AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
Edson Costa de Siqueira

CRÔNICAS / CONTOS / OPINIÃO

 

Djalma Nunes Marques
www.biologicus.com.br

 

 

 

 

O GAROTO ELIZÃO E SUAS QUALIDADES EXCEPCIONAIS (1)

O desconhecido, porém maior jogador de futebol de todos os tempos. Aquele a quem Garrincha e Pelé gostariam de ter conhecido...e se curvado.

Por Xexéu Bandeira!

Xexéu, sertanejo, nascido no interior de Pernambuco, era frequentador de peladas e conhecido como um eterno sonhador da região interiorana das Minas Gerais, pra onde se mudou ainda jovem. Ele se dizia um caçador de talentos. Por isso mesmo, foi o descobridor, ainda que por mera casualidade, do maior talento futebolístico de todos os tempos: Elizão. Desconhecido, penso eu, da maioria dos admiradores de futebol do maior país de futebol do planeta.

Xexéu, naquele tempo em Minas, estudou na escola com nada mais nada menos que com Wanderley Luxemburgo. Eram colegas durante todo o primário; andavam de calça curta subindo a ladeira do Anum-preto até chegar na Escola Carlota Brekfeld. Isso ocorreu durante anos até que Xexéu fez admissão noutra escola e Luxemburgo se mudou de Minas para tornar-se, depois, um dos grandes treinadores do Brasil. Na época dos fatos aqui narrados pelo próprio Xexéu, Luxemburgo era treinador do Palmeiras.

Ao descobrir o garoto Elizão e suas qualidades excepcionais, Xexéu teve a idéia brilhante de reatar a velha amizade de colégio com o grande treinador. Depois de várias tentativas, de erros e acertos, conseguiu encontrá-lo. Foi num período difícil e tenso da maior competição mundial de futebol, o campeonato nacional. O Palmeiras disputava uma semana depois o título frente ao São Paulo. Apesar do período tão delicado que vivia nessa disputa de vida ou morte, Luxemburgo decidiu recebê-lo. Afinal, um velho e querido amigo como Xexéu não poderia ficar decepcionado.

O encontro se deu de forma emocionada à beira do gramado em um dos treinos no famoso Parque Antártica. Após o reencontro de praxe, abraços, saudações, perguntas a respeito de velhos amigos e parentes, Xexéu começou a explicar a Luxemburgo a razão daquele encontro tão esperado por ele. Esse foi o relato de Xexéu para mim descrevendo sua conversa com o treinador:
Luxe, eu encontrei uma coisa tão rara nessa vida que só poderia confiar, contar e mostrar a um amigo de grande confiança como tu. Foi o seguinte, Luxe:

Eu andava pelas bandas de Carnaíba, interior de Pernambuco, quando soube de um cabra que tocava uns 40 instrumentos e que, segundo me disseram, tinha aprendido tudo em 6 meses e sem professor nenhum. Como tu sabe, Luxe, eu vivo atrás de gente desse tipo a vida toda. Quando conheci o cabra ele tava comendo um sarapatel com farinha num boteco de Quixaba, um povoado perto de Carnaíba. Depois de me apresentar, perguntei que instrumentos tocava e ele me disse: Safona, violão, guitarra, triângulo, pandeiro, zabumba, violino, viola de arco, violoncelo, contra-baixo acústico, tuba, bombardine, trompa, trombone de vara, trombone de picho, trompete, flauta doce, flauta transversa, flautim, clarinete, oboé, fagote, gaita de fole, sax alto, sax tenor, bandolim, viola caipira, viola da gamba, alaúde, piano,cravo, tamborim e reco-reco... e dou umas dedilhadas na harpa e no cavaquim. Aí eu disse: mas Elizão, você só citou 38, então ele respondeu: o resto é invenção do povo.

Quando lhe perguntei como aprendeu tantos instrumentos em tão pouco tempo, ele me respondeu que qualquer coisa que lhe explicassem como funcionava ele aprenderia em apenas dois dias, e tava resolvido. Fui perguntar a mãe dele, dona Lika, se ele tinha sido um menino normal na infância. Quando cheguei na sua casa a veinha de 84 anos tava em cima do telhado trocando uma telhas velhas e me respondeu que sim; só que tinha nascido de 5 meses e que com três meses de nascido já estava andando se agarrando nas paredes. Nunca quis mamar e a primeira mamadeira foi uma espiga de milho verde que ele chupava e depois comia com sabugo e tudo.  

Dois meses depois começou a falar e ir pra escola. O lanche dele era meio diferente dos meninos da rua dele. Só gostava de levar buchada e mocotó de porco na lancheira. Na sexta-feira levava uma mão de vaca que dava um trabalho danado pra ela fazer.

Eu me assustei mais ainda quando ela me disse: a única coisa estranha mermo que eu achei em Elizãozim é que ele não começou a falar na nossa língua, mas começou por um ta de ingrês; 3 mês depois começou a falar um ta de francês e eu só vim entender o que ele falava em português quando já tinha um magote de povo de fora do Brasil conversando com ele noutras línguas lá em casa. Até o Padre Antonio quando recebia umas carta do Papa ou queria saber umas coisa de latim da missa, ia lá em casa atrás de Elizãozim pra ele ler e traduzir.

A essa altura da história, Luxemburgo já estava meio assustado e preocupado sem saber aonde Xexéu queria chegar ou talvez pensando que ele teria perdido o juízo de vez. Mas, aí veio o mais interessante:

Véio Luxe, eu descobri que se desse certo o que eu tava pensando, tinha chegado a hora deu ficar rico. Se aquele cabra aprende tudo que se ensina em dois dias, eu ia ensiná-lo a jogar futebol e ia torná-lo um gênio mais famoso que Pelé. Não deu outra, Luxe. Apesar de sua pequena estatura e do tamanho desproporcional de seu pé, aos 17 anos media 1,39 de altura e calçava 54, e do bucho redondo feito uma melancia, e ainda por cima careca, eu tive esperança e tentei explicar a ele o que era futebol. Convidei o baixim pra ir num campo de futebol, que fica lá de lado da cadeia, e quando comecei a explicar ele me disse: diga logo onde quer chegar; quer colocar essa bola dentro daqueles três pau ali? Antes que eu terminasse de explicar, ele já me disse que poderia fazer isso independente de quantas pessoas tivessem na frente pra tomar a bola dele.   

Conversa vai e nenhuma vem, pois ele não aceitava muita explicação de ninguém, levei Elizão pra um treino com o time de Tuparetama, onde eu conhecia Culé de Pau, um velho amigo que jogava no Guarani Futebol Clube de lá. Luxe, meu amigo, foi coisa de doido. Arranjei um camisa de um time juvenil, o Arco-iris Futebol Clube, porque a de adulto ficava grande pra ele, e fiz um buraco na frente pra poder caber a barriga de Elizão que tava cada dia maior, e mandei o peste pro campo. Todo mundo rindo e fazendo graça com Culé de Pau, zombando do “craque” que ele tinha apresentado ao time.

Pois bem, Luxe, começô o treino e Elizão pegou logo na bola e saiu correndo pela lateral com um pé fora e ou outro dentro do campo, pois tem as pernas abertas feito cancela de roçado, passou por Mané de Filó, dribô Serra-pau e numa velocidade que quase não dava pra vê-lo. Pronto, aí começou a brincadeira: meteu a bola no canto da barra de João Buga que ele não viu por onde ela passou, 1X0 pro time de Elizão. O time adversário nem sequer tirou o centro direito, Elizão partiu como um raio tomou a bola, correu pra outra lateral, fez a mesma coisa, meteu a bola por debaixo das pernas do nego Dão, deu um banho em Lulu Pantera, um nego safado do outro time, e tome 2X0. Com 10 minutos de jogo, tava 8XO pro time de Elizão.

A essa altura tava todo mundo doido, Luxe, e fizeram, uns três cabras, Luiz Neguim, Luiz Cocada e um baixim entroncado chamado Geni, uma falta nele. Aí o juiz, seu Toreba, mandou parar, mas aí foi uma confusão dos diacho. Elizão se levantou e disse ao juiz: ta pensando que eu sou veado? Se o caba bateu em mim, bateu, eu me levanto, pego a bola e vou fazer o gol, pode guardar seu apitim de merda que esses três fresco aí não vão me impedir de fazer gol não. Partiu pra dar umas porradas no juiz, mas depois de muito explicar as regras do jogo, seu Toreba conseguiu fazer que Elizão aceitasse que fosse batida a falta. Elizão mesmo foi cobrar.

Luxe, tu nunca visse uma coisa daquela, homi de Deus. O chute de Elizão foi tão forte, tão poderoso, que rompeu o travessão em 16 pedaços. Varou a rede, bateu no basculante de uma janela do hospital que ficava numa ladeira junto do campo, perto da casa de seu Zezé, um ex-prefeito da cidade, entrou de hospital a dento, quebrô as balança dos consultório e arrebentou três máquinas na lavanderia, deixando duas funcionária, uma delas eu me lembro que chamava dona Carmélia, feridas com ronxa pelo corpo inteiro. O final do primeiro tempo tava 17X0 e 4 jogadores do time adversário tinham sido socorridos pro hospital por causa das boladas de Elizão.

No intervalo, Elizão queria buchada ou sopa de mocotó de porco pra comer. Reclamando que não tinha essas coisas pra ele comer, chupou 179 laranjas e bebeu 17 águas mineral. Todo mundo rodeando o nanico, impressionados com a genialidade dele, foi quando ele irrompeu e disse: o que é que vocês tão olhando? Isso é o jogo mais besta e mais fácil que já inventaram.O treino acabou com um placar elástico a favor do time de Elizão, 39X0, todos os gols dele. No total foram 12 bolas gastas durante o treino, tudo furada pelos chutes de Elizão.

Depois do treino, levei ele lá em casa, falei um pouco de dieta que ele precisava fazer pra ganhar um corpo atlético, mas ele foi incisivo: minha comida é cozido, buchada, bode e mão de vaca. A sobremesa é doce de leite ou então mel de engenho com cuscuz. Luxe, será que tu podes ir comigo lá falar com Elizão pra ver se ele ainda quer jogar futebol? Porque ele ficou achando que teria que mudar a dieta e ficou chateado. Luxemburgo como me conhecia muito bem e sabia que eu nunca fui homi de mentira, parou o treino na mesma hora e partiu comigo pra Quixaba pra conhecer Elizão. Pegamo um avião até Recife e de lá fomos num ônibus da Princesa do Agreste com um tal de Zé Galêgo dirigindo. Quando nós chegamos lá era mais de meia noite e fomos encontrar Elizão no mesmo boteco comendo tripa de porco assada com cachaça e contando aos colegas como era fácil jogar bola. Luxemburgo se apresentou e foi direto ao assunto: quero levar você, Elizão, pra jogar no Palmeiras na final de domingo contra o São Paulo. Elizão comendo e com a boca cheia de farinha, disse: eu vou, só pra mostrar prus besta de São Paulo que esse joguim é muito mais fácil que garrafão que nós joga aqui. De manhã pegamo o avião e chegamo em São Paulo. Elizão roncou a viagem inteira que até o piloto veio saber o que estava acontecendo, pensando que era defeito nas turbina do avião. Chegando em São Paulo fez dois treinos, jogou 10 minuto em cada um e fez 21 gols no total. Luxemburgo ficou impressionado e guardou a surpresa pra o dia da final. Nem a imprensa teve conhecimento do assunto.

Chegou o dia da final e Luxemburgo deixou pra colocar Elizão nos 10 minuto finais pra não causar vergonha ao time adversário, afinal em 10 minutos ele poderia fazer no mínimo uns 8 gols. Trinta e cinco minuto do segundo tempo, São Paulo ganhando de 2X0 e quase comemorando o título, Luxe disse: levanta Elizão, faz alongamento, aquece uns 2 minutos e entra. Aquece bem. Faz uns 4 gols aí e acaba com a alegria desses bestas. Elizão levantou-se, se espreguiçou, porque nunca aceitou essa história de alongamento e aquecimento dizendo que não era coisa de homi e, numa frase só foi taxativo: seu Luxemburgo vou lhe dizer uma coisa, isso é jogo de boiola. Eu não vou ficar aqui frescando e correndo dum lado pra outro me aquecendo não; quem gosta de esquentar é chaleira. E tem mais, e eu não quero mais saber desse negócio de correr atrás de bola não, quem corre atrás de bola é guarda de trânsito. Vou pra casa comer pamonha, munguzá e cuscuz com leite que aqui só tem comida de fresco, tô com fome, vou é comer. Pegou a maletinha que ele levava pra onde ia e foi embora do campo sem dar mais satisfação a ninguém. Luxemburgo com a mãos na cabeça, o banco todo em pânico, acabou a partida e lá se foi a história do craque desconhecido Elizão.

Ainda hoje meu amigo Luxe tem aquele título engasgado na garganta. Naquela hora terminava a história do maior jogador de futebol do Brasil, uma história que apesar de ser tão verdadeira tem gente que ainda não acredita, pode?

Djalma Marques
Recife/PE, novembro de 2009

 

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Elizão teve um irmão que foi empresário dele, sabiam disso? Se chamava Elisbão. Segue aí um pouco da estória dele como empresário do grande craque.

ELISBÃO, O IRMÃO E EMPRESÁRIO DO CRAQUE ELIZÃO –
NOVAS REVELAÇÕES A XEXÉU BANDEIRA (2)


O homem que criticou Xexéu Bandeira porque descreveu Elizão – o craque desconhecido – de maneira subestimada, uma vez que Elizão foi muito mais do que Xexéu retratou em seu primeiro escrito.

Djalma Marques

A chegada de Elizão ao sertão de Pernambuco depois de ter abandonado o Palmeiras não foi bem uma surpresa, mas uma decepção para muitos amigos do craque que esperava vê-lo, em vídeo-taipe por meio da grande novidade da época naquelas bandas, a televisão. Depois de muitos anos do sucedido com o craque, Xexéu, pressionado pelos palmeirenses, decidiu viajar ao sertão pernambucano pra tentar levantar mais dados com respeito a Elizão, pois era um consenso da torcida que o assistiu apenas em dois treinos de 10 minutos, fazer um museu em sua homenagem. A estátua de Elizão deveria ser colocada na frente do Museu ao lado da de Ademir da Guia, um dos craques que poderia ser comparado, embora muito de longe, com Elizão, o eterno futuro ídolo da torcida palmeirense. Casualmente, Xexéu estava numa feira no povoado de Albuquerque Né, interior de Pernambuco, perto da antiga vila Macaco, hoje emancipada Iguaracy. Portanto, Albuquerque Né foi o palco do fantástico encontro entre Xexéu Bandeira – o caçador de talentos – e o irmão do craque desconhecido Elizão, o não menos excêntrico e importante homem da região sertaneja daquele estado.
Xexéu descreveu pra mim, garantindo e jurando de pés juntos, que cada fato aqui narrado tem a mesma veracidade que aqueles que ele descrevera antes com respeito ao craque Elizão. Andava Xexéu na feira, quando se aproximou dele um tal de Zé Grande, que de grande só tinha o nome, já que não media mais do que 1,40m e tinha um olho cego. Seu Zé Grande, dono de um caldo de Cana de Albuquerque Né, quando viu Xexéu na feira se aproximou e perguntou:

O senhor é Xexéu, o escritor que descreveu a vida de Elizão? A partir desse ponto vou deixar que Xexéu mesmo descreva essa outra história tão impressionante. Sim, sou eu mesmo, o senhor já leu a respeito de Elizão?

Seu Zé grande deu uma risada e disse: eu joguei com Elizão e conheço a família dele toda. Por sinal, seu Xexéu, o irmão dele, seu Elisbão, andou falando que queria lhe conhecer porque acha que o senhor diminuiu muito o talento de Elizão naquela história. Então eu lhe disse: homi, eu falei que Elizão era um craque desconhecido, que nasceu de 5 meses, andou depois de três meses e em seguida já foi pra escola e começou falar noutras línguas antes mesmo de falar português. Disse ainda que ele só levava buchada e mão de vaca na lancheira pra escola, que tocava 38 instrumentos, foi o jogador com maior número de gols por partida, tendo feito 69 em 4 treinos....o que mais ele queria que eu dissesse?

Respondeu seu Zé Grande: não sei, pergunte a ele. Quando lhe perguntei onde poderia encontrar seu Elisbão e que idade tinha, tomei um susto. Zé Grande disse: ele tem 88 anos e o senhor só vai encontrá-lo lá na Jurema, porque ele é vaqueiro e sai quando amanhece o dia e só chega à noitinha. Tem dias que ele vai pegar boi brabo que se soltou e outros dias ele vai caçar tatu com os 14 cachorros perdigueiros que ele tem. Segundo me disse Zé Grande, a caça de tatu é porque a única alimentação de Elisbão desde criança é farofa de tatu com suco de fruta-palma. A vida inteira só comeu isso. Disse que ele tem em casa 3748 cascos de tatu que ele coleciona depois que come o bicho. Eu fiquei assombrado e lhe perguntei: e no final de semana ele está em casa?

Aí ele me disse: nos finais de semana ele trabalha de ferreiro lá na cidade dele, Quixaba, e passa o dia todo fazendo foice, enxada, machado e ferradura pra cavalo. Informei-me mais a respeito da vida de Elisbão e, a cada revelação eu tinha uma surpresa. Ele tinha 28 filhas, todas mulheres, era 14 par de gêmeas. Não tive dúvidas que eu estava, de novo, diante de outro ícone da história sertaneja. Procurei saber onde era a tal Jurema e descobri que era um sítio com uma caatinga que lembra os filmes do tempo do cangaço.

Peguei um cavalo e cheguei lá por volta de 4 horas da tarde pra esperar Elisbão que estava correndo atrás de uma novilha braba que havia se perdido na caatinga há bem três dias. Quando deu 05h30 da tarde, com o sol começando a querer se recolher por trás das serras azuis de Quixaba, eu ouvi um barulho vindo da mata que parecia mais um trem descarrilado.

Era uma gritaria dos infernos, bicho berrando, uma poeira que parecia um redemoinho no meio do deserto, folha e galho se espalhando pelo ar e, de repente, aparece como que do nada um cavalo branco, todo sujo de terra e carrapicho por todo lugar, montado por um senhor, menor do que Elizão, careca, barrigudo, com as mãos grossas e pequenas, um gibão de couro que parecia ser maior na horizontal do que na vertical, agarrado no rabo da rês, arrastando a coitada e gritando: aprendesse, molesta, que não se pode fugir de Elisbão?

A essa altura eu vi que estava na minha frente alguém que eu tinha que ter cuidado quando falasse com ele. Pra minha surpresa, tinha dois rapazinhos sentados numa pedra, com uma panela grande e uma cuia de cabaça grande como quem estava esperando o mesmo que eu. Seu Elisbão desceu do cavalo da maneira mais estranha que eu jamais havia visto. Quando observei o tamanho dele, já pensei comigo mesmo: como é que ele vai descer do cavalo daquela altura, será que vão levar uma escada pra ele? Oxi, foi muito engraçado, Elisbão pegou nas duas orelhas do cavalo e gritou: Arre bicho. O animal levantou as patas dianteiras ficando praticamente em pé nas patas traseiras. Foi aí que eu tive que sorrir. Elisbão botou os joelhos na testa e começou a gritar rebolando de frente pra trás feito uma bola e caiu no chão pela garupa do cavalo. Eu pensei, meu Deus, que danado é isso? O homi ficou em pé e, se dirigindo aos rapazes, foi logo perguntando: cadê meu tatu? Era uma panela de farofa de tatu e uma cuia de cabaça de suco de fruta-palma que dava pra uns dez homens ou mais comerem. Ele foi pegando uma colher grande e, com a cabeça quase inteira dentro da panela, o suor escorrendo pelo rosto, começou a comer feito um bicho do mato. Um dos rapazes me disse: faz três dias que ele não come, só correndo dia e noite atrás dessa novilha, pois quando ele empomba com uma coisa assim ele só pára quando termina.

A essa altura a novilha tava ainda no chão com a língua de fora de tão cansada. Depois de um tempo, ele falou comigo, mas sem olhar pra mim, falou como que pra dentro da panela e perguntou: quer tatu? Fiquei calado, deixei o homem comer um pouquinho e quando senti que já dava pra falar, lhe disse: seu Elisbão, eu sou Xexéu Bandeira que... nem bem terminei a frase, ele levantou só a sobrancelha de dentro da panela e, com a voz grossa me disse: Fi duma quenga. Eu lhe disse: seu Elisbão, que é isso? Ao que respondeu: como é que você escreve uma história daquela sobre Elizão, meu irmão, dando a entender que ele era até mêi veado? Meu irmão era macho. Na sua estorinha, Elizão é todo delicado. E tem mais: não terminou ali a estória dele, você é que não sabe merda nenhuma e fica escrevendo besteira.

Eu fui empresário de Elizão ainda um bocado de tempo e ele voltou a jogar, você é que não sabe de nada. A essa altura, eu comecei a elogiar Elizão, mostrando como realmente ele era macho mesmo e aí Elisbão começou a amansar a tal ponto que aceitou conversar comigo e me contar sua experiência como empresário daquele craque desconhecido. Foi mais educado e perguntou: quer suco de fruta-palma? O tal suco era como uma baba grossa, esverdeado, e parecia cheio de pedaços de espinho de palma. Eu agradeci dizendo obrigado, aí ele me perguntou: né homi não? Num tem coragem de tomar do meu suco? Caba macho do sertão não toma essas frescura que vende em garrafa por aí não. Essas bebidinhas geladas coloridas é tudo coisa de fresco, viu? Por isso que o nome delas é refresco mermo.

Finalmente, sem contradizer Elisbão, pois não queria terminar igual à novilha, que passou o resto da noite estirada no chão gemendo, parece que ganhei sua simpatia. Fui na sua casa e ele me mostrou os cascos de tatu e me disse: são quatro tatu que como por semana, com farofa feita da graxa do bicho que chega fica amarelinha. Depois tomo uma três cuia dessa de suco de fruta-palma que é suco de homi mermo. Sentado num tamborete, na calçada com piso de tijolo queimado, passamos a noite inteira conversando a respeito de Elizão. Vou passar a palavra pra Elisbão e ele vai contar algumas coisas que fez no seu tempo de empresário do craque. Pois bem, quando Lili, é assim que nós chamava Elizão, porque era o mais novo dos 37 irmão, chegou de São Paulo eu notei que ele ficou chateado e eu perguntei, o que foi que ouve, Lili? Ele me revelou dizendo: sabe por que eu não quis ficar lá no Palmeira mermo? Porque achei o jeitim daquele tal de Luxemburgue mêi amulherado. Ele é todo apertadim, cabelim penteado, eu acho que ele é frango e eu não vou trabalhar com frango não.

Depois disso, eu conversei com Lili e expliquei que tinha um caba que eu já tinha ouvido falar que pelo nome devia homi mermo, era um tá de Leão, técnico do São Paulo. Amansei Lili e resolvi fazer uma viagem com ele pra falar com esse ta de Leão, quem sabe ele queria contratar meu irmão. Na semana seguinte, viajamo pra São Paulo e fomo pela Itapemirim, porque esse tal de avião eu não confio. Num posso confiar num bicho que a gente não ver as roda e que só anda num pedacim de estrada quando chega nas cidade e quando sai. Num tem suspensório pra segurá-lo, quem pode confiar numa peste daquela? Eu também soube que ele não tem fogão de brasa, como é que eu ia cozinhar meus tatu e fazer minha farofa na viajem. Me disseram que as comida que dão nesse ta de avião é mêi de fresco também. Lili disse que vem numas bandejinha feito comida de menino, isso é lá coisa de homi! Além disso, Lili disse que o caba viajando nesse avião não manda em nada, quem manda é um caba que fica falando numa difusora que ninguém ver e umas mulezinha que ficam pra frente e pra trás dando ordem: ajeita a cadeira, amarra o cinto, tome esse travesserim pra dormir...eu gosto lá dessas frescura! Ninguém manda em mim não, seu Xexéu, só quem mandou em mim foi o finado meu pai, e mermo assim eu só obedecia na base do cipó, oxente! Fomo na Itapemirim e eu chegava nos canto e pedia pra fazer meus tatu e tinha fogão pra eu fazer.

Eu levei três saco grande com 18 bicho cevado e mais dois saco de fruta-palma. Doze desses tatu eu cacei no mato e seis eu peguei no cemitério da Intam, perto de Albuquequené. A viagem durou quase seis dia por causa duns atoleiro que teve na Bahia e tivemo que mudar pra o ônibus da São Geraldo. Em Quixaba já tinham me avisado que os caba de São Paulo gostam de mexer com gente daqui, então eu já fui preparado. Foi dito e feito. Quando cheguei na rodoviária, assim que eu desci veio um caba com o dedo levantado como apontando pros inferno, e me disse: táxi? Eu fiz de conta que não tinha ouvido e quando dei a volta lá vem outro, do mermo jeitim: táxi? Aí eu não agüentei e disse: é a tua mãe, aquela rapariga. Depois veio um guarda e me ajudou a alugar um carro, mas parece que tava combinado, pois quando eu desci, olhei pra cima do carro e tava escrito: táxi. Eu não quis discutir e fui pra pensão que tinham me indicado em Quixaba. Ô povo ruim da peste, esses tal de paulista.

Mermo sendo gente que vêi de Quixaba e de Tavares, na Paraíba, os dono da pensão se achavam os tais, os paulista, falando todo diferente que eu quase num entendia. E pior, não queriam que eu soltasse os tatu dento do quarto, dizendo que os bichim fedia, já viu falar nisso? Quem já viu tatu feder? Aquele cheirim é deles mermo, oxi. Foi uma confusão da mulesta, eu tive que mostrar que eu não tinha ido pra São Paulo de mão abanando não. Eu levei foi a peixeira de doze polegada e a mausa que o finado Marculino, irmão de meu pai me deu de presente. Num instante os caba se calaram. Arranjaram um quartim lá atrás pra eu botar meus bicho. Eu soltei tudo lá e ainda arranjavam comida de resto na pensão pra dar pra eles. No outro dia fui ligar pra sede do São Paulo, pois arranjei o telefone com a moça da pensão, e quem me atendeu foi a secretária.

Tava o maior barulho e eu disse: quero falar com seu Leão. Ela sorriu e disse: não é assim moço, falar com o técnico do São Paulo é mais difícil do que falar com o presidente da República, e perguntou quem eu era. Aí, quando eu disse que era o irmão de Elizão a mulé deu um grito e disse: o irmão de Elizão, o que era do Palmeiras? Eu disse: isso mermo, mocinha, chame o caba aí. Seu Xexéu, o telefone fez um silencio que parecia mais sala de velório antes do defunto chegar. Na merma hora, na bucha, eu ouvi aquela voz grossa do outro lado: alô, aqui é o Leão, quem ta falando? Aí eu disse: agorinha mermo quem tá falando é o senhor. Mas eu gostei da fala do caba, era grossa, senti que era macho, não era como a que Lili disse do tal Luxemburgue não. Conversa vai, conversa vem, ele quis saber que dia eu ia lá falar com ele.

De tarde eu já tava lá com Elizão pra conhecer esse ta de São Paulo. Seu Xexéu, tava um magote de pé rapado me esperando, parecia o povo de Quixaba em dia de procissão na porta da igreja esperando o andor sair. Eu achei estranho demais, seu Xexéu. Os caba tudo com uns cabelim safado, uns amarrado atrás feito trança de mulé sem-vergonha, tudo sem barriguinha e umas camizetinha de caba safado e uns desenho nos braço de coração, cobra, nome das pessoa, coisa de gente ruim, num sabe? Quando eu me virei pra ir embora , lá vem o vozeirão do ta de Leão: bom dia seu Elisbão. Eu vou dizer logo, seu Xéxeu, eu fiquei desconfiado. O senhor não vai acreditar, ele tava com um caba que usava brinco nas orêia, feito mulé de zona. Eu pensei: isso né canto de homi, Lili mermo não vai ficar aqui não, isso é uma zona de boiola. O ta do leão, com aquela voz de homi, tava era com uma pulseirinha de mulé no braço, seu Xexéu. Como é que um homi com aquela panca de macho, a cara cheia de buraco de espinha que parece saco de estopa antes de lavar, tem uma pulseirinha de mulé no braço, parecendo aquelas de rumbeira de circo?
Vôte, esse esportezim que chamam de futebol né coisa de homi não. Eu disse logo a esse Leão, que pra mim já era mais leoa do que leão: se meu irmão vier jogar aqui no São Paulo, ele não vai falar com nenhum desses boiola de rabim de cavalo não, vou avisando logo. Ajeitaram pra lá, ajeitaram pra cá, trussero um café pro mode eu me acalmar, porque eu tava virado na gota serena quando eu vi aqueles boiola ali. Uma mocinha, até engraçada a danada, trouxe um chá de camomila pra mim, aí eu disse: minha fia, nós lá do sertão não precisamo dessas coisa pra se acalmar não, se eu tiver nervoso eu dou dois aboio pra cima e passa tudo. Sabe o que ela me disse, seu Xexéu? Tome isso que é bom porque se o senhor continuar assim vai ter depressão. Aí eu me zanguei com ela. Ói, seu Xexéu, quer me ver com raiva é só falar que homi tem doença de mulé. Essa safadeza de depressão nem mulé mermo é pra ter. Ói, uma fia minha inventou de ter depressão uma vez, sabe o que eu fiz? montei ela em Moleque, um burro brabo que era de Zizinha, uma fia minha das mais nova, que é mais puxada pra macho do que pra fêmea, e soltei a condenada dentro da caatinga atrás dum novilho raceado que tinha se soltado do curral.
Ela passou uns dois dia por dentro do mato, sem comer nem beber e sem descer do burro, porque o bicho é brabo, quando o caba quer descer ele mostra os dente feito vira lata acuado. Pronto, acabou a safadeza. Depressão lá em casa quando as mulé começam a falar do assunto eu vou logo selando o burro, num instante elas mudam e vão falar de outra coisa. Seu Xexéu, como é que uma bichinha maga, toda se balançando, feito boneca de pano, vem com estória de dizer que eu posso ter depressão? A infeliz!. Dei-lhe uma carreira por dentro da sede do São Paulo que ela foi parar lá no mêi da rua.
Vai-te daqui mulesta dos cachorro, foi o que eu disse a ela. Veja o senhor, seu Xexéu, tem gente besta que diz que eu sou mêi brabo, mas não é não. Acredite se quiser, levei Lili no outro dia na sede do São Paulo, a primeira coisa que Leão veio fazer foi apresentar ele a um caba, um tal de massagista. Ele botou Lili de calção em cima duma mesa e sabe o que ele queria fazer, e até começou a fazer? O senhor não acredita, ele começou a alisar as costa do meu irmão bem de levezinho do jeito que a gente alisa faca pra ver se já ta amolada. Disse que ele ia levar massagem pra poder ficar pronto pra jogar no outro dia. Num prestou não, num prestou não.
Ói, a família toda tem raiva de boiola, agora, nunca na estória da família Patriota, do finado véio Ciço, meu pai, nunca um homi tentou alisar as costa de nenhum de nós, ele num tá virado no capeta pra fazer isso. Como é que esse Leão faz um time cheio de caba com rabo de cavalo, brinco e desenho pelos braço e ainda bota outro safado pra ficar alisando homi dia e noite dizendo que aquilo é pra relaxar, é pra melhorar os músculo? Seu Xexéu, ninguém é doido não, isso é viadagem no duro. Por isso eu disse pra aquele Leão: Ói, eu aceito fazer um contrato pra Lili jogar no São Paulo, mas ele nem fala com caba de rabo de cavalo e brinco, nem quero homi tentando alisar ele aqui. Se quer dar polimento vá dar em carro, em meu irmão mermo não.
Pronto, demo umas volta pela sede pra ver se eu disparecia da raiva que tive daquele veado que alisa homi, e sentamo pra acertar outras coisa do contrato. Foi difícil, seu Xexéu. Primeiro, os caba em São Paulo não come, aquilo não é comida de gente, parece mais coisa de passarim. Eu disse, seu Leão, Lili foi muito mimado quando era pequeno porque ele nasceu de 5 meses, então escreva aí no contrato: toda semana tem que matar um bode pra ele. Arranje logo uma mulé pra tratar da buchada e fazer sarapatel do sangue e do fígado do bicho, porque meu irmão só gosta de comer coisa que ele foi acostumado a comer lá em Quixaba. Disse a ele: arranje pamonha, feita de milho verde, porque aquelas canjica que deram pra Lili comer lá no Palmeiras ele disse que parecia que era feita de paia de milho, nem jumento comia.
Eu falando e seu Leão ficava só de braço cruzado me olhando por baixo feito bebo com sono em mesa de bar. Eu disse mais, Lili não vivi sem doce de leite, mel de engenho, fuba com açúcar e xerém com carne assada toda noite. Dia de sábado tem que ser cozido no almoço, com osso grande chêi de tutano. Pronto, essa era a dieta de Elizão e eu disse a seu Leão que ele não inventasse de matar meu irmão de fome como quisero fazer no Palmeiras. E eu, que ia viver junto com Lili como seu empresário, precisava de um lugar pra criar meus tatu. Eu ia alugar um caminhão a seu Zé de Noca lá em Quixaba e ia encher de tatu pra trazer pra São Paulo, pra acostumar os bichim no frio. Me diga seu Xexéu, eu tava exigindo muito? Pois sabe o que aconteceu?
Aquele tal de Leão é orgulhoso demais. Levantou-se e disse pra diretoria: não dá, os tatu desse homi vão furar o campo todo e eu prefiro perder os jogos a aceitar uma mudança de dieta dessa dentro do meu plantel. Vai virar uma bagunça isso aqui. O senhor acha, seu Xexéu, que aquela dieta que eu exigi era alguma coisa demais pra aquele besta não querer aceitar o contrato? E meus tatu, seu Xexéu, eu tô acostumado com eles. Eles fazem um buraquim aqui, outro acolá, mas não é coisa do outro mundo não. O campo de Quixaba tem muito mais buraco e Lili num joga tão bem lá? Isso é frescura desses boiola. Pois, quando eu acabei de falar Leão disse: ou eu ou Elisbão, a diretoria que decida. A diretoria não quis fazer essas pequenas mudançazinhas na sede do clube e aí se acabou minha carreira de empresário de Elizão, pelo menos na cidade de São Paulo. Noutro dia eu conto mais pro senhor como foi que Elizão foi parar no Manchester e o resultado lá.
NO PRÓXIMO CAUSO VOCÊ VAI PODER VER O ENCONTRO DE ELISBÃO COM PAVAROTI.....EM LONDRES.

Djalma Marques
Recife/PE, 5 de dezembro de 2009
www.biologicus.com.br

 

 

   Edson Costa de Siqueira

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