AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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CRÔNICAS E CONTOS

TOINHO MORAES (*)

 

SAUDADE

“As cachoeiras chorarão sentidas

Porque cedo morri,

E eu sonho no sepulcro os meus amores

Na terra onde nasci!”



Com o desaparecimento de dois dos seus ilustres e dedicados filhos, Afogados da Ingazeira está envolto em crepe, dor e saudade!

Desde as paralíticas águas da barragem de Brotas, ao desengonçado e resistente pereiral que circunda a cidade e, com suas flores singelas aromatiza às inesquecíveis e cálidas noites de Natal, tudo é tristeza, desolação. Mas, eu estou certo de que, em solidariedade a tão lamentável desenlace, o perfume que essas flores silvestres exalará em qualquer época do ano, estará sempre impregnado da lembrança imorredoura daqueles que em vida tanto amaram a sua terra e a sua gente.

JOSÉ MARQUES DE ARAÚJO (Zé Gago, na intimidade), tragicamente surpreendido por um acidente automobilístico, desde muito jovem tornara-se um herói solitário e anônimo das estradas, rompendo, com o seu veículo, de norte a sul, às entranhas deste Brasil gigante, levando o progresso aos rincões mais remotos. Grande chefe de família, nobre amigo e companheiro de caserna e de agruras, no último conflito mundial.

 Há alguns dias, JOSÉ DE SÁ MARANHÃO (Zezito Sá), vítima da perfídia de um mal sem cura, como uma baraúna, tombara aos rudes golpes de um machado impiedoso. Em vida fora um intrépido lutador, sempre enfrentando adversidades, nunca porém, cedendo aos seus impulsos e tentáculos . Era o “Relações Públicas” de Afogados. Obsequioso e gentil, conquistara a simpatia dos que o conheceram. Isto ficara evidenciado através do número de pessoas de todas as classes que o visitara no hospital onde se encontrava enfermo. Amigo para todas as ocasiões, ótimo filho e imenso chefe de família, sendo esta, talvez, a sua maior preocupação, pois quando nos encontrávamos, o assunto principal era: Rita de Cássia, Raquel, Junior, Simone, Mozart, etc. Finalmente, descrever a grandeza de caráter e o espírito de solidariedade do saudoso Calicinha, é bastante difícil.

Portanto, não podendo neutralizar a nebulosidade que, com a perda destes dois amigos me invade a alma e a mente, limito a aconselhar seus familiares, conseqüentemente também meus amigos que, “é preciso coragem e resignação!” E, sabendo que a formação do sertanejo é caracterizada pelo culto à religião e à fé, lembro a aceitação de Jô, após ser despojado dos bens e da família:
”O Senhor o deu, o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor”.

Eu, cá em minha tristeza e desencanto, repetirei às palavras do grande Mestre:
“Se eu me esquecer de ti, Jerusalém... Fique parada a minha língua!”.

 

Esta crônica foi entregues à viúva de José Marques de Araújo, em outubro de 1980.

(*) Afogadense que reside no Recife. Aposentado.

 

AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje | 1997-2012