AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
Carlinho de seu Possidônio

CRÔNICAS E CONTOS

CARLOS MOURA GOMES

Aposentado (CELPE) e cronista afogadense

 

 

 

 

 

O IDOSO

A Lei nº 10 741 de 1º de outubro de 2003, diz em seu artigo primeiro que “É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.” Porém, muitos idosos ainda não conhecem suficientemente essas conquistas. O direito ao atendimento preferencial imediato nos estabelecimentos públicos e privados é apenas um dos 117 artigos que constam desse tão importante documento.
É sempre bom lembrar que essas pessoas já foram jovens, tiveram sonhos e fantasias, trabalharam, muitos sofreram e lutaram para vencer na vida. Mesmo assim o tempo passou e agora encaram, honrosamente, a terceira e melhor idade.

Semana dessas ouvi num programa matinal de nossa Rádio Pajeú uma bonita mensagem interpretada por Zezé di Camargo sobre o tratamento dispensado aos idosos. Após elogiar, longamente, a interpretação do famoso artista e a iniciativa do Governo de Minas Gerais, esperava do apresentador algum comentário sobre os nossos idosos aqui do Pajeú. Então, como nada foi dito naquele oportuno momento, lembramos que diferentemente de cidades como Tabira e São José do Egito, aqui em Afogados da Ingazeira, os idosos da ASAVAP encontram-se confinados num ambiente inadequado, sito à Rua Henrique Dias, aguardando sempre uma visita humanitária.
A professora Hália, doutora em sociologia da PUC de São Paulo, afirmava que “enquanto o idoso pode ajudar, cuidar dos netos, ser participativo, sua presença é bem-vinda”. Chega o momento em que sua saúde começa a exigir cuidados especiais, perde produtividade e fica dependente. É aí que sua presença se torna difícil, pois precisa ser cuidado e atendido durante 24 horas por dia...

É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Tudo isso está na Lei...

Bom, enquanto as autoridades não cumprirem o que manda e determina a Lei, façamos nossa parte como irmãos e irmãs de uma mesma geração; filhos e filhas de um Ser supremo, poderoso e justo.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 29 de junho de 2010

 

 

“Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio e Panaceia..."

Nossa Constituição Federal em seus Artigos 196 e 200, expressa que o Estado passou a garantir ao conjunto dos cidadãos a assistência à saúde, mesmo para os que estejam desempregados.
Baseado nesses fundamentos o Dr. Marcílio Valadares, desenvolvia uma excelente administração à frente do Hospital Regional Emília Câmara em Afogados da Ingazeira. Infelizmente, a cultura do protecionismo político, da preguiça, da falta de respeito com o serviço público, da irresponsabilidade de alguns profissionais impediram que o competente Diretor continuasse sua missão.
O dedicado e responsável Gestor de Saúde cobrava e exigia que todos, indistintamente, cumprissem seus horários específicos de trabalho e atendessem dignamente a população que tanto sofre com a escassez de material humano qualificado, principalmente de médicos.
Segundo os dicionários da língua portuguesa, ética é a parte da filosofia que estuda os valores morais e os princípios ideais da conduta humana e, também, é uma soma dos princípios morais que se devem observar no exercício de uma profissão. Caso fosse cumprido, integralmente, o que instruiu o pensador e filósofo, Aristóteles, em sua obra “Corpus”, com certeza os “donos do poder” agiriam, sempre para o povo e pelo povo, nunca com desvio de conduta alegando conveniência. Termo traiçoeiro, covarde e pobre, muito utilizado nas decisões de políticos sem escrúpulos.
É um dever de quem vive à custa do suor da sociedade, além de prestar um serviço de qualidade, agir com honestidade e respeito ao povo.
Esse lamentável episódio nos deixa triste porque envolve exatamente a nobre categoria de médicos.
Lembramos que o Juramento de Hipócrates, considerado o pai da medicina, é feito no dia da formatura de novos médicos no mundo inteiro. Parte do texto diz: “Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio e Panaceia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:...Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. Conservarei imaculada minha vida e minha arte... Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu deles me afastar ou infringir, o contrário aconteça.”
Dentre os inúmeros ensinamentos que a Bíblia Sagrada nos oferece, um merece especial destaque e se encaixa, perfeitamente, para registrar minha indignação: “... se o povo calar, até as pedras clamarão.”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 16 de junho de 2010

 

 

"O show não terminou"

Há 30 dias comentei sobre o show de abertura da 19a Copa do Mundo de Futebol. Realmente foi uma festa diferente. Espetacular! Até mesmo os primeiros desclassificados retiraram-se de cena aplaudidos pela educada e consciente plateia.
Dos 191 países existentes no mundo, segundo a ONU, apenas trinta e duas seleções disputavam o título tão cobiçado mundialmente e que já fora conquistado cinco vezes pelo Brasil. Façanha obtida agora pela primeira vez, com merecimento, pela excelente seleção da Espanha.

Quando da derrota da Seleção Brasileira para a Holanda, ouvi de uma bem comportada e devidamente trajada torcedora a seguinte declaração: “...Isso é uma vergonha, não quero mais saber de Copa do Mundo. Estou arrasada... Estou decepcionada.”
Ainda, logo após a partida, Kaká, o símbolo da equipe falava aos repórteres: “A eliminação machuca. Dói, porque foram nos detalhes que tiraram da gente a sexta Copa do Mundo (hexa). Estou decepcionado. Não há muito o que dizer num momento como esse...”

Ora, ficamos entre as oito melhores equipes do mundo...
DECEPÇÃO?... Calma! Decepção é uma palavra muito forte e nociva que muitas vezes usamos sem nem mesmo saber o tamanho de seus efeitos. O conhecido escritor Paulo Coelho disse certa vez que “Quando alguém encontra seu caminho precisa ter coragem para dar passos errados. As decepções, as derrotas, o desânimo são ferramentas que Deus utiliza para mostrar a estrada.” Essa estrada, esse caminho, quem sabe, poderá ser aqui mesmo no Brasil em 2014. Na verdade as pessoas compreendem de forma equivocada eventos dessa magnitude e depois dizem que os resultados foram decepcionantes. A decepção é um sentimento tão frustrante que talvez seja das sensações a que mais entristece, te deixa pra baixo, te impede de continuar, te bloqueia!

As lágrimas? As piegas lágrimas do nosso camisa dez Kaká, exemplo de atleta e da simpática torcedora foram visíveis e até comoventes... Mas diz um ensinamento chinês que os decepcionados não choram por fora, choram por dentro... Choram, Choram, Choram, até ficar secos, como um solo africano, seco, ressequido, morto...
Acredito que poucos lembram que somos Pentacampeões Mundiais. A vida é assim mesmo! Porém o egocentrismo e a vaidade nunca irão vencer a solidariedade e a humildade.

John Lennon confortou um amigo que estava deprimido e decepcionado escrevendo na porta do seu quarto: “Quando fizeres algo nobre e belo e ninguém notar, não fiques triste, pois o sol toda manhã faz um lindo espetáculo e, no entanto, a maioria da plateia ainda dorme...”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 13 de junho de 2010

 

 

Abertura Oficial da 19ª Copa do Mundo na África do Sul

Sem nenhuma intenção de desmistificar um conhecido adágio popular, assistindo pela tevê nessa última quinta-feira, a Abertura Oficial da 19a Copa do Mundo, realizada na África do Sul, conclui que “o que o coração não sente os olhos não veem”. O espetáculo foi eclético e, o mais importante, conseguiu despertar para o mundo o sentimento de que somos, realmente, uma única raça.

Em 1961, o primeiro astronauta a conquistar o espaço, Yuri Gagarin, afirmou que "A terra é azul"; o Presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, negociando com a Rússia, dizia que “... Juntos, vamos explorar as estrelas, conquistar os desertos, erradicar as doenças, chegar às profundezas do oceano e estimular as artes."
Em 1963, o reverendo Martin Luther King disse num discurso para, aproximadamente, 500 mil pessoas: "Eu tenho um sonho". Dois anos depois, João XXIII, no Concílio Vaticano II, autorizou a abertura da igreja para os tempos modernos e suspendia o latim como língua obrigatória nos cultos religiosos.
O continente africano não tomava conhecimento desses fatos. O Papa João Paulo II pregava que "Não se salva o mundo ficando fora dele". O Santo Padre tinha razão; por isso Mandela registrou para a história da humanidade: "Tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas vivam em harmonia e com oportunidades iguais..."

A Copa do Mundo de Futebol já nos proporcionou uma enorme vitória! As palavras do arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, referindo-se ao eterno líder Nelson Mandela: "...temos que prestar homenagem ao homem a quem devemos isso...", nos diz claramente que esta será uma Copa diferente das outras. Será marcada pela conscientização sociopolítica de todos os povos e mostrará que a vida nos foi ofertada por Deus para vivermos em paz.
Os africanos aguardaram, pacificamente, 80 anos para que o mundo acreditasse que eles são capazes de realizar qualquer tipo de evento e, mostrar que a África é do mundo; dizer que a África existe; provar que a África é nossa irmã...

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 13 de junho de 2010

 

 

Sobre a Parada de Advertência dos Professores da Rede Municipal
de Ensino realizada recentemente em Afogados da Ingazeira...


Notícias divulgadas, com falhas em seu conteúdo por incompetência da origem, ou mesmo com inverdades intencionais visando obter sucesso em seus objetivos, podem causar danos irreparáveis à sociedade.

Jânio Quadros renunciou ao cargo de Presidente da República alegando que “Forças terríveis” estariam conspirando contra seu governo. Estranhamente foi descansar em Londres, certo de que o povo exigiria seu retorno como O Salvador da Pátria. Deu zebra. A farsa foi absurda! Os motivos apresentados eram tão ocultos que nunca foram esclarecidos. Na verdade, Jânio não suportou as pressões normais da nobre função que o povo outorgou-lhe através do voto popular. Foi frágil, e articulou uma saída covarde com justificativas mentirosas.

Nessa última sexta-feira (04.06.2010), a Associação dos Professores Municipais de Afogados da Ingazeira, divulgou boletim com reivindicações rotineiras. Dizia o comunicado que era “uma paralisação de advertência como forma de protestar contra os salários atrasados...”. Tudo isso faz parte das negociações e acordos coletivos de diversas categorias. Porém, um parágrafo onde afirmava que “No final de maio, constatamos que houve um repasse de mais de um milhão de reais depositados na conta do FUNDEB...”, obrigou-me, como cidadão, a buscar maiores detalhes sobre tão grave denúncia. O Secretário de Controle Interno exibiu, para conhecimento de várias pessoas presentes, defronte a Prefeitura, o extrato bancário da conta supracitada e, em nenhum momento foi observada essa importância a que se refere a Associação dos Professores.

No sábado, estive com o Presidente da Câmara de Vereadores que, gentilmente, forneceu-me o DAF-Distribuição de Arrecadação Federal com valores discriminados detalhadamente e que foram creditados na conta Fundeb/Afogados da Ingazeira, apresentado como sendo a prova do valor acima referido. Constatamos, também, que houve equívoco na análise dos lançamentos, pois, o valor a que se refere a Associação, é referente a todo o período, acrescido da parcela de abril, complementada pela União em 06.05.2010.

Calma! Já basta partidarizar nosso carnaval... Estivemos sentados, inúmeras vezes, em mesas de negociações envolvendo trabalhadores e patrões, mas nunca deixamos que nossas vozes fossem desacreditadas.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 06 de junho de 2010

 

 

 

A LEITURA

Minha professora de Literatura Brasileira dizia que: “obtemos conhecimento sobre a vida, através da leitura. Crescemos e sentimos a necessidade de aprender sempre.”
Confesso que nunca fui aplicado nos livros de romance, nem mesmo nos clássicos da nossa literatura. Porém, ainda hoje conservo o hábito de ler revistas e jornais de diferentes modelos e opiniões. Pois, além de custarem bem menos nos trazem uma infinidade de informações úteis.

Domingo último, folheando um exemplar de grande circulação, observei várias reportagens importantes e editoriais de excelentes qualidades. Nos seis cadernos distribuídos em 54 páginas mais um suplemento e, ainda, uma revista, gostaria de destacar dois comentários.
O primeiro é sobre a Lei da Transparência. Inicialmente, valendo para as 258 cidades com mais de 100 mil habitantes. Até maio de 2013, os demais municípios brasileiros terão que divulgar, diariamente, na internet, as informações sobre receitas e gastos. Em outras palavras, têm que mostrar e dizer ao povo quanto dinheiro entrou e de onde vieram esses recursos, como também tudo que foi, e como foi, gasto pelas prefeituras.

Na coluna Opinião, vejo a bem redigida crônica do Dr. Mozart Valadares com o título “O Ficha Limpa. “Quando a sociedade se mobiliza, o Congresso Nacional dá uma resposta positiva”, escreveu o magistrado. O projeto popular, com mais de 2 milhões de assinaturas, virou Lei e torna inelegível candidatos condenados pela justiça. O Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros demonstrou toda sua satisfação ao afirmar que “o País obteve um ganho político extraordinário.”
Agora, cabe ao Presidente da República aceitar, rapidamente, para que a Lei do Ficha Limpa possa valer já nas próximas eleições.

Bom, foi lendo um jornal que consegui estas informações. Todos nós somos capazes, é só tentar; inicie com uma simples leitura. Afinal, “aprender é a função mais nobre do cérebro” e ler fortalece neurônios e promove o aprendizado.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 30 de maio de 2010

 

 

"Só deixo o meu "Pajeú" no último pau-de-arara"

Depois de quinze meses ausente, fui visitar a comunidade de Monte Alegre, distante nove quilômetros de Afogados da Ingazeira. Certamente a chegada do novo asfalto, somando-se a já existente luz elétrica, água encanada em muitas casas, posto de saúde e uma organizada associação, foram determinantes para que houvesse um considerável aumento de famílias que passaram a residir naquele próspero e bonito pedaço de terra do nosso querido sertão do Pajeú. São aposentados, profissionais de diversas áreas, principalmente os que exercem funções ligadas à agricultura e trabalhadores do campo que retornam às suas antigas atividades.

Nas décadas de sessenta, setenta e oitenta, acontecia o contrário. Como essas comunidades não dispunham da infraestrutura que existe hoje, o homem da zona rural era forçado a procurar os grandes centros do país em busca de melhores condições de vida. Sonho que muitos não realizaram, passando a morar em favelas e cortiços sem a mínima condição humana.

O jornal “The New York Times” afirmou, recentemente, que as dificuldades nos grandes centros urbanos e o crescimento da agricultura e dos investimentos em cidades do interior inverteram os fluxos migratórios no Brasil. É o desenvolvimento econômico se espalhando por todo o país. Não podemos ignorar que vivemos uma nossa época com vida nova para os mais pobres.

Como sertanejo e amante dessa região, fico muito feliz ao comprovar a veracidade desses dados estatísticos. Então, em nome dos que resistiram ao destino de seus companheiros e parentes que partiram rumo ao sudeste a bordo de um caminhão e dos que hoje enxergam nosso Nordeste com outros olhos, lembramos a poesia de Venâncio/Corumbá/J.Guimarães cantada pelo Rei do Baião Luiz Gonzaga: “...enquanto a minha vaquinha, / tiver o couro e o osso, / e puder com o chocalho / pendurado no pescoço / eu vou ficando por aqui, / que Deus do céu me ajude, / quem sai da terra natal / em outro canto não para / só deixo o meu "Pajeú", / no último pau-de-arara.”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 21 de maio de 2010

 

 

O avanço das comunicações

Recebi da professora Enedina Santana, ex-Secretária de Educação (do município de Afogados da Ingazeira), suplementos que o Diário de Pernambuco presenteou seus leitores e leitoras em comemoração ao final e início dos séculos XX e XXI.

São fatos históricos e marcantes que a humanidade viveu!

Os ricos e úteis escritos da página cinco do dia 13 de julho de 1999 falam sobre uma das maiores revoluções dos últimos cem anos. Foi, exatamente, em 25 de janeiro de 1915 que Alexander Graham Bell, o homem que já havia inventado o telefone, quase quarenta anos antes, fez a primeira conversação telefônica transcontinental da História. Naquela época foram necessários nada menos que 130 mil postes e três mil toneladas de cabos.

As tecnologias de telecomunicações voaram mais longe. Chegaram ao espaço. Transmissões via satélite permitiram que, em julho de 1969, os primeiros homens a pisar na Lua, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, fossem vistos e ouvidos por milhões de pessoas na terra.

Hoje, em órbita do nosso querido planetinha, a 20 mil quilômetros de altura, existem satélites que podem enviar para computadores de bolso as coordenadas de qualquer ponto do mundo.

Futurologistas de plantão prevêem que uma nova Era das Comunicações ainda mais veloz e eficiente está por vir... Será uma enxurrada de novidades daqui pra frente.

Êita! Há algumas décadas, Abelardo Barbosa, pernambucano de Surubim, mais conhecido como Chacrinha, que chega a ser até parente do nosso Dr. Aluízio Arruda, fazia sucesso na TV com um estilo único e inovador em termos de comunicação. O Velho Guerreiro com seus graus de miopia, podia não ter a visão de um lince, mas mostrou possuir os sentimentos dos sábios quando afirmava que “quem não se comunica se trumbica”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 09 de maio de 2010

 

 

Nossa feira livre

Desde 500 a.C. já havia feiras pelo mundo. Alguns pesquisadores afirmam que tudo começou com as festividades religiosas, e praticava-se apenas a troca de mercadorias. Só depois ganhou um caráter, exclusivamente, comercial. No Brasil existem feiras livres desde o período colonial. Elas foram aumentando e assumindo importante papel na sociedade devido ao abastecimento dos produtos consumidos pela população.
Sempre gostei de feiras livres! Como os produtos oferecidos por nossos feirantes aqui de Afogados da Ingazeira são de primeiríssima qualidade, vou todos os sábados comprar os itens básicos para consumo de uma família. Porém, ultimamente, tenho observado uma enorme quantidade de CARROS-DE-MÃO “estacionados” no centro de passagem, de maneira desorganizada, atrapalhando inclusive a movimentação das pessoas que ali se dirigem para realizar suas compras semanais. Às vezes, infelizmente, o estreito espaço da nossa querida feira, é disputado por carroças, animais e até automóveis de passeio e de carga.

Feira livre não significa “bagunça”, desordem ou coisa parecida. Ora, nossa cidade cresce e se desenvolve... Então, os órgãos municipais têm a obrigação de criar um projeto para disciplinar a nossa tão famosa feira livre. Isso significa respeito às pessoas. São comerciantes e consumidores que desejam um espaço com mais higiene, segurança e ordem.

Sugiro, ainda, que a Prefeitura estimule e patrocine, junto ao Sebrae, treinamento para qualificação ou requalificação dos feirantes, no sentido de prepará-los para um bom manuseio dos produtos bem como para um ótimo relacionamento com o cliente.

Aguardamos breves providências, porque a nossa centenária feira livre tem, além de rapadura, a certeza de que será tratada pelos governantes como um marco sócio-cultural de um povo.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 12 de maio de 2010

 

 

Nossos filhos...

Na missa dominical o eloquente pregador afirmou que “Os filhos não são nossos”. A inteligente colocação do sacerdote, evidentemente, mostrava que concebemos nossos descendentes, não para tê-los como propriedade durante toda a vida, mas sim, prepará-los para enfrentar os desafios desse grande e complicado mundo.

Entretanto, durante o período em que ficam sob nossa tutela, temos a obrigação de estabelecer alguns parâmetros de conduta e comportamento para serem rigorosamente cumpridos, visando uma boa formação sócio-educativa.

Sabemos, por exemplo, que temas como Liberdade e Limites são bastante debatidos e muito pouco entendidos pela atual sociedade. Liberdade não é permissividade. A liberdade a que me refiro é no sentido de proporcionarmos aos nossos filhos uma livre e decente escolha. Todos nós, pais, desejamos que essa escolha siga sempre afinada com o caminho do bem, ou seja, do estudo, da responsabilidade, da obediência, do trabalho e do respeito. Caso desafine, enveredando pelo sentido inverso, poderá ser perigoso.

Antes que nossas crianças voem é importante lembrarmos que limites é ter a consciência do seu potencial, das suas possibilidades humanas; é saber o que é errado e certo na sociedade em que vivemos; limites é ter certeza de que, caso cometa falhas, será punido. Todos esses básicos procedimentos são do conhecimento público. O que uma grande parcela ainda não percebeu é que aprendemos essas regras na mais importante escola do mundo: a família.

Espero que as profundas palavras do padre não se percam no tempo. Talvez alguns pais nem tenham gostado muito da homilia, mas, ficarão curiosos e menos paternalistas quanto aos novos diálogos que travarão com seus filhos.

Mesmo sabendo que terão nosso aplauso em qualquer situação, torçamos para que na orquestra da vida, nossas almas gêmeas que quando erram atropelam todo o concerto, executem seus instrumentos com acertos e sem temor do mundo. Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas escreveu que “o importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não foram terminadas, mas que elas estão sempre mudando. Afinam e desafinam.”

Ah! Nossos filhos. Bom, podem ser do mundo e para o mundo, mas nunca deixarão de ser “Nossos Filhos”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 09 de maio de 2010

 

 

FUTEBOL x URNAS

Certamente Charles Miller, o precursor do futebol no Brasil, não imaginava que esse esporte fosse provocar tantas alegrias e tristezas em todo o mundo.

Domingo passado fui ao Estádio Vianão, assistir nosso Sobreirinha perder, pelo placar mínimo, para o Flamengo de Itapetim. Mesmo assim o time de Cebolinha ficou com a Taça Pajeú por ter vencido a partida anterior com vantagem suficiente.

Na quarta-feira, as TVs mostraram, à tarde, o Barcelona vencer a Internacionale mas ficou sem o direito de disputar a final da Copa dos Campeões da Europa por ter perdido, também, a primeira partida. Um bom jogo! Neste mesmo dia, quase 10 da noite, novamente futebol. No clássico das Emoções o Náutico fez um golzinho e venceu o Santa Cruz; e ainda lá pras bandas do sul, teve Corinthians e Flamengo. É o futebol fazendo parte da vida de milhões de pessoas.

No dia 11 de junho começa, oficialmente, a Copa do Mundo de Futebol. A África do Sul diz-se pronta para recepcionar os amantes e apaixonados pelo mais popular de todos os esportes.

Por que será que esse espetáculo mexe tanto com as pessoas? Lembramos que em 1970 o então Presidente da República, o general ditador Emílio Garrastazsu Médici, exigiu a convocação de Dário, o que provocou a renuncia do competente e íntegro técnico João Saldanha; igualmente, em 2002, FHC, digamos..., reivindicou a escalação de Romário para a seleção brasileira. Em 2010 ainda não temos notícia do preferido de Lula.

Tudo isso é festa e o povo participa de corpo e alma. Porém não podemos esquecer que, logo após essa farra futebolística, teremos um sério e importante compromisso com as urnas. Vamos escolher uma nova pessoa para governar nosso querido Brasil. Tomemos, pois, todo cuidado pra que o delírio lúdico, orquestrado pela mídia parcial e desonesta, não use o cenário da copa para interferir, politicamente, na posição dos menos avisados.

Os famosos clubes são, hoje, grandes empresas; os atletas correm muito mais em busca do dinheiro que da vitória. Então, cabe-nos analisar essa metamorfose para que não nos tornemos, além de doutrinados, simples alienados. Dessa forma, podemos dividir com inteligência e sabedoria as emoções e responsabilidades e continuar torcendo pelo time do coração. Assim podemos repetir o que vimos num para-choque de caminhão: “custe o que custar, mude o que mudar, em qualquer época o futebol sempre foi, é e continuará sendo, uma enorme paixão popular”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 29 de abril de 2010

 

 

Render-se, nunca. Retroceder, jamais!

Já enfrentamos e vencemos franceses, ingleses, holandeses em várias guerras defendendo nosso território; igualmente travamos muitas lutas internas contra ditadores que tentaram impor regimes feudais e tiranos. Só pra clarear a mente dos mais jovens, em 1964 enfrentamos o Ato Institucional nº 1, o temível AI-1, que cassou mandatos, suspendeu direitos políticos, prendeu, etc.; combatemos o AI-2, que instituiu o bipartidarismo; lutamos contra o AI-3, que estabelecia eleições indiretas; depois condenamos o AI-4, que impunha uma nova e cruel Constituição dando amplos poderes ao General Ditador.
Em janeiro de 1968 veio o AI-5 que fechou o Congresso e parecia ter sido o golpe fatal. Não foi... Em 1985 vencemos essa desigual guerra pela liberdade. Hoje vivemos num país livre e democrático.

No intervalo do jogo realizado nessa quarta-feira 21, em que o Sport perdia para o Atlético Mineiro por dois a zero (2x0), um atleta leonino num gesto insensato declarou que naquele momento o jogo tinha acabado. Não podemos calar, nunca, mediante tamanha irresponsabilidade, tanto profissional como de caráter humano, além, é claro, de ter desrespeitado a enorme torcida do clube da Praça da Bandeira. Pois, ainda faltavam disputar todo o segundo tempo da partida. O medroso, fraco, poltrão, sem energia, jogador rubro-negro, além de demonstrar o desânimo dos pusilânimes ao desistir da luta no meio do caminho, mesmo teoricamente, passou aos outros companheiros uma das piores ações da humanidade: a covardia.
Porém, logo no dia seguinte, quinta-feira 22, tivemos a satisfação e a felicidade de presenciar o Grupo Mulher Maravilha promover no Cine São José, encontro sobre os desaparecidos políticos. Gestos dessa natureza reaviva e fortalece nossos sentimentos de cidadão. Isso é atitude honrosa, louvável... Corajosa. Afinal, mesmo sendo essa luta bem mais complexa e profunda que uma partida de futebol, esses órgãos nunca deixaram de acreditar na vitória.

A sabedoria popular diz que “Mais valem as lágrimas de não ter vencido do que a vergonha de não ter lutado”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 22 de abril de 2010

 

 

Nesta tarde noite de 13 de abril enquanto aguardava o funcionamento da fonte localizada na Praça Arruda Câmara, observava a pequena Isadora, sob o olhar atento da cuidadosa mãe, brincar entre os destroços do nosso antigo coreto. Os ricos e inteligentes versos dos poetas Diomedes Mariano e Dedé Monteiro, afixados nas antigas ruínas ali expostas, não chamaram a atenção da inocente criança.

Talvez as pilastras que “já tiveram vida” estejam em local desapropriado e impróprio. Na verdade, o valor do nosso antigo coreto está em sua história. E certamente essa história não pode ser contada em poucas linhas.
Lembramos que em meados de abril de 1912 o Titanic afundou em águas internacionais. Passados 73 anos, mais precisamente em 1985, foram encontrados destroços e pertences das 1.522 pessoas que perderam suas vidas naquele terrível acidente. Uma empresa de turismo queria comprar os direitos para colocar os artefatos dessa embarcação no centro de Nova York. O governo dos Estados Unidos classificou a ideia de ridícula, afirmando que o mais importante é manter o respeito às famílias das vítimas e preservar a memória do maior transporte naval de todos os tempos.
Espero que nosso passado, um passado sadio e humanístico, não seja destruído, assim como fizeram com nosso querido coreto, por um presente de progresso duvidoso, e que num futuro bem próximo possamos dizer bem alto que “volto feliz, petrificando abraços / contando histórias, revivendo o show / pra que a memória imortalize os traços / do meu formato que o tempo apagou.”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 13 de abril de 2010

 

 

ONDE ANDA A CIVILIDADE?

Enquanto observava a exagerada podação feita na algaroba que nos protegia do forte sol sertanejo, pude ouvir toda indignação da professora, hoje aposentada e cumprindo todas as normas que incluem os padrões básicos de civilização.
Reclamava, principalmente, dos “donos” de cachorros e gatos, bem como dos carroceiros que trabalham utilizando tração animal como burros e cavalos. Os primeiros quando criados soltos fazem suas necessidades fisiológicas em plena via pública e, igualmente, os de maior porte, deixam um rastro de sujeira e mau cheiro insuportáveis, além de transmitir doenças à população.

Ora, é bom lembrar que tá lá na Constituição Federal em seu “Art.196:
Saúde é direito de todos e dever do Estado (aqui se compreende Município), garantindo mediante políticas públicas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos...”.


Em muitas cidades brasileiras são frequentes os atos de desobediência às Leis. Geralmente essas criminosas ações são inibidas através de severas punições aos infratores. A rua é nossa segunda casa... Nós, cidadãos e cidadãs, temos a responsabilidade de cuidar e querer sempre o bem da cidade que amamos. Portanto, aproveitamos a coragem e experiência de tantos anos como educadora de Dona Lalu, para sugerir aos proprietários ter disponíveis sacolas para apanhar os dejetos expelidos por esses inocentes quadrúpedes. Um gesto por demais civilizado.

Enquanto isso, aguardarmos a oportuna e inteligente ação do Poder Legislativo de Afogados da Ingazeira, no sentido de criar uma Lei Municipal que discipline o tráfego dessas carroças, a criação de bichos irracionais soltos e, o mais importante, a convivência do homem com os animais.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 05 de abril de 2010

 

O FIM DO MUNDO TÁ PRÓXIMO?!

Sem esperanças de chuvas e com prejuízo na lavoura, ouvi de um lavrador que “o fim do mundo tá próximo”. Amigo de velhos tempos, senti a obrigação de avivar seus neurônios, ainda em perfeitas condições de raciocinar. Falei-lhe sobre uma reportagem publicada pela revista Veja em novembro de 2009, onde em 10 páginas aborda esse complexo assunto. Diz o texto que, segundo o calendário maia, o fim do mundo está, ou estaria previsto para 21 de dezembro de 2012. Mas... calma! Não precisa entrar em pânico.

Os crentes do apocalipse também afirmavam que o fim seria 1.000 anos após o nascimento do menino Jesus. Como a previsão fracassou, disseram que era 1.000 anos depois da morte e crucificação de Cristo. O que ocorreria no ano de 1033...Nada aconteceu.

Astrólogos, judeus, teólogos, cientistas, pesquisadores, egiptólogos, enfim, estudiosos das mais variadas organizações erraram em suas análises com referência ao cataclismo final.

O evangelista João, muito perseguido pelo Império Romano, escreveu quando estava preso que os primeiros sinais do fim do mundo seriam avisados por um céu negro ou escuro, uma lua cor de sangue, estrelas desabando sobre a terra e uma série de catástrofes pelo mundo inteiro, como terremotos, inundações, incêndios e epidemias. Mesmo assim, não foi taxativo nas datas nem em que tempos viriam esses avisos. Depois, afirmou João, haverá a batalha do Armagedom, quando vivos e mortos sentarão no banco dos réus, perante o tribunal divino.

Que venha tudo que for determinado pelo Senhor. E, tudo virá de acordo com a vontade de Deus. Então, aproveitemos a Páscoa para meditar, tanto sobre a ressureição de Jesus Cristo, como a nossa convivência com as épocas, sendo sempre senhor do nosso limitado tempo e espaço. Afinal, consta no livro de Eclesiastes que“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu: Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de se arrancar o que se plantou;... tempo de chorar, e tempo de rir... tempo de guerra, e tempo de paz.”

Feliz páscoa!

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 30 de março de 2010

 

 

O destino nos prega momentos de extrema dificuldade e sofrimento. A perda de uma pessoa querida, por exemplo, nos deixa um enorme vácuo espiritual e emocional. Em contrapartida, muitas vezes a solidão e a saudade avisam da urgente necessidade de se tomar novos rumos, evitando que o corpo e a alma sejam ainda mais penalizados. Por isso, quando formos vítimas dessas desagradáveis situações, tenhamos a fé de Jó que mesmo perdendo toda a família e fortuna, ainda assim, não teve sua fé abalada. Então, nunca devemos nos entregar ao desânimo e à depressão. Temos que continuar essa enigmática caminhada da vida, obedecendo os princípios básicos da nossa religiosidade.

Ultimamente, minha filha mais nova não respondia aos acenos nem às bençãos que enviava através de emails e mensagens, por não aceitar minha nova companheira. Em resposta, pedia a proteção e a interferência divina... E acreditem! Ele, o Senhor dos Senhores, ouviu minhas súplicas para domar o ciúme e a rebeldia. Nessa últma terça-feira, 23.03.2010, como de costume, fui ao agreste visitar os outros filhos e neta e, pra minha surpresa e felicidade recebi um abraço e um beijo daquela que há um ano estava longe de quem mais lhe ama: seu velho pai.

Tenham certeza que Deus é justo, por isso nunca cometerá injustiça.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 25 de março de 2010

 

 

 

O mal da Lei discriminatória

Sou contra todo e qualquer tipo de violência. Seja a praticada contra a natureza, contra os animais e, principalmente, as que envolvam pessoas. Sei perfeitamente que as Leis existem para serem cumpridas e penalizar quem as descumprem. Evidentemente que, às vezes, os legisladores exageram em determinadas decisões, enquanto relaxam em algumas normas para punir fortes e perigosos ilícitos, deixando inclusive brechas jurídicas como se oferecessem fuga aos mais espertos.

Acho louvável o que diz o Art. 2º da Lei 11.340/2006, a conhecida e temida Lei Maria da Penha: “Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia... e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência...”. Logo adiante, no parágrafo 2º consta que “Cabe à família, à sociedade e ao poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados no caput”.

Ora, as pesquisas mostram que 90% dos casos que envolvem violência doméstica estão relacionados com bebidas alcoólicas. Não sendo, portanto, para alguns juristas, caso criminal, e sim, social. Fica evidenciado que para o Estado é mais fácil punir do que recuperar o agressor do vício do alcoolismo. Especialistas afirmam que uma das mais austeras medidas dessa Lei é a que trata da prisão em flagrante pelos crimes de ameaça, injúria e calúnia, praticados contra a mulher. Sociólogos que estudam esse assunto acreditam que “trazer os casos de violência doméstica para os balcões de delegacias, dando-lhes tratamento penal mais severo, em nada muda a realidade social que é vivida pelas pessoas envolvidas que são na maioria pobres”.

Opino apenas como cidadão. E, como tal, devo registrar, mesmo sem ser advogado, minhas amadoras ressalvas. Certa vez Albert Einstein disse: “O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 21 de março de 2010

 

 

OUVINTES DE RÁDIO

Pesquisando sobre a história do rádio brasileiro, descobri uma Associação de Ouvintes de Rádios do Ceará com espaço, inclusive, na programação de uma das emissoras da cidade. No horário destinado a essa organização são debatidos desde a importância dos meios de comunicação, até o conteúdo programático que lhes são apresentados.
Herbert de Souza, o sociólogo Betinho, costumava afirmar que a democracia de uma nação mede-se pelo tamanho da participação que o povo tem na mídia.

O artigo 221 da Constituição Brasileira diz claramente que se dê preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Procedimentos que Dom Mota, há cinqüenta anos, já adotara como princípios básicos em nossa querida Rádio Pajeú de Educação Popular.

Bom, mas voltando ao papel do ouvinte de rádio, daqueles que gostam do rádio, que participam de sua programação. Pessoalmente, acredito muito nessa interatividade entre rádio e ouvintes. E, já que existe e nos é concedido esse rico e importante espaço, pelo menos aqui na Rádio Pajeú, torna-se mister, necessário que aproveitemos com muita responsabilidade. Já imaginou se os ouvintes não tivessem acesso para reclamar, opinar, sugerir, enfim dizer bem alto o que muitos têm vergonha ou medo de dizer baixinho? Todas as instâncias da sociedade devem contribuir para que essas ações se desenvolvam dentro de um processo onde o objetivo seja, dentre outras finalidades, a construção de uma sociedade com justiça, liberdade, igualdade e respeito indistintamente.

Quando o Presidente da República sancionou a Lei nº 11.327 que instituiu o dia 7 de novembro como o dia do Radialista em homenagem a Ary Barroso, uma jovem estudante de jornalismo quis mostrar a necessidade da participação, como também a responsável e excelente relação que existe entre os profissionais de rádio e os ouvintes afirmando: “o ouvinte de rádio não é um mero receptor de informações. Seu papel vai mais além e tem importância vital para o desenvolvimento de uma comunicação que se paute pelo processo de cidadania e que seja democrática em todos os sentidos...”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 19 de março de 2010

 

 

FÉ EM DEUS, MESMO ASSIM...

O padre Jesus Flores, numa de suas excelentes crônicas, citou algumas das catástrofes ocorridas ultimamente pelo mundo afora. Segundo sua equilibrada avaliação, essas destruições e mortes nos trazem muita tristeza e dor; porém alerta a todos que crêem em Deus que não há necessidade de pânico generalizado pela população mundial. Deixou claro que a violência é mais grave que as chuvas excessivas, os terremotos e maremotos.
Isso me fez lembrar os anos de 1966 quando estudava no Seminário de Afogados da Ingazeira, supervisionado pela competente madre Imã. A alemã de nascimento, além de amiga dos alunos, primava muito pela educação e comportamento daquelas crianças e adolescentes com idade entre 11 e 15 anos.

Certa vez, sobre um conflito envolvendo turmas diferentes, juntou toda a Instituição e numa excelente e inesquecível explanação falou sobre violência.

Recordo-me bem... Disse só acreditar na “valentia” daquele que sabe perdoar; e mais, coragem de verdade tem aquele ou aquela que procura seu algoz, ou mesmo seu suposto inimigo, em busca de uma reconciliação. Conseguia prender a atenção de todos com suas palavras, mesmo de caráter repreensiva, e seus conselhos encorajadores. Enquanto isso o padre Brechiane, um italiano professor de filosofia, usando de ações austeras e muitas vezes exageradas, não mantinha a ordem dos alunos que coordenava.

Em junho de 1996 estive visitando a ilha de Fidel e enquanto aguardava o vôo para retornar ao Brasil no aeroporto José Marti, em Cuba, uma freira sentou-se ao meu lado e trocamos algumas palavras em português/espanhol. Falei sobre a experiência que tive no Seminário com a madre Imã. Ela ficou encantada! Então, antes de voar para a Guatemala me deixou uns escritos de autoria desconhecida, que guardo até hoje com muito carinho.

“As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame-as mesmo assim /
Se fizer o bem, as pessoas vão acusá-lo de interesseiro. Faça o bem, mesmo assim. /
Se fizer sucesso, terá falsos amigos e inimigos de verdade.
Seja honesto e sincero, mesmo assim... /
O bem que fizer hoje será esquecido amanhã. Faça o bem, mesmo assim. /
As melhores pessoas com as melhores ideias podem ser derrubadas pelas piores pessoas de mais ínfima mentalidade. Tenha grandes ideias, mesmo assim. /
As pessoas torcem pelos mais fracos, mas seguem os mais fortes. Lute pelos mais fracos, mesmo assim. /
O que você passa anos construindo pode ser destruído em um dia.
Construa, mesmo assim... /
Dê ao mundo tudo de si e será esbofeteado. Dê ao mundo o melhor de si, mesmo assim.”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 12 de março de 2010

 

 

HOMEM E MULHER... UMA SÓ CARNE

No início do livro do Gênesis há um relato que diz: “...Então o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu... Depois tomou uma das suas costelas e transformou-a numa mulher.” Continua o versículo: “Por isso deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.”

Embora desconfie dessas datas fabricadas pelo mundo capitalista, respeito muito as aceitações, tendências e intenções populares. Até porque Dia Internacional da Mulher são todos os dias. Lembramos que há estudiosos e pesquisadores que duvidam, não só da época, mas até mesmo a existência da fábrica americana onde, possivelmente, teria ocorrido o episódio com as operárias que reivindicavam seus direitos. Ora, a luta que se trava ocorre todos os dias, então todo dia é Dia da Mulher, do índio, do negro, etc.... O 8 de março é apenas um símbolo. Bom, isso é o que menos importa. Na verdade, o que interessa é a valorização da mulher como ser humano dentro da sociedade. E essa conquista vem crescendo espetacularmente!

Muitos cientistas acreditam que estamos fechando um ciclo da História da Humanidade. Presenciamos o fim de muitas formas de autoritarismo, principalmente o gerado entre homens e mulheres. O importante é que essas relações estão se tornando mais igualitárias e democráticas. Sem dúvida “melhorar as relações entre homens e mulheres significa humanizar a sociedade”. Essa luta é de todos, não só das mulheres, que ousam sonhar e principalmente se mobilizar em busca de tornar esse sonho uma realidade.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes descreveram na música “Eu não existo sem você” todo amor e respeito que um homem pode demonstrar por uma mulher:
“Eu sei e você sabe / que a vida quis assim / que nada nesse mundo levará você de mim / eu sei e você sabe que a distância não existe... Concluiu o autor de Garota de Ipanema mostrando o carinho, o afeto, o respeito, o amor, enfim a importância da mulher em sua vida “... Assim como o oceano, só é belo com o luar / assim como a canção, só tem razão se se cantar / assim como uma nuvem, só acontece se chover / assim como o poeta, só é grande se sofrer / assim como viver sem ter amor, não é viver / não há você sem mim / e eu não existo sem você!

Realmente, o Senhor Deus tinha toda razão quando fez os dois, Homem e Mulher, uma só carne.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 05 de março de 2010

 

 

INFRAESTRUTURA DO MUNICÍPIO DE AFOGADOS DA INGAZEIRA - DESCASO

”A voz dos sedentos precisa ser ouvida quando falamos de água e esgoto como bem e serviço público universal.”


Para se ter uma ideia, no Brasil somos quase 200 milhões de habitantes; aproximadamente a metade não tem coleta de esgoto sanitário. MAS AFOGADOS TEM...

Nunca é pouco lembrar que a ausência de saneamento nas cidades provoca problemas sérios de doenças na população. O SUS, Serviço Único de Saúde, registra que 85% das internações hospitalares são causadas por doenças relacionadas com a falta de saneamento, ou pela má conservação desses esgotos sanitários e similares. Vale dizer que esses canos, esses tubos passam bem próximo as nossas casas. Outro dado preocupante, segundo o mesmo SUS, é que morre uma criança por dia, exatamente pela falta de saneamento ou esgotos sem as devidas manutenções e fiscalizações.

Alertamos ao Serviço Público, ou seja, a Prefeitura de Afogados e de toda a região que saneamento é uma ação de SAÚDE PÚBLICA. O Conselho Municipal de Saúde, bem como a área que trata do Meio Ambiente, têm a obrigação de provocar discussões sobre tão importantes temas: Água e Esgoto. Também é necessário que nos envolvamos nesses debates de saúde coletiva da nossa cidade. É vergonhoso e não podemos omitir que as coisas não funcionam como deveriam, até porque o modelo de procedimento do serviço público ainda tem vícios difíceis, mas nunca impossíveis, de serem removidos.

Infelizmente sou mais uma das inúmeras vítimas desses descasos que há quase 30 dias, conforme solicitação protocolada em 05.02.2010 aguarda a recuperação por parte da Secretaria de Infraestrutura de um esgoto estourado defronte à minha residência localizada na Rua Júlio Câmara, local de fácil acesso e no centro de Afogados da Ingazeira.

Quando haveremos de ter água para todos e esgoto aberto pra ninguém? Essa luta é de todos, homens e mulheres que desejam sua rua, seu bairro, sua cidade, enfim sua família com dignidade e saúde. Carlos Moura Gomes - 081-92444649

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 02 de março de 2010

 

 

OPERÁRIOS SOCIAIS

A sociedade não se traduz apenas nos órgãos públicos e privados com seus empregados e funcionários. Na verdade o que realmente define essa expressão são todas as nossas ações que executamos diariamente. Estão envolvidos nessa tarefa todos os seres, independentemente de quaisquer extratos financeiros e status social. Quando nossos hábitos são aceitos, automaticamente são incorporados ao convívio social.

Conversando com um oficial de cartório, pude observar a enorme variação de inusitados nomes, incluindo os já conhecidos e famosos Joãos, Josés, Severinos, Marias, Lourdes e Josefas que engrossavam aquele volumoso livro. São nomes e sobrenomes que nos fazem companhia pelo resto de nossas vidas.

Lá constam os registros, civilmente, válidos. Porém, há os que, carinhosamente, rebatizamos levando em consideração as características e o comportamento das pessoas. É o conhecido apelido, ou seja, uma designação especial que usamos, geralmente, para identificar um amigo e uma amiga queridos.

Está provado, cientificamente, que as cidades grandes ou pequenas, só são consideradas ordeiras, pacíficas e tidas como ideais para se morar, quando seus habitantes as constroem e mantêm esse padrão de qualidade.

Aqui em nossa querida Afogados da Ingazeira, localizada no alto sertão pernambucano, ACREDITEM... vivemos num ambiente de extrema harmonia e felicidade entre as diversas classes e gerações.

Dos muitos operários que ajudaram na construção dessa importante e bonita obra social, lembramos, respeitosamente, de Pecoré, Ciço Boca-de-sapato, Goguinho, Joaquim Boca-de-sapo, Lodi, João Palmira, Dom João, Nego Sapateiro, Perna-de-pau, Garrafa e Meia-garrafa, Beto de Milinha, Zé Cotelo, Bombinha, Lulu Pantera, Serra Pau, Zé Panqueta, Tota Bequembau, Muriçoca, Cascão, Bagaço, Esqueleto, Ailton Cabeção, Amaro Pé-de-pato, Pedro Mutuca, Dija Peneira, Milton Papagaio, Zé Malaia, Zé Pedra, Lourdes Tingole, Cecília Preta, Chica Gambarra, Quitéria Chopá... Êita! Impossível registrar todos, mas podemos tê-los sempre como personagens importantes dessa eterna e valiosa página da vida.

“Façamos das antigas memórias as grandes armas da esperança e tiremos das doces lembranças a matéria-prima para novas histórias!” (Lucas Ferreira)

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 28 de fevereiro de 2010

 

 

CUIDADO, CUIDADO... SENÃO VOCÊ DANÇA...

Domingo desses fui visitar um casal amigo e lá se encontravam seus quatro filhos, adolescentes, assistindo o Faustão. Gritava o ex-gordo da Globo que “banda tal” vendeu mais de quinhentas mil cópias; “cantor b” ganhou disco de platina com 1 milhão de cd’s em todo o mundo.

Infelizmente, ouvi quando o mais jovem, de 16 anos, exclamou: - Amanhã vou à loja comprar esse “som maneiro”. Realmente pude observar o incrível poder de convencimento e persuasão que tem a mídia sobre a sociedade. Infelizmente, esse poder é exercido, muitas vezes, com interesses perigosos.

Em relação ao jovem, alertamos que nunca devemos confundir fuga com diversão. Ouvir seu rádio; assistir tv; fazer Cooper; ler; ir aos estádios em dias de jogos, ao cinema ver um bom filme ou aplaudir a uma peça de teatro; conversar e, apreciar uma música de qualidade são ações que fazem bem à saúde. Lazer é uma diversão que você deve praticar, espontaneamente, buscando ampliar sua felicidade.

A luta que muitos de nós travamos é, exatamente, a de tornar as pessoas mais sensíveis e livres para opinar sobre o que lhes são oferecidos nos grandes meios de comunicação. Afinal, é a nossa música, é a nossa poesia que estão sendo ameaçadas por covardes empresários que, além de mercenários, são inimigos da arte e da cultura. Mas nem tudo tá perdido...

Ainda podemos registrar, mesmo em poucas emissoras de comunicação, gestos de inteligência e competência para mostrar nossa música de qualidade. O programa Rádio Vivo do último sábado colocou Moacyr Franco e Altemar Dutra para que os ouvintes decidissem “quem era o melhor”. Puxa vida! Ouvir a poesia de Jair Amorim, Evaldo Gouveia, Lupicínio Rodrigues, Sérgio Bittencourt e outros na interpretação dessas excelentes vozes da Música Popular Brasileira é, simplesmente, extraordinário! Aprecio todos os estilos e gêneros musicais, desde que tenham conteúdo e suas mensagens sejam úteis aos nossos ouvidos e sentimentos.

O Barão Vermelho tem uma bela canção, no estilo rock and roll que diz: “o que você come / o que você bebe / o que você... / o que você compra / o que você veste / o que você usa / com quem você anda / com quem você vive / com quem você fica / com quem você se envolve / ...Cuidado, cuidado / Senão você dança...”

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 21 de fevereiro de 2010

 

 

DESCEM AS CORTINAS...
O PALCO JÁ ESTÁ SEM OS PERSONAGENS PRINCIPAIS


Mas... Calma! O carnaval não acabou; terminou, apenas, mais uma festa de momo. Ano que vem, se Deus permitir, estaremos juntos, novamente, dando alma e movimento às nossas fantasias da vida.

Durante os quatro dias circulei por diversos locais de nossa querida Afogados da Ingazeira. Ainda na sexta-feira, na movimentada Avenida Manoel Borba, interceptei os rápidos e firmes passos de Dom Bisol; consegui atrair sua atenção num efêmero e proveitoso diálogo sobre o carnaval. Disse-me que “era a festa do povo”.

No sábado aplaudi um dos primeiros grupos na abertura oficial e pude observar a alegria de Merita executando suas improvisadas coreografias tão bem quanto embeleza os jardins do órgão onde trabalha.

No domingo, na Av. Rio Branco, cumprimentei o desembargador conduzindo seu conservado fusquinha. Abracei uma criança de cinco anos que dançava o frevo com perfeição.

Na segunda-feira, no foco central, vi toda empolgação do Bloco Tô na Folia e respondi aos acenos do entusiasmado prefeito. Também ouvi, atentamente, o relato do bem produzido Tabaqueiro externando prazer ao ocultar sua verdadeira identidade.

E na terça-feira, último dia da festa mais popular do Brasil, assisti a Nação do Frevo tocar músicas novas e antigas. Nessa mesma tarde, consegui decifrar o difícil idioma de Orobós que, mesmo cometendo excessos, procurava alguém pra expressar seus sentimentos.

Foram várias troças e blocos com excelente comportamento, mostrando que a vida não pode passar em branco, desconsiderando as raízes e a cultura de um povo.

A natureza contribuiu enviando a chuva... Realmente ela nunca significou uma ameaça divina, e sim, um fenômeno espetacular.

Enfim, autoridades, repórteres, policiais e populares... As mais diferentes classes sociais misturavam-se no mágico espaço do carnaval afogadense, provando que todos são iguais quando vestem a verdadeira fantasia da humildade.

As festas populares nos deixam a certeza de que A VIDA É UM SONHO QUE NUNCA VAI TERMINAR...

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 17 de fevereiro de 2010

 

 

CARNAVAL COM PAZ, SAÚDE E UM VERDADEIRO AMOR

O compositor Carlinhos Brown escreveu que “paz, carnaval, futebol / não mata, não engorda / e não faz mal / carnaval, futebol / se joga pra cima e vira sol...” Na verdade fala-se muito sobre o carnaval. Alguns chegam até relacionar a festa mais popular do Brasil com feitos satânicos. Bom, respeitamos todas as manifestações. Na verdade o carnaval é uma grande festa. Mesmo tendo sua origem em terras européias, essa cultura foi tomando corpo e alma, genuinamente, brasileira.

Ainda criança ouvia minha mãe cantarolar antigas marchinhas lembrando Chiquinha Gonzaga...”ô abre alas, que eu quero passar / eu sou da Lira, não posso negar / ô abre alas que eu quero passar, Rosas de Ouro é quem vai ganhar.”

Contava-me sobre o amor de Pierrot que desde criança era apaixonado por Colombina, mas nunca teve coragem de revelar seu amor. Ela, a Colombina, caiu na conversa e esperteza de Arlequim. Somente depois é que volta aos braços do seu verdadeiro amado enxugando suas lágrimas.

Na obra de Santa Rita Durão, Caramuru, um trecho relata: “quando a nau ganha o mar, várias índias, interessadas em Álvares Correia, lançam-se nas águas para acompanhá-lo. Moema, a mais bela de todas consegue chegar perto do navio. Agarrada ao leme brada todo seu amor não correspondido ao esquivo e cruel Caramuru. Implora para que ele dispare sobre ela seu raio. Ao dizer isso, desmaia e é sorvida pela água.”

Basílio da Gama, mostra em “O Uraguai” o fiel amor de Lindóia que se fez picar por uma serpente, morrendo logo em seguida, por não aceitar o assassinato covarde do seu esposo, o índio guerreiro Cacambo, e pra se livrar dos assédios do tirano Balda.

As ficções acima servem para nos mostrar as diferentes formas de amar. Também alertar para possíveis exageros, principalmente, de jovens desinformados. Nesse carnaval tomemos todas as precauções de segurança quanto ao uso de bebidas alcoólicas e a promiscuidade. Busque sempre um verdadeiro amor, isso sim, sem nunca desistir de sua conquista. Já dizia Carlos Drummond de Andrade “como nos enganamos fugindo ao amor! Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar sua espada coruscante, seu formidável poder de penetrar o sangue e nele imprimir uma orquídea de fogo e lágrimas”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 11 de fevereiro de 2010

 

 

MISTERIOSO CAMINHO DE PEDRAS E FLORES

Já são mais de trinta dias de intensas chuvas que caem na capital paulista. Muitas famílias desabrigadas, várias vítimas fatais. Ultimamente tenho refletido muito sobre as catástrofes ocorridas pelo mundo afora. Isso mesmo! Alguém pode indagar: será que Nostradamus tinha razão quando divulgava, inclusive, data para o fim do mundo? Parece que essa teoria ganha força quando percebemos que as pessoas ficam sem esperança. Calma!

Parte da mídia tem certa parcela de culpa quando aceita e alimenta temas como: “a) as profecias mostram um futuro escuro; b) os cientistas, ou melhor, curiosos falam de sinais que nos deixam inquietos; c) livros antigos dizem que o terceiro milênio será decisivo; d) adivinhos vão à imprensa e proclamam fatos que vão acontecer”.

É certo que há quase dois milênios Jesus afirmava: “não passará esta geração antes que tudo isto aconteça”. Bom, em épocas de sofrimento social esse desejo de “fim dos tempos” surge com mais intensidade, é certo também que diversos acontecimentos mundiais, colaboraram para nos deixar, no mínimo, impacientes. Afinal, não podemos ignorar a crise de valores éticos, a confusão econômica, os desencontros religiosos, o esfacelamento da sociedade e, o pior, o distanciamento das pessoas em relação ao Criador do Universo.

Na verdade o que tememos mesmo é a morte. Não teria havido “fim do mundo” para os judeus durante a segunda guerra mundial? E para os índios assassinados covardemente pelos ocupadores dessa terra Brasil? E os negros escravos não teriam vivido tempos de horror? Concluímos que o “fim do mundo” já ocorreu para vários povos e civilizações.

Porém, caso você acredite que vivemos uma época de incertezas, lembre-se que nossa vida terrena não é eterna. Obedecemos a lei da natureza, a Lei de Deus.

Guerras, chuvas excessivas, secas, conflitos sociais... Tudo isso já vivemos e sobrevivemos. É lógico que ainda hoje sentimos essas marcas e choramos as perdas. A esperança, principalmente, no Senhor nos levará a conquistas impossíveis e o medo, nunca nos vencerá.

O amor ao próximo e a certeza de que existe um poderoso Pai do nosso lado, são fatores indispensáveis para enfrentarmos essas intempéries da vida, inclusive as que nem irão acontecer, assim seremos vitoriosos nessa efêmera caminhada, ora de pedras, ora de flores.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 06 de fevereiro de 2010

 

 

AS DROGAS MATAM

Hoje pela manhã surpreendi-me ao receber telefonema de um velho amigo. Infelizmente deu-me uma triste notícia: seu filho mais novo, recém admitido na Petrobrás, sofreu grave acidente de moto e veio a óbito. O que mais nos deixou perplexos foi que o resultado dos exames constatou que o jovem engenheiro tinha álcool e cocaína no organismo.

Nem todos entram nas drogas por problema familiar, revolta pessoal ou frustração na vida. A maioria, segundo pesquisas, é por simples curiosidade ou até mesmo influência de terceiros. Seria muito importante que todas as escolas, de primeiro e segundo graus, incluíssem em seus planejamentos pedagógicos palestras periódicas sobre os efeitos nocivos das drogas. E, sendo as drogas um problema de saúde, é obrigação dos órgãos competentes das três esferas, mostrarem à população como estão trabalhando esse assunto tão sério que, inclusive, representa uma ameaça para essa nova geração de jovens e adultos.

Segundo os especialistas, droga é toda substância que, introduzida no organismo, altera suas funções normais. Então, o álcool também é uma droga. E uma das mais antigas da humanidade. O Brasil é um dos campeões mundiais em acidentes de trânsito e, a maioria, em consequência do uso de bebida alcoólica. Existe um Projeto de Lei, parado na Câmara dos Deputados, alterando para 21 anos a idade mínima para obter o direito a carteira de habilitação. Países como a Finlândia, Noruega e Massachusetts (USA) restringiram a venda e a propaganda de bebidas alcoólicas e os índices de acidentes e agressões diminuíram significativamente.

Nos meus 54 anos descobri, dentre muitas coisas boas que a vida nos oferece, que se como alguns supõem que “beber é bom? NÃO BEBER É INCONTESTAVELMENTE MELHOR”. Faço esse relato porque vivi momentos terríveis quando estava no enganador e assimétrico caminho das bebidas. Consumi álcool dos 15 aos 49 anos de idade. Foram, portanto, 34 anos de pura ilusão e desgaste à saúde. Consegui sair dessa prisão psicológica e social, isso mesmo. Torna-se um caso de ordem mental e social. Mais saí. E, certamente, além da minha própria vontade, contei com a ajuda de meus familiares e, principalmente, do meu Senhor.

Alerto a todos os jovens que por ventura estejam sendo atraídos para esse terrível e enigmático caminho das drogas e das bebidas que, por mais difícil que seja a batalha, por mais longínquo que um sonho possa estar, por mais acidentada que seja a estrada, há sempre uma forma de se chegar à vitória. Todos nós temos capacidade, inteligência, força e muita fé em Deus. Apostem em suas vontades e vencerão... Descubram a felicidade que existe dentro de vocês e curtam a vida sem vícios nem drogas.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 30 de janeiro de 2010

 

 

SURPRESA DIVINA

Confesso que não consigo esquecer, em meados da década de 60, dos conselhos e das posições equilibradas e justas do nosso inesquecível, cearense de Reriutaba nascido em 1924, Dom Francisco; também guardo na memória as vezes em que tive a honra de escutar as palavras do Profeta do Século, um dos fundadores da CNBB, natural de Fortaleza e que veio ao mundo no ano de 1909, Dom Hélder Câmara; impossível não recordar da primeira visita ao Brasil, em 1980, do polonês nascido em 1920 que ficou 26 anos comandando os destinos da Igreja Católica, sendo o primeiro papa do terceiro milênio, João Paulo II. Foram momentos marcantes sobre todos os aspectos. Essas personalidades não só contribuíram e engrandeceram os movimentos religiosos, como também participaram da grande virada na história política e social do Brasil e em muitas partes do mundo.

A população aguarda, ansiosamente, a chegada de mais um Anjo de Deus. O italiano de nascimento, Padre Egídio Bisol será conduzido ao episcopado. O último e supremo grau do sacramento da Ordem. Não será, apenas, o Bispo de Afogados da Ingazeira, mas de toda a região do Pajeú. Torcemos para que o papel da Igreja nesta face de nossa história, principalmente política, seja de uma parceira incondicional, buscando sempre a justiça e lutando pela igualdade social.
O Arcebispo de Maringá, Dom Anuar Battisti afirmou que “nos momentos mais inesperados acontecem as surpresas mais agradáveis. Surpresas agradáveis foram os presentes desejados que chegaram na hora certa; foram os encontros com pessoas pedindo perdão, reconciliando com o passado amargo dos desencontros.” Agora, surpresa maior ainda, agradável e valiosa para nós, sertanejos, é a certeza de que vamos ter um aliado com forças divinas e inteligência humana para junta-se a essa grande massa de mulheres e homens que tanto necessitam de uma vida decente e digna.

Vamos acreditar nesses importantes e ricos momentos, assim podemos ampliar nossas vitórias e conquistas, transformando nossos sonhos e esperanças, antes impossíveis, em realidade.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 8 de janeiro de 2010

 

 

FATO LAMENTÁVEL

Nesta manhã de quarta-feira, 09.12.09, ouvi pela Rádio Pajeú de Educação Popular, aqui em minha terra, Afogados da Ingazeira, sertão de Pernambuco, uma senhora desesperada suplicando às autoridades de saúde que atendessem seu parente de forma digna e respeitosa. O paciente com fratura no fêmur necessitava de urgente atendimento em outra cidade e não havia ambulância.

A pobre mulher representou, com seu apelo emocionante, milhares de crianças, mulheres e homens que procuram, diariamente, os serviços do SUS.
Um estudioso em RH, especialista no setor de saúde, afirma que “o profissional de qualquer área que tem seu cérebro como única fonte de armazenamento e processamento de informação, isolado em um ambiente de trabalho inóspito e desintegrado, principalmente na área de saúde, pode inverter o resultado de todo seu esforço e intenção trazendo mais doenças que curas à sociedade.”

Na verdade, é do conhecimento de todos que dezenas de pessoas chegam a óbito por falta de atendimento adequado em todo o país. E, infelizmente, é certo também, que são mínimas as providências tomadas pelo poder público.


Então, quero registrar minha indignação pelo lamentável fato supra citado e, aproveito para prestar minha modesta mais verdadeira solidariedade a todos que têm seus direitos contrariados pelos que, mesmo tendo pleno conhecimento, insistem em não cumprir a Lei.
Os exploradores responsáveis pelo extermínio dos índios ainda hoje posam de heróis, inclusive nos livros didáticos; os negros foram vítimas dos covardes portugueses, espanhóis, ingleses, latifundiários e políticos dos séculos XVI, XVII e XVIII que nunca foram julgados por um dos maiores massacres de vidas humanas de que se tem notícia. Porém, hoje vivemos novos tempos.

Hoje podemos e devemos interferir nos procedimentos adotados pelas políticas públicas do nosso município, estado e país, evitando que episódios como esses fiquem impunes ou no anonimato.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 9 de dezembro de 2009

 

 

SEBASTIÃO ALVES DA SILVA,
FARMACÊUTICO, PIONEIRO NA ÁREA DE SAÚDE EM IGUARACY


Nessa segunda-feira, 30.11.2009, fui visitar o pioneiro na área de farmácia no sertão do pajeú. Sebastião Alves (foto) sempre foi um homem forte, corajoso e amigo. Mesmo adoentado, nos seus 92 anos mostra uma lucidez de dar inveja a muitos jovens. Conversamos bastante. Êita homem bom!

Devido à escassez de profissionais de saúde, nas décadas de 60 e 70, era quem atendia e socorria a população que necessitava de cuidados médicos. Papeamos a tarde toda. Dona Terezinha, sua esposa, ficou surpresa com os assuntos abordados. Afirmou que, sempre que aparece alguém para conversar ele tem uma melhora substancial. “Fica alegre, disposto e até o apetite aumenta”, afirmava a mãe do nosso querido Pedoca.

Sempre acreditei no poder terapêutico das palavras. A revista Veja, em suas páginas amarelas, publicou entrevista com o Dr. Oz, médico da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais renomadas universidades do mundo. O melhor aluno de medicina daquela importante instituição provou que as palavras curam tanto quanto os remédios. Por isso, ultimamente, em minha querida Afogados da Ingazeira, numa rua central, por coincidência o lugar onde passei parte de minha infância, costumo sentar-me à sombra de uma frondosa algaroba para exercitar o que o jovem médico de 48 anos defendeu em sua tese de mestrado.

Bom, agora fica a indagação: conversar o quê? Tudo. Tudo que lembre algo de nossas vidas; tudo que possa ajudar ao próximo; tudo que não agrida nem perturbe seu vizinho; tudo que você tinha vontade de falar e não o fez com receio de que suas palavras não fossem as melhores; tudo que, por um motivo ou outro, lhe cause prazer e orgulho; tudo que você deixou pra depois, simplesmente, por vaidade e muitas vezes arrogância. Todas as pessoas têm algo de bom pra oferecer, basta que tenha a oportunidade de mostrar seu potencial.

Muitas vezes esses talentos são inibidos pela arrogância, ciúme, prepotência e, infelizmente, também inveja dos que, equivocadamente, imaginam serem os donos da verdade. Conversar faz bem sim. E conversar com todos, dos mais simples aos mais ecléticos. Dos que se dizem conhecedores do mundo, dos tidos como intelectuais aos que, humildemente, apenas sabem conversar.

Carlos Moura Gomes
Afogados da ingazeira/PE, 2 de dezembro de 2009

 

 

O MEDO DO SENADOR

Em meados de 1979, durante um movimento do Sindicato dos Eletricitários, hoje dos Urbanitários, participei ativamente das negociações referentes ao nosso acordo salarial com a classe patronal celpeana. Como não houve consenso, os trabalhadores em assembléia resolveram pela greve. Foram dias de muita mobilização e luta. Principalmente na parte de conscientizar a população sobre nossas justas reivindicações. Ao final da batalha, cinco companheiros perderam seus empregos e umas dezenas foram duramente perseguidos em seus postos de trabalho. Ainda vivíamos clima de ditadura militar.

Foi nesse ambiente que conheci o ex-governador Jarbas Vasconcelos. Recordo-me que em um dos seus discursos, falando nas Assembléias Permanentes do Comando de Greve instalada defronte ao prédio sede da Celpe na Av. João de Barros, 111, Bairro da Boa Vista, no Recife, gritava bem alto palavras de encorajamento aos colegas ali presentes: “Jamais devemos abandonar o campo de luta, por mais adversa que a situação esteja para os trabalhadores.” Lembro-me bem! Eram essas, ou quase, as mensagens do então deputado, eleito com os votos da atuante esquerda pernambucana. Seis anos depois, na histórica campanha para prefeito, fomos às ruas do Recife pedir para que o povo acreditasse no candidato que tinha sido leal, durante toda a vida, aos seus princípios e ideais. Estávamos juntos novamente. Nós do Sindicato levantamos a bandeira, ainda frágil, de Jarbas que tinha um grupo poderoso contra sua candidatura. Mas vencemos e a festa foi bonita. Parece que foi ontem...

Com o passar do tempo, vejo esse mesmo homem, pelo qual dei meu sangue junto com outros companheiros, aliado com a ala mais retrógada da história política de Pernambuco. Respeito plenamente a escolha popular pelos seus governantes, mas não posso aceitar que esses mesmos líderes brinquem com o sentimento da população. Pra nos entristecer ainda mais vemos nos noticiários a forte possibilidade do atual Senador “correr da parada” na disputa legal e democrática com o atual governador Eduardo Campos. Então, fica aqui minha indignação por presenciar comportamentos dessa natureza e lembrar aos que tentam agir dessa forma que “mais valem as lágrimas de não ter vencido do que a vergonha de não ter lutado”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da Ingazeira, 16 de outubro de 2009

 

 

TAL FILHO, TAL PAI

Numa terça-feira de temperatura amena, após o feriado de 12 de outubro, “matava” a saudade observando a casa onde vivi parte da minha infância. Confesso que, além de saudosista, sou muito emotivo. O número 233 da Av. Rio Branco, no centro de nossa querida Afogados, traz-me inúmeras recordações. Por alguns minutos “viajei” no tempo. Fui buscar momentos de extrema felicidade. Lembrei-me que brincávamos de castanha, chimba ou bola-de-gude, triângulo, notas de cigarro, papagaio ou pipa, jogo de botão, pinhão, até com bola de meia improvisávamos uma movimentada partida de futebol. Êita! Ia esquecendo, também fazíamos apresentações de circo e teatro em nossas próprias casas. Eram tantas diversões, eram tantas alegrais, eram tantos os motivos que tínhamos para brincar e se sociabilizar com os demais colegas. Isso tudo de forma organizada, respeitando o período para cada modalidade de brincadeiras. A exceção eram o futebol, o garrafão e as batalhas de espada travadas entre os garotos das “ruas de cima” e os garotos das “ruas de baixo”. Quem participou sabe como eram as “lutas”: um paradoxo! Verdadeiros “combates” pacíficos.

De repente escuto alguém assoviar “Asa Branca” com uma naturalidade impressionante. A medida que executava sua tarefa, que faz há 8 anos como funcionário da prefeitura, ele conseguia falar com as pessoas com a mesma felicidade que transmitia ao solar com os lábios a canção de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Perguntou-me se eu estava triste, disse-lhe que apenas pensava no passado. Daí surgiu uma rápida conversa e ousei indagar o porquê de sua satisfação ao varrer as ruas e o segredo para esbanjar tanta simpatia. Respondeu-me que apesar de nunca ter brincado como criança, nunca ter sentido o prazer de estudar, e ainda, só ter encontrado os verdadeiros pais quando tinha 9 anos de idade, carregava consigo um grande desejo: ser feliz. Acredita que sua felicidade é repassada pela alegria do seu filho, como também credita ao amor próprio e muito respeito para com a vida e as pessoas. Ele é Sílvio Medeiros, carinhosamente conhecido como “O varredor da alegria”, 28 anos pai de João Victor de apenas 3 anos. Fiquei impressionado com a grandeza que respondia aos meus questionamentos. O humilde homem demonstrava enorme personalidade e equilíbrio em seus diálogos com as inúmeras pessoas que o cumprimentava.

Nosso personagem é real e embora sem ter tido uma vida saudável enquanto criança, talvez porque não sabia que a infância existia enquanto categoria social e histórica antes que se entendesse como incluído na sociedade, venceu obstáculos, mesmo de forma involuntária, e hoje é um ser extremamente feliz. Que a nossa lembrança dos bons tempos da infância; que a força e a verdade do “Varredor da alegria” se reflitam na oportunidade de muitos João Victor serem felizes, muito felizes. Afinal, “a criança é a caricatura da felicidade dos adultos” e por isso, esperamos, sempre, que nossos filhos sejam a nossa imagem de felicidade.

Carlos Moura Gomes
Afogados da Ingazeira, 13 de outubro de 2009

 

 

PARABÉNS, RÁDIO PAJEÚ!

“... Quem não se comunica se trumbica.”

A invenção do rádio é creditada ao cientista italiano Guglielmo, 1895. Também existem registros referentes a pesquisas do padre gaúcho Roberto Landell de Moura que teria criado algo semelhante a um aparelho de comunicação em 1893.  Mas aqui no Brasil foi Edgard Roquete Pinto, "o pai do rádio", que desde criança demonstrava grande interesse em relação aos meios de comunicação, em especial ao rádio. A primeira irradiação no Brasil, em 1922, durante as Comemorações do Centenário da Independência, realizada no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, transmitindo o discurso do então presidente Epitácio Pessoa, foi a gota d´água para os planos da primeira emissora brasileira, embora na cronologia da comunicação eletrônica de massa brasileira o surgimento do rádio no Brasil é marcado com a fundação da Rádio Clube de Pernambuco por Oscar Moreira Pinto, no Recife, em 6 de abril de 1919.

Em 1959 o Brasil foi Campeão Mundial de Basquete; a espaçonave soviética Luna 3 fez as primeiras fotografias da face oculta da lua, fotos estas que foram enviadas para a terra através de sinais de rádio. E, no dia 4 de outubro desse mesmo ano foi inaugurada nossa querida Rádio Pajeú. Lembro-me da festa, mas como tinha apenas quatro anos não entendia a importância daquele acontecimento pro futuro de nossa região.

Fui, muitas vezes, na antiga Rua Nova, ouvir e assistir aos programas matinais apresentados por Toinho Xavier, Waldeci Menezes, Padre Assis e outros que faziam parte dessa família. A emissora, mesmo sendo controlada pela Igreja Católica, nunca foi parcial em suas mensagens; sempre dava espaço a todos os segmentos da sociedade. D. Mota e D. Francisco, duas personalidades que ficaram marcadas no coração do nosso povo, deram o impulso que a Rádio Pajeú, como embrionária, necessitava para voar com suas próprias asas.

Hoje, já adulta e bem consolidada profissionalmente, disputa a preferência do público com as maiores emissoras do país. Sinto orgulho de ser seu ouvinte desde as primeiras palavras proferidas através de suas modestas, na época, ondas de AM, até os dias de hoje, onde são usadas as mais avançadas e potentes técnicas desenvolvidas nos meios de comunicação. Que esses 50 ANOS da Rádio Pajeú sirvam para comemorar as inúmeras realizações no campo da educação, da cultura e da conscientização política de nova gente. Assim, cumpre-se o que há cinquenta anos escreveu Sua Santidade:  “... Ao mesmo tempo confiamos novamente à vigilância e experimentada solicitude dos Nossos Veneráveis Irmãos, Arcebispos e Bispos, as várias formas de apostolado recomendadas na já mencionada Encíclica Miranda prorsus e, em particular, os Organismos nacionais, constituídos em cada país, para dirigir e coordenar todas as actividades católicas no campo do cinema, da rádio e da televisão... Entre estas actividades, recomendamos as iniciativas de caráter formativo e cultural, como a apresentação e discussão de filmes, que tenham especiais méritos artísticos e morais... Dado em Roma, em S. Pedro, sob o anel do Pescador, aos 22 de fevereiro de 1959, primeiro do Nosso Pontificado.”


Carlos Moura Gomes
30 de outubro de 2009

 

 

ÁGUA PRA TODOS...

No último dia 18 desse mês de setembro fui visitar um casal amigo na cidade de Paulo Afonso, BA, onde estive há 34 anos. Foram 290 km, aproximadamente, percorridos pelos sertões de PE e o vizinho estado onde nasceu Rui Barbosa. Ao passar por Petrolândia, pensei que tivesse errado o caminho. Logo do alto vi uma paisagem de emocionar qualquer ser humano, por mais insensível que possa parecer: eram as águas de Opará, como chamavam os índios. Na verdade era apenas parte do enorme volume de água do nosso querido Rio São Francisco.

É simplesmente deslumbrante! Uma beleza indecifrável! Confesso que nos meus 53 anos jamais senti tamanha emoção; é como se uma paz espiritual tivesse tomado nosso corpo. Isso mesmo. Fiquei por algum tempo observando aquele mágico cenário, acreditando mais uma vez que a natureza, mesmo quando alterada, tem a proteção divina. Dá orgulho de ver tamanha riqueza natural no alto sertão do meu nordeste.
Mas, como sertanejo, não posso ignorar que bem próximo dali a seca é uma eterna ameaça. As folhas caem e a terra endurece. Falta água para os irmãos vizinhos, tudo fica seco. Segundo dados do governo, são mais de trezentos municípios nordestinos que sofrem com a estiagem todos os anos. Então, como emprestar um pouco dessa água para ajudar a milhões de famílias por esse nordeste afora? Através da “transposição”. Transposição que inclusive está a todo vapor. Ora, todos nós sabemos que o Velho Chico é um rio que nasce na serra da Canastra, no estado de MG, a aproximadamente 1200 de altitude, atravessa o estado da BA, fazendo divisa ao norte com PE, bem como construindo a divisa natural dos estados de SE e AL. Depois deságua no Atlântico, drenando uma área de aproximadamente 641.000 km quadrados e atingindo 2.830 km de extensão.

Também é sabido que o Rio da Integração Nacional quando atinge a zona sertaneja, apesar da intensa e natural evaporação, tem seu volume d’água diminuído, mas mantém-se perene. Barbosa Lima Sobrinho, escreveu pouco antes de sua morte que em relação ao tipo de obra, “vale lembrar o esforço dos Estados Unidos na construção de sua rede de canais navegáveis, cuja implantação facilitou e barateou o transporte de mercadorias, fortalecendo expressivamente o seu mercado interno”. Essa rede, que se assemelha a nossa da Transposição, que já em 1850 alcançava mais de 3.500 milhas de extensão, é até hoje considerada uma das principais bases do desenvolvimento americano. E não se pense que essa obra gigantesca foi construída pacificamente, de vez que a oposição à grandeza de seus custos, relativos à época, tentou de todas as formas a sua inviabilização, exatamente como ocorre aqui no Brasil com o pessoal que se mostra contra a Transposição do Rio São Francisco.

A Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO) afirma que “a falta de água é uma ameaça para o mundo social e econômico e para a sustentabilidade do meio ambiente”, e ainda, “a água é fonte de vida e desenvolvimento, mas o aumento da demanda e a escassez enfrentada por um grande número de pessoas no mundo inteiro, podem causar graves problemas de subsistência, e até guerras, por isso a necessidade de transportar, usar e compartilhar esse recurso natural”.
Torçamos, então, para que a transposição alcance seus reais objetivos que é colocar água para todos.

Carlos Moura Gomes
Afogados da Ingazeira- 22/09/2009

 

 

SETE DE SETEMBRO

Na verdade, não se sabe ao certo se o cidadão Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourdon, ou seja, o tal de D. Pedro I teria afirmado ou indagado aos possíveis inimigos que se encontravam as margens do rio Ypiranga, no estado de São Paulo, quando gritou: “Independência ou morte”.

Reconheço minhas limitações para uma discussão mais aprofundada sobre o assunto, porém, segundo relatos históricos não vejo razões para tantas homenagens a quem nos impôs um governo tirano, cruel e covarde. Dentre as arbitrariedades praticadas contra quem se opunha às suas ordens, caprichos e vontades, lembramos à condenação sumária e o posterior fuzilamento de Frei Caneca, em 13 de janeiro de 1825, pela sua louvável e corajosa participação na Confederação do Equador; e ainda, o misterioso assassinato do médico e jornalista, italiano de nascimento e brasileiro por opção, Líbero Badaró, em 20 de novembro de 1830.
Quem acionou o gatilho do potente bacamarte, um alemão desconhecido e de pouca importância, foi preso, mas o autor intelectual, Japiaçu que era ouvidor, teve todo apoio da corte e, através do padre Diogo Antônio Feijó, auxiliar de D. Pedro I, terminou sendo inocentado. Episódios como esses, davam uma demonstração de que o autoritário Imperador não tinha interesse que o povo brasileiro tivesse, realmente, uma ampla liberdade. Um ano após esse trágico acontecimento, o vaidoso imperador abandonou, fugiu do país deixando, de forma irresponsável, o trono nas mãos de seu filho, na época ainda menor de idade.

Assisti ao desfile de ontem, 7 de setembro, na Avenida Rio Branco, aqui em Afogados da Ingazeira, e pra minha felicidade não vi nenhuma alusão à figura do foragido imperador. Inúmeras instituições e personalidades da região foram, inteligentemente, referenciadas arrancando aplausos de todos os presentes.

Façamos dessa data festiva um dia para refletirmos sobre nossa história, afinal já dizia certo estudioso: “quem não conhece a história poderá ser condenado por ela”.

Carlos Moura Gomes
Afogados da Ingazeira- 08/09/2009

 

BOM SENSO

A quem reclamar pelos castigos do Pai?
Contam os estudiosos que a Bíblia teve vários “pais”. Moisés teria escrito os cinco primeiros livros do Antigo Testamento; os Salmos ficaram a cargo do rei Davi; já os Juízes tiveram a responsabilidade do profeta Samuel e assim por diante. É certo que tudo começou há três mil anos, aproximadamente, quando pessoas resolveram registrar fatos ocorridos na época. E contaram uma história fantástica, diferente, forte, energética! Um conto mágico! Era tão espetacular que virou uma mania, onde todos tinham interesse em seu conteúdo. Foi e é, o maior Best-seller de todos os tempos.

Segundo os relatos, Deus autorizou a divulgação de textos sagrados através de mãos humanas. Muito embora tenha deixado seu primogênito de fora dessas divinas páginas. A Bíblia cristã não traz nenhum capítulo escrito por Jesus Cristo. Existem passagens no livro mais lido do mundo que, às vezes, nos assusta, talvez por sermos leigos ou, simplesmente, por despreparo espiritual, ou ainda pela profundidade literária das parábolas.

Quando os hebreus eram escravos no Egito, o Senhor enviou 10 pragas contra os opressores do povo escolhido. A primeira delas foi transformar toda a água do país em sangue (Êxodo). Como o faraó não libertava os hebreus, o Pai radicalizou: matou, numa só noite, todos os primogênitos do Egito. “E houve grande clamor no país, pois não havia casa onde não houvesse um morto” (Êxodo). Desgostoso com os pecados de Sodoma e Gomorra, Deus destruiu as duas cidades com uma chuvarada de fogo e enxofre (Gênesis).

Para punir a desobediência do rei Davi, um dos pais da Bíblia, o Senhor enviou uma doença não identificada que matou 70 mil homens e 200 mil mulheres e crianças (2 Samuel). Quando a nação dos filisteus roubou a arca da Aliança, onde estavam os 10 Mandamentos, Jeová os castigou com um surto de hemorróidas letais. “Os intestinos lhes saíam e apodreciam” (1 Samuel). O profeta Elias convidou os sacerdotes do deus Baal para uma competição de orações. Era uma armadilha: Elias incitou o povo, que linchou os pagãos (1 Reis). A nação dos amalequitas disputava o território de Canaã com os judeus. O Senhor ordena que todos os amalequitas sejam chacinados (1 Samuel).

Com todo respeito que tenho a esse sagrado livro, ninguém pode ignorar que era muita violência, castigos pesados. Só pra termos uma idéia no último livro da Bíblia cristã, o Apocalipse, exatamente o que aborda assuntos relacionados com o fim do mundo, observamos uma perigosa ameaça: “Se alguém fizer acréscimos às páginas deste livro, Deus o castigará com as pragas descritas aqui”. Realmente as ordens, as determinações eram radicais e diretas, numa clara demonstração que não se vivia num clima de paz.

Os tempos são outros, mudaram também os procedimentos paternos. Então, em nome de filhos e filhas pelo mundo afora, aproveito para abraçar e homenagear todos os pais, pais de diferentes formas. Aos que esse gesto não será possível, lembramos que Deus também é órfão. Se porventura estiver minha afirmação equivocada, peço encarecidamente que apontem, indiquem, mostrem quem seria o pai do Pai?


Carlos Moura Gomes
Gravatá - 1º de agosto de 2009

 

 

SAUDADE

No dia 22 de maio Gislaine, minha amiga, companheira e esposa, completaria 50 anos. Nossos planos estavam traçados para serem bem vividos, como foi durante os trinta anos em que estivemos juntos de corpo e alma.

Mas, agora só resta a saudade! Saudade do corpo, porque a alma, o espírito está tão presentes que posso até tocá-la, senti-la, conversar, mesmo em fiéis pensamentos. São sonhos gratificantes! Porém, não podemos esconder que, às vezes, a saudade vem como uma tempestade. Machuca, fere, arde e dói, principalmente quando essa saudade é de uma pessoa amada que partiu, prematuramente, para outra dimensão.

“Tem horas que dá um vazio enorme no peito, uma vontade louca de chorar. Tem horas que nos vemos com os olhos no vazio imenso do nada... Certamente, é a alma, que sem saber recorrer a quem, chora, desesperada, a ausência de alguém que ela não consegue tirar do pensamento!...”

...Só sente saudade quem teve na vida momentos de felicidades.

Carlos Moura Gomes
Gravatá/PE, 20 de maio de 2009

 

 

SOLIDARIEDADE AO POLÍTICO

Dr. Jakson Lago: Receba minha humilde, porém sincera solidariedade, enquanto registro, também, minha revolta pela decisão equivocada do TSE que, já o denominam de Departamento Eleitoral do Planalto. O povo maranhense e de todo o Brasil, certamente, dará a resposta no momento oportuno. 

Lembramos um tempo em que a verdade era determinada pela tradição, pelas “autoridades” e pelos deuses. Na Grécia, durante os anos 399 a.C., a justiça reuniu 501 dos seus membros para julgar, ou melhor, condenar Sócrates. Figura amada pelos jovens e odiada pelos conservadores da época. Essa falsa democracia ateniense acusava-o de “elemento pernicioso à juventude”, por não aceitar as imposições do governo tidas como verdadeiras. Falou aos cidadãos que deveriam julgá-lo: “... cuideis menos de vossos corpos e de vossos bens do que da perfeição de vossas almas, e vos dizer que a virtude não provém da riqueza, mas sim que é a virtude que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil ao homem, quer na vida pública quer na vida privada”.

No livro Obras Seletas de Rui Barbosa, encontrei algo que nos dá mais força ainda para suportar e enfrentar essas injustiças. No interrogatório de Jesus, Anás, desorientado, remete o peso a Caifás. Esses eram os juízes legais. Mas juízes, que tinham comprado testemunhas contra o réu, não podiam representar senão uma infame hipocrisia da justiça. Estavam mancomunados, para condenar, deixando ao mundo o exemplo, tantas vezes depois imitado até hoje, desses tribunais, que se conchavam de véspera nas trevas, para simular mais tarde, na assentada pública, a figura oficial do julgamento. Pilatos envia o réu a Herodes, lisonjeando-lhe com essa homenagem, a vaidade. Desde aquele dia um e outro se fizeram amigos, de inimigos que eram. Assim se reconciliam os tiranos sobre os despojos da justiça. E entregou-o aos crucifica dores. Eis como procede a justiça, que se não compromete.

De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da justiça, corrompida pelas facções, pelos demagogos e pelos governos. A sua fraqueza, a sua inocência, a sua perversão moral crucificaram o Salvador, e continuam a crucificá-lo, ainda hoje, nos impérios e nas repúblicas, de cada vez que um tribunal sofisma, tergiversa, recua, abdica. Foi como agitador do povo e subversor das instituições que se imolou Jesus. E, de cada vez que há precisão de sacrificar um amigo do direito, um advogado da verdade, um protetor dos indefesos, um apóstolo de idéias generosas, um confessor da lei, um educador do povo, é esse, a ordem pública, o pretexto, que renasce, para exculpar as transações dos juizes tíbios com os interesses do poder.

Todos esses acreditam, como Pôncio, salvar-se, lavando as mãos do sangue, que vão derramar, do atentado, que vão cometer. Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. “Mas não há salvação para o juiz covarde”.

Carlos Moura Gomes
Gravatá/PE, maio de 2009

 

 

O MEDO DE "VORTA-SECA"

Por volta de 1957, na pequena localidade denominada Coruja, hoje Irajaí, no alto sertão de Pernambuco, terra natal do conhecido camarada Diógenes de Arruda Câmara, o domingo era, como ainda é, um dia de festa. Ali bem próximo, aproximadamente um quilômetro de distância, na fazenda Riacho do Mel, de propriedade do coronel Possidônio, então prefeito de Afogados da Ingazeira, o vaqueiro Vorta-seca e o patrão se preparavam para ir até a “ruinha” tomar uns “goles”, rever alguns amigos e saber das notícias, principalmente as de caráter político.

Vorta-Seca tinha uma extrema facilidade pra “puxar” conversa. Além de curioso, gostava de estar sempre junto a pessoas “importantes”. Apesar de ser um homem forte, muito trabalhador, honesto e capaz de lutar com uma onça (daquelas pequenas) em plena caatinga, paradoxalmente, tinha pavor a escuro e um medo terrível da polícia. De forma que a noite pra ele era um tormento e encontrar uma volante policial era o mesmo que enfrentar Lampião.

Como morava a cinco quilômetros da fazenda Riacho do Mel, onde trabalhava, sempre ia pra casa antes mesmo dos últimos raios crepusculares. Quando perdia essa hora, tinha o hábito de dormir nos galhos de uma enorme Baraúna, árvore ainda existente as margens da estrada e ao lado da casa grande. Armava uma rede e ali se deitava aguardando os primeiros raios solares. Não conseguia um bom sono, mas dava pra cochilar. Até o vento o deixava trêmulo. Quando amanhecia era outro homem, se transformava. Nenhum médico conseguia descobrir, ou seja, diagnosticar esse estranho comportamento.

Bom, lá vão os dois, o coronel e o vaqueiro, rumo a Coruja. Vinte minutos cavalgando. Assim que chegaram, amarraram seus cavalos numa das poucas sombras que havia no lugarejo e foram direto pro boteco. Conversa vai, conversa vem e assim o tempo passou rapidamente. A tarde já estava quase virando noite e isso era um atropelo para quem não suportava a escuridão. Avisado pelo amigo-patrão, teve que voltar sozinho pra fazenda e alojar-se, ainda cedo, em seu esconderijo secreto.

Por coincidência, neste dia, lá pelas altas horas, houve um crime por motivo de vingança e deixaram a vítima enforcada na mesma árvore que nosso personagem estava “hospedado”.

A polícia ao tomar conhecimento do fato dirigiu-se ao local para as providências de praxe, porém, nunca imaginava que tinha uma pessoa dormindo naquela árvore. Estavam certos de que haveria apenas o morto.

Era uma madrugada escura e silenciosa. Devido ao barulho do motor do carro que permaneceu ligado para iluminar o local, nosso enigmático homem já acordou assustado e sem saber do ocorrido. Permaneceu calado, só observava o falatório dos soldados. Até que o sargento, chefe da equipe, indagou:

- Quem sobe pra tirar o homem?

Vorta-Seca, já desesperado e imaginando que era ele a quem procuravam, respondeu:

- Não precisa subir não senhor. Eu já vou descer...

Foi uma verdadeira confusão. Os quatro soldados e o sargento gritaram:
-O defunto tá vivo. Corram!

Após certa distância, colocaram-se em posição de combate, aguardando o “ataque” do suposto morto.

Consequentemente, Vorta-Seca foi descendo bem devagar até que percebeu não haver ninguém, apenas o farol do jipe ligado que de repente também pifou. Cauteloso e tremendo de medo, acendeu um fósforo, embora o dia já estivesse clareando. Foi ai que percebeu o cadáver balançando vagarosamente pela ação do vento. Também não teve dúvida, soltou o lençol que o protegia do frio e saiu em disparada aos berros:

- Pelo amor de Deus, acudam-me!

Lá adiante os policiais quando perceberam que vinha alguém, após largarem seus fuzis no chão, ouviram a ordem do sargento:

- Salve-se quem puder! O defunto vem ai, corre muito e tá nu!...

A melhor maneira de defender-se é atacando, mesmo de forma involuntária.

Carlos Moura Gomes
Gravatá/PE, abril de 2009

 

 

CEM ANOS DE AFOGADOS

Por mais que haja esforço de nossa parte, jamais as letras traduzirão esse tão belo e importante momento na vida de Afogados da Ingazeira.

São, aproximadamente, trinta e seis mil e quinhentos dias, ou ainda, oitocentas e setenta e seis mil horas desde que se tornou cidade em primeiro de julho de 1909.

Certamente, poucos, ou quase nenhum de nós, estava presente quando da consumada emancipação. Todavia, os registros, escritos ou documentados de outras formas, são responsáveis para guardar nossa história até às últimas gerações.

Os seus 35000 mil habitantes honram os trezentos e setenta e sete quilômetros quadrados do seu território, numa demonstração de zelo, lealdade, confiança e amor por esta terra no alto sertão do pajeú.

É, realmente somos alto, afinal estamos a 525m de altitude em relação ao nível do mar. Essa ladeira de 347 km que nosso querido Rio Pajeú percorre, desde sua nascente na Serra da Balança, em Brejinho, até desaguar na barragem de Itaparica, entregando o restante da viagem ao seu chefe, o Velho Chico. Como o rio é, sem dúvida, uma referência em todos os sentidos, e comungando, radicalmente, com a preservação do meio ambiente, vale lembrar o poeta Diomedes Mariano, muito feliz, quando afirmou: “Rio está vivo ainda / Nosso Pajeú querido / Rio dos mais respeitados / Que quando cheio, espelhava / O rosto de Afogados / Quem fosses tu, quem tu és? / Foste um dos fortes pajés / Impondo enorme respeito / És hoje um índio cansado / Tendo um sentimento ilhado / Na solidão do teu leito.” Conclui seus pensamentos com uma mensagem forte, infelizmente, verdadeira: ”...e hoje, velho cacique / Estás muito diferente / Como um guerreiro ferido / Pela tua própria gente...”.

Nessa época do centenário de nossa querida Afogados, alertamos aos predadores que “a ação individual só desgasta quem a pratica, e a ação coletiva facilita as articulações e os resultados aparecem.”

Antecipadamente, envio meus parabéns e sinceros votos de que continuemos a crescer nessa mesma velocidade, desejando que o piloto mantenha o controle da máquina, uma máquina de muitos botões, mas que não lhe falta conhecimento, competência e, acima de tudo, muito respeito com as coisas públicas.

Devemos agradecer a Deus por tudo que Afogados tem conquistado nesses últmos anos. Talvez Waldeci Menezes estivesse com inspiração divina quando compôs os versos do nosso hino: “Terra do sol de encantos mil / Do pajeú a nobre princesa / De Pernambuco e do Brasil / És do progresso a chama acessa.” Foi sim, iluminado, o excelente professor de geografia.

“...No sertão o estandarte de glória / Os teus filhos fazem história / Que enobrece a nação brasileira.” Brilhante! É como se previsse o futuro de nossa Afogados.

Permitam-me vibrar com a sabedoria e inteligência, além da humildade, do grande mestre e uma das mais ilustres personalidades do nosso semi-árido quando registra a última estrofe: “...Grandioso será teu porvir / E abraçado ao símbolo da fé / A luta sempre firme de pé / O progresso e a riqueza hão de vir.”

Evidentemente que tradicionais comemorações devam constar do roteiro para os Cem Anos de nossa cidade. Porém, muitas páginas que fazem parte do “livro” e da memória do povo afogadense, não devem, em nenhuma hipótese, ficar de fora dessa Grande Festa Centenária.

 

Carlos Moura Gomes
Comunidade Monte Alegre
Afogados da Ingazeira - 13 de dezembro de 2008

 

AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2010