resolveram cavar uma cacimba no leito do açude. Nessa cacimba tinha uns degraus para o povo apanhar água.  Houve uma invasão de sapos em busca de água e insetos, e isso dificultava o povo  de apanhar água. Meu pai, Delmiro Nazário de Sousa (1904–1966), defensor nato da natureza, não permitia que os sapos fossem sacrificados. Dizia que os sapos eram animais inofensivos e úteis a humanidade.  Alimentavam-se de insetos. Uma única mariposa ou borboleta que um sapo engolia evitava o surgimento de mais de 100 lagartas, nocivas a humanidade.  A solução foi atribuir a Zé Preto colocar os sapos em um saco e soltá-los distantes da cacimba, nas margens do Riacho da Serra.  À noite, eles, aproveitando a frieza, retornavam à cacimba. Dias depois a cacimba se encontrava tomada pelos anfíbios .  E Zé Preto tinha que repetir o trabalho de remoção.

Nas noites de São João, Zé Preto fazia uma fogueira na casa de minha avó, assava milho para a meninada e promovia um espetáculo puxando as brasas da fogueira, abanando-as para eliminar as cinzas, tirava os chinelos de dedo e passava por cima delas duas, três vezes consecutivas, com aqueles pés grades e tortos. Repetia o espetáculo para os retardatários.

Quando o peso da idade lhe atingiu, seu trabalho passou a se restringir a trabalhos domésticos: carregar lenha para queimar no fogão, água do açude para encher os potes, moer milho, peneirar e torrar massa de milho e contar estórias de onça para as crianças.  Em 1939, Zé Preto, com mais de 100 anos de idade, foi acometido de um acidente vascular cerebral – AVC - e se despediu  do mundo dos vivos. Seu corpo foi velado em cima da porta de seu quarto de dormir, na casa de minha avó, sua patroa, no sitio Riacho da Onça. No dia seguinte foi colocado em sua rede, amarraram  nos punhos da mesma  um pau comprido (3 metros ou mais) e um batalhão de homens,  se revezando conduziu o negro velho para  o cemitério  cidade de Afogados da Ingazeira, 11 Km de distância,  onde uma cova com sete palmo de profundidade já o esperava. Colocaram o  Zé Preto  na cova, jogaram os punhos da rede por cima dele e em seguida a terra tirada da cova;  no topo da cova foi fixado uma cruz de madeira indicando que ali foi enterrado um cristão.

Ainda me lembro de Mãe Canja vestida numa saia que cobria os seus pés, apoiada em uma bengala, caminhando para a igreja de Afogados da Ingazeira, acompanhada de  sua filha de criação,  Severina Maria da Conceição, a Mãe Ina.  Após a missa, passava na casa de minha avó para conversar e a chamava de “Siá Marica”. Mãe Canja dizia que ela tinha vindo da cidade de Bonito - PE.

Minha avó falava que meu pai, Delmiro, foi criado, “no sentido figurado da palavra”, debaixo da saia de Mãe Canja. É provável que tenha sido ele quem lhe deu o nome de Mãe Canja. Meu avô pretendia mandá-lo estudar na cidade de Triunfo – PE, mas Mãe Canja discordava.

Quando meu Tio Moisés se casou, Mãe Canja foi morar com ele.  Não sei se foi em 1933 ou 1934, Tio Moisés ficou viúvo com 9 filhos menores.  Mãe Canja se mudou para a cidade de Afogados da Ingazeira e foi residir na rua Henrique Dias,  nº 160,  antiga Rua do Rio, em uma casa que tinha na frente um frondoso pé de tamarindo,  levando  o filho mais novo (Geraldo) de Tio Moisés. A casa de Mãe Canja tinha como ponto de apoio nos finais de semana o marchante  Maurício José da Silva e a sua família que residiam na zona rural. Na década de 40, Mãe Canja faleceu. Ficou na sua casa a  filha adotiva, Severina (Mãe Ina),  que passou a viver trabalhando dignamente para a sua sobrevivência; terminou de criar e educou Geraldo, que só a deixou quando foi servir a Aeronáutica, onde  fez  carreira. O marchante Maurício e a família continuaram com o apoio na casa de Mãe Ina e lhes sendo úteis. Para completar sua renda,  lavava e engomava roupa  para os ricos de Afogados da Ingazeira.  Tornou-se a mais famosa lavadeira e engomadeira de ternos de linho branco. O peso da idade lhe fez abandonar a profissão. Osvaldo José da Silva, farmacêutico, filho do Sr. Maurício, tornou-se seu tutor e lhe deu assistência até quando Deus a chamou.

Vale lembrar que Geraldo foi servir a Aeronáutica na cidade de Recife - PE,  em seguida transferido para Petrolina, onde  tem uma base física da Aeronáutica. Sempre visitou e deu toda assistência necessária a Mãe Ina, que deixou o mundo dos vivos no ano  de 1977, com mais de 100 anos de idade, resignada, com a face cheia de rugas.

Hoje, no cemitério São Judas Tadeu de Afogados da Ingazeira, onde os três negros, ex-escravos e filha de escravos (Zé Preto, Mãe Canja e Mãe Ina) foram enterrados, longe das terras onde nasceram, só existem “resíduos de fósforo (P) e  cálcio (Ca), provenientes de seus ossos  nas terras  daquele cemitério,  alimentando as plantas invasoras.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 28 de agosto de 2010

 

 

Rua 1º de Março

Muitas capitais e cidades do Brasil têm uma rua com o nome “ 1º de Março”. No Recife a Rua 1º de Março é a via de acesso da Praça do Diário de Pernambuco ao Recife Antigo, passando pela Ponte Conde Maurício de Nassau. Foi em um prédio situado no cruzamento da rua 1º Março com a do Imperador, nº 25, 3º andar, que arranjei meu primeiro emprego formal no Recife. No Rio de Janeiro, o nome da rua Direita mudou para rua 1º de Março. Poucos brasileiros têm conhecimento da origem desse nome. É uma homenagem ao fim da Guerra do Paraguai. Foi no dia 1º de março de 1870 que o cabo Chico Diabo fuzilou o líder Paraguai Francisco Solano López, por ordem do Conde D’Eu, genro “francês” de Dom Pedro II, casado com a Princesa Isabel, comandante das tropas do Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Sob seu comando o Exército brasileiro massacrou quase dois terços da população masculina do Paraguai, fuzilando inclusive tropas paraguaias compostas de meninos e idosos. Um trocadilho logo foi dar nos jornais: “O Cabo Chico Diabo do Diabo Chico deu cabo”.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 28 de agosto de 2010

 

 

O Rio Pajeú

O Rio Pajeú tem origem na Serra da Balança, situada no município de Brajinho-PE, na divisa dos estados da Paraíba e Pernambuco e deságua no Rio São Francisco na cidade Itacuruba-PE. É provável que seu nome venha de uma espécie vegetal conhecida com o nome vulgar de “Pajeú”, da família da Poligonaceas (Triplaris baturiensis Hub.) - árvore de caule fistulado de 5 a 9 metros de altura; as folhas medem em torno de 40 cm de diâmetro, forma oval-oblongas, muito utilizadas para guardar farinha de mandioca em cofos ou paneiros( cestos feitos de cipó, taboca ou da folha do olho da palmeira de babaçu). A referida espécie vegetal ocorre nas margens de riachos e rios, especialmente nos estados do Maranhão e Piauí, onde suas folhas ainda são utilizadas pelas comunidades rurais.

Creio que essa cultura de utilização de suas folhas veio dos índios que o chamavam de Payaú ou Pajé. O Rio Pajeú é o mais caudaloso e o de maior curso dos rios temporários do Sertão de Pernambuco. Com as construções das barragens de Brotas em Afogados da Ingazeira-PE, Jazigos e Serrinha em Serra Talhada-PE, nos anos de inverno bom ele corre durante um período mais prolongado e quando as chuvas cessam, seu leito continua com água em muitos locais e úmido em outros, podendo se cavar cacimbas com pouco trabalho.
A água aflora e sacia a sede de seres humanos, animais domésticos e silvestres. Nos períodos de cheias, suas águas correm com relativa velocidade e acontecimentos trágicos foram registrados com pessoas na cidade de Afogados da Ingazeira.

Foi lembrado pelo compositor e cantor Luiz Gonzaga com sua música em parceria com Zé Dantas: Riacho do Navio [Riacho do Navio / Corre pro Pajeú / O Rio Pajeú vai despejar no São Francisco / O Rio São Francisco vai bater no meio do mar (...) / Ah! se eu fosse um peixe(...)].

É esquecido pelos gestores municipais, pois não se vê uma placa com o seu nome (Rio Pajeú) onde ele atravessa as estradas e os esgotos que correm a céu aberto pelo leito do Rio que a natureza presenteou a essa grande área castigada pelas frequentes secas do Estado de Pernambuco.

É prazeroso se ver o Rio Pajeú cheio, sua água sendo despejada a 14 metros de altura da Barragem de Brotas, as lutas dos peixes querendo ultrapassar o paredão de cimento da barragem, mas é perigoso para as pessoas que se aventuram em se jogar em suas águas.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 07 de junho de 2010

 

 

Brotas

A Barragem de Brotas foi projetada no ano de 1914 pela Inspetoria de Obras Contra as Secas - IOCS -, que depois passou a se denominar DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. O governador de Pernambuco, na época, era o General Emídio Dantas Barreto (1911 a 1915) e o prefeito de Afogados da Ingazeira o sr. João Alves dos Passos.

Em 1917 o então governador de Pernambuco, Dr. Manoel Antônio Pereira Borba (Manoel Borba), viajou de carro à cidade de Sertânia. Dali o governador continuou viagem a cavalo para a vila de Custódia; descansou no povoado Quitimbu, seguindo para Afogados da Ingazeira, onde foi recebido com festividades pelo prefeito Elpídio do Amaral Padilha.

No projeto inicial de BROTAS constava uma profundidade máxima de 24 metros, mas trazia o problema de inundar a vizinha cidade de Ingazeira - PE, que fica na montante. Diminuiram a profundidade máxima para 17 metros. Os recursos financeiro foram diminuindo e terminaram concluindo a barragem com uma profundidade máxima de 14m14cm (quatorze metros e quatorze centimetro) em 1977. O goverdador era o dr. Eraldo Gueiros Leite.

Lembro-me de uma matéria publicada no Jornal Diário de Pernambuco, na qual o Dr. Eraldo Gueiros dizia que com a construção da Barragem de Brotas iria realizar o sonho de um grande amigo: o deputado Monsenhor Alfredo Arruda Câmara.

Vale lembrar que na década de 60 a cidade de Afogados da Ingazeira passou por grande crise econômica (recessão). A partir do início da construção da Barragem de Brotas (1974) a cidade se recuperou.

Costumo dizer que a Barragem de Brotas - com capacidade de armazenamento de 25.000.000 m³ (vinte e cinco milhões de metros cúbicos) - é o divisor do desenvovimento econômico de Afogados da Ingazeira. Tenho uma verdadeira admiração por ela. Toda vez que vou a Afogados da Ingazeira faço uma visita à Barragem; ”vou ver a Barragem, a minha namorada”.

Já tive a curiosidade de medir uma das ombreiras do sangradouro: 5 metros. Acredito que será possível passar a profundidade máxima para os 17 metros, o que aumentaria significativamente o seu volume d’água. Ainda, quando a barragem foi projetada, não estava previsto o abastecimento de Tabira. Consequentemente, é necessária a sua ampliação, que será realizada quando Afogados da Ingazeira tiver um gestor visionário...

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 27 de maio de 2010

 

 

Afogados da Ingazeira de Ontem..

“Nasci no sítio Vaca Morta, situado na margem esquerda do lendário Rio Pajeú. Na Rua Barão de Lucena (*) me criei. Na Rua dos Turcos com meus amigos de infância eu brinquei, joguei pião, peteca e castanha. No poço de Zeca Pereira eu tomava banho e pescava com os amigos. De cima de uma pedra que existia na beira do poço se saltava para um mergulho nas águas límpidas do Rio Pajeú.

A Rua dos Turcos recebeu essa denominação devido à grande quantidade de uma espécie vegetal (em extinção) da família das leguminosas com muitos espinhos, e poucos a conhecem.

Conheci aquela rua assim: no seu início, no lado direito, tinha apenas a casa da esquina (onde hoje funciona um Banco de Pagamentos de Flávio Almeida) e a usina de descaroçar algodão pertencentes ao Sr. Aparício Veras. Mais adiante, a Mercearia e Padaria do Sr. Pedro Batista Tavares, e umas poucas casas residenciais. Do lado esquerdo havia a casa do Sr. João Teixeira, pai de meus amigos Ozael e Ozias, e um curral de gado do Sr. Aparício Veras. Esse logradouro se transformou na Rua Pedro Batista (**), depois na Avenida Manoel Borba, em homenagem ao ex-governador do Estado de Pernambuco (1915/1919).

Hoje, um logradouro muito movimentado e visitado todos os dias pelos habitantes do vale fértil do Pajeú das cidades de Itapetim, Brejinho, Tuparetama, São José do Egito, Ingazeira, Iguaracy, Carnaíba, Flores, Bom Nome, Serra Talhada, Solidão e Quixaba, dentre outros, por ser o centro comercial de Afogados da Ingazeira.

(*) Henrique Pereira de Lucena - ex-governador de Pernambuco em 1890 (**) Pedro Batista Tavares um grande e conceituado comerciante residente naquele logradouro.”

Antonio Mariano Silvestre (Antonio Dondon)
(Depoimento concedido a Joaquim Nazário de Azevedo em 26/11/2009)

 

 

A Poluição Sonora de Afogados da Ingazeira

O conceito de “poluição sonora” é qualquer alteração das propriedades físicas do meio ambiente causada por um ou conjugações de sons, admissíveis ou não, que direto ou indiretamente seja nociva à saúde, a segurança e ao bem estar da população e degradação da qualidade ambiental.

Nasci no município de Afogados da Ingazeira - Pernambuco, precisamente no sítio Riacho da Onça, mas tive a oportunidade de conhecer quase todas as capitais do Brasil e muitas cidades interioranas.

Atualmente resido na cidade de Teresina, capital do Estado do Piauí, que a exemplo de muitas capitais e cidades interioranas do Brasil, dispõe de uma Lei do Silêncio elaborada e aprovada pelo Poder Legislativo e uma delegacia de fiscalização da mesma.

Assim como muitos afogadenses que residem fora, gosto de passar o fim do ano em Afogados da Ingazeira. Nas minhas constantes visitas a referida cidade, tenho me deparado com uma coisa desagradável: a poluição sonora da cidade. São carros de som de propaganda e motos com seus canos de escape barulhento. Diante da poluição sonora da cidade não se tem sossego durante o dia.

Mas, desassossego maior aconteceu nos dias 15, 16 e 17 de janeiro de 2010, quando foi realizado na cidade um evento intitulado “Arerê”, com uma banda em cima de um de trio elétrico que se instalou nas imediações da avenida Rio Branco, situada na zona leste da cidade, área territorial com muitas residências de pessoas da terceira idade, casa de saúde e hospital. O show começava em torno das 22h e após as 3h da manhã o trio elétrico desfilava pela avenida Rio Branco, praça Padre Carlos Cottart e Monsenhor Arruda Câmara. Um elemento parecendo alcoolizado gritava ao microfone, tirando o sossego e estressando muitos afogadenses. O funcionamento de um trio elétrico pelas referidas praças após a meia noite (24h) contraria o bom senso, a razão, os costumes e qualquer tipo de verdade. Ou seja: é um verdadeiro absurdo.

O pior é que não se sabe a quem reclamar... Acredito que promotores de eventos dessa natureza desconhecem os limites de tolerância do decibel (unidade de intensidade física relativa do som) em determinadas horas e não pensam no sossego das crianças, dos enfermos e dos idosos de Afogados da Ingazeira. Entendo que qualquer evento festivo daquela natureza, realizado fora de épocas festivas, se trata de um “evento privado”, de interesse econômico e/ou político de seus gestores, em detrimento do sossego dos afogadenses que pagam imposto...

Acredito que o Poder Legislativo de Afogados da Ingazeira pode contornar o problema da poluição sonora da cidade criando uma lei regulamentando as áreas territoriais e horários de funcionamentos de trios elétricos, níveis permitidos (dB) de carros de propaganda e descarga de certas motos.

Joaquim Nazário de Azevedo
Teresina, PI, 12 de fevereiro de 2010

 

 

A História de um Prado em Tabira

Devido à minha origem da zona rural e formação (agronomia), quando estou em Afogados da Ingazeira, nos dias de quarta-feira, gosto de ir à cidade de Tabira com o objetivo de visitar a feira agropecuária, uma das maiores do Estado de Pernambuco, igualando-se às das cidades de Caruaru e Capoeiras.  Quando me aproximo do bairro Riacho do Gado, antiga fazenda de mesmo nome, lembro-me e comento com  as pessoas que vão comigo, de um evento que presenciei há mais de 60 anos naquela localidade. Foi uma corrida de cavalos (prado), que atraiu muitas pessoas dos municípios  de Custódia, Sertânia,  Arcoverde,  Pesqueira, Tabira e adjacências.

Na fazenda Umburana, município de Tabira, de propriedade dos senhores Antônio de Campos Góes e Antônio Barros, havia  um cavalo de corrida chamado Pêlo Fino, que desafiava todos os cavalos da região. Era um animal da raça crioula melhorada, relativamente grande, bem conformado, pelagem castanha amarela e diante de suas sucessivas vitórias nas corridas, tornou-se famoso no vale do Pajeu.

Na cidade de Pesqueira, a família Brito, proprietária da Fábrica Peixe, tinha como esporte predileto o hipódromo (prado). Criava cavalos de raça com aptidão para corrida. Entre seus muitos cavalos, até importados, havia um, chamado Fuxico.  Era um animal grande, de pelagem castanha escura, robusto, parecia pertencer a raça Puro Sangue Inglês, de aptidão para corrida.

Não me lembro bem o ano, se foi em 1948 ou 1949, os proprietários dos referidos cavalos ajustaram uma corrida, sendo que o cavalo Fuxico daria uma vantagem de cinco metros a Pêlo Fino. Foi combinado que a corrida seria realizada na fazenda Riacho do Gado, território do cavalo Pêlo Fino, onde havia uma pista de 500 metros de comprimento, apropriada para esse tipo de esporte.  A partir do ajuste da corrida, começaram as apostas. Acreditava-se que com a vantagem de 5 metros, Pêlo Fino não perderia a corrida. O volume de apostas em favor desse animal foi tão grande que se comentava que na cidade de Tabira teve uma pessoa que apostou até uma única casa de jogo de bilhar (jogo com três bolas) que possuía. Os habitantes do vale do Pajeu já tinham presenciado muitas vitórias do dito cavalo e desconheciam o potencial de Fuxico. Havia pessoas que ofereciam vantagem de até 50% nas apostas. No dia da corrida, um domingo, o movimento de caminhão “pau-de-arara” que passou em Afogados da Ingazeira foi muito grande. Todos os caminhões de Afogados da Ingazeira se deslocaram com destino a Tabira.  Eu fui, em um deles, não me lembro o nome do proprietário, (Se pertencia a Chico Bobina, Severo Martins, Hortêncio José Bezerra, Manoel Ângelo, Miguel Jacó), juntamente com meus primos irmãos Vicente e Antônio Nazário de Oliveira, sendo que este pagou minha passagem quando o caminhão fez uma parada no atual bairro Nova Brasília, para fazer a cobrança dos passageiros.

Quando cheguei à fazenda Riacho do Gado, eu que nunca havia saído de Afogados da Ingazeira, fiquei atônito com a quantidade e o movimento de pessoas que se concentravam na localidade.
Havia muitas pessoas vendendo comida e entre elas um homem com dois potes de barro cheios de caldo de cana, dentro de um jogo de caçuá (Cesto grande oblongo feito de cipós). Parei ali juntamente com meu primo Vicente, de quem não podia me separar, senão eu me perdia no meio daquela multidão. Cada um bebeu um copo de caldo de cana com pão doce e o primo Vicente se prontificou a pagar a despesa...  As pessoas que vieram de Pesqueira e Arcoverde conheciam muito bem o cavalo Fuxico, trouxeram muito dinheiro para apostar e as propostas de apostas se inverteram em favor de Fuxico. Havia pessoas oferecendo vantagens de 50% e até 100%.

Quando se aproximou a hora da largada, os cavalos começaram a desfilar. Havia uma pequena curva na pista, próximo a largada. Quando foi dada a largada o cavalo Fuxico apontou no fim da curva já na frente, esbanjando energia, bancado pelo seu jóquei para esconder seu potencial de corrida, e chegou com uma vantagem de uns 25 metros na frente de Pêlo Fino.
Após a vitória o cavalo Fuxico desfilou na pista, fantasiado e aplaudido pelos seus apaixonados, e Pêlo Fino não foi mais visto.

Na segunda feira, em Afogados da Ingazeira, só se ouvia comentários e lamentações sobre a derrota do cavalo Pêlo Fino. Apenas Fernando Simões, matreiro em corrida de cavalos, dizia que sabia que Pêlo Fino não ganharia aquela corrida. Comentava-se que o prejuízo dos tabirenses era comparado a um ano de seca.
Retornei para Afogados da Ingazeira com duas frustrações: uma foi a derrota do cavalo Pêlo Fino; e a outra foi  porque não conheci Tabira, devido a ter voltado da fazenda Riacho do Gado.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Teresina-PI, 25 de setembro de 2009

 

 

A Decadência do algodão em afogados da Ingazeira

A cultura do algodão foi uma atividade econômica da região Nordeste do Brasil assim como a cultura do café foi e é uma atividade econômica da região Sudeste.  No Nordeste foi uma cultura de uma perfeita distribuição de renda. A colheita era realizada manualmente e envolvia muitos trabalhadores rurais.  Na época da colheita movimentava todos os setores da economia nordestina.

No Semi-Árido nordestino cultivava-se um tipo de algodão arbóreo (Gossypium  hirsutum  Marie Galante, Hutch), de porte alto, ciclo longo (cinco anos),  conhecido com o nome  de mocó,   devido a semelhança  de suas sementes  com os excrementos  de um  animal roedor silvestre. Suas fibras eram de excelentes qualidades: uniformes, finas, resistentes e longas.  Assemelhavam-se as fibras do bicho da seda.  A produção e as qualidades tecnológicas das fibras do algodão mocó trouxeram para Afogados da Ingazeira três multinacionais, quais sejam: SANBRA, Anderson Clayton e Boxwell.

  Aquelas multinacionais compravam o algodão, mas não processavam seu beneficiamento na cidade.  Além das referidas multinacionais havia  duas usinas de beneficiamento de algodão pertencentes aos empresários Severino Pereira e Aparício de Morais Veras, que compravam algodão e beneficiavam na própria cidade. Havia também muitos compradores particulares. Lembro-me que, quando criança, vim à cidade com meu pai e me deparei com um grande incêndio na usina de beneficiamento de algodão do senhor Aparício de Morais Veras. Não ficou nada sem ser queimado. O movimento de pessoas na Av. Manoel Borba era grande. Comentava-se um fato inusitado  naquele dia: o Sr. Elesbão Barbeiro havia comprado um chapéu Ramenzoni XXX.  E ao subir em uma escada para ver o incêndio, descuidou-se e o chapéu caiu no fogo.

Na década de 50 e início da de 60, os agricultores começaram também a cultivar um tipo de algodão herbáceo (Guscypium Hisuntum), de porte baixo, ciclo anual, mais produtivo, mas de qualidades tecnológicas e fibras inferiores ao tipo mocó. Por ocasião da colheita, os agricultores misturavam a produção do tipo mocó, de fibras longas, com a produção do tipo herbáceo, de fibras curtas, contrariando as exigências dos compradores de algodão.  

Posteriormente verificou-se o cruzamento natural dos tipos “mocó X herbáceo”, resultando em um terceiro tipo conhecido com o nome de “Verdão”, devido suas sementes de cor verde. Era de ciclo médio,  mais produtivo do que o mocó, mas de péssimas qualidades tecnológicas de fibras. Foi selecionado por um grande produtor de algodão, conhecido por Vicente Barbosa, cuja fazenda situava-se na margem direita da estrada de Afogados da Ingazeira/Tabira.  Foi difundido naturalmente com muita rapidez e bem aceito pelos produtores. A produção de algodão  e as qualidades tecnológicas de fibras caíram e como conseqüência, as referidas multinacionais começaram a ser desativadas. Assim como as duas usinas de beneficiamento da cidade.

Na década de 80, conversando com um pesquisador de algodão da SUDENE, questionei o motivo da saída das referidas multinacionais.  Ele me justificou afirmando que um dos principais motivos foi o surgimento do algodão tipo “verdão”.

Outros fatores também contribuíram para a decadência da cultura do algodão no município de Afogados da Ingazeira e adjacência, tais como:

a) O uso indiscriminado de agrotóxicos, através da pulverização manual e aérea na década 50, fato que contribuiu grandemente para dizimar os inimigos naturais das pragas do algodoeiro. As lagartas morriam envenenadas; as aves (nambu, codorniz, etc.) comiam as lagartas e morriam;  os urubus comiam as aves envenenadas  também morriam. Um verdadeiro desequilíbrio ecológico. As conseqüências do uso indiscriminado de agrotóxicos no município de Afogados da Ingazeira e adjacência duram até os dias de hoje. A população de urubus diminuiu significativamente.  

b) O uso das fibras sintéticas (nylon, poliéster, etc.), para fabricação de tecidos a partir da década de 60, em detrimento das fibras  naturais (algodão, linho, seda, etc.);

c) A inflação galopante a partir da década de 60. No Semi-Árido nordestino, a cultura do algodão era um tanto feudalista, ou seja, o proprietário emprestava a terra para os sem-terras plantarem o algodão, fornecia o dinheiro para o cultivo da roça e na época da colheita do algodão a produção era dividida ao meio para   o certo de contas;

d) A instituição do Funrural na década de 70, um mal necessário, que por um lado funciona como um perfeito distribuidor de rendas, mas que tirou a mão de obra da cultura do algodão, especialmente as pessoas de idade avançada, que passaram a receber um salário e alimentar, contraditoriamente, a preguiça dos filhos e netos;

e) A praga do bicudo do algodoeiro chegou ao Brasil em 1983 e no Nordeste em 1985. Hoje os tecnocratas consideram o bicudo o responsável pela decadência do algodão.

A política de revitalização da cultura do algodão no Semi-Árido tem se resumido apenas através de pesquisas e todas tem sido em vão nesse sentido.

Hoje quem produzir uma arroba de algodão em Afogados da Ingazeira tem dificuldade de comercializá-la.

m se tratando de uma cultura predominantemente de pequenos produtores no Semi-Árido nordestino, para ser revitalizada, necessita de uma série de ações tais como: mercado seguro e compensador da produção; fomento de sementes de variedades produtivas; crédito bancário subsidiado;  assistência técnica eficiente e  isenção de impostos

 

 

A História de Energia Elétrica de Afogados da Ingazeira

Os ingleses são pioneiros na utilização da força do vapor da água através de “caldeira”. Em 1830 foi inaugurada a primeira locomotiva a vapor, ligando as cidades inglesas Liverpool e Manchester. Antes existiam outras estradas de ferro na Inglaterra, mas os trens eram tracionados por cavalos. Provavelmente a unidade de trabalho cv (cavalo vapor) teve origem nesse fato. No Brasil, a primeira estrada de ferro surgiu 1858 e as locomotivas eram movidas através de caldeiras. Na década de 50 a estrada de ferro chegou a cidade de Afogados da Ingazeira e as locomotivas ainda eram movidas a caldeiras. Posteriormente surgiram as locomotivas movidas a óleo diesel.

Na década de 40 conheci um afogadense chamado Severino Pereira Pires, que produzia e fornecia energia elétrica à cidade de Afogados da Ingazeira utilizando o sistema termoelétrica (caldeira). A matéria prima para produção de energia elétrica era madeira. Meu pai, Delmiro Nazário de Sousa, era um dos fornecedores de lenha para ser queimada na caldeira. Tinha o compromisso de enviar por semana dois carros de boi carregados de lenha. Os senhores Manoel Virgínio e Zé Mendonça eram os funcionários do sistema de produção de energia elétrica.

O sistema elétrico começava a funcionar a partir das 18h00 e se encerrava no máximo até as 23h00. Somente na data natalina e de final de ano que os afogadenses tinham energia elétrica até as 5h00. Ainda na década de 50 o sistema de termoelétrica foi substituído por um motor a óleo diesel. Os postes de distribuição de energia elétrica da cidade eram de madeira e tinham uma base de sustentação construída de tijolo e cal.

Além do sistema de produção de energia elétrica, o senhor Severino Pereira, explorava um chafariz para vender água de melhor qualidade aos afogadenses e tinha também uma usina de beneficiamento de algodão. Na Rua Senador Paulo Guerra, onde hoje funciona o escritório da CELPE até a igreja evangélica, funcionavam suas empresas (sistema de produção de energia elétrica, chafariz e a usina de beneficiamento de algodão). Parece-me que posteriormente o comando do sistema de produção de energia elétrica de Afogados da Ingazeira passou para a prefeitura municipal da cidade. No segundo semestre de 1966 a energia elétrica de Afogados da Ingazeira passou a ser fornecida pela hidrelétrica da cidade de Paulo Afonso, de responsabilidade da Companhia Hidrelétrica do São Francisco - CHESF.

O senhor Severino Pereira teve uma importância salutar para a comunidade de Afogados da Ingazeira numa época de atraso. Não conheço nenhuma homenagem a ele na cidade. Acredito que seu nome deveria se tornar imortal na cidade através do nome de uma rua, praça, ponte, etc. Como sugestão, aquela Rua Senador Paulo Guerra deveria se chamar “Rua Severino Pereira Pires”.

Joaquim Nazário de Azevêdo
Terezinha/PI, 16 de maio de 2009

 

 

Antigo Chefe da Ingazeira

O TENENTE-CORONEL Francisco Miguel de Siqueira (provavelmente da Guarda Nacional), antigo chefe do Partido Conservador em Ingazeira, Pernambuco (primeira sede do município de Afogados da Ingazeira), tomou parte na luta, em Flores, contra os membros do Partido Liberal, em 1848 e 1949, levando, no seu valioso contingente de homens, em armas, ao lado de seus parentes, Coronel Pedro Siqueira, Antônio Lopes de Siqueira e Coronel Manuel Pereira, de Serra Talhada.

Homem tido como violento, tendo surgido a povoação de Afogados – a qual se desenvolvia mais do que a de Ingazeira, veio assim a rivalidade entre as duas – passou Afogados a
incorrer na ira de Francisco Miguel de Siqueira que, saindo um dia dali, declarou que voltaria em breve para destruir aquela povoação, a Cartago (Afogados), que Roma (Ingazeira) não tolerava.  Mas ao chegar à vila (Ingazeira), caia do cavalo, desastrosamente... e morria horas depois.

A vila de Afogados passou a respirar aliviada, e logo mais se tornou a sede do município.

Mas a antiga sede não se conformava com a nova, que ainda lhe evocava o nome, o que significava uma amarga ironia, talvez.

Passaram-se os anos, até que, com a enxurrada de novos municípios por toda parte, o distrito de Ingazeira, a exemplo de muitos outros, soltou o seu grito de independência
“e o sol da liberdade em raios fúlgidos”, iluminou, faiscante, o velho arruado, de tantas tradições.
E hoje, é o que antes fora: município da Ingazeira, banhada pelo Rio Pajeú lendário – o rio do mago - o pajé, oráculo dos índios que viveram às suas margens séculos atrás, enfrentando, no começo da colonização, os invasores da região, com sua bravura selvagem.

E, como que a sua rebeldia e altivez serviram de exemplo aos filhos da terra, famosa na valentia dos caboclos do Pajeú lendário.   

Fonte: TRÊS RIBEIRAS – Ulisses Lins de Albuquerque


A Baraúna do Cemitério - Uma testemunha calada

Há mais de dois séculos, ao lado direito do cemitério São Judas Tadeu, situado em Afogados da Ingazeira, PE, germinou naturalmente  uma pequena semente, que deu origem a uma árvore, da família das Leguminosas, conhecida no semi-árido do Brasil com o nome de Baraúna.

Tornou-se uma árvore frondosa, elegante, com  diâmetro à altura do peito (DAP) com 3,0 metros,  caule em torno de 4,5 metros e altura de aproximadamente  15,0 metros. Sua madeira é muito dura, especialmente o cerne (parte central do caule), por esse motivo muito utilizada na fabricação da parte central (meião) da roda e do eixo de carro de boi.

Provavelmente essa velha Baraúna chegará viva ao século XXll, se a ação humana não a destruir. Espera-se que ela não tenha a mesma sorte que teve a histórica Ingazeira da margem direita do Rio Pajeu... No momento, ao seu lado vê-se restos vegetais amontoados que provavelmente serão destruídos pela ação do fogo, provocando uma ameaça à vida da histórica árvore, cuja espécie entra no rol da extinção de espécies do semi-árido brasileiro. O homem destrói e não se preocupa com o futuro.   

Na sua frente já funcionou o cabaré da cidade, que posteriormente foi transferido para parte posterior do cemitério, palco de muitas alegrias através da sanfona de Rogaciano,  desentendimentos humanos e até mortes. Hoje, com o advento dos motéis, não existe mais cabaré na cidade.  Essa baraúna é testemunha de muitos acontecimentos desagradáveis, especialmente enterros de ricos e pobres e até crimes.

Em 1959, o Dr. Cid Sampaio assumiu o governo de Pernambuco e tratou de fazer mudanças radicais na administração do Estado. Entre elas a transferência dos delegados e policiais militares das cidades do interior. Afogados da Ingazeira não foi exceção.  Os policiais militares da cidade foram substituídos por outros de cidades do Alto Sertão do Estado. Entre eles veio um policial militar conhecido por Assis (provavelmente Francisco de Assis), natural da cidade de Serrita – PE.

Um dia o policial Assis se encontrava de guarda na cadeia pública, vestiu uma roupa civil, se dirigiu ao cabaré da cidade, já por trás do cemitério e foi se encontrar com uma mulher de vida livre, que ele estava amando.

Chegando no cabaré, encontrou sua amada dançando com um senhor de porte avantajado, conhecido por Xavier, natural da cidade de Mimoso, PE, cuja profissão era ajudante de caminhão. Trabalhava no caminão, cujo motorista na época era o senhor Olimpio. Xavier gostava de beber umas “cachaças” e em determinado momento da dança derrubou a dama. Imediatamente os policiais que se encontravam de serviço deram voz de prisão à ele e o conduziram à cadeia pública. Ao se aproximarem da baraúna do cemitério Xavier perguntou por que estava sendo conduzida para a cadeia. Soltou-se dos policiais e disse que não ia mais. O policial militar Assis, que vinha acompanhando seus colegas gritou: deixem comigo! Sacou seu “38” e desferiu cinco tiros no pobre Xavier.

No dia seguinte, correu rápido na cidade a história que Xavier havia sido assassinado quando vinha sendo conduzido por dois policiais militares para cadeia pública e não se sabia quem teria cometido aquele bárbaro crime. A baraúna  foi testemunha do crime e no dia seguinte viu o caixão com o defunto entrar no cemitério, mas ficou caladinha porque a mãe natureza lhe permite a vida longa mas não lhe deu o direito de falar.

Prejulgamentos do bárbaro crime vieram de imediato. Um senhor, que por questão de ética não se declina o nome, se aproximou do morto e disse: isso aí foram os inimigos da terra dele  que vieram matá-lo! Algumas pessoas curiosas (Enéas Ribeiro da Silva, Zé Lourenço, Edite e Erotides) que acompanhavam a condução do preso a certa distância permaneceram caladas com receio de represália por parte da policia.

Os líderes políticos da cidade, nas pessoas dos senhores Miguel de Campos Góes e Josezito Padilha foram informados do bárbaro crime e de que havia testemunhas oculares. Os referidos líderes políticos procuram as testemunhas lhes ofereceram garantias para que elas falassem a verdade.

Apenas o Senhor Enéas Ribeiro da Silva teve coragem de se apresentar diante do Promotor de Justiça, na época Dr. Paulo Valadares e do Delegado de Polícia e dizer: quem matou Xavier foi esse soldado aqui, apontando o dedo indicador para o policial militar Assis, que não foi mais visto na cidade de Afogados da Ingazeira. Provavelmente foi recolhido ao Quartel do Derby.

Dois anos depois o policial militar Assis veio responder júri, acompanhado da esposa com três filhos menores com o objetivo de sensibilizar o corpo de jurados e o Coronel Chico Romão, chefe político da cidade Serrita – PE., que antecipadamente procurou todos os jurados e pediu que votassem a favor de seu sobrinho. Concluído o júri o resultado foi 12 anos de prisão para o policial militar Assis.     

Joaquim Nazário de Azevêdo
Terezinha/PI,                   

 

AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2012