CÉLIO PEREIRA DA SILVA
Bancário aposentado.
Caruaruense, com o coração afogadense
ESTAÇÃO FERROVIÁRIA – TRISTE IMAGEM ATUAL
Antigamente as casas tinham um cômodo que era considerado necessário – por ele se adentrava ao lar -; importante – porque nele se podia espelhar o bem-estar familiar -; essencial – porque ali se podia ratificar as amizades, demonstrar a alegria em receber, enfim, confidenciar até.
Esse cômodo era a Sala de Visitas. Pois bem! Afogados da Ingazeira também tinha sua Sala de Visitas. Era a Estação Ferroviária. Por ela adentrava-se à cidade. Ela funcionava como votos de boas-vindas. Ela encontrava-se sempre, dia e noite, mês a mês, ano a ano, de braços abertos a receber seus filhos que iam e ao lar regressavam; de braços abertos para receber convidados ilustres e menos ilustres, pois para ela não havia distinção; de braços abertos para receber até estranhos que para lá se dirigiam comercialmente e até mesmo por quem buscava uma morada prazerosa – a cidade tem esse dom – e fixa, por alguns anos ou para sempre.
Quando se chegava a estação, após o sonoro apito do trem, ouvia-se o burburinho dos que nos esperavam, via-se um sorriso alegre de alguém que nos esperava ansioso, ouvia-se até, durante época das chuvas, ali bem próximo, o ruído do Rio Pajeú desfilando imponente por suas entranhas, dando-nos o sinal de sua existência e saudando-nos com suas águas.
Ao chegarmos, virando-se para um lado, podíamos ver, feito cartão-postal, o pontilhão rodoviário sob o qual o trem passava – ainda hoje tenho essa visão -; para outro lado, em frente, via-se uma capoeira densa que se esverdeava na invernada e abrigava a passarada atraindo alguns que, inocentes, aventuravam-se a aprisioná-los.
Minha gente afogadense, que barbaridade! Fiquei tristonho e ofendido com a crueldade da realidade mostrada pelas imagens – fotos – que vi de nossa Estação Ferroviária, divulgadas oportuna e tempestivamente (há quem faça alguma coisa?) pelo abnegado Fernando Pires, em sua página. Cada foto foi como se uma pancada eu levasse. Cada foto mostra a monstruosidade da indiferença de quem, por direito, cabia a conservação daquele patrimônio histórico.
Acabaram com a Porta de Entrada – Cartão-Postal – de Afogados. A sala de visitas não mais existe. Ninguém mais está lá para nos esperar. Por lá nenhum abraço receberemos mais.
Diante dessa realidade tenebrosa, veio-me a ideia de reviver uma página/sequência de um programa – Revista do Almoço – que por um bom e saudoso tempo eu produzi e apresentava com meu prezadíssimo Assis Rocha (Padre), aos domingos, na Rádio Pajeú. A página era uma homenagem a figura folclórica e querida de Afogados. Nosso – gente-humilde – LODINHO. Aí vai, a título de protesto e opinião particular:
1) Elogio : À Fernando Pires, pelo excelente trabalho de divulgação das imagens, pelo extraordinário protesto que também o é das fotos mostradas, enfim, por sua dação à Afogados da Ingazeira, por isso LODE GOSTOU.
2) Crítica: Pelo descaso, pela cegueira, pela omissão e por tantos outros adjetivos admissíveis a quem, por direito, cabia a conservação daquele monumento – Estação Ferroviária – por isso LODE NÃO GOSTOU.
Célio Pereira da Silva
Olinda-Pe, 20 de dezembro de 2009
PARALELOS EM MINHA VIDA
Eu olho pensativo para o mar
e vejo algumas palavras: soltas.
Olho outras vezes para o céu
e ouço o silêncio passar: triste.
Por algum momento olho a estrada
e vejo algumas palavras: inertes.
Olho outras vezes para as estrelas
e ouço a saudade chorar: feliz?
O mar solto, como as palavras,
o céu triste, como meus olhos,
a estrada inerte, como meus desejos,
as estrelas felizes, como meus dias!?
As palavras, meus olhos,
meus desejos e meus dias
confundem-se com o mar, o céu,
a estrada e as estrelas de minha vida:
complexa e efêmera.
Célio Pereira
Olinda-PE,17 de dezembro de 2009,às 23h
PRIMEIRO ENCONTRO
(Paixão eterna)
Pelos idos de 1963, contava eu então (já ou apenas?) com meus 17 anos de pouca velhice – sempre desejei ser e me considerava maduro antes do tempo – quando em determinado dia fui procurado por um amigo do Colégio (Diocesano de Caruaru), que me convidou para “enxertar” o time de um grupo que iria jogar numa cidade do sertão. Como naquela época eu não podia ouvir falar em jogar bola que logo dizia eu vou, a resposta não foi outra senão essa mesma: eu vou, sim, onde é?
O colega (José Pedrosa de Lima Filho – Zezito ou PELÉ, como era já conhecido no colégio e nas ruas onde morava e batia bola) disse de pronto e começou a explicar o porquê daquele lugar: Afogados da Ingazeira. É que um colega de lá, que estuda na classe da gente (ele cursava o primeiro ano do científico e eu o quarto ginasial), está formando uma equipe para a gente ir jogar contra o time (Guarani) da cidade dele, que agora em Julho está fazendo aniversário e vai ter uma grande festa. Jogar bola, festa e passear, não havia melhor negócio para mim e, lógico, para os demais que fazíamos aquela “patota” (eu jogava com Zezito desde o curso de “admissão” ao ginásio e ele passou a frente nesse ano, já que fui reprovado).
Ele continuou informando: o time já estava completo, pois o colega que fizera o convite – eu não o conhecia – já falara com outros amigos, das outras séries do científico e todo mundo disse que sim, que iria, aí eu me lembrei de ti pois sei que tua vaga na equipe é garantida (na época eu jogava pelo juvenil do Central). Agradeci a atenção e ratifiquei meu desejo de ir, perguntando ainda: - Nós vamos de quê? Ele disse: - Nós vamos de trem e cada um tem que pagar sua passagem; quanto à hospedagem, nós ficaremos em casas de família.
(Nessa época, me lembro bem, eu, ao ouvir a rádio local – Rádio Difusora de Caruaru, afiliada da Radio Jornal do Comércio, de Recife, que tinha como slogan: “... Pernambuco falando para o mundo...”, escutava sempre às 8h o seguinte noticiário: “atenção para esta utilidade pública: O trem com destino ao alto sertão: Afogados da Ingazeira e Serra Talhada, passará em nossa cidade no seu horário normal, às 09h45. Aos que ficam, nossas saudações e aos que partem, feliz viagem!”). Disse ainda:- nós vamos aproveitar a viagem para distribuir panfleto do professor Demóstenes Veras (professor de português muito querido de todos os alunos do colégio – ele dava aula do ginásio ao científico), que é candidato a deputado, em todas as cidades que o trem parar.
Comuniquei aos meus pais e irmãos da viagem que eu pretendia fazer e fui justificando: que eu nunca havia saído de Caruaru; que era já período de férias; que era uma turma do colégio e, portanto, todos conhecidos; que... etc, e, finalmente, aquiesceram e eu pude então arrumar minhas malas, aliás, a mala – pequena, do tamanho de minhas posses e bastante grande para guardar minhas roupas e parte dos meus sonhos: viajar – e aguardar com ansiedade o dia da viagem.
Sábado, às 9h, todos, com antecedência para o embarque, já estávamos na Estação Ferroviária aguardando o apito do trem, que dava seu sinal de vida ao passar no corte de estrada lá pelas bandas do Salgado, na curva da Tacaruna, indústria de beneficiamento de agave que ainda oferecia emprego na cidade e que também apitava para o início e no término dos trabalhos.
Éramos uns vinte atletas, ou melhor, estudantes “fominha” por bola, dispostos a uma aventura que por certo seria marcante em nossas vidas e, para mim, o foi verdadeiramente. Entramos todos no primeiro vagão, ou seja, no “vagão-restaurante” e nos apoderamos de boa parte das mesas; acredito já com segundas – e boas – intenções e o Maria-Fumaça deu seus três apitos de partida - silvos longos – e saiu no seu “café-com-pão-bolacha-não; café-com-pão-bolacha-não”. Quando o cobrador veio conferir nossas passagens – etiquetas que eram confirmadas sua validade e perfuradas para não serem utilizados por outros passageiros – foi logo dizendo para ocuparmos outro vagão, pois aquele era destinado apenas às refeições. Concordamos, porém continuamos no mesmo vagão a espera de repreensão mais contundente. Quando pela segunda vez o cobrador chegou já estávamos nos servindo de umas “cervejinhas” o que o fez arrefecer e fazer vista grossa, sem, contudo, desta feita mais brando, deixar de pedir para não ocuparmos todas as mesas a fim de permitir que outros usuários pudessem se servir.
Nessa oportunidade já estávamos em ritmo de batucada e éramos acompanhados por uns quatro a cinco músicos que se juntaram ao grupo por nosso convite – era a banda musical da cidade de Belo Jardim que estava indo para a cidade de Sertânia, a fim de participar de concurso de bandas do interior – daí porque o cobrador não teve muito motivo para nos despejar do vagão.
O trem chegou em Sertânia e, para nossa tristeza, a “banda parou de tocar”. Sambas, boleros e chorinhos ficaram pra trás, mas suas melodias continuaram nos embalando até mais adiante, por um bom tempo. Chegamos em Afogados da Ingazeira às 17h30, religiosamente no horário previsto e fomos bem recebidos pelos dirigentes da equipe de futebol e familiares do nosso anfitrião. Fomos levados na “carroceria de um caminhão” até o centro da cidade, demos uma volta (já triunfal?) na praça principal e paramos ao lado da Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Remédios, padroeiro da comunidade, onde fomos encaminhados às famílias que iriam nos hospedar.
Fiquei na casa do lateral esquerdo da equipe local, um rapaz de nome Gonzaga, que residia na avenida principal e que, se me lembro bem – como iria esquecer? – tinha três irmãs que me acolheram com a maior simpatia. Após o jantar saí para me encontrar com os colegas e me certificar de nossa programação para o dia seguinte. Encontrei logo uns quatro do grupo e passamos a desfilar pela praça, que já estava cheia de meninas bonitas – nosso alvo imediato – e que também desfilavam: rua acima, rua abaixo, com sorrisos matreiros ou de olhar reprovador quando não nos simpatizavam.
Fizemos “aposta” para saber quem conseguiria uma namorada. Não perdi tal aposta. Ousei me dirigir a três meninas que por mais de uma vez passaram por nós cochichando e dirigindo olhares mais convidativos. Não me dei mal. Fui conversar com elas em um banco da praça. O banco era pequeno e não nos cabia; aí então uma delas disse: vou ali e já volto; a outra também saiu, dizendo: eu te acompanho. Saíram as duas e ficou a terceira que não era bem a que me interessara, mas que, para não perder a aposta, resolvi alimentar o encontro e logo nos entendemos, combinando inclusive que nos encontraríamos no “baile” do domingo à noite.
Caminhei com a garota pela praça no maior contentamento (e fazendo ver aos colegas que eu era vencedor – a menina não sabia da aposta); assistimos a uns filminhos que estavam sendo exibidos ao ar livre, na parede lateral da igreja; comemos pipoca – não podia faltar -; tomamos sorvete – podia faltar -; paramos num parque de brinquedos infantis onde crianças felizes brincavam; rimos com alguma tolice de nossa conversa tola; não colhemos uma flor nos jardins para dar-nos, porém, nos olhamos nos olhos – para não nos esquecermos um do outro – e, finalmente, ratificamos o “namoro”, sem sequer dar-nos as mãos – que timidez! – aí então nos despedimos com um: até amanhã! Fui dormir vibrando com a conquista, para minha grande e alegre surpresa – eu não tinha namorada, até então.
Na manhã do domingo, após o café, sai com o já amigo Gonzaga, a fim de dar um giro pela cidade, me encontrar com os conterrâneos para combinar alguma coisa sobre o jogo e, se possível, encontrar com a “namorada” para saber a quantas andava seu coração e se de fato nossos sentimentos eram correspondidos. Ao botar o pé na rua me deparei com a menina que parecia já estar a minha espera. Saímos caminhando pelas calçadas sem rumo certo – ainda sem nos dar as mãos – até encontrar meus colegas. Fui informado pelos mesmos que o jogo seria às 15h e que naquela manhã um sanfoneiro iria abrilhantar uma matinê em uma escola e para lá nos dirigimos pois arrasta-pé, bate-pé e de pé na bola era de que mais estávamos a fim – e de namorar, claro.
Dancei até o meio-dia e aí sim, peguei na mão, abracei e roubei uns cheiros da menina que era só alegria. Depois do almoço fui mais uma vez encontrar os colegas, desta feita para pegar o material do jogo, me preparar, etc. O local para trocar de roupa era um armazém de um senhor conhecido por “Dóia Fumeiro”, pai de um dos atletas (Clóvis) da equipe da cidade.
Quando já iniciávamos os preparativos para o jogo – receber material, etc.- ouvimos o som de acordeão, zabumba e triângulo bem próximo de onde estávamos e, para matar a curiosidade, fui com mais quatro colegas para lá, para ver que festança era aquela e, mesmo sem ter intimidade com o pessoal da casa, pelo fato de sermos visitantes – jogadores de Caruaru – fomos bem recebidos e nos envolvemos na brincadeira. Era a festa de um casamento cujos nubentes conhecemos na hora e de quem recebemos grande atenção. Comemos e bebemos até onde pudemos e até chegar outro companheiro já aos berros nos chamando, pois já estava próximo da hora do jogo.
Já paramentados fomos levados, mais uma vez na carroceria do caminhão, até o local da partida. O campo era grande que só uma pista de teco-teco; careca ao centro e com grama nativa - alguns cavalos ainda pastavam - nas partes laterais e ainda com alguns buracos nas proximidades da grande área. A bola dificilmente rolaria redondinha e o jeito mesmo era usar bola pelo alto e fosse lá o que Deus quisesse. Corríamos que só desesperados para chegarmos nas proximidades da meta e quando chutávamos a bola mal chegava às mãos do goleiro. Havíamos brincado muito antes do jogo mas não era por falta de forças nas pernas que a bola não chegava ao gol, era porque o campo era grande mesmo, além de que um vento forte parecia também conspirar contra a gente.
Por pura sorte conseguimos fazer um gol, através de falta batida de bico pelo colega “Guiga”, nosso “center-ford”, e o primeiro tempo terminou 1 x 0 a nosso favor. No segundo tempo não conseguimos resistir mais às dificuldades de campo, fôlego, pernas, etc., aí então o time da cidade aproveitou a deixa e vez ver. Um tal de Bernardo – atacante - tirou as chuteiras e passou a jogar descalço, fazendo miséria com a bola e marcando gol após gol. Chegou a fazer seis e seus companheiros mais três, completando uma goleada histórica de 9 x 1, que jamais pude esquecer.
A noite veio o melhor. O baile. A entrada no Clube era franca, para nós, visitantes atletas, e que àquela altura, para eles, éramos sim, pernas-de-pau. A festa foi um primor. Bem organizada; orquestra boa; povo bem trajado – homens de paletó e gravata -; muita animação e mulheres bonitas. O baile começou cedo e terminou por volta das três horas. Não existia energia fornecida pela Chesf. A iluminação da cidade era feita através de gerador próprio, movido a óleo diesel, cujo motor era ligado às 18h e desligado às 22h e, quando dia de festa, no seu encerramento. Retornamos na segunda-feira, às 11h, no mesmo trem que nos levou – o trem passava na cidade dia sim, dia não e sempre com pontualidade -.
Quando parti acredito que tenha deixado saudades, pois as levei também. Saudades já, sim, porque não? Saudades de uma terra de gente hospitaleira; de uma praça com “coreto” onde a banda local tocava para alegrar corações; de uma igreja de arquitetura belíssima onde ainda entrei para pedir a “bênção” à Virgem Maria; e, porque não, de um campo de futebol “comprido e mal acabado” que ficava ao lado da cadeia pública; de uma escola (Padre Carlos Cottart) que além de educar crianças também alegrava adultos com sanfonas; de um parque de diversões para crianças, de cujos alto-falantes se anunciavam recados de adultos, que ofereciam músicas “de alguém para alguém”; de um cinema (Cine São José) que ainda passava filmes e em alguns domingos servia de auditório para programas da rádio local (Rádio Pajeú de Educação Popular), que também anunciava o horário do trem; de um clube social (ACAI-Aeroclube de Afogados da Ingazeira) que não tinha pista de avião e só de dança, onde acanhadamente dei alguns passos; de uma menina que me prometeu escrever tão logo eu escrevesse para ela dizendo de minha paixão e que nunca escrevi para não alimentar dúvidas; de outras meninas que desejei conhecer; enfim, materializando, de Afogados da Ingazeira, por quem me apaixonei, eternamente.
Célio Pereira da Silva
Olinda-PE, 10 de junho de 2005
QUE GOSTOSO PREÁ DA ÍNDIA!
Minéu reinava em sua peixaria, na Manoel Borba, como verdadeiro rei momo: meio gordo, bonachão, alegre, de grande facilidade em se fazer amigo e, literalmente, em fazer amigos. Dentre esses, dr. Hermes, Badú, Ulisses Lima, Oscar, Jaime Travassos, e outros, e outros, e outros costumavam se reunir aos domingos na peixaria, que virava bar, para beber umas e umas e umas cervejinhas, geladas de doer nos dentes, e, sobretudo, saborear o gostoso tira-gosto (bota gosto) preparado por sua TIDA, “coisinha fofinha”, como ele a chamava quando chegava em casa meio triscado. Esse tira-gosto variava entre galinha caipira, perua, bode, fígado, sarapatel, e, até mesmo um “cevado tatu” que, às vezes, alguns caçadores levavam para vender ao Minéu e com o produto da venda fazer uma feirinha para os barrigudinhos. Esse tira-gosto geralmente era acompanhado por uma farinha mexida com o molho da carne e, essa sim, era tão gostosa que a turma lambia os dedos e os beiços.
Certo dia, domingo de carnaval, eu, Joseli (concunhados) e Almir (filho de Minéu), preparamos uma surpresa para aqueles fiéis prestigiadores daqueles encontros dominicais. Almir, que residia em São Paulo já há algum tempo, estava de férias por alguns poucos dias e escolhera aquela época de carnaval para gosar as benesses do período, com o intuito de reencontrar alguns amigos, também ausentes, que para Afogados estariam se deslocando, e para pedir bênção aos velhos pais, a fim de que melhor protegido estivesse no seu regresso para a labuta paulistana.
Durante a viagem que fizemos do Recife para Afogados, por volta das 5h da manhã, nas proximidades da Vila, hoje cidade de Bonanza, um dos pneus do carro baixou. Prudente seria, portanto, consertar o pneu para seguirmos viagem, e foi o que fizemos, indo a uma borracharia que ficava num posto de gasolina próximo, ao lado do qual havia uma lanchonete/bar. A borracharia estava fechada e o bar aberto (melhor assim). Tivemos que esperar algum tempo e, enquanto isso, Almir disse: “Vamos escovar os dentes?” ao que retruquei: “De novo?” E Almir esclareceu: “Não, rapaz, vamos beber uma cervejinha” ao que Joseli completou: “Vamos porque o dia é grande, mas minha noite foi curta”.
Joseli havia ido buscar Almir no Aeroporto no dia anterior (sexta-feira) por volta das dez da noite e de lá, pra não perder o pique, antes de chegar em casa, levou Almir a um bar (boate) onde ficaram até quase 1h da manhã (sábado), pois estavam confiantes de que eu iria dirigindo o carro na viagem para Afogados. Dormiram, na verdade descansaram apenas duas ou três horas, quando zarpamos para a terrinha “natá”. Pois bem! Já no bar, depois de pedir uma cerveja, perguntamos ao senhor que nos atendeu qual era o horário que a borracharia abria, ao que fomos informados que só às 8h, porém o amigo foi atencioso e informou que o borracheiro dormia no estabelecimento e que, se quiséssemos, ele poderia acordá-lo, no que agradecemos por demais.
Enquanto esperávamos o conserto do pneu e derrubávamos algumas cervejas, entrou no bar um rapaz trazendo às costas um saco cheio de “pescado” que ofereceu para o dono do bar dizendo ser pescado novo, alguns dos quais ainda se mexendo, e que já estavam tratados. Vendo aquela fartura de “pescado”, resolvemos, como bons clientes, comprar uns quatro quilos daquela especiaria inusitada.
Pé na estrada chegamos a Afogados pelos limites da hora do almoço. Já em casa de Minéu (rancho de todos nós), após os abraços, pedi a TIDA para guardar no frízer da geladeira aquele nosso achado, dizendo a ela tratar-se de PREÁ-DA-ÍNDIA e informamos que já no domingo iríamos devorá-lo. No domingo, logo no café da manhã, TIDA disse que se quiséssemos comer os “Preás” logo ela precisaria cuidar, informando-nos que não sabia preparar preá da índia, não! Disse eu então que ela poderia usar os mesmos temperos para se fazer uma galinha, ao que ela retrucou, dizendo: “Assim ta bem, eu faço.
<BR><BR>Quando começou a preparar, TIDA olhou para aquela encomenda e disse: “Eu não sei como é Preá-da-índia, mas isso aqui eu também não sei que danado é, não; tô vendo uns pés estranhos, eu nunca vi isso, por aqui”. Para sossegá-la (também pra não denunciar muito), eu disse tratar-se de preá-da-índia, sim; que havíamos comprado a um “pescador” da região da mata que vive de pegar esses “bichos” nas lagoas, brejos e riachos, que por lá tem muito e que todo mundo come de encher o papo. Para tirar toda e qualquer desconfiança, recomendei a ela que tirasse as patas dos bichos e desse pro gato comer, ou se não se preocupasse com a fedentina, que jogasse no lixo.
Isso posto, tocamos para a rua e, para abrir os trabalhos, fomos logo à peixaria/bar do Minéu, a quem já havíamos informado sobre o tira-gosto do dia, e pedimos para baixar uma geladinha. Serviço vai, serviço vem, foram chegando os habituês, mais novos clientes, pois afinal era carnaval, e mais loura gelada, mais conversa fora, mais estórias de pescadores e, ainda de cuca fria, mais risadagem com piadas obscenas (não podem faltar em mesa de bar) e eis que chegou a hora do tão anunciado e esperado tira-gosto: o Preá-da-índia, com tudo o mais que se poderia prever.
Minéu anunciou: “Vou mandar buscar o tira-gosto e hoje ninguém vai pagar nada por isso, é presente de Almir, Joseli e Célio. Ouviu-se um brado de aplausos e agradecimentos aos patrocinadores, afinal não era tão fácil se comer de graça naquele estabelecimento. Pra dizer a verdade, pagava-se mais do que em qualquer outro lugar, quer fosse o tira-gosto uma galinha grande, uma perua maior ainda, ou de um “bode cheiroso”. Quando era tatu aí sim, Minéu lavava a égua, cobrava um pouco mais e todos pagavam sem cara feia. Era só alegria. Pois bem! Beberrança e comilança corriam soltas, sobretudo a comilança, pois a turma dizia: “Venha mais, venha mais; que tira-gosto danado de bom!”. Eu sei é que rasparam o caldeirão ligeirinho. Havia nêgo com farinha até pela “zurêias”, pois alguns limpavam as mãos até mesmo nos cabelos. Era uma festa doida, dessas próprias do carnaval mesmo. Lá pras tantas, como a festança parecia acabar, e alguns já sinalizavam querer ir embora, Minéu anunciou: “gente, Célio quer informar um troço a vocês!”: Eu disse então: (aquela tradicional pergunta): “Vocês sabem qual era mesmo esse tira-gosto? ”Diante da pergunta uns começaram a suspeitar de alguma safadeza, outros questionaram se era galinha, tatu, cobra ou “uburu”, e outros já começaram a enguiar. Quando eu disse que aquele gostoso Preá da índia era, na verdade, RÃ, aí a cobra fumou braba. Teve gente que precipitou o vômito, outros que lamberam os beiços, outros que xingaram, mas disseram que comeriam de novo e outros que só não nos chamaram de santos.
E assim, minha gente-humilde, esta pode não fazer parte da história de Afogados, mas, sem dúvida, fará parte de minha história e me trás uma grande lembrança da terrinha: Afogados da Ingazeira, nosso sertão do Pajeú. Um abraço a todos e muito grato ao Fernando pela oportunidade. Depois vem mais.
Célio Pereira da Silva
Olinda, 13 de julho de 2009
SEGUNDA-FEIRA GORDA E TRISTE
(Homenagem a Bernardo)
Quis um dia a morte terminar
mais cedo o nosso carnaval e se vestiu
com negra fantasia a rondar as portas
onde reinava a alegria.
Caminhava pelas ruas desde cedo
Se confundindo a nós, que despidos
Das nossas tristezas, por momentos,
nos envolviam no delírio dos seus
braços, dela, morte, que vagabunda,
igual a nós, só buscava até então
o júbilo, os fúteis e eternos
prazeres da vida.
Quis um dia a morte terminar
mais cedo o nosso carnaval e como
folião nostálgico foi nos enganando
até a noite de domingo, quando tudo
parecia um nunca acabar.
De repente, arrancou a máscara
e de soslaio foi nos deixando para trás
ao tempo em que seus passos se alongavam
buscando as esquinas da traição.
Já agora revelada, pálida e fria,
na forma cruel que a concebemos, ela, morte,
foi levar o abraço triste àquele que,
apesar de moribundo, tinha o coração
em festa, pelo muito de melodias que
deixou fluir dos seus dedos, nas ruas
calmas ou alegres, tristes ou risonhas,
por onde os seus sonhos passeavam
e os seus pés descalços brincavam.
E assim quis um dia a morte terminar
mais cedo nosso carnaval e levou
consigo o nosso músico maior fazendo
cessar os acordes de momo, mas nunca
o eco das canções que ele – BERNARDO –
alegremente nos ofereceu em serestas.
Célio Pereira
Olinda, 18 de novembro de 198
Falar do passado esportivo de Afogados da Ingazeira é tão gratificante quanto saber que fiz parte dessa história. Contar de seus embates, de suas jornadas, de suas vitórias, é por demais prazeroso para mim.
Acredito que minha meteórica passagem pelos campos afogadenses tenha contribuído para que Afogados possa ser lembrado com destaque no cenário esportivo do Vale do Pajeú.
A história se conta por escritos, mas estes são poucos, se faz também por imagens, destas, as fotos apresentadas neste vídeo (DVD Memórias do Esporte em Afogados da Ingazeira) são os mais expressivos registros, se faz ainda "por ouvir dizer", que têm seu cunho saudosista e pessoal, contudo, os relatos apresentados por um Severino de Zeca, Carlinho de Lica e por Lulu Pantera são a expressão da verdade porque foram vividos, acompanhados, sentidos na pele, portanto, tão verdadeiros quanto o silêncio de Colher de Pau em sua entrevista, que espelha em si também a imagem de grandes atletas, como por exemplo Garrincha e outros tantos de tantos outros gramados.
Por motivo profissional cheguei em Afogados numa terça-feira, dia 18 de maio de 1965, e no Banco do Brasil tive a oportunidade de conhecer o colega Fernando Jaburu, que jogava pelo Guarani e com quem fiz dupla de área por bom tempo.
Naquele final de semana o Guarani estava disputando uma partida contra seu arqui-rival o BAC, equipe formada em sua grande maioria por jovens da cidade que estudavam na capital, alguns já universitários.
Falei com Fernando para jogar, porém, por ninguém conhecer meu futebol fiquei apenas morrendo de vontade de entrar em campo, me contentei em ficar como torcedor.
A partida foi arbitrada por Dr. Jesus e o Guarani perdeu por 2 x 1, para desespero da maioria dos torcedores e alegria de uns poucos estudantes e familiares.
Na quarta-feira seguinte, com material arranjado por Elizeu Pires, dono de uma sorveteria e torcedor fanático do Guarani, iniciei minha jornada como atleta do Guarani e, para tanto, tive que passar pela prova dos nove.
Mestre Biu e Chico Berto eram os treinadores e dirigentes.
Chico Berto me perguntou em que posição eu jogava e como respondi que "em qualquer uma", ouvi do mesmo, dirigindo-se a Mestre Biu, o tradicional comentário: "esse não joga nada", para em seguida me mandar jogar na ponta esquerda do time reserva.
Fiquei uns cinco minutos correndo pra cima e pra baixo, e a bola nada de chegar aos meus pés, até que resolvi pedir ao goleiro que me lançasse a bola. De posse da mesma saí a toda velocidade, driblando Antonio Martins, em seguida Clovis e chutando para fazer o gol, numa bola realmente indefensável pela força e colocação.
Diante da façanha Chico Berto me chamou, perguntou onde eu queria mesmo jogar no time, me deu a camisa 8 de titular e a partir daí passei a formar com Fernando Jaburu a grande parceria também nos gramados, a proporcionar aos afogadenses grandes alegrias esportivas pelas vitórias contra o próprio BAC, equipes de Sertânia, Pesqueira, Arcoverde, Belo Jardim, São Jose do Egito e Tabira.
Tenho uma equipe na mente que guardo com carinho por todos os meus dias e que muitos dizem que foi a grande seleção do Guarani:
João Buga, Beto, Clóvis de Doía, Geraldo Agostinho, Colher de Pau e Antonio Martins, Geni, Célio, Fernando Jaburu, Severino de Zeca e Luiz Cocada.
Outra grande lembrança é o velho campo onde jogávamos, ao lado da cadeia pública, ladeado pelo fundo de algumas casas, comprido, mal acabado, de piso irregular, parcialmente gramado por grama nativa onde os animais pastavam, careca em sua maior extensão central, mas o palco de grandes jornadas que por todas as suas dificuldades foram por demais valorizadas.
O lugar onde pela primeira vez me vi carregado nos braços como herói, onde fiz muitos gols de tabelas espetaculares com Fernando, de faltas próximas ou distantes da área, de pênalti e, como raridade que ainda hoje é, associado ao meu bom futebol, de escanteios.
São lembranças boas, de um João Buga pequenino, mas que virava gigante debaixo da trave com defesas arrojadas;
de Beto guerreiro, madeira de lei;
de Clóvis de Dóia, baixinho que subia quase a altura das nuvens;
de Antonio Martins, que chorava quando errava e dizia para o adversário: aqui é pau, não venha não;
de Geraldo Agostinho, que corria tanto que no intervalo ficava fazendo física para não perder o pique;
de Colher de Pau, que dominava a bola, driblava o adversário e saia sorrindo na maior malandragem;
de Geni, que aparecia pela direita pedindo a bola e lançando com precisão;
Quanto a mim, Célio, apenas rabisquei meu nome nas quatro linhas;
de Fernando, que brigava como ninguém para fazer o gol e geralmente o fazia de bico, sua especialidade;
de Severino de Zeca, que com maestria alimentava todo o ataque
e de Luiz Cocada, que com sua "bomba" fazia o goleiro estremecer.
Minhas boas lembranças também se estendem a outros gramados:
aos de Tabira onde por mais de uma vez fui requisitado para defender suas cores;
aos de Sertânia, onde por mais de ano defendi sua seleção em campeonatos estaduais interioranos.
Lembro-me de alguns baluartes em prol do esporte afogadense tais como:
Luiz Alves e Horácio Pires que foram dirigentes dedicados do Guarani;
de Aderval Viana, que viabilizou o novo estádio, que chegou a semi-profissionalizar a equipe e fazer dela sua grande paixão;
dos próprios Chico Berto e Mestre Biu, que apesar de humildes deram tudo de si pela grandeza do Guarani;
do professor Severino Carneiro, que alem de atleta foi dirigente, tornou-se dissidente, formou outras equipes, organizou campeonatos, batalhou pela criação da Liga Esportiva e seu registro na Federação Pernambucana;
lembro-me de outros tantos bons atletas que surgiram após minha passagem, tais como:
Batista, grande volante;
Deinha, que jogou na capital pelo Santa Cruz, filho de Zé Pretinho, figura folclórica da cidade;
de Raminho, que chegou a jogar pela equipe do Sport.
Lembro-me também de alguns atletas de vôlei, esporte que à época era pouco difundido, mas que em Afogados tinha também seus admiradores, atletas como Roberto Pinto, Severino de Zeca, Valdeci Martins, Bernardo, Rogério Oliveira, Bigode, Silvio Cruz, Clovis, Virgilio César e Edvaldo Correia; este se destacava e tinha condição de participar de equipes da capital.
Os jogos eram realizados numa pequena quadra de cimento ao lado do campo de futebol e que hoje já não existe mais.
Naquela época não se praticava o futebol de salão por inexistência de quadra apropriada, no entanto, a quadra de vôlei era utilizada para alguns rachas (bate-bola).
Só com a construção do Centro Esportivo, já por volta dos anos 70, esses esportes tiveram outra dimensão, passaram a ser praticados por maior número de atletas.
A propósito do Centro Esportivo, não sei porque seu nome original, Centro Esportivo Paulo de Sousa Cruz, teve seu nome substituído, eis uma dúvida.
A propósito de Bernardo (Delvanir Ferreira), tem uma passagem que até hoje não saiu de minha lembrança:
Em junho de 1962 estive em Afogados com uma equipe de estudantes do Colégio Diocesano de Caruaru para disputar uma partida com o Guarani.
No primeiro tempo nós vencemos por 1 x 0, porém, no segundo tempo, Bernardo tirou as chuteiras e resolveu jogar descalço.
A partir daí, deu um show!
Dominava a bola como ninguém e virou o jogo fazendo nada menos que 6 gols e ajudando os companheiros a fazerem outros 3, ficando o placar final em 9 x 1, fato que jamais esqueci.
Era sem dúvida um astro da bola, além de extraordinário violonista e acordeonista, de saudosa memória.
Posso dizer: Afogados, tua história se faz, também, de bom futebol.
Célio Pereira
Olinda-PE, PE, 30 de janeiro de 2006
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