
MARIA DE FÁTIMA PEREIRA DA SILVA
fbaiana53@hotmail.com
Professora e cronista, nasceu em Quixaba. Viveu grande parte da sua vida em Afogados da Ingazeira junto aos seus famíliares, quando estudou no Colégio Normal Estadual.
Seu pai era capitão do Exército Brasileiro.
Durante anos apresentou, juntamente com amigos, um programa na Rádio Pajeú.
ONDA DE TERRORISMO EM AFOGADOS DA INGAZEIRA
Fernando, além do seu registro, li textos no blog de Itamar França e no site de Nill Júnior sobre bomba detonada por aluno no banheiro do Colégio Normal Estadual de Afogados da Ingazeira. Como cidadã e ex-aluna do CNE lamentei muito, mesmo entendendo que a juventude é impetuosa, irreverente, uma das melhores fases da nossa vida.
Lamento que a demonstração de tanta habilidade, inteligência e energia criativa estejam sendo canalizadas para a tentativa de destruir o patrimônio público onde outros alunos imaginam estar seguros, lançar dúvida sobre a segurança para as famílias matricularem seus filhos, testar os limites da capacidade de gerência da Diretoria do CNE dentro de uma cidade como Afogados (onde todo mundo se conhece e certamente tem amizade com as famílias dos autores); denegrir o bom nome do CNE construído por incontáveis trabalhadores da Educação ao longo de décadas de bons serviços prestados em todo Sertão Pernambucano, colocando em perigo de forma irresponsável a própria vida, sem pensar nas consequências para seus pais, que assumirão responsabilidades civis diante dessa ameaça perpetrada por seus filhos à integridade física de outras pessoas inocentes.
Pelo visto o fato já foi imitado no Colégio Dom Mota. Tomara que as famílias dos infratores e as outras - pais e responsáveis envolvidos e a comunidade escolar frequentadora das instituições, prestem mais atenção nesse tipo de delito até então incomum no querido CNE, porém comum em outras instituições de ensino em cidades maiores, onde costumam ocorrer outros tipos de desdobramentos e punições.
O que fazer para que isso não vire moda ou competição? Tomara que não incentive outro indivíduo ou grupo querendo superar a façanha bem sucedida do primeiro autor - que, certamente terá momentos de boa fama aos olhos de alguns e ficará marcado aos olhos de outros, atraindo para si atenção negativa e alguns apelidos nada elogiosos - cientes de que essa atitude pode causar danos físicos irreparáveis em outros alunos, que frequentam o CNE com o objetivo de estudar e se preparar para o enfrentamento da vida em sociedade.
Há que se pensar, também, na responsabilidade pela integridade física dos funcionários que trabalham justamente para ministrar ensino de qualidade, garantindo o bom funcionamento em todos os ambientes do CNE.
Esse aluno que detonou a bomba teve muita sorte pela atitude compreensiva da Sra. Diretora Profª Socorro Araújo - de quem também tive o privilégio de ser aluna.
Talvez seja a hora de rever o Regimento Interno do CNE, atribuindo maior responsabilidade pelas atitudes do corpo discente, antes que o fato se repita e prejudique o bom nome do CNE, como instituição segura para matricular filhos, estudar e trabalhar.Tomara que as famílias dos responsáveis lembrem de alertar seus filhos sobre o que implica ser conhecido e fichado pela autoria e cumplicidade nessa aparente "curtição e brincadeirinha de adolescentes inocentes".
Será que um registro policial de detonação de bomba pode atrapalhar a vida de um jovem com a vida toda pela frente, na hora do indivíduo pleitear um emprego, prestar concurso público, pedir uma carta de recomendação, preencher uma referência bancária?
Tomara que essa ação infeliz não ganhe dimensões indesejadas por todos nós que conhecemos o CNE e o Dom Mota como exemplo de instituições íntegras, que têm compromisso com a Educação e trabalham pela formação de cidadãos úteis à sociedade.
Fátima Pereira
São Paulo (SP), 11 de junho de 2010
FELIZ REENCONTRO!
Meu caro amigo Fernando, o mundo é mesmo pequeno! Hoje, sem qualquer planejamento, tive a grata alegria de reencontrar seu irmão "Nenéu" e a esposa Lu, numa sala de espera movimentada de um grande hospital paulista. Quando ele entrou, comentei com meu marido: ”parece que eu conheço essa pessoa, lá de Afogados da Ingazeira”. Passados 22 anos, Sid ainda acha graça dessa minha mania de ficar sempre achando que estou vendo gente de Afogados aqui em São Paulo. Quantos habitantes tem essa cidade? Uma vez, atravessando aqui uma avenida,escutei alguém falar "Fátima Pereira!". Parei, olhei atenta aquele exército de gente, e descobri Lúcia, Socorro e Dona Janete! Meu Deus, que grande felicidade!
Isso algumas vezes também me trouxe constrangimentos, mas hoje foi só alegria! Quando "Nenéu" entrou eu não conseguia parar de olhar pra ele. Contida, como as boas "senhoras paulistas da terceira idade" são, mas eu teimosamente ainda encontro dificuldades para aprender a ser, segurei minha ansiedade, demorei um pouco. Olhos postos, ora lia, ora virava a página levantando mais alto a lombada do livro, aproveitando para observar um pouco mais o casal que preenchia uma ficha à minha frente. Será que era ele? Estava um pouco mais gordinho, mas era da mesma altura. Da última vez que os vimos, estavam para ser pais pela primeira vez. Ele não tinha aquele bigodão grisalho. E se a mulher que o acompanhava ficasse brava comigo? Passados os "meus cinco minutos" e não conseguindo me imaginar saindo de lá arrependida, arrastando o peso da dúvida, dirigi-me ao balcão. Pedi para a recepcionista verificar o nome na lista de atendimentos. Escutando a resposta negativa, sentei-me e continuei lendo meu livro. Coincidentemente, nos aproximamos juntos do balcão de atendimento. Ali, como boa curiosa roxa que sou, perguntei baixinho: "desculpe a curiosidade, mas o seu nome é "Nenéu"? Ele olhou para mim e falou: "Fatinha!" A resposta não poderia ser melhor! Recebi, junto, um abraço demorado. De onde estava, meu marido disse que notou a surpresa estampada no rosto da esposa, Lu. Sabe, Fernando, seu irmão me fez chorar de tanta emoção!
Meus amigos são muito especiais, mas os amigos de Afogados da Ingazeira têm um lugar diferenciado no meu coração. Desde bem pequenos, aprendemos a conviver com muitas pessoas, porque vivíamos mudando de casa devido ao trabalho do meu pai. Mas doía muito mudar de cidade, deixar nossas escolas, nossos amigos, ir para outros lugares, recomeçar tudo outra vez em novas cidades. Quando fomos morar em Afogados, a partir de 1964, pré-adolescentes, além de encontrar outras pessoas da família, começamos a criar vínculos mais profundos. "Nenéu" era muito amigo dos meus dois irmãos, Marcílio e Toninho (de saudosas memórias). Meus pais sempre tiveram um carinho especial pelas nossas turminhas de amigos.
Enquanto observava "Nenéu" fiquei imaginando: se meu irmão Marcílio estivesse vivo já teria os cabelos grisalhos e, quem sabe, também aquela meia carequinha; certamente também teria uma esposa, muitas histórias e fotos dos filhos para mostrar... Enquanto conversávamos fui observando que ele está muito mais parecido com seu "Minéu", até no sorriso!Por um momento esquecemos os motivos que nos trouxeram até aquela sala de hospital: só falamos de Afogados, da Quixaba e de Ingazeira (terra de Lu). Lembramos nossos amigos comuns, nossas famílias, dos nossos afetos muito queridos que Deus chamou. Lembrávamos com alegria dos bons tempos em que vivíamos em Afogados, falamos do seu site que nos unia. Comentamos sobre os textos dos nossos amigos, lembrando entre outros: Bigodão, seu Célio, Profª Elvira, e especialmente de Luciano de seu Iraclides, sobrinho da minha querida amiga Irene Bezerra.
Ficamos por algum tempo reunidos, conversando, anotando telefones, falando dos estudos dos nossos filhos e sobrinhos, comentando sobre as fotos do aniversário de Dona Tida postadas no orkut, até sermos chamados para o que havíamos ido fazer ali, nessa manhã surpreendente.
Graças a Deus, de vez em quando a vida nos presenteia com momentos assim. Nem sempre curiosidade mata. Algumas vezes olhar para as pessoas ao nosso redor, relembrar nossas raízes, ter saudades das coisas boas das nossas vidas, nos trás grandes alegrias, revigora nosso espírito, nos permite belos encontros com quem verdadeiramente somos, na nossa mais pura essência. Abençoada manhãzinha de hoje!
Fátima Pereira
São Paulo (SP), 12 de fevereiro de 2010
O BOM DA IDADE É QUE
A GENTE TEM HISTÓRIAS PRA CONTAR
Mesmo "sem pé nem cabeça", lá vai:
O texto citando João Amazonas me levou de volta aos anos 70-80, quando morei em Salvador e tive o prazer de decidir ir ver e ouvir João Amazonas falando para uma platéia da qual eu fazia parte, lotada de trabalhadores, universitários, e muitos outros não-identificados.
Ouvíamos atentamente aquele homem de corpo magro, poucos sorrisos e gestos comedidos, suas palavras e questionamentos, seu relato sem floreios. Faziam-lhe perguntas às quais ele respondia com voz calma e segura, seguida de aplausos. Suas palavras me serviam para ajudar a entender o momento político em que estávamos mergulhados, e de onde uns diziam como tínhamos que agir para sair dele com dignidade, escutar como outros repetiam para fechar os olhos e ficar em cima do muro igual coruja adormecida, ou alguns, muitos, propagando quais lideranças e estratégias deviam ser copiadas para manter e usufruir as mesmas vantagens de quem estava sendo largamente beneficiado.
Era uma luta de pensamentos e pensadores, onde aqui e acolá alguns perdiam literalmente suas cabeças, ou muitas figuras públicas conhecidas até hoje mantinham-se silenciosas e alinhadas para não perdê-las.
Acabada a solenidade, saímos em passeata do Teatro em direção ao ponto final planejado, onde haveria a dispersão. Entre nós havia sempre o temor pelo que poderia ocorrer no trajeto pelas ruas.Conhecíamos cada palmo de uma Salvador sempre linda, ensolarada, calma e musical... mas a ordem era sufocar qualquer manifestação, principalmente de estudantes, sindicalistas, professores, bancários e servidores públicos, ou seja, nós, aquele povo todo!
Sabíamos que qualquer tumulto poderia ter graves consequências. Por medida de segurança, estávamos em grupos, junto de pessoas conhecidas.
A polícia, uniformizada ou não, sem dúvida acompanhava atenta o movimento daquela multidão. Estava pertinho fazendo a segurança da população: motorizada, montada naqueles cavalos enormes, de pêlo escovado e arreios brilhantes, cuja batida forte da ferradura no chão produzia um som que aprendi a admirar desde a minha infância, mas naquele momento alertava nossos instintos para a possibilidade de sermos pisoteados.
Muito bem alimentados e nervosos, os animais espalhavam suas fezes de cheiro forte pelas ruas, quem sabe uma estratégia usada pelos militares para dispersar a multidão. Talvez para frustração de quem imaginou ser aquela uma boa oportunidade para criar tumulto, apesar da presença ostensiva, naquele momento a polícia não bateu em ninguém, ficou misturada ao povão, manteve-se ao lado de suas viaturas estacionadas em pontos estratégicos comunicando-se através de rádios com frequência aberta.
Seguíamos pacificamente pelas avenidas movimentadas, alguns empunhando cartazes e "pirulitos" onde se liam palavras de ordem, cantando o Hino Nacional, intercalado com poesia, acompanhados de artistas e anônimos, cantando a música de Geraldo Vandré que tirava as pessoas de dentro de lojas, portas de banco, escadarias de igrejas, pontos de ônibus, escolas, ou das suas residências, trazendo muitos para as janelas e ruas engrossando o refrão "caminhando e cantando e seguindo a canção", "quem sabe faz na hora, não espera acontecer". Foi uma emoção enorme!
Na manhã do dia seguinte, recebi um interurbano de um colega de outra Universidade do sul do Brasil: ele tinha em mãos fotos do evento, eu havia sido fotografada na passeata. Eram dias difíceis de entender, quando o simples fato de exercer o direito de ir e vir, ver e ouvir ou ler os escritos de pessoas que pensavam diferente, nos impunha rótulos como produtos de prateleiras de farmácia, adjetivando seu rosto e seu nome em listas de indesejáveis e perigosos .
Ontem como hoje, pagava-se um preço pela coragem de tentar exercer o direito de pensar e pelo direito de fazer perguntas para as quais não se tem respostas, pelo direito de querer participar, pelo direito de querer ouvir e aprender a respeitar as várias versões da História para tentar ser um cidadão e não apenas um "Maria vai com as outras", entender essa correlação de forças dos grupos que compõem a sociedade, enquanto outros sobreviviam se escondendo para bajular, fomentando a covardia do denuncismo.
Fátima Pereira
São Paulo (SP), 23 de novembro0 de 2009
MINHAS MEMÓRIAS
Comecei a escutar a Pajeú a partir de 1964, com 11 anos de idade, quando meus pais vieram do Recife para morar em Afogados da Ingazeira.
Sua programação era variada, com atrações que estavam voltadas para o público ouvinte que residia nas cidades vizinhas, nos sítios e fazendas. Ouvíamos música, noticiário, avisos e notas de utilidade pública.
(Programas favoritos?) Informativos e Musicais. Para os musicais podíamos escrever pedindo para ouvir ou oferecer músicas. Gostava muito de ouvir o Programa do Bispo Dom Francisco, cujo tema musical de abertura - se não me falha a memória - era "Diamante cor-de-rosa". Através desse momento, para mim Dom Francisco entrava em contato com os ouvintes de forma muito popular, tecendo comentários a respeito de assuntos do dia-a-dia. Eu gostava muito de ouvir suas opiniões, apreciava seu senso de humor. Gostava muito também do programa do meu querido Professor Waldecy Menezes. Não perdia o Programa (de Ulisses Lima) Tio Roberto, com suas histórias infantis. Imperdível era o Programa de Luciete Martins e Lurdinha Nogueira, que algumas vezes tive o prazer de poder acompanhar de dentro do estúdio, vendo Luciete pedir para ”Nogueira" informar a hora e minutos, geralmente quando ela estava ocupada fazendo outra coisa e de onde estava ficava louca procurando o relógio da Emissora. Tempos depois, fui convidada pelo meu querido Professor Padre Assis Rocha, para apresentar o "Programa Roda Viva", onde aprendi muito. Quando íamos para o sítio dos meus pais, na Quixaba, acompanhávamos a missa do sábado à noite pelo rádio. Desses momentos guardo lembranças da minha mãe querida parando seus afazeres. Sentava-se e pedia silêncio para poder fazer suas orações e cânticos.
(Como era a cidade e quais as diversões proporcionadas pela Pajeú?) A cidade era calma, a maioria das pessoas se conheciam, cumprimentavam-se. Era hábito colocar as cadeiras nas calçadas para conversar à noite. Algumas pessoas que tinham carro ficavam dando voltas no circuito da Avenida Rio Branco - Pça. Padre Carlos Cottart .Lembro-me com saudade dos nossos carnavais fazendo "corso" durante o dia e indo brincar à noite no ACAI, quando a Rádio Pajeú fazia entrevistas ao vivo. Em casa, acompanhávamos os capítulos das novelas pelas Rádios de Recife à tarde, porque ainda não tínhamos televisão.
De vez em quando, o Colégio Normal fazia uma excursão com alunas e Professores. Lembro-me bem que o Padre Assis organizou uma delas, para conhecermos o "Pico do Jabre", na Paraíba. Em outra ocasião, fomos a Tabira com a turma da Cruzada e tivemos um passeio muito bom com a Professora Elvira Siqueira em Triunfo. Frequentávamos o ACAI, aos domingos tomávamos banho no Poço de Benedito usando óleo de cozinha como bronzeador, jogávamos vôlei na quadra do Colégio Normal, aonde também tínhamos um Grêmio Estudantil. Ensaiávamos anualmente o desfile para o Dia 7 de Setembro. Eu adorava frequentar a Biblioteca do Colégio Normal, assim como a Biblioteca Pública Municipal. De vez em quando, também assistia filmes no Cinema de
Olavo, porque ele me viu pregando cartazes de divulgação das festas da minha turma de Normalistas e gostou da minha letra.
A partir daí, comecei a fazer cartazes com cartolina e pincel atômico para divulgação de alguns filmes do cinema dele e ganhei ingressos em (alguns) filmes. Eu me sentia tão importante! Lembro-me que assisti “Casablanca”, ”Janela Indiscreta”, e na companhia do meu saudoso pai, muitos bons filmes de piratas e de guerra (nossos preferidos), como “Os canhões de Navarone”, “ A ponte do Rio Kwai", entre outros. Como boa cinéfila, frequentei bastante o Cine São José, às vezes de 6ª a domingo, muitas vezes até vendo reprises! Enquanto não completei 18 anos era doloroso ver a censura em bons filmes que chegavam à cidade. Certo sábado e domingo, ia passar “Os brutos também amam”.
Convidei Dona Adalgisa (que trabalhava na bilheteria, e depois foi minha Profª de Matemática no Colégio Normal), para a minha festa de aniversário de 18 anos! Ninguém lá em casa entendeu muito quando ela chegou na 6ª feira à tarde com um presentinho pra mim: comeu bolo e fatias de goiabada, tomou laranjada Cliper, conversamos sobre o tempo e ela saiu. À noite, enfrentei a fila do Cine São José de perna bamba, o dinheiro apertado na mão suada e o coração disparado. Sem falar nada com a mão aberta exibindo o dinheiro embolado. Ela fez um sermão, não me vendeu o ingresso! Eu nem ergui os olhos, saí sem voz: não deu certo! Lembro-me do primeiro filme com censura 18 anos que eu assisti no Cine São José: "O Faraó". Tinha uma cena de nudez de meio corpo da Elizabeth Taylor, de costas. O Cinema estava lotadão! Graças a Deus nessa noite o filme passou inteiro e Inaldo não precisou se desculpar por nada!
(As informações transmitidas pela Rádio Pajeú influenciaram a minha vida?) - Hoje percebo que naquela época a programação da Rádio Pajeú influenciou muito a fundamentação da minha fé no Catolicismo. As informações divulgadas também serviram muito no conhecimento e valorização da cultura local, principalmente o gosto pelas cantorias de viola, aboios e repentes, que aprecio muito desde criança. Lembro-me que muitas vezes ficamos sentados na calçada da Catedral ouvindo discos de Juca Chaves, coisa rara de encontrar e poder ouvir livremente naqueles anos.
Vivi a minha adolescência durante os famosos “anos de chumbo", porém meu pai - o Capitão Wenceslau Alves da Silva - assinante da Biblioteca do Exército, sempre tinha vários livros, jornais e revistas em casa, o que permitia livre acesso a vastos matérias de leitura. O que meu pai não queria que eu lesse, ele não deixava à vista, porém era o primeiro a estimular boas conversas sobre o que estávamos aprendendo na Escola e fora dela. Dessa época, também agradeço muito os livros emprestados por Dona Aurora, uma Professora aposentada que morava perto da minha casa, pelo meu Professor Padre Assis Rocha (Língua Portuguesa) e meu saudoso Professor Geraldo Cipriano (Filosofia e Sociologia). Essas leituras me ensinaram a pensar. Portanto, para mim foi muito importante ter a mente aberta ao acesso, não excluir livro pelo título nem escolher leitura pelo volume de páginas.
Considero um grande privilégio ter recebido essas demonstrações de grande gentileza e atenção. Se não fosse isso, sozinha, eu não teria condições de acesso, não receberia esse tempo para absorver essas informações,aprender a pensar, fazer perguntas, tentar entender aqueles tempos e esse caldeirão de influências.
(Programas que fiz na emissora) - Durante o ano de 1973, Formanda do Curso Normal, tive o privilégio de ser convidada para fazer parte da equipe que apresentava o " Programa Roda Viva",sob a Coordenação do meu Professor Padre Assis Rocha, na Rádio Pajeú. Aquele foi um convite muito importante na minha adolescência. Em casa, na hora do " meu pai, o Sr. deixa eu ir?", eu tive que explicar tudo direitinho: comentaríamos sobre livros, discos e filmes; divulgaríamos a agenda do Colégio Normal e do nosso Grêmio Estudantil, o calendário das festas que animavam nossa cidade.
Nossas fontes de pesquisas seriam Bibliotecas, Revista Manchete, Realidade, Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco, entrevistas informais com pessoas que haviam feito Vestibular e estudavam fora, entrevistas com Professores e outros Profissionais sobre seus trabalhos, divulgação de notícias sobre perspectivas de emprego para os jovens...
Meu pai era de poucas palavras: sim ou não. Ficou muito sério, falou que "eu era muito inexperiente, precisava aprender a pensar muito antes de falar, evitando criar constrangimentos diante da situação política em que estávamos mergulhados". Falou com tristeza dos filhos dos seus colegas que enfrentavam problemas. Após muitas recomendações, a forma de meu pai me dizer "sim" foi me abraçar falando que ele iria sintonizar mais a Rádio Pajeú !
Nessa época a Rádio funcionava do outro lado do rio. Era muito gratificante a convivência alegre e respeitosa com os motoristas encarregados do transporte até a sede da emissora e com toda a Equipe. Lembro-me muito da emoção de chegar a primeira vez sem ser como visitante, olhar aqueles ambientes novos as pessoas e seus equipamentos, pensar para onde vai o pensamento, a palavra falada ou cantada.
Recordo a recepção calorosa do Padre Assis, de Edson Bigodão, Marconi Edson, Luciete Martins, Lurdinha Nogueira, a jovilidade de Fernando, a paciência de Toínho, e conviver com seu Ulisses Lima, de quem eu admirava muito a voz e toda aquela calma! O acolhimento, os ensinamentos, eram constantes. Eles davam dicas, eram muito educados e sobretudo muito bem humorados. Sempre corrigiram todos os meus erros com paciência exemplar!
Como Professoranda, aos 20 anos, recebi um grande presente, verdadeiro laboratório! Como cidadã, foi uma grande responsabilidade: a música “ Roda Viva" era polêmica, sinônimo de grandes anseios de mudanças políticas no país. Éramos jovens, sentíamos que o mundo era todo nosso, tínhamos tanto para falar através daquele Programa! Foi muito interessante e rico participar da apresentação, aprender a falar e respirar nas pausas de leitura, cumprir horários, fazer pauta e seleção musical.
Conduzir o Programa exigia inovar, fazer pesquisas, ler sobre variados temas, organizar trilhas sonoras pertinentes, dividir o tempo das apresentações intercalando-o com a leitura de cartas e atendimento telefônico dos ouvintes... Além de pensar muito antes de falar e informar a hora certa!
De longe, também chegavam outras histórias muito filtradas: "comícios-relâmpagos", censura, estado de sítio, prontidão, asilo político, prisões, greves, marcha das senhoras católicas, exílios, tortura, mortes. Em casa, meu pai chegava do Quartel ou do sítio, me abraçava e pedia que lhe trouxesse um café, tirasse os coturnos e fizesse cafuné, dizendo que se eu não me casasse logo, ele ia construir uma Escola para eu dar aulas para as crianças e para os moradores do sítio!
uardo essas e muitas outras boas recordações dessa experiência que me ensinou ricas lições, solidificando grandes amizades, uma gratidão imensa pela oportunidade de aprender coisas novas e uma vivência que transferi concretamente para as "reuniões de Diretoria" lá de casa, para a sala de aula sonhada pelo meu pai, como Professora de crianças, jovens e adultos, e em outras ocasiões, no exercício da difícil e sempre inacabada arte de sentir, pensar antes de falar e agir como representante do meu Sindicato.
Fátima Pereira
São Paulo (SP), 20 de julho de 2009
Lamentavelmente, o que eu temia aconteceu: mais uma vez a notícia da adutora ( leia-se " enfim, água !")- foi outra que virou história para contar para nossos netos.
Animadamente, vi cavações e instalações de canos nas terras que herdei do meu pai, no município de Quixaba, terra comprada de herança dos meus avós e tios, com muito sacrifício. Quando li a notícia, fiquei imaginando: meu Deus, de onde virá tanta água? Minha família, meus vizinhos, todos responderam que viria do açude de Fátima e da barragem de Carnaíba, e de outros mundos de água mais!
Quanta esperança! Como a gente tem fé, como a gente quer acreditar, e como nos esforçamos para que essa esperança contagie outros cidadãos. Quando pago meus impostos, fico sonhando com terra molhada, feijão debulhado, crianças penduradas nos pés de goiaba carregadinhos, gerimum de leite e de caboclo, riachos correndo, gente arando e plantando meio mundo de terra! Meu Deus, e essa água prometida, tal qual terras bíblicas da fartura, que só ameaça e nunca vem?
Onde se esconde essa água, quem tem a chave mágica desses poços e cacimbas que nunca secam, desses açudes maravilhosos, dessas barragens transbordantes, desses rios perenes?
VAMOS, ABRAM ESSAS PORTAS, NÓS TODOS MERECEMOS ENTRAR LÁ!
Moro na região sudeste, mas meu coração ficou no Nordeste. Sofro com as cenas da seca, pessoas com fome - tem coisa mais triste? - crianças desnutridas, lares desfeitos e famílias errantes, animais morrendo, casas fechadas e baixios abandonados, terrenos vendidos às pressas, escolas sem brinquedos, noites a fio em busca de nuvens pelo céu onde o sol vai reinar solene.
Aqui no sudeste, me pego olhando o céu como meus pais e os pais dos seus pais faziam. E me pego também pensando: será que vai chover? Tomara que sim, que se encham todos os açudes e rios e poços e cacimbas desde a menorzinha até aquela que virou cacimbão, e que haja fartura, Deus é pai, tomara que sim, tomara que sim!
Fátima Pereira
São Paulo, SP Brasil - 23-setembro-2003
AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2010