JOÃO CÂNDIDO DA SILVA NETO
Estou em Afogados da Ingazeira revendo os locais por onde caminhei com meu saudoso pai.
Tudo muda em cinqüenta anos e neste espaço de tempo, o progresso, inevitavelmente, invadiu o sertão, exibindo suas características prenhas de evolução e modernidade; mas revelando também os seus aspectos perversos.
Revejo a praça da igreja, aonde eu vinha vender farinha com meu pai nos dias de feira, mas agora ela está urbanizada, possui feições modernas. A Educação e a Saúde melhoraram visivelmente e o povo conserva o seu jeito carinhoso e acolhedor. A cidade, bem cuidada, justifica o título de “Princesa do Vale”, citado por Diomedes Mariano no seu soneto Afogados da Ingazeira gravado, juntamente com outras belas poesias, no muro existente na praça Pref. Miguel de Campos Góes:
(...) De Princesa do Vale és batizada,
dando tudo que tens, sem cobrar nada,
de quem mora em teu seio ou te visita.
A barragem de Brotas e a igreja,
dão-te o título de musa sertaneja,
mais saudável, mais calma e mais bonita.
A cem metros dessa praça pode-se contemplar o leito do Rio Pajeú (que judiação!), agora apenas um pavoroso esgoto a céu aberto, exibindo aos insensatos e os poucos outros sua misérrima e esquelética figura; com largos poços de água fétida, muito lixo acumulado e bancos de areia a dar emprego a vários trabalhadores que, com suas carroças puxadas a burro e muita coragem abastecem as construções da cidade.
Lembro-me da música de Luiz Gonzaga:
“Riacho do Navio corre pro Pajeú;
o Rio Pajeú vai desaguar no São Francisco;
e o Rio São Francisco vai morrer no meio do mar”(...).
Recordo os passeios em companhia de meu pai: na época da cheia para contemplar o volume das águas a se deslocarem com espantosa rapidez; na seca para escavar cacimbas na areia para coletar água potável e também pegar piabas usando uma peneira onde botávamos farinha de mandioca como isca.
Mas o cenário que vislumbro já não reflete a visão de João Paraibano, no seu belo soneto Pajeú:
Pajeú, teu cenário me encanta,
desde a voz do vaqueiro aboiador,
ao Verão que desbota a cor da planta,
e a abelha que bebe o mel da flor.
O refúgio da caça que se espanta,
no chiado dos pés do caçador,
a romântica canção que o rio canta,
na passagem do ano chovedor.
Quando a chuva das nuvens inunda as grotas,
o volume da água banha Brotas,
e onde a curva do rio faz um U...
Nasce um pé de esperança no teu povo,
tudo indica que Cristo quando novo,
aprendeu a caminhar no Pajeú.
Se a mão do tempo deixa calos por onde passa, a mão do progresso costuma deixar rastros de destruição e desilusão como o preço que cobra pelas vaidades humanas que satisfaz. Tudo tem seu preço...
João Cândido da Silva Neto
Em Afogados da Ingazeira-PE, 07/08/2008
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SOMOS NORDESTINOS
Eu nasci no sítio Carapuça, em Afogados da Ingazeira, estado de Pernambuco. Sou da safra de 1953 (55 anos de idade), 3º filho de uma família de legítimos sertanejos, daqueles que, corajosamente, enfrentam as adversidades da vida, espiando pro céu na expectativa de enxergar uma nuvem escura, promessa solene de que a chuva tão esperada cairá para amenizar os padecimentos do sertão. Mas nem sempre ela veio, decepcionando o homem, deixando ressecado o roçado de milho e feijão, fazendo empalidecer o semblante e as já combalidas esperanças do nordestino.
Bem disse Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo,um forte”.
Numa única frase a síntese de uma vida inteira de peleja incansável, numa labuta extenuante que parece não findar, buscando forças na oração elevada aos céus com todo o fervor do coração.
Da fé do nordestino jamais brotou o desengano; mas nem sempre conseguiu fazer crescer e produzir a plantinha mirrada que brotou do solo ressequido.
Com suas mãos calejadas ele empunha a enxada e, na terra estéril, junto com o adubo da esperança, lança um sonho de vida a cada grão que semeia. E assim ele vive: adulando a terra... Espiando pro céu... Resignando-se com toda aquela judiação... E implorando a Deus que não faça mais pirraça com o pobre nordestino.
“Ó Deus, perdoe este pobre coitado
que, de joelhos, rezou um bocado
pedindo p’ra chuva cair sem parar.
Ó Deus, será que o Senhor se zangou
e só por isso o Sol se retirou
fazendo cair toda a chuva que há”.
Depois que Nelinho e Gordurinha fizeram esta música (Súplica Cearense) nunca mais choveu torrencialmente no Nordeste. Mas a chuva continua tardando, muitas vezes chegando com o prazo já por demais dilatado. Uma só melodia valeu mais que dezenas de novenas e uma centena de paus-de-arara cheinhos de devotos. Carece de ter humildade, gente, somos nordestinos...
Senhor,
se eu não rezei direito, o Senhor me perdoe;
eu acho que a culpa foi
deste pobre que nem sabe fazer oração (...)
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