AFOGADOS DA INGAZEIRA ontem & hoje
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Antonio Silvino

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Antonio Silvino

Antonio Silvino

Com roupa de prisioneiro

Antonio Silvino

O último amor de Antonio Silvino que residia em Afogados

CANGAÇO

 

Manoel Baptista de Moraes (Antonio Silvino)

(1875-1944)

No dia 2 de novembro de 1875 na Serra da Colônia, freguesia de Afogados, nascia Manoel Baptista de Morais.
Filho de Francisco Baptista de Moraes e de Balbina Pereira de Morais, carinhosamente tratado por Nezinho (ou Batistinha), era o caçula de cinco irmãos,

Nasceu em uma família de fazendeiros, sendo o primeiro cangaceiro de importância na época. As histórias e lendas sobre suas façanhas, e o respeito e admiração que suscitou entre os sertanejos, ajudou a moldar uma concepção popular do cangaço e a lhe dar sustentação.

O historiador norte-americano Billy James Chandler revela Silvino como um cangaceiro “cavalheiresco, que respeitava e fazia justiça aos que mereciam”. Precursor de Lampião foi o cangaceiro que aterrorizou o Nordeste no início do século XX, chegando a se autonomear “governador do sertão”.

Batistinha entrou para o cangaço com o seu irmão, Zeferino, para vingar a morte do pai, Batistão do Pajeú, que havia tombado morto em um dos combates com a polícia.

Seu pai, um homem provocador, um bandoleiro, bastante marcado pela polícia e autor de vários homicídios, certa vez ousou entrar em Afogados, em um dia de feira. Daí, o chefe político local, coronel Luís Antônio Chaves Campos contratou um matador profissional (Desidério Ramos, que, como o coronel, também era desafeto de Batistão), e este liquida Batistão com um tiro de bacamarte. Era o ano de 1896.

Desidério, gozando da cobertura do coronel e chefe político da região, permaneceu impune e bem protegido no sertão. Jamais demonstrou possuir o menor temor de Antônio Silvino, a despeito de o cangaceiro amedrontar a todos. Sendo assim, depois de muito chorar a perda do genitor, os filhos de Batistão juraram vingar a sua morte, roubando, assaltando e matando todos aqueles que colaboraram para tal.

Após a morte do seu pai, e sedento de vingança, Nezinho passou a integrar o grupo de cangaceiros comandados pelo parente Silvino Ayres [que em virtude de desentendimento com partidários do General Dantas Barreto, então governador de Pernambuco, organizou um bando que espalhou terror nos sertões. Esse grupo era formado por Luiz Mansidão, Isidoro, Chico Lima, João Duda, Antonio Piuta. Depois entraram os sobrinhos Zeferino e Manoel Batista de Morais. O cangaceiro Silvino Ayres, fugindo do cerco da polícia foi preso, enquanto dormia, pelo capitão Abílio Novais, nas imediações de Samambaia, distrito de Custódia. Com a prisão do chefe, Batistinha ficou à frente do bando, mudando o seu primeiro nome para Antonio e o segundo para Silvino, em homenagem ao parente, seu ídolo].

Outros cangaceiros que fizeram parte do grupo de Antonio Silvino foram: Cavalo do cão, Relâmpago, Nevoeiro, Bacurau, Cobra Verde, Azulão, Cocada, Gato Brabo, Rio Preto, Pilão deitado, Barra Nova, Cossaco, e outros.

Como chefe, passou a usar a farda de coronel, com cartucheiras, punhal na cintura, bornais e rifle na mão, e exigia que o chamassem de "Capitão".

Antonio Silvino não era um mero malfeitor; procurava fazer justiça no lugar onde ela inexistia. Não permitia que alguém do seu bando violentasse mulheres ou pessoas inocentes. Seus crimes eram por vingança ou contra a polícia, que o perseguia.

Fica famoso por sua coragem e valentia. Exige da Companhia “Great Western Railway” 30 contos de réis, para que a linha de trem passasse em terras que dizia serem suas. Seu bando era composto por cerca de 10 integrantes, aumentando em certas ocasiões.

Têm início as lutas contra a polícia e as autoridades -

- Em 1900, Antonio Silvino afirma-se como chefe de um grupo de cangaceiros independentes, como Jesuíno Brilhante e outros.

- Em 1906 as ações de Antonio Silvino voltam-se cada vez mais contra as autoridades locais.
Conta-se que em Poço Comprido, no Estado de Pernambuco, o Sr. Joaquim Tavares Vieira de Melo, um dos seus fundadores, era colecionador de armas, e possuía um verdadeiro arsenal em sua casa, e quando argumentado sobre o porquê de tantas armas ele respondia que era para pegar o cangaceiro Antonio Silvino, que costumava rondar a vila.
- Em 24 de novembro de 1914 Antonio Silvino é ferido e preso, em Lagoa da Laje - PE, na fazenda de Joaquim Pedro, pelo alferes Theophanes Ferraz Torres, comandante de uma das forças volantes. Naquele tiroteio muitos morreram e poucos conseguiram fugir.
Já baleado, e para não ir preso, Joaquim Moura, o lugar-tenente do cangaceiro, se suicidou com um tiro de rifle. O confronto durou cerca de uma hora, o tempo que o bando esgotou a munição das cartucheiras.
Nesse tiroteio uma bala de fuzil atravessou o pulmão direito de Antonio Silvino, indo sair na região subaxilar. Mesmo ferido, conseguiu chegar à residência de um amigo e se entregou à polícia. Estava com 39 anos de idade.

Preso e levado imediatamente para a cadeia de Taquaritinga, teve que viajar a cavalo, dentro de uma rede por cerca de 40 km até a estação da Rede Ferroviária em Caruaru. Destino final: Casa de Detenção da Capital Pernambucana.
Foi transportado em um trem especial da Great Western, vindo do Recife, onde uma multidão o aguardava, querendo ver, de perto, o famoso cangaceiro.

O pastor Manoel de Souza Andrade pregou o evangelho ao cangaceiro quando este se encontrava nas proximidades de Caruaru, e depois quando cumpria pena de prisão perpétua em Recife.

O cangaceiro se tornou o prisioneiro 1122 da cela 35, do raio leste. Em vista dos vários processos e pelos vinte anos da vida no cangaço, foi condenado a 239 anos e 8 meses de prisão.

Na prisão, com seu comportamento exemplar, aprendeu a ler e escrever, também a fabricar abotoaduras, brincos e pequenos artefatos de crina de cavalo, ganhando algum dinheiro com suas vendas.

Encarcerado, recebeu visitas ilustres: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Luis da Câmara Cascudo, Nilo Pereira, José Américo de Almeida e outras personalidades importantes. Recusava-se, sistematicamente, a receber jornalistas.

Sua libertação se deu 23 anos, 2 meses e 18 dias da sua prisão, em 19 de fevereiro de 1937, quando recebeu o indulto do Presidente Getúlio Vargas.

Na época declarou: "Minha vida todo mundo conhece. Vinte e três anos de reclusão alteraram o meu destino. Mas, diga lá fora, que eu nunca roubei nem desonrei ninguém, e, se matei algumas pessoas, foi em defesa própria, evitando cair nas mãos de inimigos".

Não retornou ao cangaço.

Levando uma vida normal, vivia numa casa modesta, com a prima Teodulina Alves Cavalcanti que morava com o esposo. Morreu 7 anos depois da sua libertação, aos 69 anos de idade, na Rua Arrojado Lisboa, em Campina Grande, no ano de 1944.

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“A exaltação dos cantadores pelas façanhas de Antonio Silvino chegou ao delírio”, disse Câmara Cascudo, que para comprovar sua afirmação, apresenta uma prova:

“Cai uma banda do céu, / seca uma parte do mar,
o purgatório resfria, / vê-se o Diabo com medo,
o céu Deus manda trancar!”

“Admira todo o mundo / quando eu passo em um lugar.
O mato afasta os ramos, / deixa o vento de soprar,
se perfilam os passarinhos. / Os montes dizem aos caminhos:
- Deixai Silvino passar! ...”

 

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O “Jornal de Alagoas”, de Maceió, em 18 de setembro de 1938, publicou a seguinte crônica do notável escritor Graciliano Ramos, escrita depois de uma visita a Antonio Silvino no presídio:

“O automóvel deixou a cidade, atravessou arrabaldes de pequena importância, rodou aos solavancos numa estrada que marginam casas decrépitas, miúdas e descascadas. Moleques de cabelos de fogo, tranqüilidade, silêncio, tudo morno e brasileiro.

A agitação e o cosmopolitismo ficaram atrás sumiram-se na poeirada; agora parece que as coisas em redor se imobilizaram. O carro que nos transporta avança rápido, inutilmente. Há meia hora, tínhamos pressa contagiosa, mas isto desapareceu. Seria melhor subirmos a cavalo essa ladeira empinada e cheia de buracos, onde as rodas se enterram. Com dificuldade, lá nos vamos sacolejando, dobramos um cotovelo, entramos numa rua esquisita, a máquina cansada geme e pára.

Desço, bocejando. Para bem dizer, não sinto curiosidade. Cheguei até ali porque tive preguiça de resistir e porque me era agradável a companhia de dois amigos. Conversando com eles teria ido a um museu ou a qualquer outro lugar. O homem que desejam ver gastou anos correndo os sertões do Nordeste, numa horrível existência fecunda em histórias que povoaram a infância, com certeza enfeitadas pela imaginação dos cantadores. Depois uma emboscada e o cárcere provavelmente o desmantelaram. Talvez as marchas, as lutas, a fome, a sede, a fuga constante e as fadigas das travessias não o tenham abalado; mas a bóia da cadeia, as grades, a esteira suja na pedra, os mesmos gestos repetidos, as mesmas palavras largadas em horas certas, infinitas misérias e porcarias, inutilizaram o velho herói de encruzilhadas.

É quase certo irmos encontrar um indivíduo sombrio e cabisbaixo, embrutecido pela desgraça, indiferente às façanhas antigas, hoje atenuadas, esparsas. Está ali perto um fantasma triste e desmemoriado, mostrando vagos sinais de vida em movimentos de autômato. Penso assim, olhando o pátio duma habitação coletiva. Alguém foi anunciar a nossa visita. E, enquanto espero, vejo com desgosto à entrada uma enorme criatura que se achata, se derrama, gorda, paralítica, medonha. Essa figura monstruosa perturba-me, fixa-me a idéia de que ali vive outro ser doente, com deformações invisíveis, piores que as que agora me surgem. Desejo não ser recebido, receio tornar a ver um daqueles rostos pavorosos que há tempo me cercavam.

Recebem-nos. Dois minutos de espera. E estamos na presença de Antonio Silvino, um velho que me desnorteia, afugenta a imagem que eu havia criado, tipo convencional, símbolo idiota, caboclo ou mulato que, medido por um dos médicos encarregados de provar que os infelizes são degenerados, servisse bem: testa diminuta, dentes acavalados, cabelo pixaim, olhos parados e sem brilho, enfim um desses pobres-diabos que morrem no eito e não fazem grande falta, agüentam facão de soldado nas feiras das vilas e não se queixam.

Enganei-me, estupidamente. Antonio Silvino é um homem branco. Seria mais razoável que fosse um representante das raças inferiores, que, no Nordeste e em outros lugares, constituem a maioria da classe inferior. Mas é um branco, e se for examinado convenientemente, não dá para bandido. Não dá e não quer ser bandido. Por isso malquistou-se com alguns repórteres desastrados que o ofenderam.

Conosco é amável em demasia. A hospitalidade sertaneja revela-se em apertos de mãos, em abraços, num largo sorriso que lhe mostra dentes claros e sãos. Esse pé de mandacaru, transplantado para um subúrbio remoto do Rio, deita raízes na pedra do morro e esconde cuidadosamente seus espinhos. Antes de refletir, aperto a garra poderosa.

Antigamente, essa aproximação teria sido impossível: fui como outros, um sujeito muito besta e convencido de não sei que superioridade. Felizmente esqueci isso. Dou razão a Antonio Silvino, que não quer ser bandido, não porque os bandidos sejam muito piores que os outros homens, mas porque a palavra odioso se tornou um estigma.

Um dos meus companheiros é o escritor José Lins do Rego, que em menino conheceu o sertanejo temível no engenho do coronel José Paulino, hoje famoso por ter figurado em vários romances notáveis. José Lins em poucas palavras reata o conhecimento antigo, e Antonio Silvino logo se torna íntimo dele, conta histórias de cangaço, brigas, visitas que faz a outros personagens de romances.

Ultimamente, ao sair da prisão, parece que andou nas terras do velho Trombone e, com sisudez e prudência, espalhou conselhos úteis que resolveram certas dificuldades de família.

Conversando, narrando as suas aventuras numa linguagem pitoresca, ri alto, mexe-se, os olhos miúdos atiçam-se, uma bela cor de saúde tinge-lhe o rosto enérgico, vincado pelo sofrimento. Apesar das rugas, tem uma vivacidade de rapaz: um tiro no pulmão e vinte anos de cadeia não demoliram essa organização vigorosa. Os cabelos estão inteiramente brancos, mas a espinha não se curva, a voz não hesita. É o mais robusto dos que se acham na sala acanhada, em torno duma pequena mesa. Lembro-me dos seus antigos subordinados, viventes mesquinhos que ele submetia a uma disciplina rude.

Nas visitas ao velho José Paulino, ficavam no alpendre, encolhidos, silenciosos como colegiais tímidos, enquanto lá dentro o chefe conferenciava com o proprietário. Certamente esses pobres seres, anônimos, sem menção nas cantigas dos violeiros, desfizeram-se na poesia social, mas o seu comandante está rijo, palestrando com um neto do coronel, não muito diferente do que há trinta anos. Penso na distância enorme que os separava do patrão.

Antonio Silvino dirigiu-se com altivez, não ombreou com eles. Teve amigos poderosos, combateu longamente inimigos poderosos também. Os oficiais das tropas volantes eram seus adversários, o que teve sorte de feri-lo e vencê-lo foi, segundo ele afirma, um adversário leal. Na caatinga imensa, perseguido, queimado pela seca, Antonio Silvino teve sempre os modos dum grande senhor, muitas vezes mostrou-se generoso e caprichou em aparecer como uma espécie de cavaleiro andante, protetor dos pobres e das moças desencaminhadas.

Na prisão desviou-se com soberba dos criminosos vulgares e, não obstante ter vivido em Fernando de Noronha, nunca se misturou com eles. A convicção que manteve do próprio valor manifesta-se em todos os seus atos.

Não parece que o regime penitenciário seja bom para endireitar os condenados. Os guardas da correção sabem perfeitamente como é difícil um indivíduo conservar-se ali sem se degenerar. De alguma forma a degradação justifica a pena: o que volta do cárcere é um farrapo.

Antonio Silvino isolou-se, achou meio de não se contaminar. Foi um preso muito bem-comportado, tanto que lhe permitiram esta coisa estranha: alojar os filhos no cubículo onde vivia. Criou-os, dividiu com eles a ração magra, conseguiu, fabricando botões de punhos, obter os recursos necessários para educá-los. E educou-os de maneira espantosa. Na situação em que se achava seria natural que lhes incutisse idéias de vingança. Nada disso. Ensinou-lhes o respeito à lei, à lei que os afastava do mundo, cultivou neles sentimentos religiosos e patriotismo. Orgulha-se de os ter formado assim, de os ver hoje servidores fiéis do exército e da marinha.

O trabalho desse sertanejo deve ter sido enorme, mas a verdade é que ele não se transformou para realizá-lo. Homem de ordem indispôs-se com outros homens de ordem, fez tropelias no sertão, caiu numa cilada e penou vinte anos para lá das grades.
Continuou, porém, a ser o que era, apesar da cadeia: homem de ordem, membro da classe média, com todas as virtudes da classe média”.

 

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Antonio Silvino, o Rei dos Cangaceiros
(por Leandro Gomes de Barros)

povo me chama grande / E como de fato eu sou
Nunca governo me venceu / Nunca civil me ganhou
Atrás de minha existência / Não foi um só que cansou.

Já fazem 18 anos / Que não posso descansar
Tenho por profissão o crime / Lucro aquilo que tomar,
O governo às vezes dana-se / Porém que jeito há de dar?!

O governo diz que paga / Ao homem que me der fim,
Porém por todo dinheiro / Quem se atreve a vir a mim?
Não há um só que se atreva / A ganhar dinheiro assim.

Há homens na nossa terra / Mais ligeiros do que gato,
Porém conhece meu rifle / E sabe como eu me bato,
Puxa uma onça da furna, / Mas não me tira do mato.

Telegrafei ao governo / E ele lá recebeu,
Mandei-lhe dizer: doutor, / Cuide lá no que for seu,
A capital lhe pertence / Porém o estado é meu.

O padre José Paulino / Sabe o que ele agora fez?
Prendeu-me dois angaceiros, / Tinha outro preso fez três,
O governo precisou / Matou tudo de uma vez.

Porém deixe estar o padre, / Eu hei de lhe perguntar
Ele nunca cortou cana / Onde aprendeu a amarrar?
Os cangaceiros morreram / Mas ele tem que os pagar.

Depois ele não se queixe, / Dizendo que eu lhe fiz mal,
Eu chego na casa dele, / Levo-lhe até o missal,
Faço da batina dele / Três mochilas para sal.
 
Um dos cabras que mataram, / Valia três Ferrabrás
Eu não dava-o por cem papas, / Nem quinhentos cardeais
Não dava-o por dez mil padres, / Pois ele valia mais.

Mas mestre padre entendeu / Que ia acertadamente
Em pegar meus cangaceiros / E fazer deles presente,
Quem tiver pena que chore / Quem gostar fique contente.

Meus cangaceiros morreram / Mas ele morre também,
Eu queimando os pés aqui / Nem mesmo o diabo vem,
Eu não vou criar galinhas / Para dar capões a ninguém.

Tudo aqui já me conhece / Algum tolo inda peleja,
Eu sou bichão no governo / E sou trunfo na igreja.
Porque no lugar que passo / Todo mundo me festeja.

No norte tem quatro estados / À minha disposição,
Pernambuco e Paraíba / Dão-me toda distinção,
Rio-Grande e o Ceará / Me conhecem por patrão.

No Pilar da Paraíba / Eu fui juiz de direito,
No povoado — Sapé, / Fui intendente e prefeito,
E o pessoal dali / Ficou todo satisfeito.

Ali no entroncamento / Eu fui Vigário-Gral,
Em Santa Rita fui bispo, / Bem perto da capital,
Só não fui nada em Monteiro, / Devido a ser federal.

Porém tirando o Monteiro, / O resto mais todo é meu,
Aquilo eu faço de conta / Que foi meu pai que me deu
O governo mesmo diz: / Zele porque tudo é seu.

Na vila de Batalhão, / Eu servi de advogado,
Lá desmanchei um processo / Que estava bem enrascado,
Livrei três ou quatro presos / Sem responderem jurado.

Só não pude fazer nada / Foi na tal Santa Luzia.
Perdi lá uma eleição, / A cousa que eu não queria,
Mas o velho rifão diz: / Roma não se fez n’um dia.

O padre José Paulino / Pensa que angu é mingau
Entende que sapo é peixe / E barata é bacurau
Pegue com chove e não molha,/Depois não se meta em pau.

Eu já encontrei um padre, / Recomendado de papa,
Tinha o pescoço de um touro, / Bom cupim para uma tapa,
Fomos às unhas e dentes, / Foi ver aquela garapa.

Quando o rechochudo viu / Que tinha se desgraçado,
Porque meu facão é forte, / Meu baço é muito pesado,
Disse: vôte, miserável, / Abancou logo veado.

Eu gritei-lhe: padre-mestre, / Me ouça de confissão.
Ele respondeu-me: dane-se / Eu lhe deixo a maldição,
Em mim só tinha uma coroa, / Você fez outra a facão.

Eu inda o deixei correr / Por ele ser sacerdote,
Para cobra só faltava / Enroscar-se e dar o bote,
Aonde ele foi vigário, / Quatro levaram chicote.

Foi tanto qu’eu disse a ele: / Padre não seja atrevido
Tire a peneira dos olhos, / Veja que está iludido,
Eu lhe respeito a coroa, / Porém não o pé do ouvido.

O velho padre Custódio, / Usurário, interesseiro,
Amaldiçoava quem desse / Rancho a qualquer cangaceiro,
Enterrou uma fortuna, / E eu sonhei com o dinheiro!...

Então fui na casa dele, / Disse, padre eu quero entrar,
Sonhei com dinheiro aqui!... / E preciso o arrancar,
Quero levá-lo na frente / Para o senhor me ensinar.

O padre fez uma cara, / Que só um touro agastado,
Jurou por tudo que havia, / Não ter dinheiro enterrado,
Eu lhe disse, padre-mestre, / Eu cá também sou passado.

Lance mão do cavador, / E vamos ver logo os cobres,
Esse dinheiro enterrado / Está fazendo falta aos pobres,
Usemos de caridade / Que são sentimentos nobres.

Dez contos de réis em ouro / Achemos lá n’um surrão,
Três contos de réis em prata / Achou-se n’outro caixão,
Eu disse: padre não chore, / Isso é produto do chão.

O padre ficou chorando / Eu disse a ele afinal
Padre mestre este dinheiro / Podia lhe fazer mal
Quando criasse ferrugem / Lhe desgraçava o quintal.

Ajuntei todos os pobres / Que tinham necessidade
Troquei ouro por papel / Haja esmola em quantidade
Não ficou pobre com fome / Ali naquela cidade.

O padre José Paulino / Acha que estou descansado
Queria fazer presente / Ao governo do Estado
Deu três cangaceiros meus / Sem nada lhe ter custado.

Um desses ditos rapazes, / Estava até tuberculoso,
O segundo era um asmático, / O terceiro era um leproso,
O urubu que o comeu / Deve estar bem receioso.

Tive nos meus cangaceiros / Um prejuízo danado,
Primeiro foi Rio-Preto, / Segundo Pilão-Deitado,
Os homens mais destemidos / Que tinham me acompanhado.

Eu juro pelo meu rifle, / Que o Padre José Paulino
Cai sempre na ratoeira / E paga o grosso e o fino,
Não há de casar mais homem, / Nem batizar mais menino.

Eu sempre gostei de padre / Tenho agora desgostado
Padre querer intervir / Em negócio do Estado?!...
Viaja sem o missal, / Mas leva o rifle encostado.

Em vez de estudar o meio / Para nos aconselhar,
Só quer saber com acerto, / Armar rifle e atirar,
Lá onde ele ordenou-se, / Só lhe ensinaram a brigar.

Depois ele não se queixe, / Nem diga que sou malvado,
Ele nunca assentou praça / Como pode ser soldado?
Não tem razão de queixar-se, / Se tiver mau resultado.

Quatro estados reunidos / Tratam de me perseguir,
Julgam que não devo ter / O direito de existir,
Porém enquanto houver mato, / Eu posso me escapulir.

Eu ganhando essas serras, / Não temo alguém me pegar
Ainda sendo um que pegue, / Uma piaba no mar,
Um veado em mata virgem / E uma mosca no ar.

Eu já sei como se passa / Cinco dias sem comer,
Quatro noites sem dormir, / Um mês sem água beber,
Conheço as furnas onde durmo / Uma noite se chover.

Uma semana de fome, / Não me faz precipitar,
Mato cinco ou seis calangos / Boto no sol a secar,
Quatro ou cinco lagartixas, / Dão muito bem um jantar.

Eu passei mais de um mês / Numa montanha escondido,
Um rapaz meu companheiro / Foi pela onça comido,
Por essa também / Eu fui muito perseguido.

Era um lugar esquisito, / Nem passarinho cantava!...
Apenas à meia noite / Uma coruja piava,
Então uma grande onça, / De mim não se descuidava.

Havia muito mocós, / Eu não podia os matar,
Andava tropa na serra / Dia e noite a me caçar,
No estampido do tiro / Era fácil alguém me achar.

Passava-se uma semana / Que nada ali eu comia,
Eu matava algum calangro / Que por perto aparecia
Botava-os na pedra quente / Quando secava eu comia.

Quando apertava-me a sede / Pegava a croa de frade
Tirava o miolo dela / Chupava aquela umidade
Lá eu conheci o peso / Da mão da necessidade.

Um dia que a tropa andava / Na serra me procurando
Viram que um grande tigre, / Estava em frente os emboscando
Um dos oficiais disse: / Estamos nos arriscando.

E o Antonio Silvino / Não anda neste lugar,
Se ele andassem, aquela onça / Havia de se espantar,
Eu estava perto deles, / Ouvindo tudo falar.

Ali desceu toda a tropa, / Não demoraram um momento,
Um soldado que trazia / Um saco de mantimento,
Por minha felicidade / Deixou-o por esquecimento.

Eu estava dentro do mato, / Vi quando a tropa desceu
O tigre soltou um urro, / Que o tenente estremeceu
Até a borracha d’água / Uma das praças perdeu.

Quando eu vi que a tropa ia / Já n’uma grande lonjura,
Fui, apanhei a mochila, / Achei carne e rapadura,
Farinha queijo e café, / Aí chegou-me a fartura.

Achei a borracha d’água / Matei a sede que tinha,
A carne já estava assada, / Fiz um pirão de farinha
Enchi a barriga e disse: / Deus te dê fortuna, oncinha.

Porque a tua presença, / Fez toda a força ir embora,
O ronco que tu soltasses, / encheu-me a barriga agora,
Eu com a sede que estava, / Não durava meia hora.

E é agora o que faço, / Havendo perseguição,
Procuro uma gruta assim / E lá faço habitação,
Só levo lá, um, dous rifles / E o saco de munição.

Me mudo para uma furna / Que ninguém sabe onde é,
A furna tem meia légua / Marcando de vante a ré,
A onça chega na boca / Mas dentro não põe o pé.

A onça conhece a furna, / Desde a entrada à saída
Porém qual é essa fera / Que não tem amor à vida?
Uma onça parte assim, / Se vendo quase perdida!...

Quando eu deixar de existir / Ninguém fica em meu lugar,
Ainda que eu deixe filho, / Ele não pode ficar,
Porque a um pai como eu / Filho não pode puxar.

Pode ter muita coragem / Ser bem ligeiro e valente,
Mas vamos ver suporta / Passar três dias doente,
Com sede de estalar beiço / E fome de serrar dente.

Se não tiver natureza / De comer calango cru,
Passe um mês sem beber água / Chupando mandacaru,
Dormir em furna de pedra / Onde só veja tatu.

Não podendo fazer isso, / Nem pense em ser cangaceiro,
Que é como um cavalo magro / Quando cai no atoleiro,
Ou um boi estropiado / Perseguido do vaqueiro.

Há de ouvir como cachorro, / Ter faro como veado,
Ser mais sutil do que onça, / Maldoso e desconfiado,
Respeitar bem as famílias, / Comer com muito cuidado.

Andar em qualquer lugar / Como quem está no perigo,
Se for chefe de algum grupo / Ninguém dormirá consigo,
O próprio irmão que tiver, / O tenha como inimigo.

O cangaceiro sagaz / Não se confia em ninguém,
Não diz para onde vai, / Nem ao próprio pai se tem,
Se exercitar bem nas armas, / Pular muito e correr bem.

Em meu grupo tem entrado / Cabra de muita coragem,
Mas acha logo o perigo / E encontra a desvantagem
Foge do meio do caminho, / Não bota o meio da viagem.

Porque andar vinte léguas / Isso não é brincadeira,
E romper mato fechado, / Subir por pedra e ladeira,
Como eu já tenho feito, / Não é lá cousa maneira.

Pegar cobra como eu pego / Quando ela quer me morder,
Cascavel com sete palmos, / Só se Deus o proteger,
Mas eu pego quatro ou cinco / E solto-a, deixo-a viver.

Que é para ela saber, / Que só eu posso ser duro,
Eu já conheço o passado, / Nele ficarei seguro,
Penso depois no presente / Previno logo o futur


FONTES CONSULTADAS:

BARBOSA, Severino. Antônio Silvino o rifle de ouro: vida, combates, prisão e morte do mais famoso cangaceiro do sertão. Recife: CEPE, 1997.

FERNANDES, Raul. Antônio Silvino no RN. Natal: CLIMA, 1990.

MELO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurich: Stahli, 1993.

MOURA, Severino Rodrigues de. Antônio Silvino. Revista de História Municipal, Recife, n. 7, p.139-142, ago. 1997.

PORTO, Costa. Os tempos da República Velha. Recife: Fundarpe, 1986. (Coleção pernambucana 2ª fase, v. 26). Edição conjunta de Os tempos de Barbosa Lima, Os tempos de Rosa e Silva, Os tempos de Dantas Barreto  e Os tempos de Estácio Coimbra.

VAISENCHER, Semira Adler - Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco.


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