ELVIRA DE SIQUEIRA SILVA
Professora, cronista e advogada. Seu berço natal foi Ingazeira, mas, ainda jovem, veio morar em Afogados para dar continuidade aos estudos, concluindo o ginasial e o pedagógico no Colégio Normal Regional de Afogados da Ingazeira, tendo se tornado uma brilhante professora de português. Fez o curso superior de Direito no Estado da Paraíba juntamente com dona Ione Góes, Geraldo Cipriano, Célio Pereira, dentre outros amigos. Aposentada, dedica boa parte do seu tempo em ações de solidariedade.
... Estradas do Sertão
Meu amigo, veja o meu atrevimento; Achei o máximo os versos que os poetas fizeram e me atrevi a fazer também. Aí está:
De Afogados a Tabira / Não tem buraco; é cratera, / Tranquilidade já era / Cada dia aumenta a ira. / Odorico, em Sucupira, / Prezava mais o povão. / É tempo de eleição; / mas a buraqueira aumenta, / Não tem quem puxe sessenta / Nas estradas do sertão.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 29 de junho de 2010
Sete Anos Sem ele
Solidário, corajoso, responsável, sincero e profundamente humano: Assim era BARTOLOMEU CAMPOS GENÉSIO - o nosso querido BARTÓ. O segundo dos oito filhos do senhor Manoel Genésio e dona Maria do Carmo, nascido no dia 08 de abril de 1948, veio a falecer no dia 11 de junho de 2003, com a idade de 55 anos e alguns dias.
Teve uma vida turbulenta com muitas batalhas e poucas vitórias. Deus, no seu silêncio, o chamou muito cedo, talvez querendo protegê-lo contra o vírus da corrupção de uma sociedade onde quem é desonesto não sofre punição. Na maioria das vezes, uma despedida é o fim de uma história; com Bartó não foi bem assim, a sua vida não acabou. Ele partiu para um mundo diferente do nosso; está distante, ausente pela separação, mas permanece presente na saudade que deixou.
Há pessoas que fazem parte do nosso convívio sem nenhuma cumplicidade; outras fazem parte da nossa vida tornando-se cúmplices da nossa história. Aquelas podem até deixar lembranças; estas, no entanto, podem deixar marcas profundas.Acredito que Bartó deixou marcas na vida de muita gente, principalmente nas pessoas a quem ele ajudou, a quem ele deu a mão, com quem ele dividiu o pão de cada dia. O seu mundo preferido era a "Gangorra" (propriedade da família). Como era diplomado em Técnicas Agrícolas - além do curso de Contabilidade - suas atividades eram direcionadas à vida do campo e à agricultura.
Destacou-se como pecuarista, trazendo as melhores raças de caprinos e ovinos para a nossa região. Adotou a técnica de armazenagem de ração para animais, em épocas de seca, com a construção de silos de trincheira, com a primeira experiência na fazenda do seu pai, o senhor Manoel Genésio. Foi o primeiro criador de galinhas de granja em Afogados da Ingazeira. Sempre preocupado com os longos períodos de estiagem, empenhou-se na construção de açudes e cisternas para armazenamento de água. Ao que parece, ele era mais afeto à zona rural que à urbana, sem, contudo, deixar de participar dos encontros sociais.
Familiares e amigos mais íntimos dão conta de que ele participou ativamente da política de Afogados da Ingazeira, tornando-se presidente do antigo MDB, com o propósito de batalhar incansavelmente pela melhoria de vida dos excluídos, dos massacrados, dos que não têm voz nem vez. Nos seus pronunciamentos não usava de artifícios para conquistar a simpatia de alguém ou para iludir pessoas de boa fé - o que é praxe no meio político. Em muitas ocasiões, usou um tamborete como palanque; naquele gosto de humildade, estava implícito o ensinamento de que ninguém deve olhar o outro lá do alto, com ar de superioridade. Ele nunca se colocou em posição privilegiada em relação a outras pessoas.
Chegou a se candidatar a prefeito mas não obteve êxito. Foi um grande sonhador, idealizou o palco da igualdade moral, onde todos se sentissem coadjuvantes da mesma história; mas derrapou no palco da desilusão, onde o pobre é naturalmente violentado nos seus direitos fundamentais. Homem inteligente e forte.
Na sua aparência rústica, ocultavam-se o seu lado bondoso e uma sensibilidade admirável. A sua voz harmoniosa o conduzia a serestas e encontros festivos. Apesar da timidez, gostava de cantar com os amigos. Daqueles olhos esverdeados, transluzia um brilho diferente, quando ele cantava "Nervos de Aço" ou Dolores Sierra". Estas duas músicas revelavam a mágoa e o sentimento travoso que apertava o coração de quem viveu uma grande paixão com pouco sucesso. Dos amores vividos ficaram dois filhos.
Apesar das desventuras, soube gerenciar com supremacia suas emoções. No período de maior sofrimento, no leito de um hospital, contou com a dedicação da fiel companheira, que o assistiu com todo carinho que ele merecia.
Penso que Bartolomeu, como influente filho da terra, que fez parte da história da cidade, merece uma homenagem como figura de destaque. Ele é digno de nosso respeito. Se a sua presença não foi notada por alguns insensatos, a sua ausência é sentida por aqueles que têm sensibilidade e respeitam a sua memória. Agradeço a Deus pela oportunidade que tive de estar com ele momentos antes de sua despedida. Ele deixou nos amigos uma saudade que dói e um vazio que nunca vai ser preenchido.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 10 de junho de 2010
Dia das Mães
MÃE - Como entender uma palavra tão pequena, mas carregada de um poder sobrenatural tão intenso que foge à nossa capacidade intelectiva? É impossível tentar desvendar os mistérios armazenados no coração de mãe.
Ontem - Dia das Mães- pela manhã, a homilia do padre Josenildo sensibilizou corações e fez rolar lágrimas na face de muita gente. Ora, se o padre, ao falar sobre essa criatura "divina", mexe com os corações, imagine ela própria manifestando (com palavras ou atitudes) o imenso amor que sente pelos filhos...
Qual é o filho que não se curva diante da mãe que o abraça quando todos o rejeitam? Que o defende com unhas e dentes contra qualquer acusação? Mãe que, escondida na sua aparente fragilidade, transforma-se em gigante, na hora de defender o filho, a fim de não vê-lo sofrer. É amor em grande escala. É amor sem limites.
Esse amor carregado de virtudes e mistérios, só pode vir de Deus, que é o Amor Maior. Por mais rude que seja, a mãe é capaz de dar a própria vida pelos filhos. Intelectual ou inculta, rica ou pobre, ama com a mesma intensidade, porque amor de mãe não se subordina a nível cultural, classe social, cor, raça ou credo; ele é incondicional e ultrapassa qualquer obstáculo.
Nesse "Dia das Mães", devemos não só parabenizá-las, mas rezar por ela, de modo especial por aquelas pobres e sofridas; mães guerreiras que, milagrosamente, de miseráveis se fizeram ricas, navegaram nas ondas das dificuldades, pisaram pedras e espinhos, a fim de criar e educar os filhos entregando-os ao mundo, preparados para driblar derrotas e frustrações, firmes e decididos em busca do sucesso.
Muitos que hoje brilham, veem nesse brilho o reflexo daquelas que não mediram esforços, derramaram suor e lágrimas para os nortearem na chegada ao porto seguro.
Àquelas que ainda estão na luta, pedimos que Deus as abençoe, para que saibam administrar, com serenidade, as turbulências que possam surgir em suas vidas.
Àquelas que já se foram, que tenham sido bem acolhidas na misericórdia divina.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 10 de maio de 2010
O Último Adeus
Admirado, meu irmão Fernando Pires me questionou sobre minha omissão neste momento de despedida de Dr Hermes. Justifiquei que dentro de mim o silêncio falou mais alto. Mais uma vez instigada, resolvi quebrar um pouco a monotonia e aqui estou, tentando dizer alguma coisa sobre essa figura que marcou nossa história.
Ontem visitei a família; hoje, com tristeza, acompanhei o seu último percurso pelas ruas da cidade, rumo ao cemiterio. Lá deixamos doutor Hermes, aquele que tirou tantos das garras da morte, hoje se foi, deixando em seu lugar a lembrança, o vazio, a saudade. Não só isto, ficaram também suas pegadas gravadas na poeira do tempo.
Por onde ele passou deixou suas digitais marcadas pela tinta da bravura, na grandeza do dever cumprido com honestidade e honradez inigualáveis. Perdemos um grande homem, um grande amigo.
Lá se foi um pedaço da nossa história.
Nesse momento de tristeza nos solidarizamos com a familia enlutada.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 2 de maio de 2010
O Valor da Saúde ...Se é que tem!
Peço permissão ao amigo Fernando Pires para usar deste espaço democrático, na tentativa de encontrar alguém que me possa esclarecer o motivo pelo qual o professor do Estado de Pernambuco, na hora de marcar uma consulta médica, é obrigado a ligar para SÃO PAULO (0800 281 7373)? Vale ressaltar que, ao ligar, você passa de 20 a 30 minutos ouvindo sinal de "ocupado" e quando consegue completar a ligação, passa mais 10 a 12 minutos ouvindo música internacional; quando o atendente fala e você expõe seu desejo, ouve a explicação: "todas as vagas já foram preenchidas, tente outro dia".
Tem mais: para cada especialidade há um horário rigorosamente estabelecido; se você tem sorte, a consulta será marcada para 08 dias depois. Se não conseguir... se controle e aguarde o dia de sorte.
Ontem às 11 horas, tentei marcar uma consulta para um angiologista (horário para ligar das 09:30 às 12:00). Depois de muito "ocupado" e muita "música", veio a informação: "vagas preenchidas, tente amanhã".
Hoje comecei ligar exatamente às 09h30 - sinal de "ocupado" até às 09h55 quando consegui a ligação; ouvi a "música" até às 10h05 . Que bom, enfim, do outro lado alguém me atende e logo veio a resposta: "as vagas já foram preenchidas, tente amanhã".
Será que a minha saúde é brinquedo eletrônico que eu posso controlar? Isso é democracia ou ditadura?
Será que outros planos de saúde fazem essa imposição?
Será que o professor do Estado está pagando pouco pelo seu plano para sofrer esse massacre?
Com o salário que se tem se pode pagar mais?
Além dos transtornos já citados, o servidor que não dispõe de telefone, ainda tem de passar pelo constrangimento de ficar horas em pé, ao sol, para usar um telefone público, ouvindo reclamações de outras pessoas que estão esperando para usar o mesmo aparelho. Outra alternativa é incomodar vizinhos já que a ligação toma bastante tempo.
Sei que há uma maneira de reverter essa situação e você também sabe, prezado colega, pense nisso.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, PE, 6 de abril de 2010
Doutor Hermes - Do Litoral ao Sertão
Há 72 anos, talvez com passos indecisos, o jovem Hermes de Sousa Canto seguia rumo a este sertão de solo quente que esquenta e enfeitiça o coração de quem por aqui passa. É natural que as pessoas finquem suas raízes na terra onde nasceram; com Doutor Hermes deu-se o inverso: espontaneamente ele decide se arrancar da capital para se plantar nas terras do Pajeú, tal qual uma árvore que, depois de crescida não pode mais ser mudada.
Podemos imaginar os pensamentos que afluíam à sua mente, ao chegar aqui e se deparar com a disparidade entre o mundo de lá e o de cá. Se fosse possível fazer um raio X de sua alma, talvez pudéssemos visualizar um elenco de saudades acelerando aquele coração que teimava em reter para junto de si a fisionomia de seus familiares e/ou dos colegas de curso. Será que algum deles se arriscaria a uma aventura tão estranha? Será que o jovem Hermes tinha noção das dificuldades que iria enfrentar em uma região pobre, distante, sem asfalto, sem energia, precária em meios de transporte e comunicação, como era naquela época?
Quantas noites ele deve ter rolado na cama, sem conseguir dormir, fitando a chama de um candeeiro e sentindo a dureza da realidade se contrapondo à firmeza de sua decisão: exercer sua profissão com dignidade e honradez...
Quantas noites ele deve ter caminhado, sem uma trajetória definida, percorrendo ruas silenciosas e escuras, observando as calçadas salpicadas de gotas de luar que se infiltravam por entre as folhas de frondosos oitizeiros...
Quantas vezes estas cenas se repetiam e ele percorria o mesmo itinerário, "misturando a quietude da cidade com a inquietude do seu coração...” Jamais ele desconfiara de que aquela cidadezinha com casas de taipa, poeirenta e desalinhada, que o recebia naquele momento, pacientemente aguardava o dia de abraçá-lo como prefeito e filho amado. Aí sim, os laços se estreitariam ainda mais e ela começaria a se revestir de beleza, mudando sua aparência e realçando o seu colorido, confirmando o que ele próprio dissera em determinado momento: "Senti-me preso à terra e como um filho seu assumi o compromisso de trabalhar para engrandecê-la." E assim aconteceu, ele deu início e as transformações foram aparecendo. Hoje temos a alegria de ver a nossa “terrinha" exibindo o seu panorama encantador.
Que bom, Doutor Hermes, que o senhor teve a iniciativa de conhecer o nosso sertão! Com seu olhar franco e sisudo, foi se adaptando aos costumes da região, conhecendo a vida sacrificada daquela gente humilde e conquistando todos os corações. Só um ideal bastante amadurecido o faria trocar a vida litorânea e o convívio do lar pela rusticidade das longínquas terras sertanejas. É inegável que encontrou desafios, mas não desistiu da caminhada: ousadamente ultrapassou todos os obstáculos e tomou sobre os ombros a responsabilidade de cuidar da saúde do povo, sem distinção de classe . Não foi à toa que em 1997 a Sociedade de Medicina de Pernambuco, em comemoração ao Dia do Médico, o homenageia com a Medalha São Lucas. Homenagem mais que merecida. Aqui o senhor iniciou verdadeiramente o seu aprendizado na Arte da Medicina, tornando-se brilhante, querido e respeitado por todos.
Neste dia 31 de Março, queremos partilhar com o senhor e seus familiares a imensa alegria de comemorar o seu centenário. Todas as homenagens passadas e presentes são sinais do quanto o senhor é querido em "sua terra". Não encontramos palavras que possam traduzir a nossa emoção e o que o senhor representa para nós. Por toda a sua dedicação e generosidade, o senhor foi e continua sendo o grande protagonista da nossa história.
Parabéns, doutor Hermes, toda Afogados o abraça neste dia e agradece a Deus por tê-lo encaminhado para o nosso meio.
Um carinhoso abraço.
Sua admiradora
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 23 de março de 2010
Questionamento
Parabéns, Fernando! Nos últimos dias, tenho lido depoimentos de pessoas sérias, a respeito do trabalho que você vem prestando à nossa cidade, através deste espaço que, democraticamente, nos oferece. Por meio dele, as pessoas tomam conhecimento de tudo o que acontece, trocam idéias e têm a oportunidade de expor suas opiniões, e isto é muito bom. É o que se observa neste momento em que tanto se fala da poluição sonora que assola a nossa cidade.
Há um princípio sociológico que diz: "O seu direito termina onde começa o do outro". Mas a gente observa que o direito de uns nunca termina para que o do outro comece. A solução para, pelo menos, minimizar o problema da poluição sonora em Afogados da Ingazeira anda a passo de tartaruga Ou à moda do caranguejo: sempre em marcha a ré.
Questionamentos e reclamações a esse respeito existem de longa data. Lembro-me de uma reivindicação, neste sentido, baseada em princípios legais, feita pelo senhor Dr. José Virgínio Nogueira, que se dizia incomodado com a falta de respeito ao direito dos outros, de modo especial ao idoso. Posteriormente, a jornalista Tereza Amaral ocupava os microfones da Rádio Pajeú e, com a mesma indignação, abordava o mesmo tema, pois sua mãe -dona Estelita Amaral - se encontrava já muito doente e não conseguia ter um repouso tranquilo, já que o som era instalado exatamente em frente à sua casa. Podemos perguntar: o que foi que mudou até agora? Quais foram as providências tomadas? Pelo que temos observado, nada mudou ou se mudou foi para pior.
Antigamente havia, próximo às casas de saúde e hospitais, um sinal de advertência aos motoristas indicando que era proibido buzinar, em respeito aos doentes. Ainda hoje há, no recinto destes ambientes, a fotografia de uma enfermeira pedindo silêncio. Ora, essa comunicação visual perdeu todo o sentido? Hoje os carros de propaganda circulam com um som ensurdecedor, e o doente que se cuide, às vezes nos últimos instantes de sua vida. Se o carro percorre todas as ruas, há necessidade de poluir a cidade inteira? Será que os doentes internados nas casas de saúde do centro da cidade e seus acompanhantes não se incomodam com a barulheira da cidade e noite inteiras sem dormir? Não sejamos hipócritas, afirmando que não incomoda. Quem defende tal afirmativa ou está se beneficiando ou tentando agradar a alguém.
É evidente que um evento que já faz parte do calendário festivo da cidade não pode nem deve acabar, e ninguém está querendo isto. Acho sim que deve ser repensado um local apropriado, para um evento de tamanha magnitude sem, no entanto, tolher o direito de pessoas idosas e com a saúde já comprometida. É bom não esquecer que o jovem de hoje será velho amanhã.
Vale salientar que não nos referimos apenas ao carnaval fora de época; mas a todos os eventos, pois nem bem termina um e outro já começa. Para estes ainda há um atenuante, é que só acontecem uma vez ao ano; o pior são as farras semanais e nem sempre só nos bares, há pessoas que estacionam seus carros em frente de suas casas, com o som em todo volume e a vizinhança tem de suportar esse tipo de abuso.
A distorção de valores tornou-se generalizada. Antigamente você ia a uma festa, a um clube e tinha a liberdade de conversar com os amigos; hoje se você quiser dizer alguma coisa, precisa gritar e bem alto; se você vai ao cinema, uma reunião, uma confraternização, é a mesma coisa, antes de começar o evento, ninguém pode se comunicar, a música que poderia ser suave e agradável se torna irritante e até inadequada para o ambiente. Parece que todos estão surdos...
Vou encerrar lembrando o nosso querido Dom Francisco que frequentemente dizia: "Não façamos ao aos outros aquilo que não queremos que nos façam". Pense nisso.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 20 de janeiro de 2010
Caro Fernando, neste dia consagrado a "NÓS", não poderia deixar de prestar minha humilde homenagem a todos os idosos, de modo especial aos "velhinhos" do nosso grupo.
A Arte de Viver
Viver é uma arte que se aprende a cada instante. O aprendizado é como o envelhecimento, tem início no momento em que nascemos. Penso que o bebê chora na hora que nasce pela brusca separação da mãe, pois o útero materno é, sem dúvida, o lugar mais aconchegante do mundo. Neste momento já se inicia a aprendizagem da convivência com o mundo exterior. Não resta dúvida de que a infância é a fase mais bonita da vida. A primeira tentativa de ficar em pé, os primeiros passos intercalados por incontáveis quedas, o primeiro dentinho que surge, as primeiras palavras ininteligíveis, tudo tem uma beleza incomum. É a fase da espontaneidade.
Mas, pouco a pouco, os dias passam e a adolescência e a juventude se aproximam. É a época de grandes mudanças e transformações no corpo, no coração e na mente: sonhos, traumas, decepções, contradições, rebeldias, é, por assim dizer, a idade dos senões, das dúvidas, das incompreensões, dos questionamentos. Tudo acontece tão de repente que a gente nem percebe. O tempo voa, a vida continua; o frenesi da juventude vai se tornando mais ameno, as inquietações desaparecem, as idéias dão sinais de maturidade. Estamos atingindo a idade adulta, mas ainda não estamos verdadeiramente prontos.
Fazendo uma releitura da nossa história, nos damos conta de que, ao longo da vida, experienciamos sucessos e fracassos que ainda se repetem. Precisamos parar, enxugar as lágrimas, fomentar as alegrias e administrar, com serenidade, a arte de viver, preparando-nos para a última etapa da vida - a velhice - que hoje é exaltada como a fase da "Boa Idade" que para muitos, nem tão BOA assim, especialmente para os menos favorecidos.
Hoje se comemora o Dia Nacional do Idoso. Há um Estatuto do Idoso que estabelece uma série de direitos à pessoa idosa e assegura o respeito a esses direitos. A Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), promulgada em 1993, também garante a proteção social ao idoso. Como vemos, no papel há muita coisa bonita, mas, na prática, podemos questionar: como está sendo tratado o idoso que recebe um mísero salário que não dá sequer para comprar os medicamentos de que precisa? E aquele idoso que está jogado em um abrigo improvisado, sem as mínimas condições de higiene e acomodação? Aquele que dorme pelas calçadas, exposto a todo tipo de violência? Aquele que não pode mais se locomover e não dispõe nem de uma cadeira de rodas? Aquele que fica numa fila do SUS um dia inteiro, à espera de uma consulta médica e muitas vezes volta sem ser atendido? Falar do idoso que vive no seio de uma família abastada e bem estruturada; do idoso que participa de encontros de confraternização, excursões e festas em finais de semana, é muito fácil. Agora, falar daquele que é tido como estorvo para a família e a sociedade, que está relegado ao esquecimento, sem condições de sobrevivência, é difícil, é doloroso e até incomoda.
Quando é afinal que o Estatuto do Idoso e a Lei Orgânica de Assistência Social vão sair do papel para a execução? Todo cidadão tem os direitos assegurados pela Constituição Federal. Por acaso o idoso deixou de ser cidadão?Parece que ainda há uma grande distância entre prometer e cumprir a promessa.
Envelhecer não é apenas fazer parte do passado, nem passar da vida ativa para a passiva. Ter o rosto enrugado, o corpo enfraquecido, os cabelos cor de prata e o olhar perdido no infinito, não significa deixar de ser gente.
Quanta sabedoria, quantos conselhos bons, quanta proteção, quanto carinho, quanto amor estão adormecidos no coração e na mente daquele (a) velhinho (a) de olhar sereno e passos lentos que, silenciosamente, espera um sorriso ou um simples passar de mão na cabeça como retribuição por tudo o que fez.
Não há jovem que não venha a envelhecer, daí porque precisamos estar preparados para este momento que sempre vem carregado de limitações, dificuldades, dores físicas e emocionais, estas últimas quase sempre incuráveis. Preparados para superar as experiências negativas, podemos driblar as frustrações e saborear cada momento da vida como se fosse o último.
Como parte deste grupo, quero homenagear a todos os idosos com um pequeno trecho de uma oração do saudoso padre Léo:
"...Ensina-me, Senhor, a compreender todas as transformações físicas, psíquicas e afetivas que hoje estou vivendo... Dá-me ainda a graça de ir ao encontro da morte com serenidade e confiança na tua misericórdia infinita... permite-me acolher, com alegria e gratidão, o grande presente que é chegar a esta idade."
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 1º de outubro de 2009
Parabéns, Dona Ione!
Este dia 13 de Setembro é muito especial para todos nós que tivemos o prazer de ter dona Ione como professora. Eu, de modo particular, além de ter sido sua aluna tive o privilégio de conviver com ela no dia a dia no Colégio Normal, onde estudei e trabalhei como Secretária e Professora. A nossa convivência não parou por aí; fomos também companheiras de jornada desde o vestibular até o Ensino Superior, nos cursos de Letras e de Direito.
Com ela aprendi muito; ela foi e continua sendo a minha mestra, amiga, orientadora, conselheira; a minha segunda mãe. A ela devo muito do que sou e do que tenho. É, sem dúvida, motivo de muita alegria fazer parte do conjunto de seus amigos. Dona Ione sempre soube exercer sua autoridade, sem usar de grosseria ou indelicadeza; ela é mestra na arte de fazer amigos.
Detentora de uma vasta cultura, sente prazer em compartilhar com os demais tudo o que sabe. A grandeza de seu coração é testemunhada por quem a conhece de perto. Na alegria de desfrutar da sua amizade, tomo a ousadia de fazer um breve comentário sobre sua trajetória de vida:
No dia 02 de Maio de 1994, ela teve a idéia de fazer uma "arrumação" nos arquivos da "Tia Letícia", - como carinhosamente a tratava. A partir daí sentiu vontade de pesquisar e fazer anotações do que ia encontrando: cartas, recortes de jornais, livros, fotografias, enfim todo tipo de resquícios que lembravam a sua convivência na "Casa Grande", isto é, na casa da "madrinha Sinhá", sua avó materna. Como fruto dessa "arrumação", muita coisa ela registrou sobre sua família.
Pelas inúmeras anotações, percebe-se que muito cedo teve de enfrentar algumas dificuldades. Seus pais residiam em Delmiro Gouveia (AL) e ela contava apenas 15 anos de idade quando, repentinamente, seu pai faleceu. Evidentemente muita coisa mudou no rumo de sua vida. Adolescente e, com certeza, cheia de sonhos, precisou vir com os irmãos e sua mãe, dona Julieta, morar em Afogados da Ingazeira, na casa de dona Sinhá, que os acolheu com muito carinho.
Na sua admirável perseverança e otimista, como sempre foi, não cedeu lugar a desânimos, fracassos ou dificuldades. Quem conhece a sua história sabe da sua intrepidez no enfrentamento dos obstáculos da vida. Na sua vida de estudante passou por altos e baixos, mas, consciente da necessidade de ajudar na educação dos outros irmãos, lutou e venceu.
Hoje ela é uma página colorida na história da educação da nossa cidade e na vida de muitos de seus ex-alunos e professores.
Dona Ione escreveu sua história não com lápis e papel; mas com exemplo e dedicação. As sementes que ela plantou frutificaram abundantemente porque foram semeadas com muito carinho. Para mim D. Ione continua sendo aquela minha professora de Geografia, bonita por dento e por fora. s seus ensinamentos continuam presentes na minha memória. Os seus cabelos escuros que, pouco a pouco, foram ficando grisalhos (assim como os meus), hoje completamente brancos,não anuviaram a sua beleza. Tenho certeza que ele são acolhidos carinhosamente como frutos de experiências vividas e acumuladas com muita dignidade.
Parabéns, minha querida D.Ione! A senhora é uma heroina. A senhora é a "rima rica" nos versos de muita gente. O meu coração está em festa neste seu aniversário. Suplico ao Divino Pai Eterno que esta data se repita ainda por muitos anos. Um abraço carinhoso desta que continua sendo aquela aluna que a admira muito.
Elvira de Siqueira
Afogados da Inagzeira, 13 de setembro de 2009
Amor à Princesa do Vale
O Centenário de Afogados da Ingazeira provocou uma explosão de emoções antes nunca vista. As declarações de amor à Princesa do Vale se entrelaçavam diariamente neste espaço especial, cedido por nosso amigo Fernando Pires. De todas essas declarações, destaco uma que muito me emocionou: a do Senhor Hélio Noronha. Essa foi arrancada do âmago, traduz um amor entranhado, isento de máculas ou sequelas. Confissões como essa, desprovida de qualquer artifício, nos levam a perguntar: Que mistérios escondes, Afogados? Qual é a tua pedagogia para cativar tanta gente? Será o teu calor que, até hoje, não se sabe o gosto que tem? Será a tua suave brisa a beijar calidamente a face de quem de ti se aproxima? Ou tua doce água que nunca sacia a sede de quem dela experimenta? Quais são os teus segredos?
Indiscutivelmente, cada rua guarda consigo uma história; cada esquina relembra um fato; cada ponto de encontro edifica uma saudade. Teus mistérios e teus segredos são insondáveis. Talvez seja isto que te faz tão sedutora. Seguindo a filosofia de Saint-Exupéry, podemos afirmar que tu te tornaste responsável por muita gente.
Há 50 anos, já exibias o teu charme e atraias a atenção de todos; mas, parece que ainda faltava alguma coisa... e, eis que, de repente, recebes um presente especial: o teu primeiro Bispo - o nosso querido Dom Mota. Foi mais um que fisgaste sorrateiramente e ele, querendo retribuir-te com o mesmo carinho com que o acolheste, trouxe para o teu florido jardim a mais bela Rosa que podia oferecer - a tão querida Rádio Pajeú.
A partir daquele 04 de outubro de 1959, os horizontes foram-se abrindo, lentamente, como as cortinas de um teatro que se afastam, de mansinho, mostrando pouco a pouco o cenário do palco. As trevas deram lugar à claridade. O silêncio cedeu a vez aos microfones da Rádio Pajeú. Desde então Afogados da Ingazeira saiu do anonimato, tornou-se mais atraente, e o seu jeito peculiar de conquistar corações foi aperfeiçoado.
Na bela voz do saudoso Waldecy Menezes, a cidade proclamava aos quatro ventos a sua identidade. Já não era mais aquela cidadezinha embrenhada nas longínquas plagas do sertão nordestino; ela agora tinha voz e vez. Podia se impor e caminhar a passos largos; ou melhor, podia voar apoiada nas ondas sonoras da sua aliada e, numa cumplicidade amorosa, ambas se comprometiam com o progresso da região.
A menina-moça diariamente nos despertava e nos fazia adormecer com a voz inconfundível do Rei do Baião: "Já faz um ano e tanto/Que deixei meu Pajeú/Com tanta felicidade/Vim penar aqui no sul/Ai meu Deus/O que é que eu vou fazer/Longe do me Pajeú/Não poderei viver."...Salvo engano, essa era a característica que anunciava o início e o fim da programação diária. Aliás, deveria continuar até hoje, preconizando orgulhosamente para o mundo inteiro o lindo nome do Pajeú, na voz do nosso rei.
Falar da menina-moça que cresceu e que, cada vez, tem mais encantos, não acrescenta mais nada além do que já foi dito por tanta gente. Penso que nem o próprio Dom Mota imaginava a magnitude do legado que iria deixar, não só para a cidade mas, para todo o nosso sertão.
Quanta alegria ela continua a nos proporcionar! Quanta gente se revelou por meio dela!... Eu tive o privilégio, como professora, de conduzir um programa - Aquarela Estudantil - com os alunos do curso ginasial. Quantas meninas e meninos freneticamente ocupavam aqueles microfones com os olhos cintilando de alegria. Como foi importante para eles... Testemunhei o crescimento da turma na produção de textos, na maneira de se expressar, na pronúncia correta das palavras, na espontaneidade para falar em público. Enfim foi uma experiência por demais positiva na vida daquela gente. Ao relembrar, sinto saudade e, por que não dizer, uma pontinha de orgulho, por ter contribuído para o crescimento intelectual daquela garotada que tanto me cativou.
Acho até que, para fazer jus ao título de "Rádio de Educação Popular", a emissora poderia disponibilizar um espaço para alunos que, orientados por professores, apresentassem um programa educativo. Quem sabe se isto não ajudaria a alguém na descoberta da profissão? A volta de um programa de auditório, sem dúvida alguma, seria também uma grande chance para a descoberta de talentos. O quadro de profissionais da Emissora tem competência para realizar um programa desse porte. Nem precisa citar nomes, eles sabem que são capazes e têm o trunfo nas mãos.
Que bom que tu existes, querida Rádio Pajeú! Sem ti talvez ainda estivéssemos engatinhando. À medida que o tempo passa, tu te tornas mais experiente, mais querida e mais indispensável ao nosso meio. Parabéns pelo teu cinquentenário! Tu és uma fonte de riqueza, és um tesouro que deve ser zelado com muito carinho.
Aqui fica o nosso estímulo a todos que fazem parte do teu dia a dia. Eles também estão de parabéns e merecem o nosso louvor. A festa é tua, a festa é deles, a festa é nossa. Alegremo-nos, portanto.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 31/07/2009
Parabéns, Hélida Lúcia!
Você nos enche de orgulho e alegria, afinal não é fácil se conseguir o PRIMEIRO LUGAR em um vestibular.
Quero antes de tudo agradecer a Deus que escuta as nossas preces e nos atende na hora em mais precisamos. É comum as pessoas dizerem que, quando, para nós, se fecha uma porta, Deus nos abre uma janela. Eu diria que Ele não abre apenas uma janela; abre vários caminhos, nos mostra por onde devemos seguir, e dá soluções para os problemas que, porventura, apareçam em nosso dia a dia. Basta que confiemos a Ele toda a nossa vida sem hesitar, pois quem Nele confia nunca fica sem resposta. Coloquemos em suas mãos as nossas emoções, os nossos medos e traumas vividos e Ele nos acolherá. Ele nos sonda, nos conhece e sabe dos nossos pensamentos antes mesmo que os expressemos.
São Paulo diz, na carta aos Filipenses (4): "Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças... e o Deus da paz estará convosco."
Confesso que estava meio apreensiva, mas confiante, primeiro no nosso Divino Pai Eterno, depois em você, minha querida DINHA, que nos seus dezessete anos, já sabe muito bem o que quer. Sua autoconfiança a faz segura de si mesma. Se alguma dúvida surge em sua cabecinha, você logo a transforma em certeza. Na sua adolescência, parece frágil; mas por trás dessa aparente fragilidade, está escondida uma admirável fortaleza. O que mais admiro é que a sua maior preocupação não é com o que esperam de você; mas com o que você espera de si mesma.
Parabéns, minha futura Pedagoga, siga em frente, destemida como é, sem se preocupar com o mapa traçado. Não permita que as desventuras momentâneas destruam os sonhos, as esperanças e as alegrias dos momentos futuros. Prossiga buscando alternativas para o seu futuro, valorizando mais o que você tem do que o que você perdeu.
Um beijo muito carinhoso de sua tia "coruja" que a ama muito. Que o nosso Deus a proteja hoje e sempre.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 24/07/2009
Eu Vi!
Eu vi gente rindo de felicidade, gente cantando de alegria; vi gente pulando como criança, dançando na avenida.Vi gente acompanhando a "Bandinha", com o rosto banhado de lágrimas. Vi gente abrindo as portas, às cinco horas da manhã, "pra ver a banda passar". Vi gente se abraçando e se congratulando, com o sorriso mais largo que tinha para oferecer. Vi também alguém, aos prantos, em tom de despedida, agradecendo a Deus por lhe ter concedido a graça de participar da festa.Vi a espontaneidade da criança estampada na face de pessoas de todas as idades. Vi crianças, adolescentes, jovens,adultos e idosos confluindo para o mesmo ponto, comungando de um mesmo sentimento: a emoção de festejar o CENTENÁRIO da terra natal.
Era uma grande família reunida, comemorando o aniversário da "mãe" amada. Essa "mãe" que trouxe, para o seu regaço, filhos que há tempos não via. Essa "mãe" querida que tem o privilégio de ficar mais bonita, à medida que o tempo passa. Vi em cada fisionomia um aspecto de felicidade contagiante. O clima era de festa. Era o CENTENÁRIO da nossa querida Afogados da Ingazeira, ela que estava de braços abertos para abraçar os filhos, os visitantes, os convidados, enfim todos que por aqui passassem.
No meio de toda a euforia, de repente, me veio à mente a lembrança daqueles que, como Zezé Moura,estão se sentindo exilados e, tal qual ele,evocam a Canção do Exílio de Gonçalves Dias, para enaltecer o amor à sua terra querida.
Indubitavelmente o "nosso ceu tem mais estrelas"... e "nossos bosques têm mais vida". As palmeiras ainda abrigam o sabiá que canta... canta e encanta.
Alguns filhos do nosso torrão e outros adotados ou que por aqui passaram, expressaram o seu afeto em mensagens diversas. Outros não se pronunciaram; certamente não tiveram oportunidade ou, quem sabe!... sentindo um aperto no peito e um nó na garganta, preferiram calar e enxugar, de mansinho, uma intrometida lágrima que, com sabor de saudade, lhe escorria pela face. Penso naqueles que deixaram o "berço querido, com choro e gemido", como canta o saudoso Gonzagão em Triste Partida (Patativa do Assaré).
Pra não me tornar enfadonha, quero encerrar deixando aqui duas estrofes dessa mesma canção que,sem dúvida,tocam fortemente no coração de muitos de nossos irmãos que se encontram distante.
..."Trabaia dois ano, / Três ano e mais ano,
E sempre nos prano / De um dia vortar.
Mas nunca ele pode, / Só vive devendo
E assim vai sofrendo; / É sofrer sem parar".
"Se arguma notiça / Das banda do norte,
Tem ele por sorte / O gosto de ouvir,
Lhe bate no peito / Saudade de móio,
E as água dos óio / começa a cair".
Quero concluir, me dirigindo a você, Zezé, pra lhe dizer que admiro profundamente a sua maneira de evidenciar, nas suas recordações, a saudade que sente e o amor que dedica a esse pedaço de chão. Um grande abraço.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 04/07/2009
PROGRAMAÇÃO DO CENTENÁRIO DE AFOGADOS DA INGAZEIRA
Olá, Daniel Bueno, um grande abraço. Nem precisa dizer que tenho por você um carinho muito especial, você sabe disto.
Neste momento eu pecaria por omissão, se não dissesse que você puxou "o fio da meada" de um assunto que, acredito, unifica o pensamento de muitos afogadenses. (Lembrei-me de um personagem de Jô Soares que dizia: "tirou daqui" da ponta da língua). Pois é, você deu o "pontapé inicial".
Muitas eram as expectativas relacionadas a este centenário e, de modo especial, às atrações que abrilhantariam a festa. Acredito que a maioria da população, orgulhosamente, se ufanaria em receber e aplaudir os artistas da nossa terra. Gente nossa que comunga dos mesmos sentimentos, que fala da mesma emoção, que se alimenta da seiva da mesma raiz. Nem precisa repetir os nomes desses nossos talentos, seria pleonasmo.
É uma pena ver essa gente reluzindo lá fora, e não poder aplaudi-la aqui também . Se convidados, com certeza, se sentiriam felizes, muito mais pelo vínculo afetivo que os une à terra natal, do que mesmo pelo cachê recebido.
Como se sabe, aqui na cidade existem artistas plásticos que merecem destaque; grupos de teatro, de danças como coco, xaxado, quadrilha, frevo, pastoril, entre outros. Assim sendo, no pensamento de muita gente, havia um leve vislumbre de que cada grupo, representando seu bairro, tivesse oportunidade de homenagear a sua cidade, já que ela pertence a todos. Mas, como se diz popularmente, já que "Santo de casa não faz milagres", vamos aguardar o milagre do santo que vem de fora.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 16/06/2009.
Referências
Meu caro Fernando, boa noite. Só agora reservei um tempinho para manusear essa incrível máquina que, além de nos fornecer conhecimentos e esclarecer dúvidas, nos aproxima dos amigos proporcionando-nos agradáveis contatos com aqueles que há tempo não vemos. Distância hoje é coisa inexistente.
Precisamos louvar e bendizer a Deus pelas mentes iluminadas que inventaram esse, tão eficaz, meio de aproximar as pessoas. (Quão bom seria se fosse usado só para o bem.) Igualmente precisamos agradecer a você, Fernando, que, no desejo de unir amigos e divulgar a nossa história, coloca à nossa disposição essa sua página que vem, de fato,exercendo agradável influência no nosso meio.Que bom você ter esse espírito solidário, amigo, humano, eximido de egoismo e mesquinhez. Você merece a nossa admiração e respeito pelo que faz. Ratifico aqui o que nosso amigo Luciano disse. Você é, sem dúvida, aquele tecido que "não desbota".
Por falar em Luciano, faço referência a ele e Bigodão que, nesse "intercâmbio político-cultural" tão descontraído, nos deram aula de socialismo, regime autoritário, vultos revolucionários, et cetera e tal. Jamais teria eu a pretensão de avaliar esse "duelo". Tão pouco teria a petulância de querer entrar em parceria com essas duas feras. Apenas gostaria de dizer que se Luciano continuar sonhando desse jeito, muita gente vai querer embarcar na próxima estação, mesmo estando o trem em movimento. Bigodão (que na foto parece Anthony Quinn) foi buscar no recôndito da mente a lembrança de cada Barzinho que era frequentado por todo mundo, sem precisar o famoso aviso "Ambiente Familiar". Que tempo bom! Ademar também nos trouxe à mente pessoas que merecem destaque.
Pessoas, fatos e lugares citados por eles nos reportam a um tempo bonito e alegre que escorreram por entre os nossos dedos, sem que a gente percebesse.
O sonho do meu querido Luciano, falando da "prainha", me fez lembrar Rabo Azul que corria a fim de aparecer nas fotos dos visitantes. Parece que o estou vendo dormindo no banco da praça, sob o lindo pé de flambyant, bem em frente à Catedral. Outra cena que me veio à mente foi quando um belo dia, voltávamos do colégio, eu e Dária e resolvemos nos sentar na plataforma da prefeitura (em construção) para saborearmos a geladinha de João de Chica. De repente surge João Palmira com um tijolo na mão, para defender o seu território. Imagine o tamanho da carreira; nunca mais ousamos passar perto dele.
Nós sempre alimentamos a ilusão de que os dias que virão serão melhores do que os atuais; mas quando rememoramos os tempos bem vividos, sentimos uma vontade imensa de revivê-los. É aí que a saudade se instala. Essa inquilina que invade o nosso coração, faz sua morada e nos envolve numa mistura de tristeza e alegria, que a gente nem sabe explicar.
A saudade tem várias faces: às vezes ela nos chega revestida de ânimo, alegria, prazer; outras vezes vem de mansinho, machuca, doi, maltrata e nos entristece, deixando um vazio
Mas não há porque lamentar. A vida é, sem dúvida, uma contínua alternância de dias alegres e tristes, nublados e claros; e é exatamente por isto que ela é boa; porque cada momento é único, cada gesto é inimitável e cada acontecimento e irrepetível.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 15/06/2009
Dr. Hermes Canto - 99 Anos
Dr Hermes de Sousa Canto, quem é esse homem? Para mim é, ao mesmo tempo, fácil e difícil falar sobre essa figura. Fácil porque ele é parte integrante da nossa terra, da nossa gente, da nossa vida. Difícil porque, por mais que eu queira expressar o pensamento a respeito dele, ainda resta muito a dizer.
Imagino o dia e a hora em que aquele jovem médico, recém diplomado, saía da região litorânea, navegando não nas ondas do mar, mas nas ondas de poeira nas difíceis e tortuosas estradas daquela época; ou, quem sabe, pelos trilhos da estrada de ferro, rumo às plagas sertanejas. Que pensamentos povoariam a mente daquele jovem? Que sentimentos invadiriam o seu coração? Só um grande amor à profissão e o desejo de servir o impulsionariam a uma aventura tão estranha.
Pensando bem, eu ousaria dizer: Está provado que Deus é sertanejo. Ele sabia o quanto essa região carente precisava de um médico de tamanha envergadura. Ele aqui exerceu sua profissão com brilhantismo, não só em nossa cidade, mas por toda a região e até em cidades e povoados do vizinho estado da Paraíba.
Nos seus 99 anos vividos com dignidade e respeito, nunca teve o seu nome maculado pelo adjetivo "Mercenário". Este sim merece todo o nosso respeito e gratidão por ter sido, de fato, "o médico das nossas famílias". Quantas vidas foram salvas por ele! Que bom se muitos médicos de hoje se espelhassem nesse exemplo de retidão.
Não foi à toa que ele foi o primeiro prefeito constitucional de nossa cidade. Também não foi à toa que ele representou o nosso povo, por ocasião das posses dos dois primeiros bispos Diocesanos: o querido Dom Mota e o amado e inesquecível Dom Francisco. Que bom Dr. Hermes Canto, que o senhor escolheu esse pedaço de chão como o seu "CANTO", decidindo que aqui é o seu lugar. Não tenho dúvidas de que o senhor se sentiu acolhido e amado por essa gente que tão bem sabe abraçar quem a ela se achega.
É inegável que devemos homenagens também a D. Terezinha que, jovem e bela, o atraiu e foi um vínculo forte para prendê-lo aqui.
Pela sua integridade, pela sua dedicação, pela maneira singular de exercer a medicina e de fazer amigos, o senhor conquistou a estima de todos. Nós só temos que lhe agradecer dedicando ao senhor todo o nosso carinho e respeito.
Neste seu aniversário, nós é que estamos de parabéns porque o senhor continua pisando o nosso chão. Agradecemos a Deus por isto e suplicamos que Ele nos conceda a graça de tê-lo ainda por muito tempo no meio de nós.
Com muito carinho, sua eterna admiradora. Elvira.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 31/03/2009
Dr. Hermes Canto - 98 Anos
É, para nós, motivo de grande alegria poder prestar esta homenagem a Dr. Hermes Canto.
A nossa cidade de Afogados da Ingazeira teve o privilégio de acolhê-lo quando, ainda tão jovem, recém-formado, aqui chegou para exercer a função de médico com tanto respeito e dignidade.
Além de desempenhar uma atividade útil, bonita e de muita responsabilidade, teve o dom de cativar as pessoas. Dr. Hermes não foi aquele médico que prescrevia qualquer remédio sem sequer olhar para o paciente. Ele fazia questão de ouvir atentamente cada um, chamando-o pelo nome, sabendo onde morava e a que família pertencia. Ele foi o que se pode chamar “médico da nossa família”.
Que bom, Dr. Hermes, termos a felicidade de prestar-lhe esta homenagem pelos seus 98 anos de vida.
Que bom termos tido o sr. cuidando da nossa saúde. A sua relação médico-paciente, a sua atenção e o seu respeito só nos inspiravam confiança total. É por isso que continuamos cultivando pelo senhor um especial carinho.
O senhor merece todas as honras.
Na própria Bíblia encontramos uma ordem divina: “honra o médico porque dele necessitas; também ele foi criado por Deus (Eclo 38, 1).
Muitos enfermos que o senhor tirou do leito de dor, com certeza, deveu-se ao fato de eles terem fé em Deus e confiança no senhor, que não examinava apenas o físico, mas levava em conta, também, as emoções.
Que bom seria se o seu exemplo servisse para inspirar e modificar as atitudes de tantos médicos de hoje que nem olham na cara do paciente, apenas perguntam: “o que você está sentindo?” Nem esperam que ele diga o que sente, já passam uma meia dúzia de remédios que nada têm a ver com a doença, além de não servir, às vezes, até prejudicam a saúde.
Conte com nossas orações, Dr. Hermes, o sr. merece.
Agradecemos a Deus pela sua existência. Ele utilizou o senhor para realizar muitas curas.
Agradecemos, também, ao sr. pelas muitas vezes que nos assistiu, nos fortalecendo e nos curando das nossas enfermidades.
Que Deus o proteja hoje e sempre para que tenhamos oportunidade de prestar-lhe outras homenagens.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira, 31/03/2008
"...Foi a Saudade Que Me Trouxe Pelo Braço "
Saudosismo? Mas quem disse que não é bom sentir saudade, quando se recorda um passado bonito, alegre e feliz?
Há muito tempo não se via, em nossa cidade, um carnaval tão bonito - a expressão de alegria e a animação estampadas em cada face. Os "100 anos do Frevo" nos devolveram realmente a euforia dos velhos carnavais, que havia desaparecido.
As músicas foram selecionadas a dedo: Turbilhão, Voltei Recife, Vassourinha, Cabeleira do Zezé, Bandeira Branca e tantas outras nos transportaram para os anos 60 e trouxeram para a avenida muitos carnavalescos que estavam saudosos, a exemplo de Zé Coió que transbordava de alegria no meio da multidão. Penso que nunca se havia registrado tanta animação, numa segunda-feira de carnaval - que normalmente é um dia dia menos movimentado - até mesmo a forte chuva, que modificou a programação, não chegou a turvar a beleza da festa (aliás, a chuva é sempre bem vinda a qualquer momento).
Não se pode negar que o carnaval é, de fato, a "festa do povo", onde tudo pode: brinca quem tem dinheiro e brinca quem nada tem. As mais diversas fantasias nos chamavam atenção pela sua criatividade. Quem não gostou de ver o “29” de Toreba (Luciano Pires) desfilando? E o jovem que, portando cortina e chuveiro, reivindicava água da Compesa? Crianças fantasiadas frevando na maior animação? Este sim é o carnaval do pernambucano autêntico.
Sem querer radicalizar, ou escantear as inovações, é bom que resgatemos as nossas origens, até porque a juventude de hoje precisa conhecer as suas raízes e descobrir a beleza que existe nas nossas tradições. No momento em que o jovem realizar esta descoberta, começará a amar também as coisas do passado, a música sadia, sem violência, sem duplo sentido e sem agressividade.
Afogados estava precisando desse resgate. Não podemos deixar de elogiar o bloco “tô na folia” e a Rádio Pajeú que “em ritmo de Pernambuco”, durante toda sua programação, nos presenteou com uma requintada seleção musical da melhor qualidade; além de dar total cobertura ao carnaval não só aqui, como nas cidades vizinhas e até na capital pernambucana.
As polícias civil e militar e a guarda municipal merecem o nosso elogio e agradecimento pelo apoio e presença em todos os momentos. É claro que um evento desse porte não pode sair 100%. Tivemos que tolerar, durante o dia, na Avenida Rio Branco, o som ensurdecedor de música, ou melhor, de sons sem sentido algum; além de carros estacionados em frente a residências, com o som ligado em volume atordoante. Apesar disto, podemos dizer: Que bom! Afogados viveu um dos carnavais mais alegres e tranqüilos de nossos dias e também recheados de saudade. Por que não? Afinal de contas: quem nunca sentiu saudade que atire a primeira pedra.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira - 22/02/2007
Obedecendo a uma recomendação médica, saí para fazer uma caminhada matinal. Pensando em enriquecer um pouco mais o exercício salutar, dirigi-me às margens do Rio Pajeú, a fim de contemplar a paisagem natural. Qual não foi meu espanto ao deparar-me com o absurdo lá existente em termos de poluição. Saí pensando: "quem te viu, quem te vê..."
À minha mente afloraram vários questionamentos:
-Quem não se lembra das extraordinárias cheias do Rio Pajeú?
-Quem não se lembra da imensidão de pessoas que às suas margens afluíam e lá ficavam como que extasiadas com aquela singular beleza?
-Para onde foram as águas cristalinas, que em noites de luar refletiam o clarão como se fosse um imenso espelho da natureza?
-Em que estado se encontra o rio que já inspirou tantos poetas, que dá nome à nossa emissora de Rádio, casas comerciais, hotéis, pousadas, poesias, jornais, enfim, o rio que dá nome de destaque a toda uma região?
-Onde está o carinho, a atenção, o zelo pelo velho Pajeú, outrora cantado e decantado em verso e prosa?
Estas e outras interrogações são jogadas ao ar e não podem ficar sem respostas.
Hoje o Rio Pajeú quer gritar, mas não consegue porque está sufocado. Ele apenas se remexe, e geme e silenciosamente chora debaixo de uma imundície sem precedente: lixo, ossadas e vísceras de animais, esgotos, dejetos, metralhas, pocilgas, etc, etc, etc.
O que se está esperando ainda? Que a natureza mude o seu curso? O Pajeú, mesmo não sendo réu precisa de um defensor. Aqui ele é a vítima que, pacientemente, espera a oportunidade para novamente voltar a exibir o encanto e a beleza de outrora, oferecendo, ao mesmo povo que o está destruindo o romantismo de um rio que, dividindo uma cidade ao meio, vem proporcionar a todos momentos deslumbrantes.
Pensando bem, não é só o rio que chora, mas a própria natureza. Precisamos gritar aos quatro ventos a fim de sensibilizar as autoridades competentes no sentido de providenciar meios de revitalizar urgentemente o Rio Pajeú. Feito isso, o cenário mudará, uma vez que os benefícios virão para todos, em especial para a população ribeirinha que se encontra com a saúde comprometida pela poluição.
Há um adágio popular que diz: "O feitiço vira contra o feiticeiro". É exatamente o que está acontecendo. Quem mora ou trabalha às margens do Rio, joga o lixo no seu leito e fica convivendo com a fedentina e pondo em risco a sua própria saúde.
A cidade precisa ser alertada para a situação em que o Rio se encontra. Trata-se de um crime contra o meio ambiente; é um caso de saúde pública que vem se agravando gradativamente.
Isto não é um fato novo; há bastante tempo que o nosso Pajeú foi relegado ao total abandono. Se não forem tomadas as devidas providências, em breve a cidade vai sentir os reflexos dos males próprios dos ambientes poluídos.
Já ouvimos muita gente dizer: "quem bebe da água do Rio Pajeú, nunca mais esquece". Eu porém digo - quem olhar hoje o leito do Rio Pajeú vai sentir uma profunda dor no coração e nunca vai esquecer a cena deprimente que lá constatamos. Sabemos que nas outras cidades por onde ele passa, recebe as mesmas agressões. Entendemos, porém que, se cada um fizer a sua parte o resultado final será positivo.
Se o gestor de cada cidade se empenhar na revitalização do Rio Pajeú, sem dúvida alguma, terá um marco inesquecível na sua administração; coisa que os gestores anteriores não tiveram interesse em fazer.
O Pajeú é uma riqueza que nos foi dada por Deus e é necessário preservá-la. Deixar para depois é impossível; trata-se de um caso pra ontem.
Aqui fica o nosso Grito de Alerta. Não estou me intrometendo em negócios alheios aonde não fui chamada, nem me precipitando a falar do que não devo. Ocorre que o estado em que se encontra o nosso Pajeú sensibiliza qualquer filho da terra ou cidadão de boa fé que pense no bem comum; afinal, Deus nos deu inteligência e nos cumulou de dons para que estes sejam usados em benefício uns dos outros.
Não queremos magoar ninguém nem temos a pretensão de fazer críticas a quem quer que seja. Pretendemos tão-somente unir forças para solucionar problemas e mais adiante podermos gritar aos quatro ventos que o Pajeú ressuscitou.
Confiantemente depositamos as nossas esperanças no atual gestor que, tenho certeza, "por amor a essa terra" (como ele próprio diz) não vai deixar o Pajeú desaparecer.
Elvira de Siqueira
Afogados da Ingazeira - abril/2005
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